Pensamento, m. - Acto ou efeito de pensar. Qualquer acto de inteligência. Fantasia. Ideia. Espírito. Uso da razão. Reflexões

sábado, maio 07, 2016

PATERNALISM

"In the world today individual stupidity and wickedness are forgiven more easily than failure to be identified with a recognised party or attitude, to achieve an approved political or economic or intellectual status. In earlier periods, when more than one authority rules human life, a man might escape the pressure of the State by taking refuge in the fortress of the opposition - of an organised Church or dissident feudal establishment. The mere fact of conflict between authorities allowed room for a narrow and shifting, but still never entirely non-existent, no man's land, where private lives might still precariously be lived, because neither side dared to go too far for fear of too greatly strengthening the other. Today the very virtues of even the best-intentioned paternalistic State, its genuine anxiety to reduce destruction and disease and inequality, to penetrate all the neglected nooks and crannies of life which may stand in need of its justice and its bounty - its very success in those beneficent activities - have narrowed the area within which the individual may commit blunders, and curtailed his liberties in the interest (the very real interest) of his welfare or of his sanity, his health, his security, his freedom from want and fear. His area of choice has grown smaller not in the name of some opposing principle - as in the ark Ages or during the rise of nationalities - but in order to create a situation in which the very possibility of opposed principles, with all their unlimited capacity to cause mental stress and danger and destructive collisions, is eliminated in favour of a simpler and better regulated life, a robust faith in an efficiently working order, untroubled by agonising moral conflict".

Isaiah Berlin, Political Ideas in the 20th Century (1950), in: Liberty, ed. Henry Hardy, Oxford University Press, 2008, p. 91

sexta-feira, maio 06, 2016

THE SHIFT

"In western Europe this tendency has taken the milder form of a shift of emphasis away from disagreement about political principles (and from party struggles which at least in part sprang from genuine differences of outlook) towards disagreements, ultimate technical, about methods - about the best ways of achieving that degree of minimum economic or social stability without which arguments concerned with fundamental principles and the ends of life are felt to be 'abstract', 'academic' and unrelated to the urgent needs of the hour. It leads to that noticeably growing lack of interest in long-term political issues - as opposed to current day-to-day economic or social problems - on the part of the populations of the Western European continent which is occasionally deplore by shocked American and British observers, who mistakenly ascribe it to the growth of cynicism and disenchantment with ideals.
No doubt all abandonment of old values for new may appear to the surviving adherents of the former as conscienceless disregard for morality as such. If so, it is a great delusion. There is all too little disbelief, whether conscienceless or apathetic, in the new values. On the contrary, they are clung to unreasoning faith and that blind intolerance towards scepticism which springs, as often as not, from an inner bankruptcy or terror, the hope against hope that here at least is a safe haven, narrow, dark, cut off, but secure. Growing numbers of human beings are prepared to purchase this sense of security even at the cost of allowing vast tracts of life to be controlled by persons who, whether consciously or not, act systematically to narrow the horizon of human activity to manageable proportions, to train human beings into more easily combined parts - interchangeable, almost prefabricated - of a total pattern. In the face of such a strong desire to stabilise, if need be, at the lowest level - upon the floor from which you cannot fall, which cannot betray you, let you down - all the ancient political principles begin to vanish, feeble symbols of creeds no longer relevant to new realities".

Isaiah Berlin, Political Ideas in the 20th Century (1950), in: Liberty, ed. Henry Hardy, Oxford University Press, 2008, p.83

sábado, abril 09, 2016

THE CHOICES

"So Marvin and I had reached a crucial point, a juncture to which full awareness inevitably leads. It is the time when one stands before the abyss and decides how to face the pitiless existential facts of life: death, isolation, groundlessness and meaninglessness. Of course, there are no solutions. One has a choice only of certain stances: to be "resolute", or "engaged", or courageously defiant, or stoically accepting, or to relinquish rationality and, in awe and mystery, place one's trust in the providence of the Divine".

 Irvin D. Yalom, Love's Executioner and Other Tales of Psychotherapy, 1989, p.260

segunda-feira, março 28, 2016

FREE CHOICES

                                                                     Daqui.

ALGUMAS NOTAS SOBRE O TERRORISMO E O MOMENTO QUE VIVEMOS

1. Em primeiro lugar, é preciso compreender, ou melhor, aceitar, que quem reivindica os atentados é o Estado Islâmico, que quem os pratica são muçulmanos e que estes assumidamente o fazem em nome do Islão. Podemos falar de muitas razões socio-politico-culturais mas, factualmente, aquilo que resume, e abarca, todo o processo terrorista é uma defesa religiosa, radical e violenta de uma religião em particular: o Islamismo. O terrorismo a que assistimos é, portanto, terrorismo islâmico.

2. Ao contrário do que muitos possam pensar o nível de sofisticação dos atentados é extremamente baixo: os explosivos são rudimentares e frequentemente nem funcionam, os planos são básicos e pouco elaborados, os meios utilizados são reduzidos e pouco imaginativos, e as capacidades técnico-tácticas dos terroristas vão pouco mais longe da vontade básica de matar o maior número possível de pessoas inocentes para obter obter maior impacto mediático possível.

3. Os bombistas assassinos têm, regra geral, um cadastro acumulado ligado ao crime: desde assaltos, homicídios, tráfico de droga, etc., e estavam no radar das autoridades. Mesmo assim não foram impedidos.

4. Os serviços de segurança e informação dos países afectados têm constantemente evidenciado uma completa incapacidade de lidar com o problema. No caso belga, o pessoal militar que foi requisitado para defender pontos estratégicos é claramente não qualificado para essas funções específicas (é normal os militares estarem a falar ao telemóvel, a trocarem SMS ou simplesmente na galhofa uns com os outros), os serviços policiais nacionais não falam entre si (um departamento da polícia já tinha a morada onde Salah Abdeslam se escondia e a informação nunca chegou a quem de direito), os serviços de informação internacionais ainda menos o fazem e os sistemas judiciais pautam-se por um ingénuo utopismo que protege mais as alegadas boas-intenções dos potenciais terroristas do que a segurança da comunidade.

5. As declarações dos líderes políticos são de choque, repúdio e surpresa mas, atente-se, sempre com a preocupação de minimizar, ou mesmo negar, a ligação umbilical entre os atentados e a componente islâmica que lhes está na génese - e que é evidente para todos. Ao mesmo tempo, vimos altos responsáveis políticos a chorar em público que, apesar de demonstrar sensibilidade e afecto, não deixa de ser um sinal exterior de imensa fraqueza. Ou seja, há uma discrepância enorme entre aquilo que os líderes dizem e fazem e o que os eleitores esperariam que dissesse e fizessem.

6. As reacções populares são igualmente de indignação mas, contrariamente aos atentados de Paris, há muito maior enfoque social e mediático na inoperância das autoridades: na verdade, já se esperavam mais atentados, a profunda e manifesta incompetência das autoridades em impedi-los é que causou verdadeira surpresa.

7. Neste momento extremam-se as posições sobre um dos pontos basilares do consenso político pós guerra fria: o Multiculturalismo. De um lado, os ingénuos, ou aproveitadores, que negam a evidência da influência cultural e religiosa na génese da barbárie assassina a que vamos assistindo e que culpam as nossas próprias sociedades livres, abertas e plurais pelos atentados (ex.: o caso do PCP português); do outro, vemos os xenófobos que tomam a parte pelo todo e que vêem nos atentados a oportunidade para justificar a expulsão de todos os muçulmanos. Ambas as posições são ilógicas, superficialmente suportadas por não-argumentos mas baseiam-se no apelo a estímulos populares capazes de fazer granjear grandes apoios: de um lado, o apelo à fraternidade e ao humanismo global, do outro o apelo à defesa e segurança das nossas comunidades. Sendo ambas as posições profundamente superficiais e generalizantes tenderão a ser, por um lado, populares e fáceis de reproduzir e, por outro lado, ao serem absolutistas na sua simplicidade, incapazes de participar em consensos e compromissos políticos.

8. A Europa do pós-Guerra Fria assentou o seu compromisso politico e social em dois pilares fundamentais: o Estado-Social e o Multiculturalismo. O primeiro, motivado por má gestão, excessivo voluntarismo e factores de insustentabilidade social (envelhecimento) e económica (ausência de crescimento económico) encontra-se em crise profunda; o segundo, ao relativizar todas as religiões a uma espécie de igualdade prática reflectida num melting pot cultural e religioso onde minorias radicais (como a Muçulmana) são paternalmente vistas como tão ou mais legítimas do que
a base tradicional Cristã da Europa (que é recusada, vilipendiada e vista como impositiva por ser maioritária), começa agora a apresentar resultados muito preocupantes. Em nome de uma igualdade multicultural, minaram-se e atacaram-se os valores tradicionalmente europeus (e que geraram as sociedades democráticas e liberais que temos) ao mesmo tempo que se toleraram os radicalismos importados de sociedades afundadas em miséria, violência e recusa completa das liberdades europeias (ex.: a condição feminina no Islão).

9. Na ausência de acção política baseada num compromisso político socialmente abrangente duas coisas ocorrem: primeiro, os extremos tomarão a iniciativa e oferecerão "soluções" a quem anda desesperadamente à procura de uma; depois, o consenso social quebra-se e a capacidade de compromisso dissolve-se. As consequências serão imprevisíveis, mas passarão sempre por: maior instabilidade política (e, consequentemente, também económica), maior crispação social e política e maior dificuldade de gerar liderança e acção políticas.

10. A UE não tem os instrumentos institucionais, a legitimidade democrática ou circunstâncias internacionais favoráveis (ex.: crise económica, crise dos refugiados, etc.) para dar uma resposta rápida, eficaz e regeneradora a este problema. Nesse sentido cada vez mais o destino da UE se jogará a cada eleição num dos seus Estados-Membros, eleições as quais já evidenciam um aumento significativo do Eurocepticismo: em França, Le Pen; na Alemanha, a AfD; na Holanda, Geert Wilders, a título de exemplo.

11. Em suma: acrescentando à banalização do terrorismo uma crise económica mundial no horizonte, a incapacidade operacional da UE, a pressão urgente da questão dos refugiados, a instabilidade política (e ascensão da extrema-esquerda) dos países do sul, a expansão dos extremos nacionalistas, a fragilidade do Euro e dos mecanismos institucionais da UE, considerando ainda que toda e cada uma destas circunstâncias alimenta as outras, podemos estar a viver um momento de rápida deterioração da UE e prestes a entrar num período de enorme mudança e incerteza. Alguém diria em 1988 que a URSS iria desagregar-se em menos de cinco anos?


sábado, março 26, 2016

ANXIETY, NEED FOR CONTROL, PERSONAL IRRESPONSIBILITY AND REVOLUTION

"Though the word responsible may be used in variety of ways, I prefer Satre's definition: to be responsible is to "be the author of", each of us being thus the author of his or her own life design. We are free to be anything but free: we are, Sartre would say, condemned to freedom. Indeed, some philosophers claim much more: that the architecture of the human mind makes each of us even responsible for the structure of external reality, for the very form of space and time. It is here, in the idea of self-construction, where anxiety dwells: we are creatures who desire structure, and we are frightened by a concept of freedom which implies that beneath us there is nothing, sheer groundlessness.
 Every therapist knows that the crucial first step in therapy is the patient's assumption of responsibility for his or hers life predicament. As long as one believes that one's problems are caused by some force or agency outside oneself, there is no leverage in therapy. If, after all, the problem lies out there, then why should one change oneself? It is the outside world (friends, job, spouse) that must be changed - or exchanged".

Irving D. Yalom, Love's Executioner and Other Tales of Psychotherapy, Penguin Books, 1989, p. 8

sexta-feira, março 11, 2016

AGES

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DA INVEJA

Poucas coisas serão mais evidentes para demonstrar a pequenez invejosa lusitana do que o achincalhar parolo da figura pouco sofisticada de Cavaco Silva. Só no país em que, a quem decide fazer, pensar ou assumir algo diferente, e que o distinga dos outros, está sempre fadado o destino da maledicência, do "puxa para baixo", do "quem é que este pensa que é para se armar em melhor do que os outros" - que não fazem nada -, apenas nesse triste país carunchado pela inveja se pode olhar para um dos melhores (e raríssimos) exemplos do self made man lusitano e, sem algum dia ter sequer chegado aos seus calcanhares, olhá-lo de cima, diminuí-lo, gozá-lo, porque, coitado, "não é ninguém" ou "não se sabe comportar". Cavaco, filho de gasolineiro, estudante aprimorado em tempos em que Lisboa ficava a um dia de viagem, triunfou na academia - doutorando-se em York com uma bolsa da Gulbenkian -, e na política. Foi o político mais influente dos últimos trinta anos, recordista absoluto do voto popular português com cinco vitórias em seis eleições, quatro dessas vitórias com mais de 50% dos votos (e a derrota com 48%). Sem ele, Portugal seria outra coisa, muito provavelmente muito pior. Por isso, querer resumir tamanha personagem aos seus modos à mesa, ou à forma como se veste, não é parolo, é mesquinho: próprio dos pequeninos que, perante a grandeza, em vez de tentarem aprender - e alçarem-se a voos mais altos - apenas ridicularizam para tentarem trazer para baixo quem se atreveu a tentar ser melhor. No país dos - como já dizia o Antero - fidalgos falidos que se escorrem pelas secretarias a mendigar tachos, Cavaco não foi apenas bom: foi genial. O resto é dor de cotovelo.

SE E QUANDO

Mais um Linhas Direitas, desta feita às voltas com os presidentes: o que saiu e o que entrou. Também disponível para download no ITunes.

sábado, março 05, 2016

SCIENTISM AND HUMANITIES

Uma palestra excelente de Roger Scruton onde desmonta as incoerências supremas da pseudo-ciência que confunde meios com fins, procedimentos com significados ou descrição com compreensão: os grandes erros dos dias de hoje bem resumidos com clareza e elegância.


JAZZ HANDS

                                                                  Daqui.

sexta-feira, março 04, 2016

O SÍNDROMA DE LAMPEDUSA

Continua a ser um mistério para mim como na cabeça de tantos críticos sobre a falta de ética, moral ou respeito social de uns quantos a solução passa quase sempre por substituir esses tais malandros que se portam mal por uns outros indivíduos que, garantem-nos eles, serão o porta-estandarte da ética, o ícone máximo da moralidade e o exemplo do respeito pela justiça social. Não compreenderão eles que tanto uns como outros não são outra coisa além de homens e que, como tal, nada mais fazem além de ser homens? A virtude não está em acusar os defeitos dos outros mas, pelo contrário, em desconfiar das virtudes de todos - incluindo de nós próprios. No entanto, é precisamente de infalíveis Torquemadas de vão de escada que se fazem os nosso dias: e no meio de tanta acusação justíssima, estranhamente, nunca lhes ocorre que limitar a injustiça dos homens passe muito mais por limitar o controle de uns sobre os outros ao invés de submeter uns e outros, cada vez mais, às sucessivas virtuosas interpretações sobre o que é a moral, a ética e a justiça . Talvez porque no fundo, bem lá no fundo, não seja bem a Justiça que os move mas apenas a substituição daqueles de quem não gostam por outros de que gostam mais - quiçá por eles próprios. No final, fica tudo na mesma.

DA INFANTILIZAÇÃO

É preciso desiludirmo-nos para aprendermos a lição mais importante da vida: que as coisas, nomeadamente os sonhos, não são, nem correm, sempre como nós quereríamos que fossem, ou corressem. Faz parte do processo de crescimento a percepção - que toma a forma de uma desilusão, sempre, uma desilusão - de que ter sol na eira e chuva no nabal é uma quimera e, como tal, algo impossível de obter. Apenas num mundo repleto de crianças explicar que o ideal não existe, que o óptimo é inimigo do bom e que este, já agora, é apenas, com sorte, amigo do possível, apenas num mundo onde este conhecimento - que deveria configurar o mais básico senso comum - está ausente do pensamento público, apenas aqui o mero acto de dizer o evidente se transforma num acto de sedição revolucionária. Mas, não nos iludamos, os revolucionários são os utópicos: revolucionários não contra aqueles que apenas se limitam a dizer que o rei vai nu mas, sim, revolucionários birrentos contra o mundo e contra a forma como as coisas são. Não espanta pois que os mais afoitos, e que mais enchem a boca com a miséria dos outros, são precisamente aqueles a quem nunca faltou nada a não ser, lá está, a desilusão. Ficaram crianças que, no seu mimo, no seu infantil egoísmo, acham legítimo impor as suas impetuosas e irreflectidas vontades, seja a bem, seja a mal, a todos os outros. No final sobrará, como sempre, a enorme desilusão, restando apenas a dúvida sobre o preço que ela custará - quer aos que se desiludem, quer aos que morrem a tentar derrotar os demónios que imaginam a cada canto, quer àqueles que - os mesmos de sempre - no final acabam a pagar a conta da brincadeira: o pagode.

quarta-feira, fevereiro 24, 2016

O VÍCIO SOCIALISTA

A propósito de uma imberbe possibilidade de colaboração com alguns colegas de outras áreas num projecto de investigação andei a ler umas coisas sobre a adição (no sentido anglófilo "addiction"). Em bom português, o vício: a forma como se apresenta, impõe e as condições onde, eventualmente, se consegue ultrapassá-lo. Na prática, o vício aparece como algo que se revela de uma forma tão forte no presente que o indivíduo, preso ao desejo momentâneo, perde a capacidade de prezar os seus próprios objectivos de longo prazo em nome dessa gratificação imediata. Assim, não será de estranhar que indivíduos que não estejam clara e fortemente comprometidos com objectivos, ou perspectivas, de longo prazo (família, sucesso profissional, alguma meta longínqua, etc.) sejam mais permeáveis a ceder ao presente: é onde o futuro não se vislumbra que o imediato se assume como uma opção mais forte, e por isso mais apetecível. Naturalmente - porque é a área que me ocupa -, algumas possibilidades como este mecanismo do vício pode ser traduzido para o campo da comunidade saltaram-me logo à mente. Por um lado, a forma como a sociedade actual onde o Estado vai progressivamente usurpando o papel anteriormente consignado à família vai nublar um dos horizontes fundamentais para impermeabilizar indivíduos mais em risco face à adição: que objectivo maior poderá haver que nos force a recusar o imediato em nome do longo termo além da responsabilidade que temos para com as nossas famílias - quer aqueles que apenas gostam de nós, quer aqueles que dependem de nós? Depois, naturalmente, ocorreu-me como o crescente papel do Estado na vida das pessoas pode legitimar-se ele próprio perante os indivíduos através de um mecanismo de adição: desde o paternalismo que promete o conforto e o alívio imediato de um problema através de uma solução legislativa até à forma como todo o discurso político se foca "nos problemas concretos dos cidadãos", ou meramente em chavões que representam programas populares - e por isso aliciantes -, mas sempre se deixa de fora a necessidade de apresentar estratégias de longo prazo credíveis, em tudo isto se manifesta o mecanismo do vício. E assim se encontra uma explicação para a facilidade com que alguns se deslumbram pelos cantos das sereias que vendem mundos perfeitos, mesmo que ainda há bem pouco tempo essas mesmas sereias os tenham deixado na mais perfeita bancarrota - ou seja numa ressaca completa. É o vício, camaradas, é o vício que os alimenta. E, como qualquer dealer numa esquina obscura, é assim que encontramos os pressurosos socialistas, perante os "clientes" bem agarrados, já nem se dando ao trabalho de mentir, disfarçar ou dourar as consequências negativas do seu produto para a felicidade a longo prazo do seu cliente. Não. É com o desprezo dos traficantes que os senhores que nos governam destilam ódio, fazem o contrário do que apregoam e, sentindo-se acima de todos, sem pudor, saqueiam a seu belo prazer as oportunidades que se lhes apresentam. É a impunidade de quem não sente que se tenha de justificar: isto porque, afinal, que mais pode um agarrado fazer além de comer e calar?

SECRET ESCAPING

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terça-feira, fevereiro 23, 2016

U Turn

O Linhas Direitas está de regresso. Neste episódio #13, eu o Afonso Vaz Pinto e o Pedro Telles lamentamos a desgraça que é a geringonça governamental, o estado e futuro mais próximo da direita em Portugal e, ainda, a eventual criação de um partido liberal em Portugal. Também disponível no ITunes.

segunda-feira, fevereiro 22, 2016

ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE A QUESTÃO LIBERAL PORTUGUESA

Tem havido nos círculos liberais um interessante debate a propósito da hipotética criação de um Partido Liberal (PL) em Portugal. Se, por um lado, a capacidade de afirmação do ideário liberal é, do meu ponto de vista, fundamental para retirar Portugal do ciclo vicioso socialista, e socializante, em que se vai afundando, por outro lado, tenho sérias dúvidas que a criação de um PL seja o melhor caminho para o fazer. As razões que me assistem nessa dúvida são primeiro teóricas e depois práticas.

No que concerne às razões teóricas preocupa-me sobremaneira uma divisão ontológica que separa liberais de uma forma fundamental, profunda e, quiçá, inconciliável, o que poderá condenar o movimento por um PL a um eterno debate autofágico, sem resolução e, consequentemente, todo o movimento ao falhanço. Como vejo a perspectiva liberal como a via para a prosperidade nacional, um falhanço estrondoso, com repercussões mediáticas, de um projecto partidário liberal pode acabar por fazer mais mal que bem à causa maior que lhe é anterior: libertar Portugal das amarras do socialismo.

A divisão ontológica, na verdade, parece-me, deriva de uma divisão que separa os indivíduos - todos, não apenas os liberais - em duas atitudes fundamentalmente diferentes perante a vida: a primeira é fundamentalmente optimista e a segunda, por oposição, assenta num pessimismo antropológico. Os primeiros crêem que os problemas da comunidade política podem ter uma resolução, uma resolução concreta que é a melhor, a mais adequada e aquela que de forma optimizada pode criar harmonia, ou pelo menos justiça, entre os homens. Essa resolução é, portanto, uma espécie de solução, em muitos casos revolucionária. E uma solução apresenta um conjunto de preceitos finalísticos, de um certo modo estáticos, que, imagina-se, ao serem aplicados levariam a uma sociedade idealizada, senão perfeita pelo menos a mais perfeita, ou justa, que se poderia obter. É o resultado final da acção liberal que imaginam: uma sociedade revolucionada, fiel e totalmente derivada dos princípios que acreditam serem os melhores.

Esta visão optimista alicerça - normal mas não exclusivamente - o seu ideário e argumentário, que muitos desejam traduzido em acção revolucionária, na razão. É através da lógica e do racionalismo que justificam os preceitos que gostariam de poder implementar e as razões pelas quais ao serem implementados seriam bem sucedidos. Do mesmo modo, através da causalidade demonstram como uma sociedade pode atingir o resultado final desde o seu momento fundador: todo o processo é lógico, calculável e o resultado final será atingido se os preceitos racionais que teorizam forem postos em prática de forma correcta. A esta posição racionalista não apelido de 'optimismo liberal' porque o epíteto 'optimismo' pode - e deve - ser recusado no que concerne aos liberais uma vez que muitos dos liberais deste tipo assentam também o seu argumentário de recusa do colectivo ou do Estado na natureza imperfeita e, imperfeiçoável, do Homem. No entanto, se por um lado é verdade que o racionalismo voluntarista antropológico deriva maioritariamente em soluções socialistas, não deixa também de ser verdade que os liberais deste tipo, mesmo que em nome da natureza imperfeita do Homem (um argumento pessimista), não deixam de apresentar soluções racionalistas e perfeccionistas. Para que não haja confusões, para efeitos desta distinção, estes dois últimos adjectivos parecem-me apropriados.

Este perfeccionismo racionalista encontra adeptos famosos à esquerda, naturalmente - e aí incluo o liberalismo igualitário Rawlsiano -, mas também em toda uma gama de adeptos do libertarianismo ou anarco-capitalismo que, apesar de advogarem o oposto do igualitarismo socialista, não deixam de utilizar argumentos do mesmo tipo: um plano revolucionário racional que se argumenta ser o melhor, ou mais justo, para o individuo - e, derivado deste, para a comunidade - mesmo que esse plano racional seja a recusa racional de toda e qualquer espécie de plano.

Do outro lado, temos os pessimistas antropológicos. Ora, esta perspectiva também não acredita no aperfeiçoamento da natureza humana mas, ao contrário dos racionalistas e perfeccionistas, também recusam que haja soluções perfeitas, ou que haja sequer formas particularmente bem sucedidas de alterar o comportamento normal dos indivíduos em comunidade: onde os primeiros advogam certezas, estes apenas encontram dúvidas. Para o pessimista antropológico, o carácter imperfeito da natureza humana implica o carácter imperfeito da comunidade política. Fica, desde logo, de parte a possibilidade de crer-se numa solução teórica óptima, ou a melhor possível, para os problemas da comunidade. Assim, tanto se recusa o voluntarismo do socialista utópico e bem intencionado como o mesmo voluntarismo utópico e bem intencionado do libertário. O resultado de uma acção liberal é, por definição, desconhecido: implica lidar com inúmeros factores imprevisíveis, com aliados e adversários inesperados e com circunstâncias incontroláveis na totalidade. Aliás, é precisamente por estas razões que desconfia do Estado e não o vê, por regra, como a melhor forma de organização social. No entanto, e fundamentalmente é isto que o separa do perfeccionista liberal, ao pessimista que não crê em soluções óptimas o resultado óptimo da sua acção está-lhe escondido.  E é precisamente este desconhecimento - a incapacidade de saber o resultado final do próprio processo liberal - que o define: enquanto que os racionalistas liberais apresentam um argumentário racional que demonstra o estado final e ideal de uma sociedade liberal, a este segundo tipo de liberal, na ausência do resultado final, sobra-lhe o ponto de partida e o processo. Do primeiro, retira aprendizagem; do segundo, retira a acção que, naturalmente, nunca será revolucionária porque esta implicaria a criação de algo que não se conhece, de consequências imprevisíveis e, eventualmente, irresponsáveis.

E o que norteia o processo? Enquanto que aos racionalistas é o mecanismo lógico, frio, causal da razão do ponto A (onde estamos) para o ponto B (o resultado final), os liberais pessimistas, sem ponto B, socorrem-se dos valores liberais que entendem que devem ser paulatinamente postos em prática, da melhor forma que seja possível, a todo e qualquer momento, e que lhes permita avançar do ponto A para um ponto indefinido no futuro que, desejam eles, seja um ponto mais liberal, porque melhor, mas sempre desconhecido e indemonstrável de forma infalível a priori. Não deixam de ser racionais na abordagem, mas na ausência de um plano total racional, sobra uma prática que entendem como razoável e que é norteada por um código de conduta (um conjunto de valores permanentes) ao invés de um plano finalístico, perfeccionista e absoluto.

A este segundo tipo de liberais que recusam planos perfeccionistas, que recusam o racionalismo absoluto e que advogam um conjunto de valores liberais que vão aplicando, de forma diferente consoante as circunstâncias, eu chamo conservadorismo liberal. Isto porque é uma postura de desconfiança (inclusive de si próprios), de prudência (não pode haver liberdade sem responsabilidade) e verdadeiramente liberal porque se recusa a aplicação total de um determinado modelo racional que limite a acção dos indivíduos a uma determinada leitura da realidade, tudo em nome de um modelo abstracto, teórico e imutável. A nota importante aqui é que um liberal deste tipo é conservador apenas neste sentido ontológico, não tem que o ser (apesar de também o poder ser, são variáveis independentes desde que não impostas pelo Estado) no sentido prático que damos ao termo, o conservador nos costumes. Uma coisa nada tem a ver com a outra.

Não será difícil de ver nas minhas palavras que eu partilho da segunda possibilidade. Acho-a preferível à primeira porque encontro no perfeccionismo liberal todos os problemas, e vícios, que vejo nas soluções perfeitas da esquerda: o voluntarismo teórico, a ingenuidade quanto à natureza humana, a abstracção da realidade da vida, o perfeccionismo impossível e a crença na salvação humana através da razão. Em suma: para mim, um verdadeiro liberal não pode ser escravo de nada, nem mesmo da razão, porque não a vê como infalível, muito pelo contrário.

Aquilo que divide estes dois tipos de liberais é tão profundo como aquilo que separa os socialistas dos liberais. É precisamente por essa razão que não acredito na practicabilidade, pelo menos nos moldes actuais, de um PL. Isto porque os liberais conservadores têm uma capacidade de compromisso, nomeadamente com os partidos da direita democrática portuguesa, que os liberais perfeccionistas não têm: os conservadores podemos vê-los inclusive (como é o meu caso) integrados, mesmo que em minoria, afastados, ou apenas como votantes, no PSD ou no CDS; já os liberais perfeccionistas, normalmente mais radicais, tendem a excluir toda a direita democrática como socialista, incluindo nesse "socialismo" os liberais conservadores que acima descrevi.

Considerando tudo isto, parece-me, os perfeccionistas terão maior entusiasmo por um PL. E se assim for esse partido será tendencialmente mais revolucionário - o que significa que será tendencialmente libertário, eventualmente anarco-capitalista - e, por essa razão, menos capaz de ser apelativo eleitoralmente e, também, menos capaz de gerar consensos internos porque existe uma elevada probabilidade de enredar-se num debate infindável sobre o grau purista da verdadeira solução liberal, ou no que consiste o verdadeiro liberalismo. E tal como à esquerda, quanto mais radicais são as posições menos se consegue vislumbrar o entendimento: da mesma forma como, em última análise a "união" das esquerdas gera um conflito irresolúvel e uma multidão de grupos e grupinhos de dimensão progressivamente mais reduzida, também o liberalismo radical encontrará o mesmo destino: apenas os perfeccionistas se preocupam em definir o que é a verdade - e todos acreditam tê-la encontrado, apenas para reconhecer que aquilo que uns encontram é fundamentalmente diferente do que os outros já encontraram.

Naturalmente as nuances serão muitas. Definir com exactidão o liberalismo e as diversas formas que este pode tomar é tarefa muito mais abrangente do que um artigo deste tipo pode fazer. Da mesma forma, serão com certeza muitas as excepções a esta dicotomia. Mas estou convencido que o perfeccionismo racionalista militante impedirá uma coligação com o liberalismo conservador, quer com aqueles que votam e participam nos partidos da direita portuguesa, quer com aqueles que não têm partido em que votar: com os primeiros a aliança falhará porque partidos como o PSD e o CDS, mesmo que com muitíssimas dificuldades, acabam por ser mais permeáveis ao liberalismo conservador que aqui descrevi do que os próprios libertários mais puristas; com os segundos a aliança falhará porque nunca conseguirão concordar no método ou em linhas programáticas partilhadas na coerência que um partido político implica.

O que fazer então? Em primeiro lugar, perceber que a questão não pode ser apenas se se deve formar um PL ou não: se alguém quiser formar um partido, e tiver condições práticas para o fazer, acabará por fazê-lo. Logo, de nada serve afirmar que não se deve fazer um partido: nenhum liberal se pode considerar dono do "movimento" liberal. A mim, enquanto indivíduo, resta-me decidir militar ou não militar, eventualmente votar ou nem sequer votar em todo e qualquer partido, isto dependente de advogar um programa com o qual eu concorde, ou aceite como preferível ou, em oposição, que rejeite como uma alternativa eleitoral não credível.

Por tudo isto, para mim, a questão essencial será muito mais como avançar a causa liberal em Portugal. E aqui parece-me que um partido (que exclui formalmente os liberais já militantes de outros partidos e, por essa razão, para ser bem sucedido deveria ter a capacidade de os atrair para as suas fileiras) poderá ser um objectivo para alguns, mas apenas a prazo e apenas em determinadas circunstâncias. A causa liberal ficaria muito mais bem servida por uma plataforma liberal que congregue massa crítica académica e partidária e que tenha a capacidade de gerar o debate, fazer propostas políticas, linhas programáticas e, inclusive, participar em eventuais coligações políticas com o PSD e\ou o CDS. Dessa forma pode influenciar-se os partidos já existentes ao mesmo tempo que se avança na solidificação de uma linha programática liberalizante que contribua de forma activa para a difusão dos princípios liberais na academia, nos media e, principalmente, na sociedade. Se essa plataforma se transformará em partido no futuro, seja ele breve ou longínquo, isso já será uma questão que, imagino, nem o mais perfeito perfeccionista saberá responder.

sexta-feira, fevereiro 12, 2016

PUBLIC BENEFIT

"Among the innumerable monuments of architecture constructed by the Romans ,how many have escaped the notice of history. how few have resisted the ravages of time and barbarism! And yet even the majestic ruins that are still scattered over Italy and the provinces would be sufficient to prove that those countries were once the seat of a polite and powerful empire. Their greatness alone, or their beauty, might deserve our attention; but they are rendered more interesting by two important circumstances, which connect the agreeable history of the arts with the more useful history of human manners. Many of those works were erected at private expense, and almost all were intended for public benefit".

Edward Gibbon, The Decline and Fall of the Roman Empire (1788)

[Wordsworth Classics of World Literature, 1998, Ch 2, p. 37]

segunda-feira, fevereiro 01, 2016

AGENTS OF HISTORY

"Their view; it is cosmic. Not a man here, a child there, but an abstraction: race, land. Volk. Land. Blut. Ehre. Not of honourable men but of Ehre itself, honour; the abstract is real, the actual is invisible to them. Die Gute, but not good men, this good man. It is their sense of space and time. They see through the here, the now, into the vast black deep beyond, the unchanging. And that is fatal to life. Because eventually there will be no life; there was once only the dust particles in space, the hot hydrogen gases, nothing more, and it will come again. This is an interval, ein Augenblick. The cosmic process is hurrying on, crushing life back into the granite and methane; the wheel turns for all life. It is all temporary. And these - these madmen - respond to the granite, the dust, the longing of the inanimate; they want to aid Natur.
And, he thought, I know why. They want to be the agents, not the victims of history. They identify with God's power and believe they are godlike. That is their basic madness. They are overcome by some archetype; their egos have expanded psychotically so that they cannot tell where they begin and the godhead leaves off. It is not hubris, not pride; it is inflation of the ego to its ultimate - confusion between him who worships and that which is worshipped. Man has not eaten God; God has eaten man.
What they do not comprehend is man's helplessness. I am weak, small, of no consequence to the universe. It does not notice me; I live on unseen. But why is that bad? Isn't it better that way? Whom the gods notice they destroy. Be small... and you will escape the jealousy of the great".

Philip K. Dick, The Man in the High Castle (1962)

[in: Philip K. Dick, The Man in the High Castle, Penguin Classics, 2001, pp. 45-6]

terça-feira, janeiro 19, 2016

CONTROL FREAKING E SOCIALISMO

A necessidade de controlo representa duas coisas: por um lado, um abdicar face ao medo, por outro um isolamento face ao mundo. Uma abdicação, porque representa a ilusão de transcendência face às potenciais adversidades: criando a ilusão de que se está no controlo, alimenta-se a utopia de que nada de mal nos vai acontecer. Lá está: o medo - em última instância da morte. Representa também um isolamento porque querermos controlar o que nos acontece implica termos que eliminar as possibilidades de imprevistos ocorrerem: e apenas retirando o mundo, e os outros, das nossas vidas (ou, pelo menos, de onde nos possam magoar) as conseguimos controlar. Apenas reduzindo as vidas a nós próprios as podemos dominar em absoluto. Naturalmente, o esforço é inglório: nem o mundo se reduz a nós próprios, nem se pode tirar satisfação de uma vida onde as ocorrências são decididas unicamente por nós próprios: é a solidão. No entanto, é dessa isolada insatisfação que se alimenta ainda mais a necessidade de maior controlo porque, precisamente, a razão inicial que levou a tudo se querer controlar foi a recusa da infelicidade, infelicidade essa que a crescente insatisfação alimenta cada vez mais. E assim, inadvertidamente, cria-se um ciclo vicioso do qual é difícil sair: quanto mais se aperfeiçoa o controlo, maior é a insatisfação - o perfeccionismo controlador deriva num processo degenerador de isolamento, insatisfação permanente e, não havendo mais ninguém para culpar, de ódio-próprio. A infelicidade é, pois, o preço que se paga pela transitória - e falsa - sensação de segurança que o controlo oferece. Nas comunidades ocorre o mesmo fenómeno. Quando a doença mental que é o controlo do mundo passa do indivíduo para a comunidade, o esforço colectivo é tão inglório quanto o individual: onde no processo individual o indivíduo perde a felicidade pela ilusão de controlo - segurança, no processo colectivo a comunidade perde a liberdade e, consequentemente, a par da possibilidade de cada indivíduo existir por si próprio, desaparece também a capacidade da comunidade gerar prosperidade (o maior garante de paz e segurança). Claro está que numa comunidade maioritariamente composta por pessoas genericamente isoladas - ignorantes face ao mundo, e profundamente influenciada por doentes do controlo, essa perda de liberdade em nome de uma segurança utópica será celebrada como o caminho da felicidade: o grande aliado do socialismo das sociedades pós-modernas é o crescente isolamento dos homens face ao mundo - e a sua arma é a oferta ilusória da salvação.

terça-feira, janeiro 05, 2016

ALGUÉM VIU POR AÍ O PROFESSOR MARCELO?

Pelo que me vai chegando - e por mais que evite acaba mesmo por chegar - o Professor Marcelo encarna na perfeição, julgo que de forma deliberada, o espírito destes nossos tristes dias vazios: não se compromete, nada afirma que lhe possa custar um votinho que seja, apenas tenta passar pela chuva sem se molhar e, por essa razão - e apenas por ela - aspira legitimamente ao mais alto cargo da república. Fica, naturalmente, a lição que o professor exemplarmente nos ensina: nos dias de hoje, fala mas não digas nada, pensa mas não contes a ninguém, age mas despercebidamente. Que nem uma enguia, com o sorriso aberto, mostra-se amigo de todos, fiel a todos - que é como quem diz que não é amigo de ninguém, muito menos fiel, a alguém além dele próprio. Se algum eleitor mais incauto ainda achava que o comentador eleitoral traria alguma coisa para este país no seu primeiro mandato que se desengane: na busca da reeleição a sua estratégia no cargo de PR será a mesma: não fazer nada, não mexer, não ofender - mesmo que isso signifique afundar o país nos braços delirantes do Dr. Costa e da extrema-esquerda. Ora, se o Sr. Professor não se digna a representar-me no seu primeiro mandato pode muito bem ficar com a certeza que não leva o meu voto na primeira volta. Isso é garantido. E se por algum milagre do destino o seu adversário na segunda volta for o Henrique Neto, olha, é como diz o outro: azarito. Para vazio já bastava o Dr. Costa e as suas "torrentes" de asneiras.

ZOMBIES AND MODERNITY (AND MICHAEL JACKSON)

"Apart from zombie films, only pornography repeats the same plot, requires no acting skills, and is watched obsessively by a mass audience. The story is irrelevant, the dialogue pointless. The fascination lies in the image, not in the characters or a narrative arc. The act holds viewers’ attention, and continues to fascinate when one actor after another performs it. (...) The closest thing to an actual zombie among prominent Americans was, of course, Michael Jackson, whose face began to fall off after too many surgeries. Jackson’s 1983 zombie video, “Thriller,” gave us the defining image of late 20th-century America: Peter Pan as zombie, the perpetual youth as a walking corpse. (...) More than any figure of popular culture in the past century, Jackson embodied the burning desire of his generation never to grow up. Oscar Wilde’s Dorian Gray had a portrait that revealed his inner decay. Michael Jackson had a nose, which narrowed, shrank, shriveled, and finally fell in, perfectly reflecting the spirit of the times. In his self-disfigurement and ultimate self-destruction, this fey child-man fought and died in the service of the mad fantasy of eternal youth.(...)We define our life by how we view our eventual death. In the Christian past, life on earth was for most people a preparation for the eternal life promised by religion. In today’s America we strive instead to perpetuate life in our own skins. (...)No wonder so many American women have come to abhor their bodies. According to the National Eating Disorders Association, anorexia and bulimia threaten the lives of ten million American women.Psychology Today reports that these disorders “afflict 40% of women at some time in their college career.” More than a third of American women are obese. We live among hordes of female zombies—anorexic zombies on Manhattan’s Upper East Side, morbidly obese zombies in Des Moines, cosmetic-surgery zombies in Southern California, and Prozac-dependent zombies coast-to-coast. The sexual revolution has transformed a frightening number of American women into the walking dead, victims of a failed social experiment. We know that the object of our narcissism will look a little worse in the mirror each day no matter how much Botox we inject. The older we get, the harder we strive to stay young, and the less convincing we find our efforts. The aging metrosexual on his way out of the plastic surgeon’s knows that he is one day closer to joining the discarded elderly, subject to the same contempt with which he regards the last generation.(...)How quaint, how superstitious these ancient notions of eternal life seem to the secular modern world, and how strange and primitive the rituals that sustained the Psalmist’s conviction that God would not abandon his servants to the grave. Modernity tells that nothing in the universe cares whether we exist or not. Where the meaning of our lives is concerned, all of us are on our own. We are enthralled by the same images, but in reverse: the walking dead in place of the dead awaiting resurrection, decaying corpses instead of wholesome priests and uncorrupted saints, the zombie herd instead of the happy pilgrimage of God’s people to the holy courts of the Temple".
           David P. Goldman, no Asia Times

segunda-feira, janeiro 04, 2016

SKILL AND PRACTICE

"And yet so sensible were the Romans of the imperfection of valour without skill and practice, that, in their language, the name of an army was borrowed from the word which signified exercise".

Edward Gibbon, The Decline and Fall of the Roman Empire (1788)

[Wordsworth Classics of World Literature, Ch 1, p. 16]


TETRASELFIE

                                                                                  Daqui.

THE MAGICAL SLUMBER

"Regarding everything, which we call by the proud metaphors “world history” and “truth” and “fame,” a heartless spirit might have nothing to say except:
“Once upon a time, in some out of the way corner of that universe which is dispersed into numberless twinkling solar systems, there was a star upon which clever beasts invented knowing. It was the most arrogant and mendacious minute of world history, but nevertheless only a minute. After nature had drawn a few breaths the star cooled and solidified, and the clever beasts had to die. The time had come too, for although they boasted of how much they understood, in the end they discovered to their great annoyance that they had understood everything falsely. They died, and in dying they cursed truth. Such was the nature of these desperate beasts who had invented knowing.”
This would be man’s fate if he were nothing but a knowing animal. The truth would drive him to despair and destruction: the truth that he is eternally condemned to untruth. But all that is appropriate for man is belief in attainable truth, in the illusion, which draws near to man and inspires him with confidence. Does he not actually live by means of a continual process of deception? Does nature not conceal most things from him, even the nearest things- his own body, for example, of which he has only a deceptive “consciousness”? He is locked within this consciousness and nature threw away the key. Oh, the fatal curiosity of the philosopher, who longs, just once, to peer out and down through a crack in the chamber of consciousness. Perhaps he will then suspect the extent to which man, in the indifference of his ignorance, is sustained by what is greedy, insatiable, disgusting, pitiless, and murderous- as if he were hanging in dreams on the back of a tiger.
“Let him hang!” cries art. “Wake him up!” shouts the philosopher in the pathos of truth. Yet even while he believes himself to be shaking the sleeper, the philosopher himself is sinking into a still deeper magical slumber. Perhaps he then dreams of the “ideas” or of immortality. Art is more powerful than knowledge, because it desires life, whereas knowledge attains as its final goal only- annihilation".

Friedrich Nietzsche, On the Pathos of Truth (1872) [link]

terça-feira, dezembro 29, 2015

PAULO PORTAS

Tirando os mal-intencionados dificilmente se poderá dizer que Paulo Portas não é um homem cheio de qualidades. Tirando os ingénuos, ou os deslumbrados, não se pode dizer que Paulo Portas não é um homem igualmente cheio de defeitos. Nos primeiros: a garra, a tenacidade, a energia, a alegria, a inteligência prática - a força; nos segundos: o oportunismo, o populismo, a maleabilidade teórica e o malabarismo ideológico - a fraqueza que teve a virtude de transformar em arma política. Das virtudes, beneficiou acima de tudo o CDS, mas também o país. O primeiro porque se viu alçado de um partido arredado do poder para os mais altos vôos políticos. Toda uma geração, hoje bem conhecida dos portugueses, faz vida, participa, trabalha para, e da, vida pública do país - e tudo isso graças ao génio de Portas, não tenhamos dúvidas. Já o país beneficiou igualmente: com um PSD por culpa própria incapaz de chegar a uma maioria absoluta sozinho, apenas com o CDS de Portas foi possível, especialmente na segunda versão, obter uma maioria estável que num momento particularmente difícil conseguiu "safar a coisa" e, de caminho, mostrar a muitos - tanto que venceram as eleições - que, e especialmente face às alternativas que agora nos governam, a direita foi, é e será o único caminho de estabilidade, seriedade e alguma remota possibilidade de prosperidade futura para o país. Já os defeitos espelham-se na mediocridade dos resultados práticos: um político brilhante? Talvez. Um reformador? Nem por isso, basta relembrarmo-nos da reforma do Estado que nunca aconteceu - nem no  papel. Um dirigente partidário de gabarito? Sem dúvida. Um homem de rasgo para o seu partido? Também. Um homem com uma visão clara para o país? Não, não mesmo: Portas foi anti-europeu, e pró-europeu. Defendeu uma visão liberal, e boicotou reformas liberais. Promoveu e deu espaço a novos liberais (Mesquita Nunes) e promoveu e deu espaço a novos-socialistas (Assunção Cristas). Aliás, e esse é o seu grande falhanço, em dezasseis anos de liderança, Portas não foi capaz de definir com força e clareza o posicionamento ideológico do seu partido: foi nacionalista, europeísta, conservador, liberal, democrata-cristão, social-democrata, tudo e o seu contrário. Do mesmo modo, à imagem do seu líder, no CDS couberam todos, desde que de direita - seja o que for que cada um entenda o que isso é. E esse é agora o principal risco que o CDS corre: um CDS de Cristas nada tem que ver com um CDS de Mesquita Nunes; um CDS de Anacoreta Correia nada tem a ver com um CDS de Nuno Melo. E, por esta razão, os apoiantes de cada uma das possibilidades verão nas alternativas que se lhes opõem o fim do partido: muito provavelmente será demasiada heterogeneidade para um partido pequeno. É comum dizer-se que após uma liderança forte e longa vem alguma espécie de caos. Portas - diz-nos ele - para evitar tal coisa ocupou-se a rejuvenescer com qualidade (o termo é "renovar") os quadros políticos do CDS. É verdade. Mas o outro lado do legado é que aquilo que foi o ás de trunfo de Portas na partidarite indígena - a sua maleabilidade ideológica - representa agora uma mão cheia de nada para o seu sucessor. A primeira tarefa no CDS deverá ser então definir se quer ser o partido do reformismo liberal que Portugal precisa ou o partido do socialismo católico. Enquanto não o fizer, na ausência de uma contribuição ideológica clara para o futuro do país, apenas o fantasma de Paulo Portas pairará sobre o abismo da guerrilha fraticida. E não esqueçamos: o homem não desapareceu - longe disso.

sexta-feira, novembro 27, 2015

25 CENTS


A GRANDE ILUSÃO

O grande erro que grassa na mentalidade europeia dos dias de hoje consiste em pensar-se que os europeus contemporâneos são melhores, e mais evoluídos, do que aqueles que há uns anos atrás se esfacelaram e estropiaram em guerras, ou purgas, causadas por ideologias que, precisamente, se consideravam também elas melhores e mais evoluídas. Por mais difícil que seja de aceitar, nem os homens de hoje são diferentes dos da primeira metade do Século XX - quer os de um lado quer os do outro -, nem as ideias salvadoras, progressistas, e igualmente redentoras, deixaram de andar por aí. Iludirmo-nos que, fruto de uma evolução positiva, ou do progresso, estamos todos, de alguma forma, mais próximos da solução, mais perfeitos ou, simplesmente, melhores, é o caminho mais acelerado para aprendermos que mundos perfeitos, ou simplesmente melhores, nunca se fazem com as mesmas pessoas. E que as pessoas, para o melhor e para o pior, são sempre as de sempre - e por isso o mundo é o que é. Precisamente por esta razão, e fruto de muita ignorância, ocupam-se agora aqueles que mais ilusões progressistas vendem a explicar que essas ilusões nunca se concretizam, não por serem irrealizáveis, mas por culpa dos malvados bandidos que rejeitam a redenção. E assim, aos gritos, a chamar nomes, a encontrar culpados e a personalizar o mal nos seus opositores, se dão os primeiros passos rumo às mesmas guerras, e às mesmas purgas, que agora, por mera soberba, parecem tão lá longe, já perdidas nas trevas de uma História julgada irrepetível. O infeliz resultado desta grande ilusão, desta enorme arrogância intelectual, é, por um lado, o síndrome do fim da História e a terrível ideia de que, uma vez alcançadas as luzes da democracia, da liberdade e da paz, estas se mantêm sem que alguém tenha que fazer algo para as manter; e, por outro lado, a rejeição progressivamente mais violenta desse mundo que é anunciado como final e que, naturalmente, como todos, estará muito longe de ser satisfatório. Deste modo, enquanto, dormentes e preguiçosos, nos refastelamos no remanescente conforto da modernidade, também nos damos ao luxo de reclamar pela perfeição, pela redenção - pela salvação -, esquecendo-nos que essa se alcança pela dedicação ao aperfeiçoamento constante, pelo diálogo aberto face a um futuro partilhado, e não pela perfeição adquirida num único passo redentor: o do estabelecimento de uma nova ordem, uma nova ordem que, precisamente, e daí a purga ser sempre necessária, não pode incluir os malvados que agora, aos olhos dos idealistas, a impedem. No entanto, como a todos os arrogantes, entre os indolentes e os conspiradores, todos ignorantes mas todos profundamente cheios de razão, aconchegados no manto ilusório da nossa orgulhosa superioridade, porque o mundo é o que é, de uma forma ou de outra, lá acabaremos todos por aprender a lição. Mais uma vez.

quinta-feira, novembro 26, 2015

LECHEROUS FEVER

"The crux of the curious difficulty lies in the fact that our conscious views of what life is ought to be seldom correspondent to what life really is. Generally we refuse to admit within ourselves, or within our friends, the fullness of that pushing, self-protective, malodorous, carnivorous, lecherous fever which is the very nature of the organic cell. Rather, we tend to perfume, whitewash, and reinterpret; meanwhile imagining that all the flies in the ointment, all the hairs in the soup are the faults of some unpleasant someone else".

Joseph Campbell, The Hero With a Thousand Faces, 2008 pp. 101-2 [1949]

KEEPING THE DIVINITY WITHIN

"In man's life his time is a mere instant, his existence a flux, his perception fogged, his whole bodily composition rotting, his mind a whirligig, his fortune unpredictable, his fame unclear. To put it shortly: all things of the body stream away like a river, all things of the mind are dreams and delusion; life is warfare, and a visit in a strange land; the only lasting fame is oblivion. What then can escort us on our way? One thing, and one thing only: philosophy. This consists in keeping the divinity within us inviolate and free form harm, master of pleasure and pain, doing nothing without aim, truth, or integrity, and independent from others' action or failure to act".

Marcus Aurelius, Meditations, II,17

COOL HAT


sábado, novembro 14, 2015

A GUERRA

O mundo ocidental está em choque com os atentados de Paris mas, infelizmente, dificilmente pode estar surpreendido. Aliás, se há coisa certa é que o grau de probabilidade de eventos desta natureza se repetirem, seja em maior ou menor escala, é muito elevado: por cada dez, cem ou mil atentados que os serviços de segurança impeçam, basta um em que os assassinos sejam bem sucedidos. E eles não vão parar. Assim, a primeira lição que intuo, mesmo que a quente, é precisamente esta: numa sociedade livre e pacífica, envolvidos numa guerra onde o campo de batalha pode ser em qualquer local, é impossível impedir com cem por cento de eficácia a morte dos inocentes. Consequentemente, o primeiro desígnio deverá sempre ser a compreensão de que não podemos deitar fora as nossas liberdades em nome de uma segurança inatingível.

Vivemos hoje, costuma dizer-se, num mundo global. É, por isso, apenas natural que numa sociedade global - a chamada "aldeia" - as coisas que dela façam parte se tornem também elas globais: as modas, os produtos, as economias - e a violência. Ao entrarmos na idade do mundo global, as imagens da barbárie assassina que antes apenas incomodavam porque transmitidas pela televisão ao horário do Telejornal chegaram, por fim, até às nossas portas. Hoje, e amanhã, porque a circulação de pessoas, bens e informação é global, e incontrolável, temos que perceber que a violência daqueles que rejeitam o nosso modo de vida para connosco é uma inevitabilidade com a qual temos que lidar.

Assim sendo, a forma como o Ocidente deve lidar com o terrorismo terá que ser forçosamente, por um lado, global - porque se trata de uma questão global - e, por outro lado, corajoso na defesa intransigente da tolerância e das liberdades - porque são estas que compõem o nosso modo de vida. Uma acção global, implica compreender que a chave do problema não reside unicamente dentro das nossas fronteiras, muito pelo contrário. Uma defesa intransigente da tolerância, implica compreender que não pode haver complacência para com os intolerantes.

Ambas as linhas de acção apenas serão bem sucedidas havendo um consenso político e social que, consciente do diagnóstico, seja capaz de agir. E, na acção, que não hesite, tropece ou desista à primeira dificuldade, ou revés. Que não fique tolhido ao primeiro sinal de impopularidade eleitoral. Por isso mesmo, apenas uma concordância amplamente maioritária nos objectivos máximos que partilhamos permitirá alcançar o desígnio último da sobrevivência do nosso modo de vida tal como conhecemos, e assente nos valores de sempre: tolerância política, liberdade, bem como a correspondente responsabilidade, individual, respeito pelos direitos dos outros e noção dos deveres para com a comunidade.

O fundamental, então, seria precisamente a capacidade de compromisso político, moderação cívica e negociação prática por parte dos centros democráticos políticos que permitisse a edificação de amplos consensos sociais. No entanto, infelizmente, aquilo que temos vindo a assistir é precisamente o oposto: sempre em busca do discurso estilo sol-na-eira-e-chuva-no-nabal que permite a sobrevivência eleitoral, e por isso mesmo constantemente derrotados pela força inexorável da realidade, os centros políticos vão-se esboroando através da descredibilidade, da alienação e, como no caso português, através radicalização utópica. Assim, vemos o centro antigamente estável, porque maioritário, crescentemente ser substituído por uma pluralidade de franjas extremistas, quer à esquerda quer à direita, em que a única coisa que partilham é precisamente a rejeição dos valores que edificaram a nossa civilização.

Não sendo nós capazes de afirmar esses pivotais valores morais, e por isso políticos e sociais, perante nós próprios, perante as nossas famílias, perante as nossas comunidades, como poderemos nós esperar outra coisa além da lenta e ininterrupta decadência face a todos aqueles que mais não querem do que assistir, e causar, a nossa destruição? A guerra está às nossas portas. E a primeira batalha é compreendermos, e aceitarmos, que temos que ser nós a lutá-la: ninguém o fará por nós. Para isso, temos que compreender o que de facto permitiu à nossa civilização ser tão bem sucedida - e defender esse tesouro com todas as nossas forças.


sexta-feira, outubro 09, 2015

O OUTONO MORNO DE 2015

Ao contrário da maioria das opiniões situadas mais à direita no espectro político que tenho ouvido, eu não partilho mesmo nada da ideia de que um governo de esquerda seria ilegítimo para Portugal. Quanto a mim, não há defraudação dos resultados eleitorais alguma, muito menos um golpe de estado. Que eu saiba, os portugueses elegem deputados, deputados esses que são donos dos seu mandato e que têm por tarefa aprovar ou reprovar um programa de Governo. Em momento algum os portugueses foram chamados a eleger um Primeiro-Ministro: isso é, e sempre foi, tarefa do Parlamento. Que a generalidade dos cidadãos pense dessa forma, isso já será uma outra questão. Agora, que não haja dúvidas: qualquer solução parlamentar que consiga aprovar o seu programa de Governo, e rejeitar todos os outros, resulta da acção democrática dos portugueses. Aliás, muito me espanta que à direita se critique tanto uma solução parlamentar PS/CDU/BE quando todos se indignaram (e bem) com a famosa dissolução de um parlamento estável, com um um Governo assente numa maioria absoluta, levada a cabo pelo Presidente Sampaio. Se os mandatos dos deputados serviam em 2005 para um Governo novo e um Primeiro-Ministro novo por que razão não haveriam de servir agora? Sejamos coerentes. Aliás, alguém terá que o ser uma vez que a esquerda certamente não o é. Senão vejamos: em 2005, a maioria de direita no Parlamento não tinha legitimidade porque os portugueses não tinham votado em Santana Lopes para PM; mas agora António Costa tem toda a legitimidade para ser PM, mesmo tendo perdido umas eleições. Porquê? Porque é de esquerda. Aliás, ainda há um ano atrás, o Governo maioritário de Passos Coelho já não tinha legitimidade democrática porque não tinha apoio nas sondagens e todos clamavam pela dissolução da AR; mas, agora, um Governo apoiado pelo PS/CDU/BE tem toda a legitimidade mesmo que tenha sido sufragado por ninguém. Porquê? Porque é de esquerda. A esquerda é incoerente por natureza: só a incoerência poderá desejar, como a esquerda dos dias de hoje deseja, ter sol na eira e chuva no nabal: querem os serviços sociais, mas não querem pagar por eles; querem os direitos todos para todos, mas sem os correspondentes deveres; querem a solidariedade europeia, mas sem prestar contas a ninguém; e, naturalmente, acham também que podem ter uma coligação política onde se misturam um bando de lunáticos revolucionários anti-euro, anti-UE, anti-NATO e, lá está, anti-realidade, com um conjunto de socialistas moderados, europeístas convictos e portadores - sendo certo que numa dose limitada - de alguma réstia de bom-senso. Naturalmente, como tudo o resto, tal projecto é impossível - mesmo que democrático. Isto porque nem tudo o que é democrático é bom, uma lição que apenas fará bem aos portugueses para que passem a pensar duas vezes antes de oferecer mais de 15% dos votos à extrema-esquerda radical. Deixemos, portanto, a loucura para os loucos. Que chafurdem nela à vontade porque, e isto vale sobretudo para o PS, quanto mais o fizerem mais reforçarão a votação da PAF nas próximas eleições. Aliás, já foi esse chafurdanço que os fez perder as eleições legislativas agora: ao quererem competir com a extrema esquerda pelos 5% que andam ali entre o PS e o BE, perderam os 20% que andam entre o PS e o PSD. Claro está que os socialistas não percebem isto, pelo menos os mais excitados - que são muitos. Nos entretantos, das duas uma: ou daqui por uns dias lá andará o Dr. Costa a viabilizar, que é como quem diz a emperrar, o Governo PAF ou, num cenário em que o PS entre na insanidade completa de se colocar nas mãos de radicais de extrema-esquerda (que nunca quererão por seus impolutos rabos em assentos ministeriais) para governar, lá assistiremos aos ratings, juros, bancarrotas diversas, tudo muito rápido, tudo coisas do campo do real, uma coisa com a qual a actual esquerda tem muita dificuldade em lidar. No final, apenas variará o grau de repúdio dos portugueses face ao Dr. Costa, o grau de descrédito do PS ao centro e, consoante o peso na carteira, o número de arrependidos por no passado dia 4 não terem ido votar na PAF. Se o Dr. Costa pensa que com este jogo assusta o impassível Passos Coelho, está muito enganado. O irrevogável Paulo Portas explica.

sábado, setembro 19, 2015

PARA OS ANTI-PARTIDOS

Antes, o problema era a monarquia e a utopia era a república. Depois, o problema era a república e a solução era a ditadura. A seguir, a ditadura era a vergonha e a democracia o futuro risonho. Agora, são os partidos que são maus e a salvação será um novo sistema. No meio disto tudo sobra uma dúvida: como fazer esse sistema novo funcionar se é feito com os mesmos monárquicos, republicanos, ditadores e democratas de sempre?

quinta-feira, setembro 17, 2015

FARPAS (IV)

"Todos os jornaes, na epoca de eleições, teem os seus candidatos predilectos. Os jornaes franceses lançam os nomes d'esses á adesão publica, no alto da pagina, em typo enorme. Os jornaes portuguezes é n'uma prosa dormente que os aconselham, com recato".

[Junho 1871]

Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre (1890)

FARPAS (III)

"Na acção governamental as dissenções são perpetuas. Assim o partido histórico propõe um imposto. Porque, não ha remedio, é necessario pagar a religião, o exercito, a centralisação, a lista civil, a diplomacia... - propõe um imposto.
«Caminhamos para a ruina! exclama o presidente do conselho. O deficit cresce! O paiz está pobre! A unica maneira de nos salvarmos é o imposto que temos a honra, etc...»
Mas então o partido regenerador, que está na oposição, brame de desespêro, reune o seu centro. As faces luzem de suor, os cabelos pintados destingem-se d'agonia, e cada um alarga o callarinho na attitude d'um homem que vê desmoronar-se a patria!
- Como assim! - exclamam todos - mais impostos!?
E então contra o imposto escrevem-se artigos, elaboram-se discursos, tramam-se votações! Por toda a Lisboa rodam-se carruagens de aluguel, levando, a 300 réis por corrida, inimigos do imposto! Prepara-se o cheque ao ministério histórico... Zás! Cae o ministério histórico!
E ao outro dia, o partido regenerador, no poder, triumphante, occupa as cadeiras de S. Bento. Esta mudança alterou tudo: os fundos desceram mais, as transacções diminuiram mais, a opinião descreu mais mais, a moralidade publica abateu mais - mas finalmente cahiu aquelle ministerio desorganisador que concebera o imposto, e está tudo confiado, esperando.
Abre a sessão parlamentar. O novo ministerio regenerador vae falar.
Os senhores tachygraphos aparam as suas pennas velozes. O telegrapho está vibrante de impaciencia, para comunicar aos governadores civis e aos coroneis a regeneração da patria. Os senhores correios de secretaria teem os seus corceis sellados!
Porque, emfim, o ministerio regenerador vae dizer o seu programma, e todo o mundo se assôa com alegria e esperança!
- Tem a palavra o sr. presidente do conselho.
- O novo presidente: «Um ministerio nefasto (apoiado, apoiado! exclama a maioria historica da vespera) cahiu perante a reprovação do paiz inteiro. Porque, senhor presidente, o paiz esta desorganisado, é necessario restaurar o crédito. É a única maneira de nos salvarmos...»
Murmurios. Vozes: Ouçam! Ouçam!
«...É por isso que eu peço que entre já em discussão... (attenção ávida que faz palpitar debaixo dos fraques o coração da maioria...) que entre em discussão - o imposto que temos a honra, etc. (apoiado! apoiado!)».
- «Meus senhores, diz o presidente, com voz cava - o paiz esta perdido! O ministerio regenerador ainda hontem subiu ao poder, e doze horas depois já entra pelo caminho da anarchia e da oppressão propondo um imposto! Empreguemos todas as nossas forças em poupar o paiz a esta ultima desgraça! - Guerra ao imposto!...»
Não, não! com divergencias tão profundas é impossivel a conciliação dos partidos!"

[Maio de 1871]

Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre (1890)

FARPAS (II)

"Este caldo é o Estado. Toda a nação vive do Estado. Logo desde os primeiros exames do lyceu a mocidade vê n'elle o seu repouso e a garantia do seu futuro.  A classe eclesiástica já não é recrutada pelo impulso de uma crença; é uma multidão desoccupada que quer viver à custa do Estado. A vida militar não é uma carreira: é uma ociosidade organisada por conta do Estado. Os proprietarios procuram viver á custa do Estado, vindo ser deputados a 2$500 réis por dia. A propria industria faz-se proteccionar pelo Estado e trabalha sobretudo em vista do Estado. A imprensa até certo ponto vive tambem do Estado. A sciencia depende do Estado.  O Estado é a esperança das familias pobres e das casas arruinadas. Ora como o Estado, pobre, paga probremente, e ninguém se pode libertar da sua tutela para ir para a industria ou para o commercio, esta situação perpetua-se de paes a filhos como uma fatalidade. Resulta uma pobreza geral".

[Junho de 1871]

Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre (1890)

FARPAS

"O paiz perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por unica direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já não se crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprêzo pelas ideias augmenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença, de cima abaixo! Todo o viver espiritual, intelectual, parado. O tédio invadiu as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína economica cresce, cresce, cresce... O commercio definha. A indústria enfraquece. O salário diminue. A renda diminue. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo".

[Junho de 1871]

Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre (1890)

THE FIRST PHILOSOPHER

                                                                     Daqui.

terça-feira, julho 14, 2015

A GRÉCIA E O EURO: REALISMO VS IDEALISMO

Neste momento, existem, grosso modo, duas narrativas antagónicas que procuram justificar a realidade e, naturalmente, oferecer uma solução para os predicamentos que atravessamos, em particular, a crise do Euro, da Grécia e das dívidas públicas. A primeira narrativa, chamemos-lhe a realista, ocupa-se em dizer que existe um problema de desequilíbrio orçamental,  que é preciso colocar as contas em ordem, que não vale a pena chorar pelo leite derramado, e que não se pode ir contra a realidade dos factos. A segunda narrativa, chamemos-lhe a idealista, vê as coisas de outra forma: mais do que o problema dos desequilíbrios orçamentais, o que realmente conta é o bem-estar, ou a minoração das consequências negativas, das e para as populações. A vida, dirá um idealista, mais do que números ou gráficos de economia, são as pessoas. E a obrigação dos governantes é a de garantir a sua protecção, segurança e bem-estar. Depois, a cisão aprofunda-se quando instados a analisar as causas do problema. Para um realista é simples: a Grécia tem uma economia fechada, pouco competitiva, pejada de interesses particulares que controlam um Estado imenso, clientelar e corrupto. Dessa forma, utilizou o crédito barato que a pertença ao Euro permitia e, por forma a sustentar todos esses vícios, foi gastando mais do que podia, gerando dessa forma uma enorme dívida que num momento de crise se revelou grande demais para sustentar, levando à inexorável falência. Para um realista, o responsável pela situação é o Estado grego. Já o idealista tem uma visão mais complicada. Para ele, a dívida é criada pelo Estado grego, isso é certo, mas é criada para fazer face às diferenças económicas que permitiam a um alemão, por exemplo, viver muito melhor do que um grego, antes da adesão à moeda única. E, considerando que o Euro permitiu a criação de muita riqueza aos alemães (através da exportação de bens para os países que se endividavam a comprá-los) a expensas do aproveitamento da submissão económica da periferia, então, conclui essa perspectiva, a participação no Euro encerrou uma grande vantagem para os alemães, uma vantagem que deve justificar a solidariedade que se exige agora para que países como a Grécia não sucumbam à miséria. Desta forma, mesmo que resumido, é possível perceber-se que o ênfase das duas visões está centrado em valores muito diferentes: por um lado, o realista, coloca o ênfase na responsabilidade individual de cada Estado, neste caso o grego; já o idealista, por outro lado, coloca o ênfase no facto de o Euro ser um projecto Europeu e, como tal, considera que o valor da solidariedade europeia é o vector fundamental para ultrapassar a crise. Ora, não é à toa que a colisão se faz, não em ideias, mas em valores: de um lado o valor da responsabilidade individual de cada Estado está, naturalmente, ligado à noção de soberania nacional; já do outro lado, como evidente será, o valor da solidariedade europeia está directamente ligado à noção de uma Europa mais integrada, se não mesmo federal. O problema adensa-se quando muitos dos realistas se revelam federais e muitos dos idealistas, por ventura a maioria até, se assumem ferozes proponentes da soberania nacional (contra o Diktat de Bruxelas ou Berlim) - veja-se o discurso do PM grego Tsipras. A causa verdadeira para esta salgalhada é simples. A UE, e o Euro em particular, representam, neste momento, uma tensão entre soberania nacional e um sistema federal. E se é verdade que, até há alguns anos atrás, os dirigentes dos Estados-Membros pareciam saber para onde queriam ir, já no momento actual fica patente que, mais do que tudo, aquilo que falta à UE é precisamente a capacidade de saber dizer que rumo político pretende tomar. O Euro é a prova disso mesmo: por um lado, temos uma moeda única que, em si mesma, representa um instrumento federal. A moeda é uma condição de soberania e um país que não disponha de uma moeda própria que possa valorizar ou desvalorizar, imprimir ou trocar, é um país que não é inteiramente soberano. No entanto, e este é o cerne do problema, a UE tem uma moeda única, é certo, mas um enorme conjunto de instrumentos de governação altamente responsáveis por de facto oferecer, ou retirar, valor a essa mesma moeda única permaneceram nacionais - a começar pela possibilidade prática de geração de défices e de criação de dívida pública. Se, é certo, tanto realistas como idealistas têm razões válidas no seu argumentário, na minha visão muito mais os primeiros do que os segundos, não deixa de ser verdade também que a génese do problema se encontra neste desequilíbrio estrutural no seio da união monetária. A questão passa a ser, então, como resolver o impasse institucional. E, aqui, é que é preciso que se tenha a capacidade de gerar o verdadeiro compromisso - um compromisso para a próxima geração - que seja capaz de definir o rumo político da UE. Das duas, uma: ou seguimos o caminho da responsabilidade individual dos Estados - e aí o Euro será, consequentemente, um projecto falhado; ou, em alternativa, o caminho da integração europeia - e aí é preciso que se assuma que o custo da solidariedade europeia é o da integração política e o do abandono da soberania nacional em matérias orçamentais. Mas, como tudo na vida, a escolha impõe-se: sol na eira e chuva no nabal é coisa que não será possível. E, naturalmente, cada opção terá os seus custos e as suas necessidades. Aceitar que o Euro falhou e o caminho é o de regresso à CEE implica todo um processo gradual de governação europeia para garantir que os países com economias mais frágeis conseguem fazer uma transição tranquila rumo ao pós-Euro. Já o avanço para uma solução de integração económica mais profunda parece-me impossível no actual quadro institucional da UE, ou seja, e aqui tanto realistas como idealistas haverão de concordar, não poderão haver mais transferências de poder para os burocratas de Bruxelas: a haver mais integração política exige-se uma reformulação do sistema político europeu, uma reformulação que seja capaz de trazer para Bruxelas a legitimidade democrática dos povos que esta pretende governar. Nenhum dos dois caminhos se apresenta fácil.

FINANCE FAIRY TALES



quarta-feira, julho 01, 2015

A NETFLIX, O UBER E OS CHICOTES

Saiu um estudo que vem mostrar o impacto fortíssimo que o serviço de streaming online Netflix veio causar no até aqui pacato mundo dos pacotes de televisão por cabo, e não só. Ora, muito pouca gente, com a natural excepção dos milionários gestores que são pagos principescamente pelos seus patrões para os assegurar que o seu negócio está de sã e duradoura condição, poderá ficar admirado com a novidade. Aliás, eu próprio, que já há mais de cinco anos deixei de ter a minha televisão ligada a um serviço de cabo para a ter ligada a um computador, só me admiro pelo atraso. Não apenas a net apresenta soluções mais baratas, mais versáteis e abrangentes, como os serviços de cabo apenas se concentraram - um erro que se verificará fatal - em oferecer quantidade ao invés de boa qualidade. Para que quero eu pagar por centenas de canais se, na sua maioria, são todos maus? E os poucos que apresentam programação de qualidade dificilmente apresentarão conteúdos que não estejam já disponíveis na internet. Naturalmente, a (i)legalidade do estatuto das conexões peer to peer (P2P) foi responsável por afugentar muitos potenciais utilizadores, por essa razão, é aqui mesmo que surge a Netflix: uma solução barata, versátil, abrangente e legal. Disponível por cerca de 25% do preço de um pacote de cabo tradicional, com uma gama de oferta do mesmo nível e, para todos os gostos, sem constrangimento de horários, boxes ou mais ou menos competentes instaladores técnicos, com a simplicidade da inovação assim se torna obsoleta de um dia para o outro uma indústria inteira. E, não perdendo tempo, a Netflix - uma empresa que começou por enviar DVD por correio - já prepara o golpe fatal: séries canceladas por canais generalistas sujeitos ao jugo do sensacionalismo publicitário dos reality shows ganham agora vida nova ao serem produzidas pela própria Netflix. Mais: séries consagradas como House of Cards são já produzidas, desde a nascença, pela sua própria mão. Não será difícil de antecipar aquilo que já é evidente há vários anos: os serviços de televisão estão obsoletos e serão engolidos pela internet. A razão da derrota é simples: enquanto que a televisão por cabo é formatada para a multidão, o serviço de streaming é formatado por cada um, de acordo com a sua vontade e com os seus horários. É o triunfo da liberdade individual face a soluções centralizadoras, mesmo que, diziam elas, fossem soluções que se procuravam acima de tudo com a satisfação dos seus clientes. Eu não sei se o leitor terá lidado directamente com o serviço de uma operadora de cabo, mas eu que já tive digo com muito à vontade: nunca senti que fosse o meu interesse que estava a nortear a acção daqueles senhores. Mas, e aqui é que a coisa se torna interessante, o mesmo que se passa no mundo dos conteúdos audiovisuais passa-se noutros mundos também: o que é o serviço Uber senão precisamente uma espécie de Netflix para o campo do aluguer de veículos automóveis com motorista? O Uber providencia o mesmo serviço que os táxis, mas muito mais barato, de forma descentralizada (a ligação faz-se directamente entre conduzido e condutor), com maior responsabilidade na conduta de parte a parte (ambos se avaliam mutuamente numa avaliação que produz um rating público) e, cereja no topo do bolo, de uma forma muito mais cómoda onde o pagamento faz-se de forma virtual sem troca de cash. É, como será evidente, o futuro e, por essa mesma razão assistimos a dois fenómenos: por um lado, os utilizadores encantados da vida porque sentem que ganharam muito com este novo serviço; e, por outro lado, os senhores taxistas que, também eles antecipando a melhoria efectiva que a Uber oferece, se sentem ameaçados na sua posição e respondem com o desespero da violência, perseguição e ameaça. Tal como no mundo dos conteúdos audiovisuais também a Uber, ou algo do género, acabará por triunfar: é esse o caminho natural das coisas quando se oferece um serviço melhor, mais barato e prático e que, por essas razões, representa uma melhoria para os cidadãos. Mas, no entretanto, vemos tudo o que são corporações taxistas a gritarem contra a Uber porque esta não segue as regras que são impostas aos taxistas normais. E, por isso, gritam eles, a Uber é que está a errada. Curiosamente, não se ouve vivalma a gritar contra as regras que impedem os taxistas de serem competitivos contra os Uber. E a razão é simples: é que são essas mesmas regras que protegem os taxistas de outras pessoas que gostariam de ser taxistas também. Este exemplo de corporativismo centralista é o que está posto em causa pelas novas soluções que começam a aparecer fruto da revolução cibernética. E passará muito pelos cidadãos, sendo eles eleitores, ter a capacidade de puxar estes temas para a arena do debate público: afinal queremos ter o Estado a proteger os interesses das corporações, ou os interesses dos cidadãos? Termos a Uber proibida para proteger os taxistas faz tanto sentido como termos a Netflix proibida para proteger a RTP, a SIC e a TVCABO. Ou seja: não faz sentido nenhum, e não interessa a ninguém a não ser àqueles que vivem dos serviços que o tempo, e a falta de concorrência, se encarregou de tornar caducos, desactualizados e moribundos. E enquanto os taxistas vão partindo a loiça toda gritando em desespero, isto ao mesmo tempo que as polícias e os tribunais os protegem (enquanto mandam prender, proibir, etc. o Uber por essa Europa fora), eu vou-me lembrando da indústria dos chicotes: também um dia muita gente vivia da produção de chicotes, elemento fundamental ao bom controle de carroças e cavalos, mas, como tudo na vida tem um fim, também veio o dia em que apareceu o automóvel - e os chicotes foram substituídos por buzinas. Tal como a indústria do chicote não conseguiu proibir os automóveis, também esta tranquila revolução contra as vicissitudes do centralismo será bem sucedida. Haja, por isso, alguma coisa por que suspirar no futuro. E saibam os cidadãos impor estes temas na agenda política.

PORTUGAL NÃO É A GRÉCIA?

À medida que vamos vendo a Grécia saltitar no arame sobre o abismo da miséria e falência generalizada, o velho slogan "Portugal não é a Grécia" vai parecendo cada vez mais longínquo. Nos últimos anos, ao contrário dos gregos, os portugueses conheceram estabilidade governativa, vários sinais encorajadores de recuperação económica e, mais significativamente, uma recuperação quase mágica na aceitação dos seus títulos de dívida pública nos mercados internacionais. Naturalmente, o pico da crise parece agora longe, coisa dos anos anteriores e - tal como de bom grado a maioria dos portugueses faria com o prisioneiro quarenta e quatro de Évora - uma memória que se deixaria esquecida, por vergonha, numa qualquer gaveta fechada a sete chaves que rapidamente se poderiam deitar fora. No entanto, e como qualquer espectador poderá facilmente aferir, incluindo eu aqui neste mesmo blogue, o famigerado ajustamento português não foi feito com uma efectiva, profunda e eficaz reforma do Estado. Muito pelo contrário, a maior parte da austeridade é transitória e apenas teve efeitos numa provisória diminuição da despesa do Estado, não sendo suficiente para permitir um amplo alívio fiscal, aquilo que a economia necessita para efectivamente atingir os níveis de crescimento económico que sejam capazes de sustentar a nossa imensa dívida acumulada. Assim, a bonança que vamos vivendo é causada muito mais pela expectativa dos nossos credores de que os portugueses estão dispostos a fazer o que for preciso em vez de ser por saberem que os portugueses fizeram aquilo que seria preciso. Aqui, de facto, Portugal não é a Grécia. Mas a questão que sobra, principalmente agora que a as eleições legislativas se vão aproximando, é de que forma essa expectativa se manterá perante a possibilidade de um governo PS tomar posse em Outubro próximo? Apenas isto, em particular se considerarmos o peso que o sector sócretino e syrizado têm na liderança partidária do Dr. Costa, pode ser mais do que suficiente para lançar a incerteza nos mercados internacionais e vermo-nos, mais uma vez, embrulhados num processo de intervenção externa. Mas, e admitindo que a Coligação poderá - e eu penso que o fará - ganhar as eleições, será que o cenário de derrota do PS é suficiente para manter as expectativas de que Portugal pode ser bem sucedido a gerir a sua dívida? Muito dificilmente. A verdade é que se a Coligação não foi bem sucedida a reformar o Estado quando tinha uma maioria absoluta a apoiá-la no parlamento e um PS amarrado a um memorando de entendimento assinado com a troika, por que razão será bem sucedida agora? E o que dizer do Tribunal Constitucional sempre pronto para guardar os interesses da corporações vigentes? Continua lá. A verdade é que sem maioria absoluta e sem um PS empenhado em colaborar (ou uma Coligação que tivesse conseguido garantir esse empenho) dificilmente alguma reforma digna desse nome será efectivada. E aí, infelizmente, será uma mera questão de tempo até os nossos credores internacionais se aperceberem que a nossa dívida é insustentável de ser gerida com os nossos actuais níveis de crescimento económico. Naturalmente, quanto pior correr a questão grega, tanto mais cedo os famigerados mercados internacionais acordarão para a vida. A verdade é que ficámos a meio da ponte e não será nada estúpido olhar com muita atenção para aquilo pelo qual os gregos estão a passar: não apenas Portugal poderia ter sido a Grécia, como ainda o poderá muito bem vir a ser.

SEINFELD PHILOSOPHY


terça-feira, junho 02, 2015

É PRECISO SALVAR LISBOA!

Nos últimos três anos Lisboa tem explodido no que diz respeito ao turismo. Entre múltiplos prémios e galardões internacionais - que têm feito as delícias patrióticas da população autóctone - a capital da pátria tem estalado com tantos visitantes. Para isso muito contribuiu a abertura das operadoras low cost no terminal 2 do aeroporto de Lisboa, bem como a reforma que o actual Governo operou no mercado do arrendamento. Como consequência, com o influxo de milhares de turistas com bolsos cheios de euros, o centro de Lisboa está em forte mudança: eles são cafés, restaurantes, bares e lojas, tudo a armar ao chique e ao típico, tudo a facturar milhares de euros e a dar emprego a centenas e centenas de pessoas. Eles são, também, os donos de imóveis mais ou menos centrais a anunciar as virtudes dos seus apartamentos e a alugar a diárias que seriam impensáveis apenas há quatro ou cinco anos atrás. E, ainda, é ver a quantidade de investimento nacional e estrangeiro que procura restaurar e recuperar o tão depauperado imobiliário lisboeta: eles são hostels, eles são hotéis, eles são prédios de habitação, tudo a gerar dinheiro, emprego e excelentes perspectivas de futuro. Naturalmente, face a tal cenário, os descontentes são mais do que muitos. Primeiro, é o senhor da associação de moradores do Bairro Alto que reclama do barulho; depois, é o especialista técnico Luís Mendes do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa (CEG-UL) que diz - e parece que conseguindo manter uma cara séria - que há “um fenómeno cada vez mais intenso a afectar o parque imobiliário do centro histórico lisboeta, sobretudo nos últimos cinco anos, com a proliferação de hostels e outras formas de alojamento turístico, pondo mesmo em risco a função residencial sobretudo da população autóctone que já habita nesses bairros há várias décadas.Desde o início deste século que a política de reabilitação urbana da CML tem ganho um pendor claramente neoliberal, esvaziando a habitação do seu estatuto de direito para ganhar o de mercadoria”. Finalmente, é a senhora portuguesa que trabalha na caixa do supermercado onde eu costumo ir na Chaussée de Waterloo, aqui em Bruxelas, que me dizia que tinha ido a Lisboa mas que aquilo "tinha demasiadas filas cheias de estrangeiros" e que "o que era bom era quando era só para portugueses". Deixando de lado o nacionalismo cheio de razão desta portuguesa que vive há décadas na Bélgica, concentremo-nos no resto: o turismo, aparentemente, está a matar Lisboa. Isto tem que ser impedido. Lisboa, a nossa Lisboa, é aquela onde o Cais do Sodré não tem turistas nem bares típicos, mas sim prostitutas e indigentes. A nossa Lisboa, aquela que é preciso manter a todo o custo, é a Lisboa onde a Baixa, em vez de hordas de bárbaros que falam línguas esquisitas, está vazia e não há filas para entrar nos estabelecimentos que ali apenas sobreviviam por terem rendas de algumas dezenas de euros para pagar. A Lisboa que nós queremos salvar, aquela que nos querem roubar, é a Lisboa onde o seu centro histórico está a cair aos pedaços, podre e abandonada, porque não há quem invista num espaço onde não tenha retorno financeiro. Aliás, o que é bom mesmo - e essa é a Lisboa pela qual devemos pugnar - é uma cidade que, naturalmente, nenhum turista queira visitar. Agora, investimento, valorização, empregos e prosperidade, quem é precisa disso? Pelos vistos os lisboetas é que não. Quanto ao especialista Luís Mendes que, pelo que vejo numa rápida pesquisa no Google, investiga desde 2002 o "Declínio e Revitalização do Centro de Lisboa" e, entre 2010 e 2013, o projecto “Real Utopias in Socially Creative Spaces”, agradeço-lhe o seu alerta para os perigos do neo-liberalismo turístico: afinal que melhor utopia haverá do que aquela cidade que, afogando-se num mar de miséria, garante o saláriozinho do investigador que jura que sabe como a salvar?