quarta-feira, 4 de julho de 2018

LIBERALISMO E CONSERVADORISMO

A tensão entre estes dois conceitos é antiga mas, quando olhando para ela, é fundamental levar-se em consideração que os significados atribuídos aos dois conceitos variam com o tempo o que, naturalmente, implica alterações na forma como estes se relacionam entre si. Liberalismo começou por ser sinónimo de quase tudo aquilo que se opunha ao Antigo Regime, apenas que, ao longo dos últimos duzentos anos, e com o triunfo dos ideais liberais, se foi dividindo em diferentes interpretações sobre qual o bom liberalismo, ou mesmo sobre o que significa ser liberal. Hoje, por exemplo, no mundo Ocidental o termo 'liberal' consegue simultaneamente significar uma coisa e o seu contrário. Para mim, significará sempre o que tenho como o seu significado mais puro, o chamado liberalismo clássico: uma sociedade tolerante baseada na liberdade individual defendida sem concessões através da igualdade perante a lei e o direito inviolável à propriedade privada e à livre troca.
O mesmo ocorreu no campo conservador. Primeiro, conservadores seriam aqueles que se opunham à mudança preconizada pelos liberais. Aí, conservadorismo seria, portanto, sinónimo de adversário do liberalismo. No entanto, nem todos os conservadores eram iguais: não poderemos, por exemplo, confundir a corrente ultramontana, tendo De Maistre como exemplo maior, que rejeitava o liberalismo por este representar uma afronta à ordem hierárquica social e que via o Antigo Regime, com particular ênfase no Absolutismo Russo, como o antídoto para a desgraça anunciada pela ciência, pela difusão do conhecimento e pelo debate de ideias. Para De Maistre, a verdade já era conhecida e resultara na harmonia do corpo social pelo que era o próprio debate e o mero exercício da dúvida científica que corporizava o maior adversário da hierarquia social e, consequentemente, da paz e da ordem. Para De Maistre, atente-se, a solução para o problema liberal era a apologia da figura redentora do carrasco.
O conservadorismo de De Maistre dificilmente pode ser tido como conservadorismo hoje em dia. A sua visão reaccionária face à revolução intelectual, moral e institucional do liberalismo será hoje tão ou mais revolucionária do que qualquer outro adversário do ordenamento liberal. Não poderemos, por exemplo, confundir o "conservadorismo" de De Maistre com o de Burke. Para este último, o problema do liberalismo era o universalismo abstracto das soluções racionalistas dos revolucionários liberais. Aqui, não se pedia a figura do carrasco, não se pedia o absolutismo hierárquico, não se pedia sequer uma rejeição da mudança; para Burke, o essencial era reconhecer-se que os dilemas morais dos homens eram demasiado complexos para serem resolvidos a regra e esquadro com soluções teóricas universais que se advogavam superiores aos milénios de experiência civilizacional a lidar com esses mesmos dilemas e que tinham derivado nas instituições que governavam as nações europeias, cada qual com as suas particulares características. Burke alertou, e quanto a mim bem, que as abstracções universalistas configuram soluções artificiais, tão falíveis como todas as invenções humanas, exercícios teóricos especulativos separados da realidade objectiva dos homens, uma realidade que é tanto melhor compreendida quanto melhor for conhecida a forma como os homens lidam ela. Burke foi ainda mais longe ao defender que a liberdade não pode ser mantida onde o respeito pela nobreza da dignidade humana não exista, pelo contrário: quando a liberdade for apenas justificada por critérios abstractos e racionalistas, porque estes se encontram despidos da particularidade da nossa própria humanidade, então ela rapidamente degenerará no caos e violência. Ora, esta objecção não é estapafúrdia - e tanto não o era que foi Burke precisamente aquele que previu o desfecho sanguinário da revolução francesa.
Não podemos, portanto, olhar para o conservadorismo apenas como uma espécie de generalização do princípio estabelecido por Oakeshot no On Being Conservative onde ser conservador seria uma disposição conservadora, avessa à mudança, uma espécie de predisposição vã e permanente de manter aquilo que há por oposição àquilo que pode vir a ser, isto porque se vive receando um futuro pior. Do mesmo modo, também não pode ser visto o conservadorismo como o exercício reaccionário de De Maistre, um pensamento percurssor - e inspirador - de grande parte dos autoritarismos e totalitarismos do Século XX. Parece-me mais adequado ver a essência do pressuposto conservador como esta desconfiança face à universalidade racional e abstracta que o Iluminismo inicialmente,  imitando as ciências naturais, advogou como sendo a promessa de uma solução perfeita e definitiva para os problemas morais e políticos da Humanidade.
Uma outra questão que me parece relevante para a dicotomia liberalismo-conservadorismo é aferir a forma como a sua interligação foi fundamental no advento da democracia liberal. Se, por um lado, é pivotal para o advento da ordem liberal a ruptura que foi feita com a noção absolutista de que o poder é divino e descendente através da hierarquia social - não pode haver liberdade individual sem o pressuposto fundamental de que todos os indivíduos são iguais perante a comunidade -, também não deixa de ser verdade que o lado racionalista do liberalismo iluminista, do qual Rousseau é um bom exemplo, nos legou um igualmente poderoso adversário da ordem liberal: desde a noção de liberdade colectiva assente na 'vontade geral', passando pelo formalismo procedimental Kantiano até ao historicismo pseudo-científico, primeiro de Hegel e depois de Marx, existe derivada da inicial revolução liberal toda uma tradição que, de forma mais directa ou indirecta, representa um poderoso adversário da ordem liberal contemporânea. A base ontológica desta tradição é precisamente o racionalismo geométrico e abstracto como fonte de norma moral e política, ou seja: em maior ou menor degrau, precisamente a apologia de tudo aquilo contra o qual Burke se insurgiu. Neste sentido, não pode deixar de ser notado que o pressuposto conservador de Burke representa um poderoso aliado da ordem liberal.
Não será grande novidade, portanto, afirmar a noção que a democracia liberal deriva de um compromisso entre liberais, que advogaram a liberdade do indivíduo face ao grupo, e conservadores, que rejeitaram a justificação racional para o colectivismo anti-Antigo Regime. Muito mais haveria ainda para analisar nesta tensão complexa entre conservadorismo e liberalismo, no entanto, para efeitos de síntese, gostaria de focar-me em três pequenos pontos que, parece-me, resumem bem a forma como o conservadorismo, ou pressupostos derivados deste - aliados a partes do Romantismo -, postularam importantes críticas ao movimento liberal e, hoje em dia, representam pilares fundamentais para, primeiro, a manutenção de uma democracia liberal e, depois, a defesa intransigente da liberdade individual como valor primeiro das nossas comunidades políticas - com a rejeição do socialismo vigente que essa opção implica.
Primeiro, a noção de que o mundo moral e político não é nem a caverna de Platão nem o mecanismo tipo-relógio de Newton ou Descartes: não existe, ou pelo menos não há nada que aponte no sentido de que exista, um princípio objectivo, universal e racional - e acessível à mente humana - que harmonizando valores e princípios possa servir como critério absoluto sobre a validade dos julgamentos morais humanos. Daí que não possa existir real conhecimento aceite de forma universal sobre se um julgamento moral é verdadeiro ou falso. Este ponto é fundamental porque não havendo forma de garantir uma solução correcta para um dilema moral então é no imperfeito julgamento humano que recai a responsabilidade de decidir.
Em segundo lugar, e de certa forma derivado do primeiro ponto, a noção de que o dilema moral é inevitável. Os humanos perseguem coisas que valorizam - valores -, e diferentes indivíduos perseguem, logo valorizam, coisas diferentes. Do mesmo modo, muitas das coisas valorizadas são incompatíveis entre si o que obriga a uma escolha forçada entre diferentes fins e valores: normalmente não se consegue ter o sol na eira e a chuva no nabal. Ao contrário da utopia racionalista platónica onde se advogava que todos os valores acabariam por harmonizar-se, bastando para atingir essa harmonia compreender verdadeiramente a essência sobre o que certo valor ou conceito de facto significaria, pelo contrário, no nosso mundo real, valores e conceitos são essencialmente incompatíveis entre si forçando a escolha entre eles: se eu quero ter prazer, então eu posso prejudicar a saúde; se eu quero ser corajoso, então abdico da segurança; se eu persigo a riqueza então eu provavelmente abdico do descanso; etc., etc., tudo isto são valores e muitos deles são incompatíveis uns com os outros. Escolher é, por isso mesmo, uma vicissitude inescapável da condição humana, tanto nas nossas vidas particulares como nas nossas vidas comunitárias.
Em terceiro lugar, e juntando a inevitabilidade da escolha (ponto 2) com a ausência de um padrão universal - filosófico ou científico - que nos garanta as respostas certas (ponto 1), sobra a questão sobre quem deve decidir qual a resposta a dar aos dilemas morais e políticos de uma comunidade. É precisamente aqui que a visão conservadora é particularmente importante: ao rejeitar-se que haja uma construção teórica capaz de aliviar o fardo da escolha humana perante os dilemas que se lhes deparam sobra apenas a defesa intransigente do julgamento humano, julgamento o qual, fruto da subjectividade humana, é necessariamente feito por cada indivíduo. Mais: na ausência de uma resposta verdadeira e ideal sobra-nos a inevitabilidade de existirem várias respostas possíveis. Esta é a base do pluralismo, uma noção que obriga ao diálogo, à tolerância e a uma apologia do julgamento humano individual. Qualquer exercício especulativo teórico que pretenda oferecer uma solução a priori que substitua o essencial julgamento individual sobre os dilemas da vida, quer a individual quer a colectiva, representa, portanto, uma porta aberta para a substituição da liberdade individual por uma outra qualquer solução colectiva, solução essa que será forçosamente menos liberal porque assentará necessariamente na imposição aos indivíduos de um particular critério de escolha - um critério que lhes é alheio e, consequentemente, uma infracção directa na liberdade de decidirem eles próprios como lidar com os dilemas morais que os afectam.
Muito mais haveria para dizer como forma de defender a noção que o liberalismo não apenas tem muito que aprender como, mais importante, deve muito ao conservadorismo. Em última instância, o liberalismo (clássico) assenta na defesa intransigente da liberdade individual perante a comunidade; mas, no conflito constante de valores que é a vida humana, esta defesa não é mais do que colocar no nosso sistema de valores a liberdade individual acima de outros valores também eles importantes. Essa escolha, no entanto, não foi feita ex-nihilo baseada em modelos teóricos dos quais se escolheu racionalmente um numa qualquer posição original, posição essa à qual se acede sempre que um indivíduo é racional (e quando não se acede é porque o indivíduo em questão não é racional ou inteligente - uma acusação que inquina grandemente o debate verdadeiramente liberal). Pelo contrário: houve toda uma tradição civilizacional que permitiu atingir um estádio evolutivo onde a apologia da liberdade individual representou uma escolha colectiva, o que nos obriga a prestar atenção às circunstâncias culturais e civilizacionais que permitiram essa escolha - porque sem elas poderemos não conseguir continuar a justificar a defesa da liberdade individual. Do mesmo modo, essa escolha ganha muito mais força quando compreendendo que o ser humano não é melhor defendido por uma qualquer abstracção metafísica ou teórica que apregoe os caminhos racionais do paraíso na terra. Para mim, entre o paraíso racionalista libertário e o paraíso marxista não há grande diferença: não é de homens e mulheres de carne e osso que eles tratam. Prefiro a defesa intransigente da dignidade humana, dignidade essa que é apenas garantida evitando o crime moral que é forçar escolhas aos indivíduos quando as consequências dessas escolhas afectam precisamente aqueles sobre quem elas foram impostas. Um dos maiores legados conservadores à ordem liberal foi precisamente o pressuposto basilar do direito à liberdade: o dever da responsabilidade de lidar com as consequências das nossas próprias escolhas.
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domingo, 3 de junho de 2018

A ANATOMIA DE UM GOLPE PALACIANO

A maior parte das pessoas não se apercebeu mas houve uma revolução em Portugal, uma revolução seguida de uma contra-revolução. No final, voltou tudo à estaca zero. O acontecimento mais relevante no status quo político-económico português foi a queda de Ricardo Salgado. Curiosamente, apesar da cobertura mediática inevitável a que um acontecimento deste tipo obriga, uma análise séria e minimamente aprofundada sobre o ocorrido não tenho conhecimento de que tenha sido feita. Diz-se, e bem, que Ricardo Salgado era o "Dono Disto Tudo" (DDT), mas, exceptuando a teia desmontada a propósito da Operação Marquês, o que significava na práctica ser o DDT?
Um dos poucos vislumbres do exercício desse poder de bastidores, do verdadeiro poder em Portugal, está no livro que José Gomes Ferreira publicou (link para uma sua entrevista a apresentar o livro). Aí, José Gomes Ferreira defende a sua tese de que a estranha, e para muitos inexplicável, demissão "irrevogável" de Paulo Portas teria sido feita em coordenação com Ricardo Salgado. O objectivo seria fazer cair o Governo de Passos Coelho para garantir que um novo governo mais amigo de Salgado impedisse a queda do BES. Esse objectivo, graças à tenacidade de Passos Coelho, foi impedido: o BES, e Salgado com ele, caiu, revelando as teias do poder oligarca português, agora tão evidentes nas escutas e vídeos da Operação Marquês, por exemplo. O que possibilitou essa limpeza? Passos Coelho e a Procuradora Geral da República que o seu Governo apoiou.
A revolução que ocorreu em Portugal foi a queda do seu Regedor, Salgado. Uma revolução que ocorreu por mandato democrático e o popular, o de Passos Coelho, que em nome do interesse nacional soube lutar contra os poderes mais e menos obscuros, as teias da oligarquia do chamado "bloco central de interesses". Já a contra-revolução começou com o episódio irrevogável, instaurou-se com a criação da Geringonça e venceu com a vitória de Rui Rio para a Presidência do PSD - e o consequente afastamento do único adversário do bloco central de interesses, Pedro Passos Coelho.
A oligarquia do bloco central de interesses manda no país distribuindo dinheiro, benesses, empregos e oportunidades de negócio garantidas pelo Estado. Num país onde o Estado é omnipresente, quem nele manda manda em quase tudo. E quem manda em quem manda no Estado, os DDT da vida, mandam mesmo em tudo. Daí serem os donos disto tudo. Passos Coelho ao querer libertar a economia do Estado representou uma ameaça para a oligarquia, é verdade; mas o perigo mesmo, e letal para Salgado, apenas ocorreu quando Salgado percebeu que Passos não iria engolir as negociatas do BES, que iria deixar a justiça actuar e, mais importante, que não iria salvar o BES e o seu Presidente. A partir daí tornou-se evidente que Passo Coelho teria que ser substituído: primeiro, como já acima referi, o irrevogável de Portas. Correu mal, Passos deu a volta. Depois, a campanha mediática intensa para substituir na liderança do PS António José Seguro, que tinha acabado de vencer as eleições europeias, pelo antigo n.°2 de Sócrates, António Costa, aquele que Seguro assegurava ser "amigo dos negócios" (link). Correu bem. Em seguida, todo o apoio mediático à vitória de Costa contra Passos nas legislativas de 2015. Correu mal, Passos venceu as eleições. Depois, o grande passo de magia: rompendo-se o consenso constitucional de que o partido mais votado, mesmo que em minoria, governaria, comprou-se a extrema-esquerda e formou-se um governo de frente de esquerda que, paradoxalmente, apenas foi possùivel para se deitar abaixo aquele que mais lutou contra a oligarquia corrupta que governava Portugal. Um sucesso retumbante, portanto.
Desde aí, de regresso ao poder, vemos todas as mesmas personagens que governavam com Sócrates de regresso ao Governo (link). Com a UE a garantir juros baixos através do programa de Quantitative Easing (compra de títulos de dívida pública portuguesa por parte do Banco Central Europeu abaixo do preço de mercado, link), com os juros da dívida pública artificialmente baixos, pode a frente de esquerda de Costa continuar a austeridade, cativando pagamentos a curto prazo - como no Serviço Nacional de Saúde, por exemplo (link) -  enquanto distribui prendas (link), benefícios (link) e empregos (link) pelos amigos (link), bem como pelas corporações afectas aos membros da Geringonça, desta última sendo o melhor exemplo o consequente controlo dos sindicatos no sector da educação com o desaparecimento de cena de um dos maiores adversários dos Governos de Passos: Mário Nogueira.
Durante os últimos dois anos, Costa, e com ele o bloco central de interesses - agora alargado aos interesses do BE e do PCP -, tomaram de novo o controle completo do país: Governo, economia, comunicação social e, com uma melhoria significativa face à versão anterior: ao incluir o BE e o PCP garantiu-se a paz social através do controlo dos sindicatos (link), o elemento que faltava para que o poder fosse total. Senão, a título de exemplo, vejamos: durante a governação de Passos Coelho se um bebé nascia numa ambulância caia o Carmo e a Trindade porque o Governo era insensível; se agora o Governo cativa verbas fundamentais para o funcionamento do IPO (link), já ninguém diz grande coisa.
Pior ainda é a desresponsabilização política completa. Em 2017 morreram mais de cem pessoas em fogos por notória incúria estatal (link), irresponsabilidade de um conjunto de pessoas nomeadas pelo Governo a poucos meses da época de fogos (link) e, pior ainda, por falência de um sistema de alerta de incêndios, o célebre SIRESP, que não foi mais do que uma enorme negociata que meteu o Grupo Espírito Santo e António Costa ao barulho (link): tudo isto deu em nada. Mais grave: o Governo tentou por todos os meios esconder o relatório do ocorrido (link), relatório que comprova que provas fulcrais foram apagadas (link), destruição de provas essa posteriormente confirmada pela auditoria (link).
A vitória final da contra-revolução foi tida, no entanto, dentro do PSD. Primeiro, com a campanha mediática mais suja que alguma vez assisti em Lisboa onde a candidata do PSD foi constantemente apoucada, enlameada, inclusive por membros da sua própria lista (link), em constantes manobras políticas onde até mesmo o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, amigo pessoal de Salgado, e o Jornal Observador não se pouparam a prejudicar (link). Passos assume a derrota e acaba substituído por Rui Rio, o homem que desde o início assumiu que se fosse necessário até faria uma coligação com o PS de Costa, reeditando o célebre Bloco Central, para retirar a extrema-esquerda do poder (link). Desde aí, oposição do PSD? Nem vê-la. Finalmente o país dorme em paz. Não se fala de sondagens, não se fala de greves, não se fala do livro de Gomes Ferreira, apenas se discute futebol e o festival da Eurovisão.
E quanto ao CDS? Sobre isto basta recordar que Assunção Cristas recebeu de bandeja um partido pelas mãos de Paulo Portas, o tal homem que, de acordo com o acima disposto, esteve disponível para fazer cair o governo de Passos para salvar Salgado. A intervenção final de Portas no Congresso da sua saída foi, estranhamente, focada em grande parte na necessidade de Portugal ter boas relações com Angola (link). Agora na Mota-Engil, acusado inclusive de a ter beneficiado (link), entre a sua actividade empresarial que lhe rende agora mais de trinta mil euros por mês (link) e o episódio do irrevogável, Portas inaugurou há poucos dias o seu meritíssimo tribunal de opinião televisivo. Será, certamente, independente. Quanto à Mota-Engil, onde Angola é uma peça fundamental (link), imagino que veja com bons olhos tamanha influência. Já da nova liderança do CDS, Cristas, ela própria com nacionalidade angolana (link), ainda terá que mostrar ao que vem - e até que ponto votar Cristas será uma coisa diferente de votar Portas. Uma coisa foi certa: a primeira coisa que fez enquanto líder do CDS foi desfazer a coligação com o PSD de Passos.
A contra-revolução é, portanto, praticamente total: não deixa ninguém, ou pelo menos quase ninguém, de fora. A dívida pública voltou a aumentar (link), os avisos sobre subidas de juros estão aí (link), e o Quantitative Easing vai eventualmente acabar (link), mas nada se passa em Portugal, um Portugal tão calmo como o de Salazar: até a visita da Chanceler Merkel não mereceu sequer um apupozinho da estrema-esquerda. Entretanto, Costa manda - e os Donos Disto Tudo mandam mais ainda, dando-se ao luxo de escolher sobre quem serão os fantoches, quer à esquerda quer à direita, a governar em nome deles.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

APOLOGIA DO(A) POLÍTICO(A)

Os homens e mulheres inteligentes, educados(as) e bem informados(as) do Século XXI sabem perfeitamente, sem margem para dúvidas, que os assuntos da comunidade não podem ficar entregues às mãos rapaces dos "privados", que é como quem diz dos(as) cidadãos(ãs) individuais; não, esses apenas pensam no seu interesse próprio. Para que a justiça seja cumprida é evidente que aquilo que é comum, e isso significa tudo o que é importante para a maioria, deverá ficar nas mãos santas, proto-divinas, puras, do Estado. O Estado garante a bondade da gestão pública, e não há dúvida sobre o mérito de tamanha evidência. Um pormaior será que o Estado não é governado pela máquina de inteligência artificial ainda por inventar e que garantirá futuramente a gestão perfeita, lá chegaremos mas infelizmente ainda não: faz-se a gestão do Estado por intermédio de alguns(as) indivíduos(as), pessoas de assinalável mérito pessoal, académico e moral que, atente-se!, ao contrário dos(as) restantes indivíduos(as) apenas pensam no interesse colectivo, nunca no seu próprio umbigo. Estes seres impolutos, graças a Deus!, gerem então o património comum, bem como os dias de trabalho que a maioria da população transforma em impostos para contribuir para a causa pública. Daqui se deve concluir que a maior das virtudes do homem, ou mulher, civilizado(a) é aceitar que, muito melhor do que ele(a) próprio(a), é o(a) político(a) o homem, ou a mulher, adequado(a) para a gestão dos frutos de uma grande fatia do seu trabalho, i.e. todo o esforço anual traduzido em impostos, bem como todo o património cultural, económico e infra-estrutural do seu país. A grande virtude do homem, ou mulher, civilizado(a) será, portanto, a confiança que lhe merece o(a) político(a), pois é no(a) político(a) que o homem, ou mulher, civilizado(a) confia o que lhe pertence, e ainda a regulação da forma como irá o homem, ou mulher, civilizado(a) trabalhar, casar, cozinhar, passear o cão, comer, enfim: viver. E a cada momento que, azar do Destino!, o Estado atropela algum(a) incauto(a), falha de alguma forma, ou falha com alguma coisa, logo grita o homem, ou mulher, civilizado(a): que se regule mais, que se taxe mais, que se dê mais poder ao(à) político(a)! O(A) político(a) será o(a) arauto moral da civilização, naturalmente. A esta evidência não encontra o homem, ou mulher, civilizado(a) qualquer demonstração empírica de falibilidade. Muito pelo contrário: o(a) político(a) é infalível. Deus o(a) abençoe.

domingo, 20 de maio de 2018

REQUIEM

Onde os valores são partilhados, discutem-se factos; onde os factos são partilhados, discutem-se valores. Quando valores e factos são comuns, discutem-se métodos; quando nem valores ou factos são comummente interpretados, sobra a gritaria, o onanismo oratório e, a seu tempo, a força.

GRIN


quinta-feira, 10 de maio de 2018

FILHOS DE UM DEUS RACIONAL

Desde o início que o mundo se divide em dois: o céu e a terra. Do céu nasce a geometria e a matemática baseada nas movimentações rotineiras dos astros, a começar pelo sol e pela lua: os ciclos solares e lunares oferecem ritmo ao mundo, um ritmo constante e eterno, uma ordem para o caos. É desse ritmo, ou melhor, da consciência desse ritmo, que deriva a grande descoberta da Humanidade, aquela primeira pedra sobre a qual todo o restante conhecimento se há-de erigir: a descoberta do tempo. Ao se aperceber que o mundo não é estático, que é ritmado e causal, a porta para o domínio sobre a matéria abre-se: a agricultura. Foram, no entanto, necessários milhares de anos para que essa intuição se efectivasse.
Durante esse processo, a Terra, da qual todos nascemos e perante a qual todos morremos, revela-se aos olhos do Homem como sendo fértil e, tal como as mulheres, estando fértil em determinadas alturas do ano. Fecundando-a com as sementes do ano anterior o Homem cria - concebe o alimento que garante a sobrevivência no futuro. Desse carácter feminino da Terra, do mundo conhecido, nasce a ideia de Grande Mãe, a mãe de todos nós, do passado e do futuro. Da disseminação das sementes pelos campos apreende-se que é da destruição da semente, da sua transformação, que advém o nascimento dos vegetais e cereais; e é também da morte destes  - com a colheita - que vêm as novas sementes que serão cultivadas no ano seguinte. O ciclo da vida, que paradoxalmente nasce sempre da morte, representa uma transformação constante apenas para garantir o renascer perpétuo de tudo o que morreu, um ciclo de renascimento infinito que plasma na terra o ritmo cósmico observado nos astros que, uma vez observados, na sua regularidade temporal, orientam a vida na terra garantindo o sucesso e a sobrevivência do Homem. Tudo nasce e morre, e tudo é eterno porque o processo de morte e renascimento se repete indefinidamente.
Não poderá portanto ser algo muito extraordinário observar que o ciclo nascimento - morte - renascimento representará um dos primordiais pensamentos religiosos e mitológicos da Humanidade. As constelações aparecem no céu, perfeitas na sua geometria, e com elas as alturas do ano próprias a cada actividade fundamental para sobrevivência. Será então, precisamente, do céu que vem a ordem que permite enfrentar o caos que é a vida de guerra permanente que a Terra oferece. O céu, geométrico, infalível, eterno e imutável, da sua constância divina deriva o conhecimento que permite aos homens enfrentarem as bestas e os demónios que espreitam a cada arbusto, a cada gruta, a cada pedra com a qual se cruzam. A Grande Mãe é divina porque dá vida, no entanto, apesar de obedecer aos ritmos que o cosmos divino impõe também é imprevisível: as tempestades, os fogos, os monstros, a morte. A Grande Mãe é, portanto, dual: divina, porque fértil; demoníaca, porque assassina.
Esta dualidade configura uma incerteza, uma insegurança do Homem que, frágil e nu, procura na constância cósmica as seguranças que lhe vão faltando. É um mundo mágico, o do Homem primitivo. Um mundo que vai sendo desbravado à medida que a mente inquisidora humana, sempre em busca de padrões e rotinas que possa utilizar em proveito próprio, vai atribuindo sentido e significado ao caos que impera. O caos é o desconhecido; a ordem é o reconhecido. E como a primeira ordem é a cósmica é encarnando-a que o Homem, através do ritual, procura impor a ordem no caos. É, portanto, literalmente do céu que vem o nascimento do pensamento mitológico, um pensamento que procura organizar racionalmente o transcendente mágico que o Homem, desde sempre, sentiu dentro de si.
Um bom exemplo é o mito sumério da Criação. Para lá do tradicional motivo do dilúvio (a água simboliza o caos criador do útero da Grande Mãe), a história gira fundamentalmente à volta das aventuras e desventuras de um grupo de deuses que são forçados a destruir e derrotar Tiamat, a encarnação suméria do arquétipo da Grande Mãe, que aborrecida pela cacofonia dos deuses que lhe descenderam, se prestou a destruir o mundo. Marduk, o deus que acaba triunfante, após matar Tiamat, desenha então o universo que cria utilizando como matéria prima as próprias entranhas e o sangue de Tiamat. A dualidade do mundo fica aqui bem presente: a virtude divina do criador, Marduk, e a natureza ambivalente e destruidora, demoníaca mesmo, de Tiamat como matéria base da qual o universo é feito. Melhor ainda, surge já aqui uma ideia fundamental: que a forma é divina e que a matéria é corruptível pela ambivalência e a inevitabilidade do mal. O desenho, as leis que Marduk impôs, consistem no plano divino; a matéria da qual se faz o mundo, e os homens também, não tanto, muito pelo contrário, deriva do agente que se tinha prestado a destruir a criação.
Não deixa de ser extremamente curioso como esta noção tão antiga como o tempo fez o seu caminho até nós. Primeiro, atentemos nos Gregos que, mais de mil anos depois, viram um dos seus maiores e mais influentes filósofos argumentar que existem dois mundos, o das formas e o da matéria sensível. Platão descreve o mundo das formas como sendo divino, harmónico, eterno e imutável, perfeito. As formas são boas e belas, porque o Bem e o Belo, num mundo harmónico terão que ser compatíveis: se algo fosse bom e feio haveria conflitos entre as coisas boas forçando a que os homens tivessem que escolher entre elas. O ideal platónico impede essa escolha: no mundo das ideias formais, onde a ordem impera, nada está em conflito com nada, pelo contrário. Todos os bens e valores se harmonizam numa ordem primordial que oferece sentido e significado ao mundo, um sentido e um significado que se tornam acessíveis ao Homem através da Razão.
Já a matéria de que os Homens e o mundo são feitos, uma matéria derivada à imagem das formas que lhe dão existência, essa matéria é corrupta, decadente, perene e mortal. Aí os conflitos ocorrem inevitavelmente porque as coisas existem no desconhecimento que apenas a razão permite sobre o que é o verdadeiro bem, ou o verdadeiro belo; ou seja, sobre o que é racionalmente verdadeiro. No entanto, e como espero que o texto mostre bem, a base deste racionalismo platónico é precisamente o velho ideal do cósmico e ordenado divino a dar ordem ao caótico e perene mundo material enredado no ciclo perpétuo de criação e destruição. A roupagem científica que Platão atribuiu ao seu sistema filosófico pode muito mas não consegue esconder a origem absolutamente mitológica da ideia de que há um plano existencial racional, ordenado, verdadeiro, que nos é transcendente e no qual a harmonia impera. No fundo, a ideia racionalista de que se uma coisa é racional então é necessariamente universalmente verdadeira não é muito mais do que uma reinterpretação dos mitos primitivos da criação do mundo. Marduk reencarna no plano racional enquanto que Tiamat continua a ser a essência do plano material.
O ideal racionalista, no entanto, fez o seu caminho. De Platão para o Cristianismo, primeiro com Santo Agostinho e depois com São Tomás, a coincidência das ideias de Bem e Verdade com aquilo que era Racional, foram sempre sendo defendidas. Na verdade, essa coincidência, e mais uma vez entre uma tese filosófica e um pressuposto religioso, era frutuosa: nas vestes da filosofia se oferecia confirmação à mitologia religiosa sobre a essência do mundo.
Com a revolução intelectual do Século XVI, o processo sofreu finalmente, e pela primeira vez em milénios, uma alteração. A nova ciência de Descartes e Newton via o universo como um gigante mecanismo do qual Deus seria o criador e operador. No entanto, a ideia que norteou todo o processo do Iluminismo foi precisamente o velhinho ideal racionalista de que se um preceito for demonstrado como racionalmente válido então esse preceito é universalmente verdadeiro. Do mesmo modo, para os agentes da ciência mecanicista, uma engrenagem universal terá que ser coerente entre si e, tal como Platão, não passaria pela cabeça de ninguém argumentar que uma coisa verdadeira pudesse estar em conflito com outra. O processo científico foi, como todos hoje podemos ver, muito bem sucedido: a revolução intelectual deu lugar, primeiro, à industrial e, depois, à tecnológica. No entanto, houve um passo que ficou sempre por cumprir: o da revolução moral. As regras verdadeiras que foram sendo descobertas sobre o mundo material nunca tiveram a repercussão que se imaginava vir a ter no mundo moral. As leis racionalistas sempre encontraram grandes teóricos, é verdade, e a cada vez sempre se argumentou que daquela vez é que se tinha descoberto a solução racional para a moral dos homens, sempre se fizeram grandes celebrações intelectuais, grandes movimentações políticas - e grandes mortandades humanas. Rousseau, Kant, Hegel, Marx, todos descobriram o sistema que sustenta o mundo, todos preconizaram o paraíso futuro na terra e todos, mas todos mesmo, partiram do mesmo pressuposto: que a verdadeira lei moral seria racional e, como tal, igual e harmónica para todos os homens. Ou seja, o velhinho Marduk que continua a derrotar a velhinha Tiamat e a oferecer sentido cósmico e geométrico ao mundo.
Hoje o mito ainda perdura. Onde Razão e Divindade foram criados no início dos tempos, continuamente advogados durante o milénio Cristão, vieram os racionalistas modernos agitar as águas. No entanto, apesar de retirarem a roupagem religiosa não deixaram de continuar a adorar o mesmo Deus, apenas que lhe dando o nome de Razão: nela reside a ordem do mundo, nela reside a salvação (agora tecnológica) da Humanidade, nela reside a promessa do paraíso redentor da Humanidade. Nietzsche apregoou a morte de Deus mas talvez tenha sido demasiado dramático: os homens não mataram Deus, apenas lhe mudaram o nome. E enquanto não se derrotar em definitivo a ideia de que o mundo, incluindo o moral, é sustentado por uma harmonia universal eterna, racional e imutável, naturalmente boa, a verdadeira essência do mundo continuará escondida, até porque descobrir que o mundo é fundamentalmente uma obrigação perpétua de escolha entre diferentes bens e valores, na maioria das vezes incompatíveis entre si, convenhamos, não é o melhor slogan de marqueting filosófico. Pior ainda: aceitar que a promessa de sentido e significado para a vida nunca será cumprida pela Razão, muito pelo contrário, não poderá ser nada menos além do que uma crise existencial. Mais grave será, no entanto, que enquanto perdurar o credo racionalista estará o homem forçado a colocar as suas esperanças de redenção num altar que, tal como o cordeiro bíblico, brilha muito como o ouro mas é vazio de conteúdo. Isso implica uma separação do homem face ao seu transcendente, o seu lado espiritual, o verdadeiro custo que o dogmatismo racionalista ofereceu à Humanidade: cegos pelo brilho racionalista ficam os homens cada vez mais longe da procura de um verdadeiro significado, quiçá de um Deus maior, verdadeiramente transcendente, aquele que nunca poderá ser racionalizado, por ventura apenas sentido. E enquanto assim for lá continuarão os homens, que nem D. Quixote, na luta eterna contra os demónios e males do mundo que, imaginando-os sempre lá fora, longe do seu Olimpo racionalista, nunca são capazes de identificar como estando verdadeiramente dentro de si.

sábado, 5 de maio de 2018

DA ESPECULAÇÃO

Quando, durante a segunda década do século XIX, nas palestras de Hegel sobre a história da filosofia, a propósito de John Locke, ocorreu ao alemão criticar o inglês porque não se lhe reconhecia um traço de especulação no seu trabalho, tal exercício apareceu como absolutamente natural. Especulação será, no entanto, um termo assaz interessante para utilizar como crítica filosófica porque, hoje em dia, para muitos, especular significa precisamente opinar sem qualquer base de sustentação para as opiniões que se proferem. De facto, e como se poderá verificar em qualquer dicionário, especular significa teorizar baseado em raciocínio abstracto. Ora, Hegel, na tradição decorrente do aufklärung, via o raciocínio abstracto como mais verdadeiro, ou pelo menos mais próximo da verdade, do que o mundo sensorial que era entendido como ilusório, parcial e subjectivo. É esse o legado Kantiano e, a bem dizer, com algumas excepções, a base fundamental de toda a filosofia Ocidental, um fio condutor que vai desde Platão até ao Século XX, a noção de que existe um parâmetro, ou plano, abstracto, universal e eterno que consiste na verdadeira essência racional do mundo, uma essência racional da qual decorrem as imagens, ou interpretações, que cada um de nós, condenado à subjectividade, apreende como a ilusão da realidade. A especulação será então, a forma de escapar a esta subjectividade e vislumbrar, como diria Platão, no limite do cognoscível aquilo que é verdadeiro, e portanto bom e belo. Não recorrer à especulação implica pois, para Hegel e para a tradição idealista, não transcender o mundo das sombras platónicas até ao tutano da existência, ou seja, até à verdade. Vendo por esta perspectiva, John Locke, o inventor do senso comum e um dos percursores do empiricismo britânico, não se poderia sequer qualificar como um filósofo tal como, aliás, muitos não o fizeram.
Serve esta história para ilustrar as duas tendências opostas que se gladiam no terreno da justificação do conhecimento humano: o empiricismo, baseado na observação e verificação humana, e o idealismo, baseado na especulação intelectual. Nos dias de hoje, estranhamente, ambas as ideias coabitam alegremente sem que os seus portadores se apercebam do enorme paradoxo que a advocacia de ambas em simultâneo pode  representar: por um lado, triunfou em pleno a noção racionalista de que a racionalidade humana deriva de uma razão superior, universal, que nos permite professar conclusões finais, absolutas e certas sobre os mais variados temas, incluindo os morais e políticos; ao mesmo tempo, desacredita-se tudo aquilo que não é provado como sendo factual e absolutamente demonstrado por evidência empírica e científica. No léxico comum, especular é mesmo tido como negativo, como um afastar da verdade que, naturalmente, reside na experimentação laboratorial controlada, verificada e testada. No entanto, e este é o paradoxo, acreditar que através da experiência científica se pode alcançar uma certeza sobre o mundo implica a priori um exercício de especulação: com excepção das teorias científicas que actualmente são tidas como verdadeiras todas as outras, as passadas, já foram também elas verdadeiras, apenas para se tornarem antiquadas e falsas com o passar dos tempos e com a evolução do conhecimento empírico humano. Assim, acreditar que o conhecimento que agora detemos é mais completo faz todo o sentido, tal como a evolução tecnológica o comprova, no entanto, acreditar que é certo, que é infalível porque é verdadeiro, principalmente no que concerne a vida moral e política, isso já resulta de um mero acto especulativo assente na velha crença racionalista de que aquilo que é racionalmente comprovado é forçosamente verdadeiro. Mas se há uma coisa na história humana que poderemos saber é que este pressuposto racionalista é tudo menos verdadeiro: se o fosse, pessoas igualmente racionais chegariam às mesmas conclusões sobre os mesmos problemas, algo que empiricamente sabemos nunca ter acontecido. Aliás, o bom cientista conhece muito bem a falácia racionalista e sabe perfeitamente que todo o conhecimento que temos é parcial, incompleto e passível de revisão. No entanto, no nosso zeitgeist, junta-se o melhor dos dois mundos: do especulativo retira-se a ilusão de certeza metafísica; do empírico, retira-se a confirmação prática dessa mesma certeza. Ambas estão erradas.
O mesmo se passa no plano moral e político: por um lado, tudo o que é estudo científico - “tenho aqui um estudo que prova que...” - funciona como argumento de autoridade; mas, por outro lado, ao invés de aceitar a dúvida permanente a que a observação científica e empírica do mundo obriga, também se vendem as maiores certezas morais, tão grandes ao ponto de demonizar aqueles que se atrevem a contestar as verdades adquiridas como seres malvados, ou simplesmente estúpidos, por se recusarem a aceitar aquilo que a maioria crê como verdadeiro. Esta será, aliás, a semente do totalitarismo, provavelmente o maior perigo que assola o mundo Ocidental: a certeza não é compatível com o respeito mútuo entre visões diferentes do mundo, pelo contrário, se eu tenho a certeza que estou certo então o meu adversário está errado e no mundo do certo e do errado o compromisso é impossível pois quem tem razão não vai comprometê-la com quem não a tem. A verdade não se negoceia, apregoa-se e ensina-se.
O cientismo racionalista é a ilusão de que através da ciência se podem alcançar conhecimentos absolutos e verdadeiros sobre o mundo moral dos homens. É, portanto, um enorme exercício de especulação pois que não existe absolutamente nada ao longo da história da Humanidade que sustente a tese de que conhecer algo de forma absoluta seja possível, muito pelo contrário. O facto de algo nunca ter sido bem sucedido antes obrigaria, no mínimo, a um exercício de humildade, precisamente aquilo que falta em abundância nos dias do triunfo racionalista; no entanto o oposto se verifica: o crescente abandono da noção de que o mundo, em particular o moral, é um compromisso onde o óptimo é inimigo do bom em favor da noção de que o óptimo, por ser verdadeiro, tem que ser atingido, mesmo que a expensas da realidade.
As consequências serão, naturalmente, terríveis. Pior do que nortear o caminho numa especulação será nortear o caminho numa especulação que se imagina verdadeira, e onde não se coloca a hipótese de que possa ser falsa. A seu tempo a realidade triunfa sempre apenas para que o Homem reconheça a sua falibilidade e recupere a humildade da sua condição. A arrogância da certeza, ensina-nos a história, é sempre a causa da queda. E esta será sempre tão mais alta quanto maior for a certeza que alimentou a ascensão. Esta arrogante certeza, aliás, representa precisamente o oposto daquilo que todos, bem lá no fundo, até sabemos como verdadeiro: o axioma socrático de que a sapiência virtuosa reside no reconhecimento da nossa ignorância, ou seja, que tudo aquilo que sabemos ser poderá, afinal, não ser. O futuro nos dirá quais as consequências da húbris dos homens do Século XXI, no entanto, de uma coisa poderemos estar certos: a factura virá, como sempre, sob a forma de miséria e violência.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

DOS OPRIMIDOS

Os indivíduos identificam-se com valores os quais, precisamente por serem valores, ou seja: por terem valor, representam objectivos para a vida. Diferentes pessoas oferecem valor a coisas distintas pelo que diferentes pessoas perseguem objectivos distintos, muitas vezes incompatíveis entre si. No entanto, porque os indivíduos não são gerados ex-nihilo, não provêm do nada, o facto de todos os indivíduos serem simultaneamente seres comunitários e sociais faz com que grande parte do processo de interpretação do mundo seja partilhado pelos indivíduos que pertençam a uma mesma comunidade. São esses valores partilhados, uma escala de valores portanto, que oferecem coerência de julgamento social aos indivíduos que por força das circunstâncias são forcados a viver vidas em comum. Do mesmo modo, é da confrontação entre a escala de valores comunitária e a interpretação dessa mesma escala feita por cada um dos indivíduos que se faz um processo constante de dialéctica social: com o tempo, a escala de valores vai sofrendo variações múltiplas que o debate social vai impondo. Outra forma de colocar a questão é que a vida comunitária implica uma tensão perpétua entre as tradições de uma comunidade e as inovações que os novos membros dessa comunidade querem, ou gostariam de, ver implementadas. Há, no entanto, ou pelo menos deveria haver, um fio condutor: uma ruptura abrupta da dialéctica resultaria forçosamente num desfazamento entre a nova escala de valores que é assumida pela comunidade e a velha escala de valores que formou os indivíduos que compõem a comunidade. É por esta razão que raramente as coisas mudam e que nas poucas vezes em que de facto mudam o processo nunca é pacífico: não se mudam as escalas de valores dos indivíduos de um dia para o outro. Pela mesma razão, só são pacíficas as sociedades onde as escalas de valores comunitários são de facto partilhadas pelos indivíduos, onde essa escala é absolutamente maioritária na comunidade e, muito importante, onde a escala de valores consegue acomodar a natural evolução da própria comunidade. Onde estas três características não se verifiquem a paz está ameaçada: onde não haja uma escala de valores partilhada não pode haver diálogo político pois as partes não se entendem sobre que objectivos devem perseguir, onde exista mais do que uma escala de valores em que nenhuma seja claramente maioritaria sobra um debate de surdos entre visões incompatíveis do mundo e, finalmente, onde a escala de valores sociais não seja capaz de acomodar a natural mudança que caracteriza a vida humana está-se perante uma cultura cristalizada, estática e que mais tarde do que cedo será substituída por deixar de responder à empatia dos indivíduos. Do mesmo modo funciona a sensação de opressão: o indivíduo opera em função dos seus valores e por eles é capaz dos maiores sacrifícios. A vida humana implica trabalho, esforço, angústia. Aquilo que justifica as agruras da vida é a sensação de significado, ou sentido para a vida, que perseguir os valores que cada um detém garante. É de caminharmos rumo a algo, no caso aos nossos próprios objectivos identificados pelos nossos próprios valores, que retiramos sentido para a nossa própria existência. Dessa forma, desenvolver os enormes sacrifícios a que a vida nos obriga em nome de valores que não são partilhados por nós implica viver-se num estado opressivo. É livre o indivíduo que vê impostos na comunidade à qual pertence aqueles valores que ele próprio partilha. Quando se dá um desfazamento entre os valores partilhados pela sociedade e os valores que eu partilho eu estou a funcionar num modelo que não é o meu, do qual eu não gosto, no qual não me revejo e, por essas razões, um modelo que me restringe os meus valores ou que me impõe valores que repudio, ou seja, um sistema que me oprime. Esta é a verdadeira razão pela qual na sociedade mais livre de sempre, com as maiores liberdades de sempre, tanta e tanta gente se sinta oprimida: onde não há uma escala de valores verdadeiramente compreendida, aceite e partilhada pela comunidade sobra uma aglomeração de oprimidos.

ÀS ARMAS

Graças a Deus, Portugal está cheio de patriotas. Graças a Deus, não, perdão, graças a eles: aos grandes líderes da nossa excelsa elite, da nossa grande vanguarda, tais como aqueles lutadores pela liberdade que desfilam pelas ruas e pugnam pela felicidade dos outros, não a deles, a dos outros, aqueles que procuram servir. São seres abnegados, justos, moralmente superiores pela sua humildade  que lhes permite, apesar de o saberem perfeitamente, guardar esse conhecimento para si próprios não se arvorando em mais do que os outros - os que são menos corajosos, altruístas e certos, os outros. Com os olhos fixos nos interesses supremos de todos, do todo que é o país, e não nos seus umbigos, não odeiam ninguém, não culpam ninguém, não demonizam ninguém, assumem nas suas costas os custos e as responsabilidades dos direitos e liberdades que advogam. São coerentes, responsáveis e, acima de tudo, são profundamente justos; são os guardiães do templo da felicidade futura, são eles que nos guiarão rumo à salvação. Que se cante o hino! E que se sinta o hino, como o poeta Alegre, pois que os nossos fiéis guardiães gritam conscientes pelo nosso bem, apelam às armas com garbo e, com a graça do grande fiel universal, serão eles, os nossos zeladores sem dúvida alguma!, os primeiros a marchar contra os canhões e a oferecer os seus imaculados peitos às balas dos inimigos. Que felicidade esta a de ser português. Deus os guarde, a esses ditosos bem aventurados, porque nós não merecemos tamanha fortuna.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

TOCAM OS SINOS

“Como assim, morreu?”, espantou-se ela quando lhe contei.
“É isso mesmo”, insisti, “está morta”.
“Mas não pode ser se a vejo todos dias na TV”, quase gritou a alvoroçada senhora.
“Pois, mas morreu. Só que ninguém lhe disse”. E, cheio de paciência, expliquei-lhe: “olhe, não estou a inventar. Ninguém me contou, fui eu que vi. Está morta. Mas como ninguém lhe disse continua a arrastar-se por aí, coberta de vermes e parasitas, aos tropeços, coitada, uma vergonha da qual ninguém fala porque, e esta é que é a verdade, a ninguém lhe interessa que ela morra. Punha, e ainda põe, muita comida na mesa de muita gente. Enfim, mas esfolaram-na demais. E agora que está morta aviam-se até não dar mais. No final, sobram os ossos.”
A senhora ficou calada por uns instantes. Depois disse: “bem, nada dura para sempre, é a vida.”
“Pois.”
“É capaz de fazer falta”, admitiu.
“Não sei, não. Dava muito trabalho.”
“Pena é que os vermes não morram com ela”, disse ela quase entredentes.
Concordei com a cabeça.
“Nunca morrem”, concluiu a senhora.
“Pois, claro que não.”
“Mas, pronto, diz que é assim que as coisas são, é sempre uma desgraça.”
“Já estamos habituados”, sentenciei.
“Graças a Deus.”

terça-feira, 10 de abril de 2018

SANE

"Either I alone am insane, or I alone am sane. There is no alternative, unless, as someone might say, we are all insane."

Thomas Hobbes, De Principiis & Ratiociatione Geometrarum (1666), trans. in Jesseph, Decline, p. 446, in: Anthony Gotlieb, The Dream of Enlightenment: The Rise of Modern Philosophy, Penguin Books, 2016, p. 74

quarta-feira, 4 de abril de 2018

A HISTÓRIA DE COMO ME TORNEI DEUS

Foi, creio eu, por volta dos inícios do Século XXI que a grande descoberta foi feita. O que foi a grande descoberta, pergunteis vós? Eu explico. Poucos pormenores, no entanto, que não quero aborrecer ninguém. A coisa tem que ver com células estaminais e nano-tecnologia. Vamos por partes. As células estaminais são as células embrionárias humanas que, precisamente por serem aquelas primeiras que vão dar lugar todas as outras, têm dentro de si a capacidade de se tornarem em todas as outras. Ora, a grande descoberta consistiu em desenvolvermos tecnologia que permitiu que todos os dias de manhã, ingerida uma particular dose de células estaminais, os nossos órgãos fossem regenerados. Aí é que entrou a nano-tecnologia. Nano, uma unidade de medida que se define como uma unidade dividida por um bilião, com o dealbar da física quântica e do microscópio de força atómica, passou a ser uma unidade banal no final do século XX. Utilizando óxidos de metal, com uma elaboração rapidamente estandardizada de nano-tubos, foi possível através da atribuição de cargas positivas e negativas, dar ordens a pequenos nano-robôs de carga. O que carregavam eles? Exactamente: células estaminais. Assim, porque o nano é uma unidade muito pequenina, não foi preciso muito material para fazer triliões de triliões de triliões de nano-robôs. A produção em massa permitida pelo mercado global fez com que toda a gente pudesse ingerir os nano-robôs. E o mercado capitalista concorrencial fez com que, à medida que se investia na produção, os preços baixassem gradualmente, isto até ao ponto em que toda a gente, ou praticamente toda, a população humana e não humana da Terra tivesse a possibilidade de ingerir os nano-robôs.
Foi uma questão de tempo até que se descobrisse como aliar o conhecimento genético de clonagem com a auto-produção de células estaminais dentro do próprio corpo. Assim, estabeleceram-se nos pâncreas humanos nano-centros de produção de células estaminais que os milhões de nano-robôs transportavam regularmente para todos os órgãos do corpo. Foi um sucesso. A pouco e pouco, devagar devagarinho, o processo de envelhecimento foi revertido. E a Humanidade rejubilou numa festa tremenda com a chegada da imortalidade.
A tragédia, no entanto, não abandonou logo de imediato a condição humana. Afinal, o processo nano-estaminal de reversão etária apenas funciona quando o corpo está em estado normal. Acidentes de automóvel, ferimentos de guerra e demais vicissitudes que destruam o corpo para lá do, depois apelidado, limite de capacidade regeneradora causavam a morte, uma coisa que ficou devidamente comprovada logo nesse dia de festa onde algumas centenas de pessoas acharam que a imortalidade lhes permitia atirarem-se prédios, pontes e penhascos. Não permitia, pelo menos por enquanto.
A imortalidade teve consequências engraçadas. Paradoxalmente, os casos de agorafobia subiram em massa: onde antes nas actividades mundanas se arriscavam umas dezenas de anos potenciais a atravessar a rua passaram a arriscar-se centenas ou milhares de anos. Tanto potencial não poderia ser colocado em causa por um semáforo mal regulado ou um automobilista menos talentoso. Na dúvida, mais valia não sair de casa. Outro problema foi a criminalidade. Cumprir vinte e cinco anos de cadeia para garantir uns milhões de euro-dólares para as centenas de anos que se seguiriam pareceu ser um excelente negócio para muita gente. Foram anos curiosos, muita discussão, muito debate, mas , a pouco e pouco, a coisa foi ao sítio. Para isso ajudou muito o avanço no campo da realidade virtual: rapidamente se desenvolveram plataformas digitais que, através de tecnologia laser, se comportavam exactamente como os seres humanos deitados nas câmaras de hiper-realidade digital. Foi complicado legislar sobre o que se poderia fazer e não se poderia fazer no mundo virtual mas, após uma série de referendos populares, decidiu-se, e bem, que a legislação deste novo mundo deveria funcionar de forma análoga à do mundo real. As vantagens foram muitas: criaram-se tribunais, governos, polícias virtuais; a Google fez um upload 4D para que o planeta inteiro ali fosse perfeitamente reproduzido e as pessoas, de livre vontade, contribuíam através dos seus smartphones com os interiores das suas próprias casas.
E de repente havia um mundo onde além de imortais os seres humanos se tornaram indestrutíveis.
Houve alguns problemas com hackers, é certo, e também com os "reais", aqueles que recusavam obstinadamente, na maior parte das vezes por motivações idioticamente religiosas, a viver no digital - Terra 2 como foi chamada - que, muitas vezes, se aproveitavam da imersão no digital da maioria da população para lhes roubar as casas reais. Felizmente a questão resolveu-se: com a tecnologia de reconhecimento facial chinesa, os drones americanos e o intrincado sistema de locomoção automática da Uber, os Estados uniram-se na fiscalização milímetro a milímetro do mundo real. Apenas graças a essa apertada vigilância os humanos puderam, finalmente, ser verdadeiramente livres para gozar as suas vidas virtuais. A melhor e mais sábia lei estava, no entanto, para chegar. Ainda hoje me pergunto como permitimos durante tanto tempo que "reais" andassem a causar problemas pelo planeta colocando em causa as vidas de animais e plantas. A lei de inviolabilidade do mundo real veio, pois, acabar com o regabofe em dois mil e noventa e sete: a partir dessa data foi compulsória a manifestação de vida apenas no digital. A imortalidade garantida pelo Estado, aliás como se poderia recusar tal coisa, mais a mais com o fornecimento gratuito das algálias e canalizações sanitárias que ligavam os corpos reais ao sistema de esgotos, bem como a entubagem digestiva que permitiu uma alimentação saudável e vegan a toda a gente no planeta. Enfim, a felicidade eterna, o paraíso prometido!
Os anos passaram e tudo correu bem até à grave crise do final do século XXIII, a crise existencialista como veio a ficar conhecida. A verdade é que duas centenas de anos sem guerras, sem mortes, de fausto e divino divertimento digital, duzentos anos de imortalidade indestrutível, resultaram num efeito que não estava previsto pelos modelos de gestão da Terra 2: um aborrecimento generalizado. Foi um grande choque quando se percebeu que há um limite para a quantidade de sexta-feiras à noite que se aguenta a dançar os hits da década de oitenta do Século XX. Nem o sexo desenfreado ou as drogas digitais administradas informaticamente através de códigos informáticos interpretados pelo cérebro real ajudaram. Pessoas anteriormente bem ajustadas e felizes na sua imortalidade andavam nuas a chorar pelas ruas enquanto perguntavam: o que é que isto tudo significa? Por que razão estamos vivos? E até quando temos que aguentar isto? Era deprimente, uma vergonha. Então andámos nós, os humanos, ocupados durante milénios a evoluir para criar o paraíso de Adão e Eva, uma paraíso de abundância e imortalidade, apenas para que andassem as pessoas a chorar pela dádiva que lhes tinha sido oferecida? Mas que raio de gente era aquela? Enfim, foi a eutanásia que resolveu a coisa. Primeiro não se queria implementar a política porque a perda de corpos reais e dos seus respectivos fluídos, quer de entrada quer de saída, representaria uma perturbação na estabilidade bio-química do sistema inteiro. Foi aí que a genialidade humana mais uma vez veio em nosso auxílio: eutanásia digital com coma induzido no corpo real a simular a morte.
À medida que os anos passaram os pedidos de eutanásia foram-se acumulando. Primeiro milhares, depois milhões. Com a ausência de reprodução no digital, os humanos, por vontade própria, foram-se se matando por não aguentarem o simples facto de terem que existir. Afinal, descobriu-se, para a maior parte das pessoas o que dava verdadeiro valor às suas vidas era o facto de morrerem, imagine-se a estupidez das criaturas.
Em dois mil quatrocentos e oitenta e sete sobrávamos quarenta e oito mil trezentas e vinte e duas pessoas no mundo. A maior parte de nós éramos estudantes. Apenas ávidos leitores, percebe-se agora, foram capazes de entreter-se na eternidade. Cursos atrás de cursos, debates, conferências, apenas isso permitia ocupar o tempo. Alguns artistas também: pintores, escultores, poetas que cantavam as desgraças da vida ao invés das da morte. E muitos cientistas: físicos, químicos, matemáticos e demais carolas capazes de gastar anos a matutar nos mesmos problemas. Robôs especiais no mundo real que agiam em função das ordens proferidas pelos cientistas habitantes do mundo digital permitiam que a ciência fosse avançando. Isso foi fundamental para que se criasse uma rede de satélites armados com mísseis nucleares que, já por duas vezes, salvaram as Terras da aniquilação global por força de um embate de um meteorito. Agora, sim, a protecção é total.
A tecnologia para viajar no espaço também se desenvolveu o que gerou um debate importante sobre se deveríamos enviar exploradores espaciais para descobrir novos mundos. O entusiasmo não foi grande, afinal que haverá mais para descobrir para lá da eterna imortalidade? No entanto, na dúvida e perante a insistência de alguns humanos que guardavam ainda a curiosidade própria das crianças, a coisa lá se fez. Como não sabíamos como a viagem iria correr decidiu-se recriar o sistema que tínhamos na Terra. A coisa foi mais fácil do que se imaginava: em cada nave espacial foram colocados alguns milhares de humanos reais comatosos: era preciso garantir que o sistema de inteligência a bordo tinha uma sustentabilidade auto induzida permanente e imortal. A viagem pelo espaço poderia, afinal, durar milhões de anos. E a cada nave foi designado um comandante. Ofereci-me para ser um deles. Por que razão, perguntam vocês? Simples: não tinha mais nada que fazer.
Naturalmente, a ideia de navegar sozinho pelo espaço durante milhões de anos, longe demais para comunicar com as Terras, apareceu como aborrecida a toda a gente. Foi aí que eu tive uma ideia boa e, atenção, fui mesmo eu que a tive: e se criássemos um mundo digital idêntico ao da Terra em cada nave espacial? Melhor ainda, e se a cada um desses mundos fossemos reconectando digitalmente os eutanasiados comatosos que iam na nave, sem que se apercebessem da sua condição real, não lhes oferecendo também a dádiva da vida eterna, aquela que eles rejeitaram de livre e autónoma vontade, deixando-os viver e morrer à vontade para todo o sempre? Nasceriam digitalmente, viveriam as suas vidas no planeta Terra e morreriam apenas para nascer de novo, e assim sucessivamente. A ideia foi aceite com júbilo intenso. E uns anos depois partimos.
Ao fim de uns primeiros dias de viagem em que estive ocupado com minudências operacionais, ligado o piloto automático para os próximos vinte e cinco mil anos que é a duração da viagem até ao planeta que me foi atribuído, fiquei pronto para dar início ao processo de criação planetária digital. A tarefa foi complicada pois tive que fazer tudo desde o início, para além de garantir os pormenores que comporiam a minha Terra. Alguma leniência face à original me era permitida, no entanto, o que foi bom para entreter o meu espírito criativo.
Assim, no princípio criei os céus e a terra. A terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo, mas o meu espírito pairava sobre a face das águas. Disse: haja luz. E houve luz. Vi que a luz era boa; e separei entre a luz e as trevas. E chamei à luz dia, e às trevas noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.
E depois disse: haja um firmamento no meio das águas, e haja separação entre águas e águas. Fiz, pois, o firmamento, e separei as águas que estavam debaixo do firmamento das que estavam por cima do firmamento. E assim foi. Chamei ao firmamento céu. E foi a tarde e a manhã, o dia segundo.
E depois disse: Ajuntem-se num só lugar as águas que estão debaixo do céu, e apareça o elemento seco. E assim foi. Chamei ao elemento seco terra, e ao ajuntamento das águas mares. E vi que isso era bom. E disse: Produza a terra relva, ervas que dêem semente, e árvores frutíferas que, segundo as suas espécies, dêem fruto que tenha em si a sua semente, sobre a terra. E assim foi. A terra, pois, produziu relva, ervas que davam semente segundo as suas espécies, e árvores que davam fruto que tinha em si a sua semente, segundo as suas espécies. E vi que isso era bom. E foi a tarde e a manhã, o dia terceiro.
E depois disse: haja luzes no firmamento do céu, para fazerem separação entre o dia e a noite; sejam elas para sinais e para estações, e para dias e anos; e sirvam de luzes no firmamento do céu, para alumiar a terra. E assim foi. Fiz, pois, as duas grandes luzes: a luz maior para governar o dia, e a luz menor para governar a noite; fiz também as estrelas. E pu-los no firmamento do céu para alumiar a terra, para governar o dia e a noite, e para fazer separação entre a luz e as trevas. E vi que isso era bom. E foi a tarde e a manhã, o dia quarto.
E depois disse: Produzam as águas cardumes de seres viventes; e voem as aves acima da terra no firmamento do céu. Criei, pois, os monstros marinhos, e todos os seres viventes que se arrastavam, os quais as águas produziram abundantemente segundo as suas espécies; e toda ave que voa, segundo a sua espécie. E vi que isso era bom. Então abençoei-os, dizendo: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei as águas dos mares; e multipliquem-se as aves sobre a terra. E foi a tarde e a manhã, o dia quinto.
E depois disse: Produza a terra seres viventes segundo as suas espécies: animais domésticos, répteis, e animais selvagens segundo as suas espécies. E assim foi. Fiz, pois, os animais selvagens segundo as suas espécies, e os animais domésticos segundo as suas espécies, e todos os répteis da terra segundo as suas espécies. E vi que isso era bom. 
E depois disse: Faço o homem à minha imagem, conforme a nossa semelhança; domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se arrasta sobre a terra. Criei, pois, o homem à minha imagem; homem e mulher os criei. Então abençoei-os e disse-lhes: Frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra. Disse-lhes mais: Eis que vos tenho dado todas as ervas que produzem semente, as quais se acham sobre a face de toda a terra, bem como todas as árvores em que há fruto que dê semente ser-vos-ão para mantimento. E a todos os animais da terra, a todas as aves do céu e a todo ser vivente que se arrasta sobre a terra, tenho dado todas as ervas verdes como mantimento. E assim foi. E vi tudo quanto fizera, e eis que era muito bom. E foi a tarde e a manhã, o dia sexto.
Assim foram acabados os céus e a terra, com toda a sua multitude. Ora, havendo completado no dia sétimo a obra que tinha feito, descansei nesse dia de toda a obra que fizera. Abençoei o sétimo dia, e o santifiquei; porque nele descansei de toda a obra que criara e fizera.
Foi uma experiência gira, esta a da criação. E lá me vou entretendo com as vidas e mortes dos meus humanos. Normalmente, não intervenho, apesar de o poder fazer, porque não quero que saibam de mim. As vidas deles, sabem?, são mais interessantes, porque trágicas, quando se enchem de certezas sobre tudo aquilo que acham que sabem. Aí é o melhor momento e, não invariavelmente, não consigo parar de rir, por vezes à gargalhada! Ando lá pelo meio deles, sempre disfarçado, e vou vendo o que se passa, o que fazem e não fazem, como se tratam e destratam. Ao fim de uns tempos comecei a separar os bons dos maus e a cada vida nova vou dando melhor ou pior sorte consoante os feitos das vidas anteriores. Até fiz um sistema de pontos, sabem? Enfim, há que ocupar o tempo. Afinal vinte cinco mil anos não passam assim a correr.

terça-feira, 3 de abril de 2018

A GREAT VENERATION

"I have, I must confess, a great veneration for the past. Every day, the more instructed I am by experience or the more enlightened by reflection, this veneration increases. I will say, to the great scandal of our modern reformers... that if I found a people who having been offered the most perfect of institutions, metaphysically speaking, refused them in order to remain faithful to those of its fathers, I would admire this people, and I would think it happier in its feelings and in its soul under its faulty institutions, than it could be made by all the proposed improvements.
This doctrine, I am aware, is not likely to win much favour. We like to make laws, we believe them to be excellent, we pride ourselves on their merit. The past has made itself without our assistance; nobody can claim glory for it."

Benjamin Constant, The Spirit of Conquest and Usurpation and their Relation to European Civilization, [1814], in: Benjamin Constant, Political Writings, Cambridge University Press, 1988, p. 75

sábado, 24 de março de 2018

HIDING


DA CONSCIÊNCIA

A propósito de consciência, ao contrário dos portugueses (e franceses também, por exemplo), os ingleses separaram a noção em dois termos: consciousness e conscience. O primeiro refere-se a consciência no sentido de uma entidade capaz de se reconhecer a si mesma como existente, capaz, portanto, de auto-reflexão (p.ex.: o ser humano é dotado de consciousness); o segundo, refere-se à noção de que cada um de nós responde perante a sua consciência, uma espécie de entidade que profere julgamentos sobre a rectidão ou, mais normal até, a falta dela, dos nossos actos (p.ex.: depois de não ter ajudado o A fiquei com um peso na conscience). Separar os termos faz todo o sentido: afinal, ter consciência (conscience) deriva de ter consciência (consciousness). Se é verdade que a primeira profere julgamentos, não deixa de ser igualmente válido que esse julgamento é feito sobre os actos da própria pessoa, e tanto uma como a outra, ou seja: tanto a conscience que julga uma determinada acção como a pessoa que a praticou, estão incluídas e unidas sobre a mesma consciousness. Este pormenor é curioso porque no termo consciousness está implicada a capacidade de postular o que é certo e o que é errado, enquanto que o termo conscience muitas vezes aparece como que uma entidade quase exterior ao próprio sujeito da acção que aplica esses mesmos postulados. Assim, não ter um termo para consciousness significa não ter um termo específico que traga a responsabilidade do julgamento (o postulado sobre o que está certo e o que está errado) para dentro da entidade julgadora, a conscience. De igual modo, implica partir do pressuposto que apenas por se ter a capacidade de julgar então esse julgamento será particularmente reflectido. Pode não ser. Ao mesmo tempo, a externalidade que se oferece ao paradigma certo vs. errado por não separar as duas dimensões do conceito não é benéfica: alguém habituado a obedecer a um parâmetro que não reconhece como inteiramente seu está mais atreito a deixar que outros julguem por si. Pior ainda, significa não ter um termo próprio para aquilo que é mais definidor da condição do ser humano: a sua capacidade de auto-reflexão, o ponto de partida da nossa própria existência.

FORMALISM

"What people then get used to is not so much the content of the rules, a close examination of which would always lead them into perplexity, as the possession of rules under which to subsume particulars. In other words, they get used to never making up their minds. If somebody then should show up who, for whatever reasons and purposes, wishes to abolish the old "values" or virtues, he will find it easy enough provided he offers a new code, and he will need no force and no persuasion-no proof that the new values are better than the old ones-to enforce it. The faster men held to the old code, the more eager will they be to assimilate themselves to the new one; the ease with whicli such reversals can take place under certain circumstances suggests indeed that everybody is asleep when they occur. This century has offered us some experience in such matters: How easy was it for the totalitarian rulers to reverse the basic commandments of Western morality-"Thou shalt not kill" in the case of Hitler's Germany, "Thou shalt not bear false testimony against thy neighbor" in the case of Stalin's Russia."

Arendt, Hannah, Thinking and Moral Considerations , Social Research, 38:3 (1971:Autumn), p.417

terça-feira, 20 de março de 2018

A ODISSEIA DO UROBORUS

Na Odisseia de Homero, Ulisses parte na sua aventura deixando para trás a sua mulher, Penélope. Durante vinte anos de ausência, Penélope, fiel ao seu marido, tem que idealizar diversos estratagemas para justificar a sua permanente recusa em aceitar um novo esposo. O mais famoso destes estratagemas é a célebre mortalha de Penélope: Penélope afirma aceitar um novo marido quando acabar de tecer uma mortalha para o pai de Ulisses. No entanto, esperta e virtuosa, após passar os dias a tecer, ocupava igualmente as noites a desfazer o que havia tecido durante o dia mantendo dessa forma a sua fidelidade a Ulisses.
Esta imagem de auto-destruição que permite uma perpétua criação faz lembrar muito o uroborus, o símbolo arcaico da serpente ou dragão que se alimenta a si mesma. Símbolo de imortalidade, para Jung, o uroborus representa a integração do 'eu' com o seu subconsciente, com a sua sombra, uma espécie de completude, um estado de maturação que representa o estádio máximo de individuação do ser humano. A autofagia criadora é aqui, portanto, o símbolo da auto-suficiência, da plenitude e da independência. Daí que o uroborus seja um símbolo recorrente nas mitologias antigas como exemplo da perfeição criadora divina.
No entanto, esta simbologia parte do pressuposto que falamos do sagrado, do divino. O mundo, aquilo que é, por ser perfeito e total, é necessariamente auto-suficiente: alimenta-se a si próprio eternamente; por definição, o mundo, porque compreende tudo aquilo que é, não deixa nada de fora. Não é, portanto, alimentado, depende apenas de si próprio. Contudo, se é verdade que tanto o uroborus como a mortalha de Penélope partilham um processo de certo modo auto-suficiente, também não pode deixar de ser notado que representam situações muito distintas: o uroborus representa totalidade, maturação, completude; já a mortalha de Penélope representa o vazio deixado por Ulisses, uma amputação portanto, e a ausência de movimento: Penélope está como que parada no tempo à espera do seu marido. Ela não cria, ela apenas ilude os outros de que está criando algo. O uroborus, pelo contrário, representa a ideia de transcendência em relação ao quotidiano: o eterno retorno apenas é retorno porque é eterno, divino mesmo; para Penélope nada é transcendente - a não ser, talvez, o amor a Ulisses -, nada é criador, tudo está parado à espera de Ulisses. O uroborus cria e transforma-se, integra-se; Penélope não. O primeiro realiza-se, a segunda depende de outro, um outro que lhe dá sentido e que com a sua ausência lhe causa o imobilismo.
Outro símbolo de perpétua criação e destruição é o mito de Sísifo. Aqui, o herói perpetuamente empurra uma enorme rocha pela montanha acima apenas para que ela role de novo para baixo a cada vez que o topo é atingido. Sísifo, no entanto, é condenado àquela situação e a sua condição representa uma pena infligida por outrem, no caso Zeus. O eterno labor e a inutilidade, ou falta de significado prático para a sua árdua tarefa para lá da própria condenação, representa uma metáfora para a própria existência humana: Camus explica que o sentido para uma vida forçosamente absurda passa por imaginar Sísifo, apesar de condenado, feliz. A aceitação da condenação, ou seja, da inevitabilidade da nossa condição humana, aquela de lutar e trabalhar sem que se perceba algum significado cósmico que ofereça sentido às nossas vidas será, nesta visão existencialista, a chave da felicidade. Supera-se a condenação, aceitando-a. A felicidade de Sísifo depende da máxima de Camus: "não há destino que não possa ser superado pelo desprezo" (The Myth of Sisyphus, 2005, Penguin, p. 117).
Deste modo, se virmos a questão pelo lado jungiano, a integração da sombra existencialista - a falta de sentido transcendente para a vida - passará por aceitar que a justificação que damos a nós próprios para a nossa existência é suficiente. Assim, atingimos a felicidade perpétua: sem sentido, sem significado, sem objectivo, na nossa auto-suficiência poderemos continuar o nosso labor, a nossa condenação, postulando nós próprios o nosso devir. Transcendemos o absurdo aceitando a impossibilidade do transcendente. De certa forma, esta maturação, ou individuação, representa, de facto, uma completude: nada mais precisamos além de nós próprios. Por outras palavras: o antigo divino somos nós. Onde antes éramos condenados, agora estamos libertos porque ao aceitarmos e integrarmos a nossa condição conquistamos a liberdade.
Para Nietzsche esta liberdade, no entanto, representou um perigo: se somos nós próprios que postulamos o sentido para a nossa felicidade então a fonte de autoridade - a base da moralidade, portanto - passa do transcendente, e por isso comum a todos, para nós próprios. É este perigo que Nietzsche identifica: onde Deus morreu, sobram então os homens que o mataram, e a estes, sendo subjectivos por natureza, parciais e imperfeitos, sem algo objectivo, permanente e imutável onde basear a sua moralidade, tudo passa a ser permitido. O caos, portanto.
O grande dilema da modernidade do qual Nietzsche foi presciente é precisamente este: como poderá uma civilização sem nada que a baseie sustentar-se a si própria? Será uma civilização deste tipo o uroborus? Ou, por outro lado, será que uma civilização sem base ontológica para lá do reconhecimento de que não há base possível representa uma mortalha de Penélope, ou seja, um tecido que nunca se termina, nunca se cumpre? Por outras palavras: a mera aceitação existencialista e materialista da condição humana como um fundamento para uma vida plena representará uma libertação ou, pelo contrário, apenas uma resignação?; será o pressuposto existencialista o expoente máximo do humanismo ou, por oposição, uma mera amputação face ao potencial humano?
O mundo ancestral do homem primitivo, o do uroborus, é um mundo mágico encantado por natureza: tudo ocorria sem explicação para lá da vontade desse mesmo mundo que, sendo mágico, representava uma constante manifestação divina. Os deuses encarnavam e decidiam tudo: o bem e o mal, a vida e a morte, o tempo, as culturas, a caça, a chuva e os trovões, os animais e, claro, os homens. A experiência humana desenrolava-se imersa nessa magia: inconsciente, nada se questionava, tudo era divino. Foi o monoteísmo que veio separar o campo material do divino: para Deus ficou a criação, o transcendente e o eterno; para o Homem, o material, o perene e o sofrimento. É a queda do paraíso: ao amadurecer e compreender a sua condição o Homem atribui o mágico a Deus e assume a sua condição. Emancipa-se por oposição ao divino, ainda que essa oposição seja uma oposição através da subserviência. Guarda, no entanto, a promessa de salvação: o regresso ao paraíso após a morte. Esta promessa permitiu à religião organizar a sociedade e impor hierarquia e ordem que fosse para lá do mero poder físico. Fazer o que está certo, a moral portanto, é o que permite a salvação, mesmo que esta moral, como Nietzsche também argumenta, seja uma moral ressentida - a resposta dos fracos e oprimidos face aos fortes que deles dispunham.
Este processo apenas foi aprofundado com o Cristianismo: onde antes o mundo material era apenas um deserto a atravessar para conquistar o acesso ao paraíso passou a haver valor: como poderia o mundo não ter valor se nele Deus se fez Homem? O mesmo para a criatura: se Deus se fez Homem como eu, e me chamou de irmão, como posso eu não ter valor? Esta valorização divina, este regresso do divino ao mundo material, é a chave do investimento humano no mundo: o Homem supera-se ao que o rodeia e vê-se como instrumento da obra de Deus. No entanto, para temperar esta arrogância, o Cristianismo oferece também o triunfo da noção de vítima: afinal, Deus veio ao mundo para ser crucificado na cruz.
O dualismo divino-material, apesar disto, persistiu; aliás, foi aprofundado no próprio mundo material: a Deus o que é de Deus, a César o que é de César. Onde o monoteísmo ofereceu uma separação entre o divino e o material, o Cristianismo veio oferecer valor ao Homem, ao mundo e ao trabalho do primeiro em transformar o segundo.
Abriu-se, no entanto, a porta de saída: quanto mais o Homem se valorizou, quanto mais transformou, então mais ele controlou e mais ele se arrogou. Daí que Gauchet se refira ao Cristianismo como la religion de la sortie de la religion - a religião da saída da religião. E onde antes havia dualismo, ao chegarmos ao Século XXI sobra apenas o mundo material, bem como a promessa existencialista de que tal mundo bastaria. Apesar dito, sobreviveu intacta a noção de protecção e libertação das vítimas e dos fracos ou oprimidos, em nome dos quais devemos agir e nos organizar. No entanto, com a modernidade secular, a razão de ser para a protecção dos mais fracos e desprotegidos, o Cristianismo, deixou de ser comummente aceite como o fundamento da moralidade civilizacional. O receio de Nietzsche, e para o qual ele nos alertou, foi precisamente aquele que se verificou durante o Século XX: onde mais se implementou a revolução em nome dos oprimidos e das vítimas, mais se oprimiu, matou e destruiu. Porquê? Porque nessas experiências se retirou também a base moral que protegia essas mesmas vítimas - o Cristianismo. Do mesmo modo, se explica a adesão popular a tais movimentos: porque incorporaram o discurso, apenas que meramente na forma, da mãe de todas as revoluções - a Cristã. Infelizmente a forma sem o conteúdo revelou-se como a receita perfeita da mortandade.
O dilema Nietzschiano continua bem presente entre nós, apenas que disfarçado no zeitgeist pelo manto opaco da tecnologia contemporânea. A grande revolução tecnológica que a civilização ocidental ofereceu ao mundo dotou o Homem com um devir, especialmente hoje em dia: a salvação parece estar ao virar da esquina. Hoje, quando olhamos em redor e vemos as possibilidades de transformação que a tecnologia permite, quer ao mundo quer aos próprios indivíduos, é muito difícil de aceitar a ideia de que estamos estagnados, ou decadentes. Pelo contrário, a transformação tecnológica oferece a promessa da superação da condição humana pela própria tecnologia. A investigação mais recente no campo das células estaminais, da nano-tecnologia e da robótica fazem antever um futuro não muito distante onde esperanças médias de vida exponencialmente aumentadas representam um cenário perfeitamente plausível. Haverá maior promessa de superação da condição humana do que esta? Superar a limitação física, conquistar a imortalidade, viajar pelas estrelas; que podem as antigas religiões oferecer que supere tamanha oferenda?
Hoje o mundo é mágico de novo e, ao mesmo tempo, cheio de promessas. Tudo parece ser possível: é no mundo material, no aqui e agora, que o paraíso é prometido. Onde antes Deus prometia a redenção e a salvação por caminhos misteriosos, e normalmente penosos, hoje a ciência promete facilidades, confortos e, também, salvação. Ninguém percebe bem como funciona um ecrã táctil, ou sequer a Internet ou a televisão, estas coisas simplesmente nos aparecem, é o regresso ao mundo mágico primitivo: o Éden tecnológico-digital. Ao mesmo tempo, o dualismo passa cada vez mais a existir entre o mundo material e o digital, que dele deriva; esta nossa criação onde o espaço e o tempo são conquistados e, como verdadeiros deuses déspotas, pomos e dispomos de tudo como bem entendemos. O poder humano parece, de facto, ser infindável neste admirável mundo novo. O controlo, ou a ilusão de controlo, permitem acreditar que, de facto, somos nós que imprimimos valor e sentido ao mundo.
Posto isto, a questão que eu gostaria de colocar parte da distinção com a qual comecei este texto: estaremos nós no nível de integração do uroborus ou, pelo contrário, à espera da salvação como Penélope? Para resolver o dilema de Nietzsche temos que dar resposta a esta questão. Dirão os optimistas que o uroborus está aqui: criamos, dispomos, controlamos, e aquilo que ainda não controlamos acabaremos inevitavelmente por conseguir controlar. Contudo, se bem analisarmos as coisas parece-me mais que estamos, como Penélope, angustiosamente à espera da salvação. Conceptualmente, que diferença faz se o Éden fica para lá do véu da morte ou se, mais agradável, fica no aqui e agora?
Há, todavia, uma grande diferença entre a promessa de salvação divina e a promessa de salvação tecnológica: a primeira não depende de nós, é-nos oferecida. O mundo não precisa de nós, é certo, mas nós precisamos dele. Dele dependemos. É esse mundo que nos transcende que nos ofereceu a possibilidade de existência, o dom da vida, e por mais que a venhamos a manipular no futuro é na matriz que nos foi oferecida, que nos antecede, que vamos sempre operar: por mais que sejamos criadores nunca deixaremos de ser criação. Ou seja, e por outras palavras, por mais que ofereçamos um certo sentido às nossas criações, mesmo à forma como vivemos, não poderemos alguma vez oferecer sentido à nossa própria criação: esse sentido pertence ao acto da criação, um acto no qual participámos involuntariamente, e sem dele estarmos conscientes. E disto a promessa materialista e existencialista não trata: resolve a existência mas apenas escondendo o facto da criação. Sísifo, não esqueçamos, foi condenado. E por mais que despreze a pedra que todos os dias empurra no limite das suas forças, desprezo dificilmente poderá ser a base de uma moralidade humana. O que pode o desprezo contra a tirania para além de aceitá-la? No final, onde tudo é absurdo, que diferença faz se somos livres ou se, como Wilson no 1984 de Orwell, ao sermos forçados a ser livres, acabamos a amar o nosso tirano?
A promessa do uroborus implica a ideia de completude; rejeitar meramente o transcendente escondendo o facto da criação original não é um acto de integração, muito pelo contrário, representa uma amputação. A vida é absurda porque lhe retirámos a possibilidade de poder significar alguma coisa, alguma coisa que para nos oferecer significado terá que ser, por definição, maior do que nós.
Quando bem analisada, a mensagem existencialista configura também ela uma hipótese sobre o mundo, no caso com dois postulados: o primeiro, é de que o mundo não tem significado; o segundo, é que é possível ser-se feliz sabendo que o mundo não tem significado. Ora, nem a primeira nem a segunda são fáceis de demonstrar. A primeira representa uma certeza sobre a criação do mundo que manifestamente, precisamente porque nos é transcendente, nos está vedada; a segunda representa outra impossibilidade: porque pressupõe que mesmo que o mundo não tivesse qualquer significado nós poderíamos sabê-lo.
Daqui resulta que, se é certo que a aceitação da condição humana será até parte integrante de uma receita de felicidade, a subtracção do transcendente às nossas vidas nunca poderá ser o devir do uroborus; muito pelo contrário, onde antes havia a ideia de Deus agora colocámos a ideia de ciência: ambos os conceitos dão sentido ao nosso mundo, ambos prometem o paraíso e ambos orientam a nossa vida para o futuro. A diferença, no entanto, é que o segundo, porque pressupõe que tudo do qual necessitamos está conceptualmente ao nosso alcance e existe apenas no aqui e agora, não deixa grande espaço para o transcendente; já a ideia de Deus, ou do divino, implica também a participação humana no transcendente, uma participação que se assume como parte integrante da condição humana.
Voltando ao início, a Jung e à noção de integração, no que poderá então consistir a verdadeira maturidade, aquela que integre de facto a nossa sombra e nos traga completude? E aqui parece-me que é evidente que passará muito mais por reconhecer a existência de uma componente transcendente à nossa própria condição humana, e da qual esta resulta e depende, que faz parte do nosso mundo e, portanto, de nós próprios. Este reconhecimento, que é também uma aceitação, depende directamente da noção de humildade que o absurdo até pode ser absurdo para nós mas que isso não obriga a que o seja também para o mundo. Este exercício de extrapolação é a base da Fé, é certo, mas não deixa de ser uma atitude profundamente racional: não posso professar uma conclusão sobre algo que desconheço.
Reconhecer este desconhecimento é fundamental mas é também ele muito difícil: o Homem como ser consciente que é controla o que o rodeia através da compreensão; reconhecer, e aceitar, a existência de algo que não podemos compreender, logo que estamos impedidos de controlar, é um acto de grande coragem porque implica reconhecer o abismo sobre o qual todos periclitamos.
Postular a ausência de sentido para o mundo é um acto de arrogância. Sísifo, aliás, foi condenado precisamente pela sua húbris. Não será esta ainda maior arrogando-nos de que nada mais existe com significado no mundo para além de nós próprios? E não será esta mesma noção materialista também ela um exercício de Fé, apenas que arrogantemente fundada em pressupostos postulados por nós próprios ao invés de aceitar - aceitar de facto - que a aquilo que nos transcende é também, mesmo que sem razão compreensível, aquilo que nos cria?
Integrar, ou para ser mais correcto, reintegrar o transcendente na vida do Homo Materiales será, portanto, o caminho. E, olhando para os resultados práticos no Ocidente do triunfo materialista, será também, muito provavelmente, uma necessidade: o dilema de Nietzsche está bem vivo e a demandar resposta. O uroborus, enredado que está nas teias de ilusões criadas pelos teares das Penélopes contemporâneas, continua claramente por cumprir. Contudo, uma conclusão podemos tirar: o aprofundamento da narrativa materialista apenas que afasta a possibilidade de completude. Afinal, não pode alguma vez estar completo aquilo que se vê amputado de uma parte integrante do seu ser.

segunda-feira, 12 de março de 2018

DESSINTONIA

Um tipo que esteja meio de fora, como é o meu caso, ao navegar pelas redes sociais e mediáticas portuguesas fica com uma sensação que, à falta de melhor expressão, ocorre-me qualificar de "dessintonia". Na Europa vive-se um momento de grande incerteza que, a todos os níveis, de uma forma ou outra, não deixará de afectar fortemente Portugal: por entre o Brexit de um lado e o momentum federalista das instituições do outro, por entre a recusa do multiculturalismo no leste e a adesão popular democrática aos que recusam o multulturalismo no centro-norte, por entre os dislates de, entre outros, os próprios portugueses e a impaciência das contas certas do norte, entre as espadas e as paredes, por Portugal, de Europeu discute-se a canção da Eurovisão. Ao mesmo tempo, dos EUA vêm sinais inquietantes que se aproxima uma grande crise económica que irá impactar o mundo inteiro. Já por Portugal, enquanto se assiste impávida e serenamente ao estafar das almofadas financeiras geradas com grandes sacrifícios em anos anteriores, de americano discute-se os Óscares de Hollywood. Nos entretantos, no mundo político indígena controlado por uma frente de esquerda cujo suporte parlamentar lança vivas aos passarinhos da Venezuela e aos assassinos da Coreia do Norte, o país já esqueceu os mortos dos incêndios, o mais baixo investimento público dos últimos quarenta anos, os mortos dos incêndios!, as contas para pagar nos hospitais, os mortos nos incêndios!!, as listas de espera, os mortos dos incêndios!!!, enfim, importante, importante mesmo é a bola: a bola é que mete tudo a mexer. Deve ser porreiro viver num país onde as grandes preocupações são os gemidos do festival da canção, os vestidos dos famosos americanos ou os ódios aos clubes rivais de futebol. Grave? Escandaloso? Um ex-primeiro-ministro ir dar aulas para a universidade, isso é que é grave. É mesmo um mundinho à parte, o nosso quintalinho. E quem está de fora, tal como os estrangeiros de carteiras recheadas que são acusados de destruir com o seu investimento a celebrada pobreza dos centros históricos em ruína, só pensa mesmo que tanta dessintonia é capaz até de ser uma coisa porreira. Para as férias, naturalmente.

RIVALS