quinta-feira, 8 de agosto de 2019

A GRANDE EVASÃO (IV)

Parte I
Parte II
Parte III

Mal Soares, os seus devotos apoiantes e a banda filarmónica se foram embora, isto, naturalmente, apenas após nova passagem do hino nacional pelos altifalantes da cadeia, logo se pôs Sócrates a imaginar o que faria com este apoio de peso. Tal foi a excitação que já falava em voz alta: ‘Ah, sim, primeiro Secretário-Geral outra vez, depois Primeiro-Ministro de novo, sim, é isso, e depois…’, e ria muito, ‘esta não estão aqueles canálhes à espera’, e ria mais ainda, ‘… e depois candidato-me a Presidente da República!’ De súbito, ficou muito sério, e calou-se.

‘É capaz de ser difícil ser Primeiro-Ministro e Presidente da República ao mesmo tempo…’, consentiu por fim, e sentou-se no chão. Mas depois lembrou-se: ‘que nada!, posso simplesmente alterar a Constituição ainda como Primeiro-Ministro…’, o tom crescia progressivamente, ‘… para apenas depois assumir o cargo de Presidente, isto já com a Constituição nova!’ e, levantando-se, explodiu de alegria outra vez. ‘É isso’, gritava ele, ‘é isso mesmo!’, e José Sócrates já estava de novo tão excitado que teve que se amparar à primeira coisa que apanhou, azar o dele foi a corrente do autoclismo que, com o seu peso, partiu-se e o fez cair por cima da retrete. E, ao lembrar-se que estava ali preso, naquela horrível cadeia, de regresso ao seu Inferno particular, o candidato a Primeiro-Ministro-Presidente-da-República voltou a chorar.

Passados uns minutos, Sócrates acalmou-se dizendo a si próprio ‘tem calma, pá, tem calma, pá’, abanando a cabeça enquanto se bofeteava. Nesse momento, por entre a escuridão ouve-se um murmúrio. Sócrates calou-se de imediato. ‘Que será aquilo?’, perguntou-se. Uma voz, pareceu-lhe. A medo, lá perguntou: ‘está aí alguém?’. Ouviu-se uma espécie de restolhar metálico.

'Quem está aí?', exigiu Sócrates saber. 'Olhe que eu sou muito poderoso e chamo já o meu motorista!', acrescentou ele impondo respeito. O respigo metálico fez-se soar com maior intensidade. Seguiu-se uma voz: 'olá Zé, sou eu, o Carlos, estou aqui nas condutas de ventilação'. Foi aí que Sócrates compreendeu que os ruídos que ia ouvindo chegavam-lhe vindos do respirador que tinha a meio da sua cela, quase junto ao tecto. Correu para lá, chegando-se muito perto da grade metálica: 'Carlos...?', perguntou. 'Sim sou eu', responde-lhe uma voz ofegante agora bem audível.

'Ó Sr. Governador', começa Sócrates, 'como vai o senhor, está tudo bem lá pelo Banco de Portugal', pergunta na direcção da grade. 'Hum, o quê, qual governador?', estranha o homem escondido na ventilação. Sócrates franze o sobreolho: 'Não é o Carlos Costa, você aí?', pergunta intrepidamente. 'Quem? Costa...? Estás maluco, sou eu o Carlos', indigna-se o visitante. 'Mas qual Carlos, pá? Conheço muitos Carlos', justifica José Sócrates, começando a enumerar os múltiplos Carlos que conhecia: 'olha, por exemplo, o Cruz, aquele das botas botilde e que me ajudou com o euro 2004, depois há o Fino, aquele que era jornalista, e tens mais...', continuava ele imune à interrupções do Carlos que estava ali do outro lado da grade, 'tens o Queirós, o treinador, tens o... ó pá, são muitos, aliás não era o Cruz que estava preso, e tu estás aqui na prisão, não é verdade, cá para mim és o Cruz', decidiu-se por fim.

Foi nessa pausa que o outro finalmente se conseguiu fazer ouvir: 'Silva, pá, Santos Silva, o teu amigo de infância!', bradou ele. 'Hum, amigo de infância?', pergunta-se Sócrates. 'Não estou a ver, lamento. Cá para mim, aqui na cadeia, Carlos só estou a ver um, o Cruz e mais nenhum!', declarou ele. Santos Silva, triste, retorquiu: 'então, pá, ó Zé, pá, não te lembras de mim?', lamentou-se ele entre duas fungadelas. Sócrates continuou na sua. 'Não sei não, Carlos na prisão só vejo um, você não me diz nada, cá para mim isto é uma cilada', disse Sócrates desconfiado.

'Então, pá, ó Zé, pá, sou eu o Carlos, até te emprestei umas massas, não te lembras?', atira ele. E o outro responde logo muito afoito: 'massas, essa agora, eu não devo nada a ninguém, a minha Mãe, que poupou muito a esfregar escadas em Cascais como doméstica, é muito rica e empresta-me o dinheirinho para viver, não devo nada a ninguém que eu sou um homem sério!', vocifera Sócrates enquanto gesticulava muito para a grade que lhe falava.

O outro, o da ventilação e que dizia chamar-se Carlos, insistiu. 'Sim, sim, és muito rico e sério, eu sei, mas fui eu que te emprestei o dinheiro para o apartamento de Paris, e as obras, e o carro, e as férias com a Nanda lá no Algarve, e os jantares, e aquele fato muito jeitoso e que te assentava muito bem, assim meio cintado e com dois botões, aquele que compraste na Rodeo Drive quando puseram o teu nome no vidro da loja, lembras-te?', perguntou afectuosamente.

Sócrates não se convencia mas estava impressionado com os conhecimentos do outro. De repente, lembrou-se: 'ah, Carlos... sim, sim... tu és aquele moço lá das fotocópias, não é?', pergunta ele. O Carlos das fotocópias encantou-se: 'sim! Sim! Esse mesmo! Ah, que alívio Zé, estava a ver que não te lembravas de mim...', e quedou-se na conduta com a cabeça baixada nos braços estendidos profundamente agradecido pelo reconhecimento.

'Sim, sim, estou a ver perfeitamente quem és, não te preocupes', assegurou Sócrates. 'Então e que fazes aí na conduta?', perguntou ele curioso. 'Santos Silva responde: 'ora, então, trago-te aqui umas fotocópias que pensei que pudesses precisar, claro, né?'. Sócrates replica: 'Ora, muito obrigado, mas não preciso. Aqui não há necessidades de fotocópias. Adeusinho então', e vai sentar-se no seu canto já habitual.

Carlos ficou sorumbático. 'Não há nada em que te possa ajudar?', insistiu ele em voz mais baixa, taciturno. Sócrates matutou sobre a possibilidade. Por fim, respondeu: 'a única coisa que me dava jeito era sair daqui para preparar o meu regresso político', atirou. 'Mas não vejo como me possas ajudar nisso', lamentou ele. Carlos agarrou logo o osso: 'no que eu puder ajudar, conta comigo!'.

Sócrates reflectiu sobre o assunto. De repente, teve uma ideia: 'Ah, já sei!', exclamou, 'se tu conseguiste chegar até aqui pela conduta de ventilação então, se calhar, eu também posso sair daqui por aí!', alvitrou. Carlos maravilhou-se com o rasgo do outro: 'ah, que portento de ideia! É que é bem capaz de ser verdade: se eu cheguei até aqui por aqui então tu podes ir por aqui para ali!', e apontou com as mão esquerda para a direcção que lhe ficava nas costas.

José Sócrates, frio e calculista, quis garantir o génio do seu brilhantismo: 'Espera, temos que pensar em todos os prós e os contras desta complicadíssima operação', disse ele pondo água na fervura entusiástica do outro. 'Ora', recapitulou ele, 'se tu chegaste até aqui por aí então eu posso fugir daqui', e pausou, 'por aí!', concluiu enquanto, com o entusiasmo de Arquimedes aquando do seu momento 'eureka', apontava na direcção da grade.

Santos Silva, embevecido, deteve-se em transe: que privilégio ver o génio de Sócrates em acção. No entanto, ocorreu-lhe um pequeno entrave: 'Ó Zé...', tentou alertar ele, mas sem sucesso, Sócrates pulava na cela com a possibilidade de fuga que a sua rasgada visão tinha conseguido vislumbrar na penumbra daquela cela húmida e fria. 'Zé!', gritou Carlos mais alto ainda, conseguindo assim a atenção do político.

'Que é, pá', enxofrou-se Sócrates pela interrupção. Santos Silva, desculpando-se, esclarece: 'ó Zé, desculpa lá, pá, eu sei que... enfim... é uma grande ideia, mas... eh... e como é que... ehh...', engasgou-se ele. Sócrates, impaciente, berrou-lhe na direcção do respirador: 'desembucha logo, pá'. 'Ó Zé', continuou o outro a medo, 'então e a grade', perguntou por fim.

'Como assim "grade", que queres tu dizer com isso', perguntou o genial político prisioneiro. 'Ora', responde o outro ainda meio a medo, 'como é que passas pela grade? Os espaços são muito fininhos!', explicou ele. Sócrates empalideceu: 'arghhhh, tem sempre que haver um problema!', e, gesticulando com os punhos no ar, começou a gritar: 'merde, pute, canalhe, sempre os meus inimigos a conspirarem contra mim, agora puseram aí essa grade, como é que eu saio daqui, porra?'. E Sócrates começou a chorar de novo.

Santos Silva angustiou-se perante o desalento do amigo. Resolveu contribuir com uma ideia: 'se calhar', começou ele, ' se tu puxares a grade e eu ao mesmo tempo empurrar daqui... enfim... talvez ela saia...', disse ele a medo. O outro, ainda de lágrimas na cara, irritou-se perante o absurdo da estupidez do seu interlocutor. 'Sua besta', gritou Sócrates, 'que ideia mais estúpida, és uma besta, uma besta', vociferou ele ferozmente e, levantando-se num ápice, com a raiva, começou aos murros na grade.

Carlos, assustado e arrependido do seu próprio dislate, instintivamente, protegeu-se forçando com as mãos o seu lado da grade contra os murros de Sócrates. Para espanto dos dois, entre os murros do prisioneiro e a força do ajudante, inesperadamente, a grade soltou-se e foi cair em cima dos pés de Sócrates com estrondo.

'Ai que me mataste', gritou Sócrates agarrando-se de imediato aos pés descalços que latejavam de dor. 'Sua besta, sua cavalgadura de merda, sua mula, magoaste-me, ó alimária estúpida e idiota', grita Sócrates na direcção de Santos Silva que, agora, sem a protecção da grade se encolhia perante a fúria do seu amigo.

'Desculpa, desculpa', repetia Carlos Santos Silva ininterruptamente enquanto o outro gritava e esperneava. Passados uns minutos, finalmente, Sócrates calou-se. Aproveitando o silêncio, Carlos, em surdina, arriscou: 'Zé', sussurrou ele, 'agora que a grade caiu, se calhar, podes sair por aqui', e acanhou-se ainda mais. Sócrates, lá em baixo, reagiu com a rapidez dos génios: 'Ah que grande ideia que eu tive!', gritou ele. 'Agora que a grade caiu eu posso sair por aí!', e começou, apesar da dor, a rir com a perpspectiva de, após tanto plano e sacrifício, tanta inspiração e inteligência, conseguir por fim ver a luz no final de um túnel que o levaria à merecida libertação.

'Sai daí', ordenou Sócrates ao outro e, agarrando-o pelos colarinhos, atirou-o para o chão da cela. Depois, pondo-se em cima dele, içou-se a si próprio para dentro da conduta. Veloz como sempre soube ser, Sócrates rastejava agora para a liberdade. Ainda teve tempo para ouvir, bem lá ao fundo, a voz de Santos Silva que, gordo e sem alguém que o ajudasse, não conseguindo içar-se para o respiradouro, se resignava à sua nova condição de prisioneiro: 'obrigado Zé, meu querido amigo, se precisares de mais alguma coisa avisa!', gritou ele esperançado que o fugitivo ainda o ouvisse.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

UMA CIMEIRA CONSPIRATIVA (III)

Parte I
Parte II 

‘Então rapaz, como vai isso?’, perguntou o excelso Soares num tom paternal e afável enquanto mirava com nojo aquela cela exígua e suja. Sócrates empertigou-se e, levantando a cabeça, retorquiu com a voz mais forte que conseguiu: ‘tudo porreiro, pá’. Ao mesmo tempo, pensava: ‘porra, não posso dar parte fraca, o ataque é a única estratégia!’.

‘Ainda bem, filho, ainda bem, pá’, recomeçou Soares, espreitando na direcção da sanita e não escondendo a surpresa de lá ver enfiados dois sapatos. Em seguida, olhou para os pés de Sócrates e, vendo-os descalços, comentou: ‘está calor, hein?’. Sócrates respondeu de imediato: ‘bastante, bastante, pá, não se aguenta’ e, para comprovar que tinha calor, começou a desabotoar a camisa. ‘Ufa, isto é uma choldra que não se pode, estava bem era em Paris’, acrescentou, abanando as golas. O outro, ao ouvir a referência à cidade luz, anuindo com a cabeça, rasgou-se em sorrisos. ‘Ahhhhh, Párris, Páaaarris, pá, que saudades!’, exclamou o velho nonagenário. ‘Sabes Sócrates, pá,’, continuou Soares, ‘foi lá que fiz os melhores amigos da minha vida, pá: o Mitterrand, foi o maior deles todos, que saudades do mon ami Mitterrand…’, e a voz sumiu-se-lhe num assomo de nostalgia, fechando os olhos e relembrando os tempos felizes da sua juventude.

Sócrates respeitou o silêncio régio e, aguardando uns segundos para que Mário Soares apreciasse o momento, resolveu abotoar a camisa de novo, estava com frio. Esperou pacientemente, no entanto, passados trinta segundos, Soares adormeceu de pé.

Sócrates admirou-se com a magnífica capacidade atlética demonstrada pelo nonagenário que lhe permitia dormir de pé. ‘Magnânimo!’, pensou ele, ‘um portento!’, admirou-se ainda mais. ‘Quando for velho espero conseguir fazer a mesma coisa!’, desejou. E quedou-se enfeitiçado pela beleza rara que compunha o espectáculo esplêndido do velho estadista vivendo o sono dos justos mesmo à sua frente. 'Nem paguei bilhete!’, encantou-se Sócrates.

No entanto, passados dois minutos, aborreceu-se. ‘Então este paspalho vem para aqui dormir na minha cela a fazer-me perder o meu importante tempo?’, irritou-se ele. Aproximou-se do monumento vivo que dormitava levantado na sua frente e, chegando-se bem perto: ‘ó pá, olha lá que não tenho dia todo!’, gritou-lhe Sócrates às orelhas. Soares, num ápice, recomeçou como se não fosse nada: ‘era o maior, sabes Sócrates, pá, Mitterrand era um tipo esperto, pá, cheio de truques’, e riu-se. ‘Aliás’, continuou Soares, ‘tantos truques tinha quantos filhos espalhados pelo mundo inteiro’ e, dando cotoveladas no outro, riu-se mais ainda.

Mas Sócrates não se riu, mesmo que tivesse apreciado a excelente piada. Humor daquele gabarito, tal como ele estava farto de dizer, é que era. Mas, agora, estava farto. Não estava com humor para piadolas, por melhores que fossem nem por mais classe que tivessem. ‘Vá lá, pá, diz-me lá ao que vens’, inquiriu ele com rispidez. Soares surpreendeu-se com o tom agressivo e olhou-o de soslaio. Mas, magnânimo, com a destreza emocional que os anos lhe conferiram, fintou o desaforo e resolveu passar a assuntos sérios. ‘Olha lá, pá’, começou ele, ‘venho aqui para pedir a tua ajuda’. E, em seguida, com ar hesitante, calou-se. Sócrates, apercebendo-se do impasse, com medo que o outro adormecesse de novo, instou-o: ‘anda lá, anda lá, pá’, e Soares, abriu o jogo.

‘É o PS, pá’, disse, ‘está em maus lençóis, o nosso querido partido está há demasiado tempo na oposição!’, e choramingou. ‘Ai, Sócrates, pá, que saudadinhas tenho eu de quando tu eras Primeiro-Ministro e a gente mandava nisto tudo, não faltava o dinheirinho, lembras-te? Até pus uma tartaruga lá no jardim da fundação para eu passear nela!’. O outro assentiu. ‘Nem imaginas, pá’, respondeu Sócrates, ‘é uma desgraça, pá, olha para mim aqui…’, concluiu ele percorrendo, em jeito de apresentação, o espaço da sua cela com o braço direito. E, postados nos braços um do outro, choraram muito os dois.

Depois de uns minutos de fraterna igualdade entre camaradas, acalmaram-se. Enquanto Soares puxava de um lenço de seda de Macau para enxugar as lágrimas, o outro quebrou o silêncio: 'mas', começou Sócrates, ‘o que está afinal de errado com o nosso PS?’, inquiriu. ‘Ó pá, sabes lá tu, pá’, respondeu o outro, ‘o cabrão do Costa, pá, que não descola nas sondagens. Pelo andar da carruagem…’, e hesitou, ‘… o…’, e baixando muito a voz, quase num murmúrio, ‘Passos Coelho ainda é capaz de…’, benzeu-se, ‘… ganhar as eleições em 2015’. E Soares chorou convulsivamente outra vez.

O cérebro de José Sócrates trabalhava agora a mil à hora: ‘O Passos ganhar não pode ser, se ele ganhar como é que eu ponho a mão no poder, não dá! Mesmo sendo Presidente da República preciso de um governo PS, estes gajos não me davam abébia. Não. O canálhe do Passos não pode ganhar!’ e, enquanto o outro limpava as lágrimas, Sócrates permaneceu apreensivamente calado.

Mário Soares olhava-o agora com afectuosa curiosidade. E ali ficaram os dois em silêncio por uns breves instantes, apenas interrompidos pelo momento em que Mário Soares, tendo adormecido, soltou um sonoro ronco. ‘Acorda, pá!’, gritou-lhe o outro aos ouvidos. Estremunhado, Soares disse em surdina: ‘temos que o tirar de lá!’. ‘E…’, acrescentou ele ainda em registo de maior cumplicidade, ‘tens que ser tu, Sócrates, a avançar’. O outro quase que o beijava. ‘Que maravilha, o apoio de Mário Soares para ser candidato outra vez ao PS!’, pensou ele. E, felizes pelo acerto conspirativo, logo se puseram os dois a congeminar como fariam a coisa.

Às tantas Mário Soares, perante as dificuldades que os dois antecipavam, deixou escapar um lamento: 'Ai Sócrates, foi por tão pouco que não conseguimos dar cabo do Passos o ano passado' e, depois de uma pausa, repetiu: 'por tão pouco, pá'. Sócrates interrogou-se sobre o que o chefe histórico do PS quereria dizer. O outro, como que entrevendo a perplexidade do seu interlocutor, relembrou: 'então quando o ano passado ligámos ao Salgado, pá, não te lembras?' Mas não, Sócrates não se lembrava.

Soares admirou-se, afinal nem ele tinha tão fraca memória. 'Como não te lembras, pá?', insistiu. 'Então não combinámos com o Salgado quando ele veio ter connosco por causa do banco... enfim... não ter dinheiro, não era?... lembras-te?', e calou-se como que esperando que Sócrates assentisse. Ora, o prisioneiro, que não se lembrava sequer de ter chegado àquela cela, logo tratou de concordar: 'Claro, pá, claro que sim', concordou ele titubeante. E, depois, a tentar sacar nabos da púcara, incitou: 'o gajo ligou e tu disseste-lhe que...', calando-se a ver o que o isco trazia de volta.

Soares mordeu: 'então, pá, combinámos que se o gajo conseguisse mandar o Passos abaixo que lhe dávamos o empréstimo quando chegássemos ao governo', explicou. 'Isso, isso', concordou Sócrates. E continuou a incitar o velho socialista a largar mais informação: 'e o gajo ia mandar o outro abaixo...', e pausou-se como que por cima de um precipício esperando que Soares lhe lançasse a corda. Este, estranhando, franziu o sobreolho: 'então mas como é que tu não te lembras disto?', perguntou desconfiado.

Sócrates desvalorizou: 'ó pá, então, a ideia foi tua, eu agora tenho estado com a cabeça mais nos meus estudos, pá, sabes como é que é, tu, um intelectual de craveira internacional, pá, um reputado filósofo, pá, um insigne pensador sobre a sociedade e o mundo, pá, tu, Soares, pá', continuava Sócrates para disfarçar, 'tu, um ícone, uma estátua viva', e o outro deliciava-se, 'um exemplo', continuava Sócrates, 'um farol de liberdade e de ética republicana para o mundo inteiro, desde a Venezuela a Angola, tu, pá,' e entusiasmava-se, 'o grande Soares, ó grande, grande, grande', continuava Sócrates subindo a cada palavra o tom, 'grande, grande, enorme, enormíssimo, o vulto maior da superior intelectualidade portuguesa, o pai...' e acrescentou, 'o pai e a mãe também, assim a modos que hermafrodita, porque foste só tu mesmo o único, só tu, sozinho, pá, o grande e excepcional criador da democracia portuguesa, o fundador da terceira república...', já gritava Sócrates, 'Mário Soares, o Grande, o Maior, o meu herói!' E, em lágrimas, Sócrates pôs-se de joelhos e beijou afectuosamente as mãos do seu visitante.

'Pronto, pronto', acalmou Soares puxando Sócrates para que este se levantasse. E, assoberbado com a torrente elogiosa de Sócrates, esqueceu-se da sua desconfiança. Já Sócrates, apesar de desmemoriado, mas ainda esperto, aproveitou a oportunidade: 'mas, mestre, pá, conta-me lá a conversa, o savoi faire com que fizeste a coisa... só para eu saborear as memórias, que é o que me resta', lamuriou-se. 'O que me resta são as memórias e os meus livros de filosofia', disse ele, apontando na direcção dos rolos de papel higiénico.

Soares não se rogou: 'está bem, está bem', anuiu, 'então, como te lembras, pá, o que eu lhe disse foi que ele tinha que ir falar com o outro...' Interrompeu logo Sócrates: 'qual outro', perguntou ele a talhe de foice. 'O outro', responde-lhe Soares. 'Mas qual outro', insiste Sócrates. 'Ora, o outro, pá, o...', engasga-se Soares. E Sócrates arrisca: 'o Baldaia?' 'Quem?', admira-se Soares, 'Baldraia...? Que nada, que nada, o outro, pá, do governo do Passos...' Sócrates estava em pulgas: 'o Gaspar?' Não. 'A Albuquerque?' Não. 'O tipo que queria que o tratassem por tu?' Não, 'o outro', respondia Soares. Sócrates exasperou-se: 'mas qual outro, que outro, quem é o raio do outro', berrou ele aos ouvidos de Soares. Este, assustado, respondeu: 'o outro, pá'. Ao que Sócrates, lembrando-se da mítica cena do filme Pulp Fiction, já gritava 'diz outro outra vez! Diz outro outra vez!'

Em pânico, Soares lá se lembra de mais um pormenor: 'o ou... eh... aquele, pá, o do irrevogável'. Descompressão generalizada: 'Ahhhhhh, esse', aliviou-se Sócrates. 'Sim, sim', agarrou Soares igualmente aliviado, 'aliás, como tu sabes, pá, o Salgado foi lá falar com o homem e... prontes... combinaram aquilo, não é verdade?', disse ele em tom cada vez mais baixo. 'Pois, pois, claro que sim', concordou Sócrates. 'Foi um golpe quase perfeito', acrescentou Soares. 'Canálhe do Passos que não se demitiu', lamentou Sócrates. Soares anuiu: 'foi por pouco. E o outro... eh... o Salgado' emendou ele logo, 'foi ao charco', acrescentou pesaroso. Baixaram ambos a cabeça. Unidos na desgraça, os dois socialistas esqueceram o confronto e abraçaram-se de novo em lágrimas.

domingo, 4 de agosto de 2019

UM ANIMAL FEROZ ENJAULADO (II)

 Parte 1

José Sócrates estava, para dizer o mínimo, assoberbado com o que lhe tinha acontecido. Encostado a um canto da sua pequena cela, imerso na escuridão espessa de humidade e apenas com a companhia de um cheiro fétido exalado daquela retrete, o líder político encolhia-se assustado. Afinal de contas, ainda há uns poucos momentos corria livremente por Paris para, em breves segundos, ver-se involuntariamente atirado para aquela cela, aparentemente após uma tentativa frustrada de mastigação de um dos seus próprios sapatos, precisamente aquele que jazia ali dentro daquela suja sanita e que nem sequer era de marca.

Para Sócrates, até aquele triste momento, a vida nunca tinha tido muito mistério. Um prático, engenheiro de formação e arquitecto de génio e paixão, sempre fora fácil ver a vida tal como ela é e, naturalmente, tomar partido disso. Fizera-se licenciado, mestrado, homem rico, bem vestido, poderoso, à frente dos destinos de um país inteiro e, por isso, habituado a tudo o que há de bom e melhor à distância sempre curta de um singelo estalar de dedos. E, agora, a desgraça. A queda. Nada daquilo poderia ser verdade. Uma conspiração dos seus inimigos, certamente. Um devaneio mental fruto de algum desequilíbrio químico, por ventura. Agora, verdade, verdade?, isso não. Gemeu.

‘Mas’, perguntava-se ele repetidamente, ‘como foi que isto aconteceu?’. E abanava a cabeça, encolhendo-a ainda mais por entre os joelhos enquanto se deixava encobrir na humidade escorrida pela parede áspera de cimento. ‘Que faço eu aqui?’, continuava na sua natural confusão. Começou a abanar-se para a frente e para trás. E assim ficou durante longos minutos: abanando-se, como que procurando conforto no balanço reminiscente do colo maternal. No entanto, infelizmente e para mal dos seus pecados, o aconchego do útero materno, o zénite da segurança e do amparo humano, apenas existia na sua esperançada, e desmedida, imaginação. Agora, vendo esse mesmo útero materno, a fonte suprema de refúgio e de protecção, subitamente transformado naquela caverna sem fundo, apenas amparado pelas sombras e pela solidão, José Sócrates chorou.

Repentinamente, as luzes do corredor iluminaram-se. Começou a ouvir-se um grande estardalhaço. Como que causado por um bastão a percorrer de forma contínua as barras das diversas grades que compunham aquela ala da prisão, um ruído metálico e perturbante assolava agora as paredes de cimento, ecoando numa distância progressivamente encurtada. À medida que o barulho aumentava de intensidade, indicando a aproximação do causador de tal perturbação sonora, Sócrates ia saindo da sua comoção letárgica. Primeiro, concentrou-se no som, parando de abanar-se. Depois, levantou a cabeça e virou os ouvidos em direcção à porta da sua cela pondo-se à escuta. Finalmente, levantou-se e, curioso, foi colocar-se de pé agarrando as grades, com a cabeça a tentar passar o mais possível pelo meio delas para tentar ver, e ouvir, o que se passava. Não conseguiu. Mas o ruído sibilante do bastão continuava a aproximar-se! E José Sócrates, o grande líder político, assustou-se e fugiu para a segurança do fundo húmido e mal-cheiroso da sua cela.

Quando o guarda chegou à cela do prisioneiro 44, estancou o passo, bateu os pés numa pancada de solas perfeita e, com o poder de tamanho movimento, fez reinar o silêncio profundo por todo o edifício. José Sócrates, do fundo da sua cela hesitava entre a curiosidade e o medo. ‘44!’, gritou o guarda, ao que Sócrates respondeu encolhendo-se mais no seu canto tentando passar despercebido. '44', repetiu o guarda numa voz rouca, mas acutilante. Desta feita, apenas com um olho aberto, Sócrates, o guerreiro, gemeu. A humildade conferida pelo gemido pareceu satisfazer o guarda que numa voz mais baixa, ainda mais rouca, explicou de forma curta: ‘tens uma visita dentro de cinco minutos’. E afastou-se. Aí, Sócrates impeliu-se à acção: levantou-se num ápice e correu em direcção à porta gradeada. 'Ó... ó... ó senhor Guarda', gaguejou ele, 'quem é... quem é que vem cá...?', indagou a medo. O guarda parou e, sem se voltar, explicou: ‘É o Rei, pá’, respondeu-lhe secamente. E durante os minutos seguintes Sócrates concentrou-se em matutar sobre quem seria a majestade que o viria visitar.

Passados cinco minutos, ligou-se o altifalante da cadeia e uma melodia metálica e ferrugenta começou a ecoar por todo o edifício. Era o hino nacional. José Sócrates, de imediato, levantou-se e colocou a mão no peito e, durante aqueles oitenta segundos, cantando em plenos pulmões, Sócrates recuperou energias e foi de novo o Primeiro-Ministro de Portugal!

Assim que o hino terminou, ouviu-se o estrondo de um grande portão a abrir, imediatamente seguido do alvoroço de dezenas de pessoas que numa grande algazarra gritavam e cantavam ‘urras’ e ‘vivas’ à personagem que, na frente deles, em jeito de líder, avançava de forma sublime pelo corredor central da cadeia que, agora, com a solenidade que se pressentia na atmosfera pesada, mais parecia a nave central de uma catedral. Atrás da multidão, vinha uma banda. Rufavam tambores, sopravam-se trombones e trompetas e, pelos papelinhos multicolores que começavam a esvoaçar pela cela de José Sócrates adentro, percebia-se que os confettis explodiam do tecto. Era um arrebatamento de cor, uma explosão de música, um tumulto de alegria!, aquilo que, com o vagar próprio do elemento majestático, se dirigia tranquilamente na direcção da cela de José Sócrates.

Perante tamanha agitação, o prisioneiro 44, mesmo que desorientado e sem perceber muito bem o que ali se estava a passar, ou sequer quem seria tão prestigiosa e poderosa personagem, preocupou-se em ajeitar a sua camisa 44 e sacudir o pó das suas calças 44. Aí, apercebeu-se que tinha calçado apenas um sapato e que o outro se encontrava dentro da retrete. 'Merde', exclamou em pânico esticando-se logo para ir buscá-lo. Infelizmente, a visão daquele sujo recipiente, conjugada com a chegada iminente de tão eminente personagem, fê-lo perceber que tamanho desiderato seria impensável, estancando-se, imóvel como uma estátua. O animal feroz tinha dado agora lugar a um animal estático, como que um veado subitamente encadeado pelos faróis de um automóvel numa estrada escura.

Ao sentir que a multidão exultante se aproximava mais, Sócrates abanou a cabeça com vigor e tirou-se corajosamente do seu momento letárgico. ‘Não posso ir ver o Rei com um sapato a cheirar a merda’, pensou ele. No ápice seguinte, lembrou-se de uma solução: se não posso ter dois, não tenho nenhum, e rapidamente se agachou e descalçou o seu sapato direito, atirando-o para o fundo da cela. Por azar, o sapato, que tinha sola de borracha, tal foi a força com que foi atirado, fez ricochete no chão e, num salto imprevisto, como que impelido por uma mola, acabou por ir cair com um splash pastosamente seco dentro da retrete também.

‘Arghh’, rugiu o presidiário 44, ‘Pute!’, berrou ele brandindo os braços para o tecto. Mas, mesmo colérico como um animal enjaulado, Sócrates teve que controlar-se, engolir a raiva entretanto espumada e, mesmo tremendo num misto de medo e fúria, virar-se de frente para a grade. O Rei estava a chegar.

A parada continuava a tocar, os ‘vivas’ e os ‘urras’ continuavam a ecoar, mas tudo isso chegou ao fim quando uma sombra se assomou daquela porta gradeada. Já habituado à escuridão, José Sócrates não conseguia definir bem quem era aquela magnífica personagem que ali estava do lado de fora a olhar para dentro da cela. Confrontado com a luz exuberante, José Sócrates apenas conseguia distinguir os reflexos resplandecentes e magníficos dos brilhantes que o Rei trazia cosidos nas vestes. Estas, grandiosas e plenas de magnificência, tão sedosas como apenas os mais finos e opulentos tecidos índicos permitiam ser, ofuscavam agora o andrajoso presidiário com o seu sumptuoso fausto.

Sócrates esfregou os olhos para tentar ver melhor. E, nesse momento, quando a ira tinha dado completo lugar à admiração e à curiosidade, a porta abriu-se e a veneranda figura, firmemente acompanhada por uma infinitude de raios cintilantes, finalmente entrou. Como um poderoso raio estelar, o Rei, afugentando as trevas com o seu mero existir, trouxe consigo uma brusca iluminação do esconso espaço a que José Sócrates se via confinado. Ao fim de uns breves segundos de habituação, naquilo que pareceu uma eternidade, o prisioneiro conseguiu finalmente descortinar quem era o seu magnífico e esplendoroso visitante. Era, de facto, a grandiosidade transfigurada em pessoa. Era ele próprio, em carne e osso: Mário Soares.

sábado, 3 de agosto de 2019

A SAGA DO HERÓI GUERREIRO (I)

Estávamos em Outubro de 2014 e José Sócrates corria, como habitualmente fazia todos os dias, o seu jogging matinal pelo 16ème arrondissement de Paris. Após passar o Trocadéro, com a Torre Eiffel em pano de fundo, dirigia-se agora para o Hotel des Invalides, local que, para além de significar o ponto de inversão de marcha, e o consequente regresso a casa, permitia uma silenciosa homenagem a Napoleão Bonaparte, ali enterrado e um guia espiritual para o agora também exilado líder político português. Postando a sua mão direita sobre o ventre, naquele momento, e como em todos os outros em outras manhãs ali passadas, Sócrates ainda se imaginou capaz do regresso triunfal.

Era um dia chuvoso de Outono e Paris estava estranhamente quieta. Não circulavam carros, os passeios permaneciam vazios de pessoas. Curiosamente, apenas se tinha cruzado com três Vespas conduzidas por motociclistas vestidos de azul riscado, com boinas encarnadas e carregando sacos preenchidos com enormes, e cheirosas, baguettes amareladas. José Sócrates também corria com uma boina encarnada e um fato de treino branco com riscas azuis. ‘Quando em Paris, sê parisiense’, sempre dissera. ‘Mas, com estilo’, acrescentava com aquele sorriso trocista enquanto mostrava a etiqueta Boss cosida pelo motorista no lado de fora da sua boina. ‘É a marca que melhor me assenta’, dizia Sócrates aos seus amigos e correligionários: ‘Afinal, o Boss aqui sou eu!’. E ria muito. Os outros riam mais ainda.

Naquele dia, Sócrates e a sua boina encarnada corriam com invulgar rapidez. Parecia que voava sobre o empedrado centenário. Nos momentos em que corria, José Sócrates amava particularmente a adrenalina que, acelerando o sangue bombeado pelas veias para o seu cérebro, soltava-lhe livremente a imaginação. A partir daí, sonhava com os feitos enormes que ainda haveria de alcançar. Naquela manhã, pensava sobre as eleições presidenciais de 2015. E delineava o seu plano perfeito para conseguir unir a esquerda toda em redor do seu nome e bater a direita à segunda volta. Aí seria Presidente da República! Mas, contrariamente ao que seria uma honra para o comum dos mortais, para José Sócrates ser Presidente da República não significava nada mais além do que um primeiro passo rumo ao seu verdadeiro e último objectivo: a reconquista do poder perdido em 2011 para a direita. Nesse momento, ao lembrar-se dos resultados eleitorais de 2011, Sócrates tropeçou e quase caiu. ‘Canalhas!’, gritou em voz alta. Depois, ainda parado e semi-ofegante, lembrou-se que estava em Paris e, de punho no ar, emendou mais alto: ‘Canálhes!’. E, ajeitando a boina, recomeçou a correr.

Rapidamente, à medida que a adrenalina voltava a exaltar o seu espírito conquistador, José Sócrates recomeçou a magicar o que poderia fazer quando fosse Presidente da República. ‘Primeiro’, pensou ele, ‘vou fazer o impensável e candidatar-me a Secretário-Geral do PS’, e começou a rir-se. ‘Essa é que ninguém vai estar à espera!’, acrescentou, mas agora em voz alta. ‘Depois’, continuou ele em pensamento murmurado, ‘vou distribuir cargos e mais cargos até conseguir controlar os grandes partidos, ah! vou comprá-los a todos! e…’, quase se engasgando numa risada que lhe aflorava a garganta, ‘… aí é que vai ser: vou mudar a Constituição para um regime presidencialista!’, rindo-se mais ainda. ‘Melhor’, continuou ele, ‘um regime presidencialista onde o Presidente tenha mandatos ilimitados’. E, aí, o riso transformou-se em gargalhada, uma gargalhada crescente até que, em voz muito alta, já em risota escarcalhada, teve que parar de correr para, agarrando-se a um candeeiro de rua, poder aliviar-se do riso à vontade.

José Sócrates esgargalhava-se agora ao mesmo tempo que, agarrando a barriga, exclamava: ‘vou dar cabo daqueles canálhes todos!’, e, ali sozinho, numa Paris misteriosamente abandonada, berrava mais ainda, cada vez mais excitado pelo eco cavernoso que o túnel pedonal onde se encontrava dava ao seu devaneio. Ao fim de uns minutos, uns metros mais à frente, já depois de se ter sentado no passeio por não aguentar tanto rir, Sócrates levantou-se e, pegando na boina encarnada que entretanto havia caído no chão, recompôs-se, arrotou, e retomou a corrida.

Entretanto, começou a chover. A José Sócrates irritava-lhe a chuva. Por essa razão, o riso deu lugar ao agastamento. Enquanto corria, já em passo muito estugado, José Sócrates irava-se agora zangado com o seu fado de ter que correr à chuva e, pior ainda, molhar a sua boina encarnada Boss. Começou, naturalmente, de punho novamente erguido mas desta feita a olhar para o céu, a reclamar com a chuva. ‘Pute!’ gritou ele, ‘Canálhe!’, acrescentou. E, aliviado, acelerou de regresso a casa.

No elevador do seu prédio, um José Sócrates ensopado murmurava agora que se era para andar à chuva, de facto, mais valia ser em Paris: 'pelo menos é chuva Evian’, declarou ele para a audiência que ali imaginou estar enquanto ajeitava o cabelo molhado olhando o espelho do elevador. Haverá melhor audiência do que si próprio? Piscou o olho à imagem do espelho, e saiu para o corredor.

Entrando em casa, sacudiu-se, abriu várias torneiras de ouro e preparou-se para tomar um muito merecido banho de imersão. Nessa altura, enquanto as fragrâncias dos sais começavam a a espalhar-se pelo ar, começa a tocar, muito ao de leve, um alarme despertador. José Sócrates estranhou, mas não se incomodou.

Após o banho, Sócrates atravessou a luxuosa sala com pé direito de quatro metros e meio até à cozinha. Aí, descalço, mas confortado pelo pavimento aquecido, abriu o frigorífico SMEG côr de rosa e tirou uma apetitosa sandes de camembert fumado com tomate cereja e rúcula que a sua governanta ali havia deixado para si. Entretanto, o alarme despertador começou a ficar cada vez mais sonoro. José Sócrates intrigou-se. Que alarme seria aquele? E por que razão estava a crescer cada vez mais de tom? Encolheu os ombros e procurou dar uma dentada na sua sandes. Não conseguiu. ‘Que coisa esta…’, estranhou ele. Tentou de novo. Era rija. Não se despegava. Tentou outra vez. ‘Mas que raio…?’. E, ao mesmo tempo, o alarme subia de tom, estava agora estridente. Sócrates, subitamente, empalideceu. Algo estava errado. Algo estava tremendamente errado. E o alarme despertador deu lugar a uma sirene, e a sirene subiu e subiu de tom até que explodia agora em vagas sonoras estridulantes que faziam Sócrates deitar-se no chão, agarrando-se à sua sandes e à sua própria cabeça.

Foi nesse momento que, de súbito, como que sugado por um vórtice espácio-temporal, José Sócrates viu a sirene explodir com o seu apartamento, e consigo também, fazendo com que em nanossegundos se visse atirado num caleidoscópico de cores pelo tal vórtice, directo do seu confortável apartamento no 16ème arrondissement para um chão de cimento, frio, duro, empoeirado, desconfortável e mal cheiroso.

Ainda agarrado à sua sandes de camembert, Sócrates deu por si estirado no chão. Parecia que tinha caído de uma altura de dez andares tais eram as dores que lhe percorriam agora o corpo. Abriu os olhos e, destrambelhado, não reconheceu onde estava. ‘Mas…’, murmurou ele, ‘que raio se passou?’. Levantou a cabeça e olhou em volta: era um cubículo minúsculo todo em cimento por pintar e ele, Sócrates, estava virado para uma retrete meio partida, sem assento, salpicada de castanho e com um pedaço longo de papel higiénico que, saindo do seu interior, se desenrolava pelo chão. ‘Mas que raio…’, repetiu entre dentes.

Voltou a cabeça e viu uma porta gradeada. Do outro lado, a escuridão do desconhecido. Olhou para as suas mãos, aquelas mesmas que apenas um instante antes agarravam a sua saborosa sandes de camembert com tomates cereja e rúcula, e viu uma sapatilha branca suja, de pano furado na ponta e com sola de borracha. Não admira que não a conseguisse mastigar! Assustou-se com o nojo e, dando um grito, atirou com o sapato para longe. Por azar do destino, a sapatilha foi embater na parede e, de seguida, com um splash pastoso e seco, caiu dentro da retrete.

No entanto, naquele momento, José Sócrates, desorientado, profundamente perturbado, não se incomodou com tal coisa. Um sapato numa retrete cheia de bosta era o menor dos seus problemas. Desalentado, virou a cabeça para baixo e, olhando para o seu corpo, ficou ainda mais admirado: o casaco de casa, cortado em veludo e seda por medida com o seu monograma no peito, tinha agora dado lugar a uma camisa branca muito deslavada e que lhe estava nitidamente grande demais. Era lisa, mas uma mancha aparecia-lhe no peito. Na penumbra não se via bem o que era. José Sócrates agarrou a mancha e, puxando-a para si, focando a visão com o esforço de um monge copista, conseguiu ler o que a sua camisa ali tinha escrito em letras estampadas: o número 44.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

NO ANXIETY

"Where there is no choice there is no anxiety; and a happy release from responsibility. Some human beings have always preferred the peace of imprisonment, a contented security, a sense of having at last found one's proper place in the cosmos, to the painful conflicts and perplexities of the disordered freedom of the world beyond the walls."

Isaiah Berlin, 'Historical Inevitability' [1954], in: Liberty, Oxford University Press, 2008, p.160

quinta-feira, 2 de maio de 2019

A CHOLDRA

O Eça resumiu bem a choldra explicando que, em Portugal, a civilização, tal como tudo o resto, se importa do estrangeiro. Apenas que depois, tal como os fatos feitos por medida para outrem, fica curtinha nas mangas. É isto. Um país de mangas curtas que vive da imitação. Os estrangeirados imitam o estrangeiro, os arrivistas imitam os que já lá estão, os alunos imitam os professores, os políticos do partido imitam os da assembleia, e estes os da televisão, e estes últimos os da televisão estrangeira. Na feira imitam-se as marcas, nos cafés as séries de TV, nos nomes os das personagens das telenovelas. O colunista escreve o que leu no NY Times, o comentador repete o que ouviu na rádio, o jornalista pergunta o que lhe mandam ler no teleponto. O grande académico é o que, perante a questão, cospe nos dedos e, depois de os passar pela brilhantina, pondo as mãos no colete, de queixo levantado, cita o grande académico que o precedeu - e que ele pressurosamente imita. Afinal, se serviu para ele por que não há-de servir para os outros? O jovem come morangos com açúcar, e gosta. É o progresso. Nas estantes, repousam os livros para convidados verem. Volta não volta, limpa-se-lhes o pó. Nos dias de festa, um deles vai para a mesinha de cabeceira não vá um convidado enganar-se na porta e ir parar ao quarto. Nas redes sociais, ficam as fotografias da viagem. Nos cafés, restaurantes, super, mini e hipermercados, a TV passa as notícias com o som ligado não vá a malta perder pitada. Acho que nunca se desligam. E lá em cima, no Olimpo da repartição, o chefe, com ar cansado, reclama do tempo. “É o aquecimento global”, repete o que ouviu o ministro do ambiente dizer. “Eles hádem de fazer alguma coisa sobre isto”. Ao lado, o ajudante poisa A Bola e declara: “há um português que está a estudar isso lá n’América”. Lá atrás, a secretária suspira explicando que, quando queremos, somos os melhores do mundo. Na tasca, os melhores do mundo repetem o que ouviram de manhã no táxi gritando, ufanos e de mão no peito, que se eles mandassem era assim que se fazia. Mas não se faz. Desde Alcácer Quibir que não fazemos nada a não ser viver por conta alheia: primeiro a Índia, depois o Brasil, a seguir Africa e, finalmente, a Europa. Agora, com o dinheiro a acabar-se, no luxo endividado importado em BMW’s da Alemanha, vivemos por conta dos filhos. Quem vier atrás que feche a porta.

A TORRENTE

A forma como hoje em dia se distribui a torto e a direito o adjectivo “genial” para tudo e mais um par de botas atesta bem o espírito da época: às vistas cansadas com a torrente de banalidade qualquer coisa diferente que lhes ocupe um mínimo do campo de atenção lhes aparecerá sempre como espectacular ou, cumprindo o zeitgeist, “genial”. Mas a cada “genial” que se apregoa mais cedo do que tarde outro se seguirá, e assim sucessivamente se banaliza o termo. A seu tempo, também esses fogachos de interesse se banalizam na corrente que varre o mundo: não há memória onde tudo é sempre novo, e sem memória não há comparação para adjectivar. No futuro, até as pedras serão geniais se nos aparecerem pela primeira vez.

PONTO DA SITUAÇÃO


MATERIALISMO VS. LIBERDADE

A doença que infectou a sociedade contemporânea é a crença no materialismo. No Contra Corrente.

REACÇÃO

Só numa sociedade profundamente doente se pode considerar que, primeiro, a mudança de aparência exterior de uma pessoa, fruto de mera cosmética, comprimidos e injecções, resulta numa real mudança de sexo, tal como, depois, e pior, ainda vir o Estado legislar sobre a matéria forçando as crianças que, após todos os inquéritos, as múltiplas sessões de esclarecimento e infindáveis questionários na escola, mais as inúmeras séries, debates e filmes na TV, tenham ganho dúvidas sobre esta matéria, dúvidas que de outra forma provavelmente não teriam, a fazerem as tais cosméticas e injeções hormonais, se necessário contra a vontade dos pais. Sim, porque o Estado é soberano, os pais são súbditos e as crianças cobaias na loucura dos idiotas do século XXI. E querem que não haja reacção? Ai, há, pois claro, com certeza que há.

OS INOCENTES

Os utópicos bem intencionados, fruto do seu inocente optimismo, imaginam que o estado laico, livre e democrático se defende tratando com laicidade, liberdade e democraticamente todas as culturas por igual. Essa é a base ontológica do multiculturalismo, no entanto, o multiculturalismo, porque muitas das culturas que compõem o “multi” não são liberais, laicas ou sequer igualitárias, muito pelo contrário, não garante coisa alguma. A isto acresce que nem todas as culturas são iguais, ou sequer todos os membros de uma determinada cultura são iguais entre si, pelo que aquilo que é, ou o que deverá ser, tido como igual é a dignidade de todos os indivíduos- sem excepção - perante a comunidade. No entanto, essa igualdade pressupõe o dever de defender a ordem e os valores que a permitem. Para isso não basta cantar hinos à liberdade, entoar loas à igualdade ou fazer danças e piruetas em nome da laicidade, para tal coisa é forçoso defender a ordem liberal, laica e democrática. Essa defesa faz-se assumindo que ser tratado por igual é um privilégio que acarreta um custo, o custo de contribuir para a defesa dessa mesma ordem que nos trata como iguais. Dos direitos sociais decorrem os deveres sociais, sendo estes tão importantes como os primeiros. É este reverso da medalha, o lado da responsabilidade na equação que nos diz que liberdade e responsabilidade são iguais, que os utópicos líricos parecem esquecer: para eles, os optimistas, a ordem liberal mantém-se distribuindo direitos mas nada exigindo em troca. O que acontece a essa ordem liberal quando os receptores dos direitos se abstêm de contribuir para a defesa da ordem liberal? Mais a mais se ninguém os obriga a tal coisa? Ou, pior, se os valores que estes partilham são antagónicos à mera existência dessa ordem liberal? No final, esta é que é a pergunta difícil. É fácil andar pelas arenas mediática em grandiosos passos de retórica sobre as virtudes dos direitos sociais que, para gáudio das massas, a todos se oferecem nos altares virtuosos da liberdade e da igualdade, sem que nada se peça em troca. Sem custos. Almoços grátis e virtuosos, tão populares quanto preguiçosos, pois que tudo se dá sem que se revelem os custos dessas mesmas ofertas. E estes são, inapelavelmente, dois: o custo do trabalho da manutenção da ordem liberal que tantos direitos nos dá ou, em alternativa, o custo de perder essa ordem liberal porque nada fizemos para que ela se mantivesse. Populismo é vender sonhos belos sem ter a coragem de apresentar a conta. Muito mais difícil é explicar às massas que para continuarem a gozar da vida boa que os nossos antepassados - alimentados a sangue, suor e lágrimas nos deixaram - é, no mínimo, preciso trabalhar para que essa vida se mantenha. Mas exigir responsabilidades não dá votos, nem gáudio, nem popularidade. O populismo também passa por aqui.

CRÓNICAS DO ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

ÚLTIMA HORA (SECçÃO CULTURAL)
Além de filósofo, engenheiro, político, injustiçado, comentador político, José Sócrates estreia-se agora na música. Numa fuga de informação espectacular, o nosso jornal cultural teve acesso ao refrão do single que o ex-primeiro-ministro conta editar durante o Verão. Com letra de José Sócrates e música dos ABBA, "Fernanda", pode vir a ser o grande hit de 2019. Em primeira mão, é aqui que leem pela primeira vez a letra da primeira música de José Sócrates:
"Havia alguma coisa no apartamento naquela noite,
As fotocópias brilhavam, Fernanda;
Elas brilhavam lá em cima, para mim e para ti,
Para Paris, Fernanda.
Apesar de eu nunca ter pensado que poderíamos ser apanhados,
Não tenho remorsos,
Se tivesse que dar-te tudo de novo,
Eu daria, minha querida, Fernanda".
Quando questionado sobre a sua nova carreira musical, o ex-governante não quis tecer comentários.

ADORADORES DE PÁSCOA?

Imagino que os senhores do extremo centro prefiram este politicamente correcto asqueroso dos Clinton, Obama & Ca, sempre cheio de bandeirinhas pejadas de uma virtude auto-congrulatória peçonhenta que só se enxofra com a suposta islamofobia (sempre sem direito a alegados) mas que quando chega a hora de defender os Cristãos inventa “adorações de Páscoa“ que nada são diferentes de adorações de, sei lá, pedras ou árvores. Mil vezes os músculos do Trump, essa é que é essa. A Sra. Clinton, essa psicopata, e o Sr. Obama podem enfiar a sua definição de “adoradores de Páscoa” num sítio que eu cá sei.

CRÓNICAS DO ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

ÚLTIMA HORA
Ao que o nosso jornal conseguiu apurar, José Sócrates terá mandado o seu amigo Carlos Santos Silva entregar um enorme conjunto de fotocópias na Notre Dame em Paris para ajudar à sua reconstrução. Fonte próxima do ex-governante garante: “o Zé está devastado, ele gostava muito de correr perto da Notre Dame e detesta obras em Paris que sabe serem demoradas.” Junto com as fotocópias terá seguido um projecto de reconstrução assinado pelo próprio José Sócrates que, como é sabido, além de filósofo é licenciado em engenharia civil. “O Zé tem uma extensa experiência e um assinalável portfólio, em particular na Covilhã, que o habilita a concorrer ao concurso de ideias para reabilitar a Notre Dame”, explica a mesma fonte, uma ex-namorada. “No fundo, além de ajudar financeiramente com fotocópias, o Zé pretende ele próprio desenhar o novo tecto da capela Sistina”, explicou-nos, não ficando certo que José Sócrates e a ex-namorada saibam que a Capela Sistina não fica dentro da Notre Dame, ou sequer em Paris. Considerando o projecto a que o nosso jornal conseguiu ter acesso, toda a estrutura que desabou no incêndio da passada semana seria reconstruída em vidro. Na memória descritiva do projecto, o próprio ex-primeiro-ministro explica que a ideia “é baseada numa casa onde viveu em Lisboa e que era tão bonita que até comprou dois apartamentos, um deles para a sua mãezinha”. O projecto, intitulado “Heron Notre Dame”, contempla ainda várias janelas no tecto, segundo o documento, “para arejar”, bem como um estendal no pináculo da catedral para, e citamos, “o corcunda secar a roupa”.

SOBRE O MARXISMO CULTURAL

Sinceramente, não compreendo esta “questão” à direita sobre o “marxismo cultural “ da esquerda. É um chavão? É. Uma simplificação que abrange muito mais do que os dois termos que o compõem? Com certeza. No entanto, apesar da evidente simplificação por ventura não académica, independentemente de dela gostarmos mais ou menos, não traz evidentes vantagens conseguir apontar ao ataque da esquerda às bases culturais da democracia liberal e dar-lhe um nome que permita às massas abrirem os olhos para o que se está a passar? Ou será que à direita não lhe é permitido a arma retórica como forma de apelar às pessoas para as suas causas? É que, enquanto os puristas conceptuais se entretém com os méritos e deméritos académicos dos conceitos, os bárbaros estão às portas das democracias liberais bem armados de forquilhas retóricas. Em democracia, a liberdade defende-se conquistando o voto, e os votos conquistam-se com slogans. Não é com os lirismos dos bardos dos conceitos que vamos lá: aquilo que o termo “marxismo cultural” procura designar é para ser combatido, derrotado e arrumado. Qual é a dúvida? Duas respostas no Contra Corrente, aqui e aqui.

CRÓNICAS DO ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

ÚLTIMA HORA
Esta manhã, a propósito do incêndio na catedral de Notre Dame, Catarina Martins teceu duras críticas ao Vaticano pela apropriação indevida levada a cabo por diversos católicos de uma tragédia que, explicou, “pertence a todas as fés e a todas as pessoas”. A dirigente partidária acrescentou que Portugal não deverá ficar de fora do grande debate mundial sobre que monumento deverá substituir a velha catedral. “Um hino à inclusão social, à igualdade fraternal que a Revolução Francesa tão bem representa”, defendeu a líder do Bloco de Esquerda. Ainda na conferência de imprensa, quando instada a pronunciar-se sobre quem seria responsável pelo incêndio da catedral parisiense, Catarina Martins não teve dúvidas: “Passos Coelho”, esclareceu perante os aplausos dos militantes do bloco que assistiam à conferência de imprensa.

NOTRE-DAME

Daqui por muito pouco tempo a oligarquia explicará que a bem da virtude universal, bem como da paz e harmonia mundial, a reparação da Notre Dame deverá ser abandonada para dar lugar à construção de uma coisa nova, uma coisa própria dos novos tempos, tempo mais abertos e avançados. Será explicado que bom mesmo será edificar no local da Notre Dame um memorial que celebre todas as fés, todas as culturas, num grande exemplo de abertura ao mundo que a França multicultural, multi-religiosa e multi-tudo deverá abraçar como um tremendo feito. A velhinha Notre Dame? Opressão hetero-patriarcal cristã. A nova? A libertação do tempo novo. Depois, garantirão, o incêndio terá sido um bem, um grande bem, um bem que deveremos repetir por essa Europa fora, por essas igrejas fora. No fim, como diria alguém, deitaremos fogo a tudo. E a turba aplaudirá.

UM RESUMO


O CLUBE DA ESQUERDA

Um relato que amiúde me tem chegado às orelhas, quer directa quer indirectamente, é o de um ou outro mui estimável auto-intitulado eleitor de esquerda que reclama que outros auto-intitulados eleitores de esquerda, apenas que mais maioritários, por esta ou por aquela razão, entendem que o primeiro não merece pertencer ao clube de confrades de esquerda. Ora, isto ocorre precisamente porque a esquerda vê-se a si própria como um clube, um clube de privilégio, onde alguns eleitos, ou eleitores, fruto da sua virtuosa esquerdice se distinguem dos demais. Julgam-se mais e melhores que os outros e vendem, ou apregoam, a pertença ao grupo como um exclusivo de virtudes. Mas esta imagem é uma farsa, uma farsa e um falso anúncio que se alimenta da necessidade de aceitação no grupo - algo que é comum a todos os humanos - para exigir a uniforme conformidade com aquilo que a norma estabelece como sendo de esquerda ou, no caso contemporâneo, como virtuoso praticante do Bem. No fundo, o fascismo comportamental, pois claro. A verdade é que a esquerda ocupa-se preferencialmente a defender o interesse dos seus, daqueles que não afrontam o ideal de ser de esquerda, ou seja, do interesse, normalmente eleitoral, dos seus chefes representantes - e que disso vivem. No final, e infelizmente um objectivo intelectualmente obscurecido pela propaganda mediática, escapa-lhes, a esses amantes dos valores de esquerda, que esses valores são na prática muito melhor defendidos pelos axiomas fundamentais da direita: liberdade individual, liberdade para ser, fazer e criar o que muito bem apetecer a todo e qualquer um de nós, independentemente de grupos ou grupelhos, designações ou rótulos, ou seja: fundamentalmente o direito à igual dignidade de todos na sociedade, independente de sexo, raça ou credo, tal como a crença na igual capacidade para se exprimir como muito bem entender sem necessitar do aval do chefe de agremiação, de partido, de grupo ou, já agora, do Estado. À direita liberal, aquele grupo que acredita sem concessões na capacidade dos que menos têm na sociedade para superarem a sua condição, aquele grupo que baseia todo o seu sentido de existir na maximização de possibilidades de crescimento e de criação a todos aqueles que menos têm, essa direita - e que tão pouca representação tem em Portugal, - essa direita é a verdadeira aliada dos pobres e carenciados da sociedade. Tudo o resto é embuste, mentira e propaganda disfarçada de estado social(ista). A seu tempo, como diria D. Bosco, assim compreenderão. Infelizmente, com cada vez maior probabilidade, apenas compreenderão quando, fruto da miséria imposta pelos fascistas de costumes e de igualdade económica, a tragédia da pobreza e miséria bater à porta de todos nós.

HUMILDADE

Ei, tu, o descrente-relativista-que-acha-que-sabe-tudo! Lá porque tu não vislumbras um propósito não significa que não haja um propósito.