sexta-feira, 25 de outubro de 2019

FREAKSHOW (II)

A instituição que mais falta faz no Ocidente é o hospício. Onde se declara a loucura que rejeita a realidade como uma forma legítima de expressão indentitária, sobra o freakshow. Ora, o freakshow é o que vende clicks, likes e audiências, por isso é o que passa na superfície mediática que a estupidez e a ignorância confundem com o mundo real. No entanto, porque o que um macaco vê outro macaco também faz, onde se vende freakshow, mais e mais freakshow se cria. Desligar as TV, as rádios, controlar o acesso às plataformas digitais, muito cuidado com as escolas, em suma, proteger os filhos da loucura generalizada que se vende por todo o lado, esse é o grande desafio de quem tem filhos hoje em dia.

CANDIDATURA PRESIDENCIAL PRECISA-SE

Uma das missões da direita que estará em polvorosa nos próximos meses será precisamente a de conseguir, por entre solavancos e trepidações, gerar uma candidatura presidencial independente e alternativa a este Outono marcelista de envergonhada memória.
Imagina-se que PCP, BE E PAN apresentem candidaturas para marcar a agenda e segurar eleitorado. Pelo menos, uma outra candidatura à esquerda deverá ocorrer, a exemplo da de Sampaio da Nóvoa em 2016 que foi capaz de mobilizar eleitorado PS e, na altura, diversos independentes, incluindo o Livre. Se assim for, o Dr. Costa cumprirá com o desígnio de não hostilizar o Prof. Marcelo na governação pós-geringonça, mas não deixa de garantir que haverá opções à esquerda para disputar uma eventual segunda volta.
Já à direita, André Ventura, imagina-se, será candidato e terá condições para um excelente resultado, tanto maior quanto for o único que se oponha desse lado ao Prof. Marcelo. O PSD, por menos que se mobilize e por mais que permita a dirigentes apoiarem A ou B, não poderá apresentar outro candidato.
Assim sendo, as incógnitas são a IL e o CDS. Tirando um eventual interesse de Paulo Portas - e mesmo esse poderá não valer o que já valeu, além de hostilizar muito eleitorado PSD -, no estado comatoso em que se encontra, o CDS não promete muito interesse em ter mais um péssimo resultado numa eleição que não lhe resolve problema algum. Pelo contrário, corre o risco de agravar.
Para a IL, uma candidatura presidencial, salvo uma figura capaz de gerar mais votos do que aqueles que teve agora, representa apenas um encargo enorme com ganhos mais do que duvidosos.
Está, portanto, aberto o caminho para uma candidatura independente que congregue apoios, mesmo que não oficiais, de uma parte descontente do PSD, do CDS e da IL. Aquilo que é necessário é ser uma pessoa estimada, de qualidade e independência reconhecida e que tenha gosto e vontade de marcar uma diferença, que represente uma visão personalista, não-socialista e anti-corporativa da sociedade e que seja capaz de colocar o enfoque político na sociedade e não no estado.
Se esta candidatura aparecer, a vitória do Prof. Marcelo à primeira volta poderá ficar em risco. E se assim for, eventualmente, a recandidatura poderá estar em causa: quem conhece o Prof. Marcelo sabe bem que o seu maior medo é a vergonha de um mau resultado eleitoral, ainda para mais numa (re!)candidatura uninominal...
Ora, borregando o Presidente Marcelo, o caminho para a vitória abre-se numa segunda volta disputada com uma figura de segunda linha da esquerda.
A alienação do eleitorado de direita por parte do actual presidente representa uma traição eleitoral e uma enorme desilusão para muita gente que nele votou. A cobertura que, apesar de um ou outro discurso, o presidente tem dado a uma das governações mais desavergonhadas da nossa história democrática garante um descontentamento em importantes sectores eleitorais do país.
O Prof. Marcelo tem cometido sobretudo o erro que muita da direita comentadora e articulista portuguesa tem cometido: querer agradar a uma esquerda que nunca votará num candidato de direita e, de caminho, alienar os votos de direita que de facto tinha a obrigação de representar. Quem tudo quer, tudo perde. Ainda acaba o Prof. Marcelo, quiçá em casa, entalado entre candidaturas, tanto à esquerda como à direita, que de facto representam pessoas e ideias.
O vazio que ocorrerá, caso haja um apoio generalizado da direita, por mera obrigação, à recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa, será preenchido pelo voto de protesto (p.ex. Tino ou a já anunciada candidatura anti-sistema do Tenente-Coronel Tinoco de Faria) e pelo voto em Ventura. Trata-se, pois, de um importante dilema para a direita entre o Chega e o PSD: não cortar com o Prof. Marcelo implica, para além da vitória do Prof. Marcelo, o fortalecimento da direita desenvergonhada, desbocada e popular do Chega.
Para quem pretenda impedir uma desta cambiantes, ou ambas, uma candidatura presidencial independente à direita será fundamental. Ao mesmo tempo, poderia ser o verdadeiro percursor para, passadas as eleições, gerar a famigerada federação à direita que, seja ela eleitoral ou, mais provavelmente, apenas parlamentar, o país tão precisa.

DESAVENTURADO

Pela manhã, saindo do elevador, entro na sala comum e sinto os olhos de todos pregados em mim. Finjo que não reparo. O meu cubículo é no fundo, relativamente perto da janela, e dirijo-me para lá. Em ruído de fundo, apanho os sussurros que as almas lançam no ar. “É este”, diz uma pelo canto da boca pintada de vermelho. Do lado oposto, um outro mais arrojado aponta na minha direcção de boca aberta. Sinto o suor frio escorrer-me pelo pescoço para dentro da camisa abotoada, mas ignoro-os. Quando, finalmente, por entre uma pastosa atmosfera húmida de indignação corto caminho até à minha secretária, encontro por cima do meu velho teclado do computador um papel amarelado dobrado em quatro. Na sala, o silêncio é apenas cortado pelo ruído da minha respiração. Abro-o. Diz a missiva: “DEVIAS TER VERGONHA”. Dobro a nota e enfio-a no bolso. Passado um minuto, por trás de mim, uma voz que não tenho a certeza de sequer existir sibila inquisidoramente: “então? Porquê? Como foste capaz?”. Encolho os ombros disfarçando o nervosismo como displicência, mas não olho para trás. A mesma voz impele-me à acção: “ainda vais a tempo”. A transpiração dá lugar à irritação. Sinto a carótida a latejar rampantemente. Sem me virar digo em voz alta para que todos oiçam: “não!”. Um clamor ruge por toda a ampla divisão. Como que sentindo que devo algo a alguém, a carótida eleva-me no ar e faz-me acrescentar calma, mas firmemente: “eu não vou escrever nos jornais ou nas redes sociais que o André Ventura vai destruir a democracia”. E a última coisa que eu ouvi, por entre urros de exaltada indignação, foi o estampido do calibre .22 que um qualquer democrata bem escondido atrás de um feto mal regado disparou na minha direcção. Enquanto jazo no chão cinza atapetado que se vai avermelhando com o meu sangue espesso que corre defronte dos meus olhos, sinto finalmente a paz que apenas a verdadeira democracia permite trazer para o coração de todos nós. ”Maldito Ventura que me matou, bendito atirador que me salvou”, penso no resquício com que abraço a noite que cai sobre mim ainda antes das dez da manhã.

A CORTE

O grande problema do suposto populismo é que, no seu cheiro a sardinha e a courato, é também popular. Mas a corte que rodeia o poder detesta o povoléu ignorante!

AS TRELAS DO PODER

Os maiores guardiães do sistema são precisamente os “idiotas úteis” de serviço: aqueles que apresentando-se como uma suposta oposição, na verdade, sempre falando em nome de princípios valiosíssimos, de grandiosas éticas e morais, de valores inquestionáveis, apenas justificam a situação que afirmam combater pela sua mera existência como oposição de estimação: são longas, mesmo muito longas, as trelas do poder.

LEGADO DE 68

A estupidez dos tempos modernos consubstancia-se na perfeitamente plausível possibilidade de, em cruzando-se dois grupos de apoiantes de partidos com assento parlamentar, entre insultos e impropérios, uns começarem a dar vivas às vacas e os outros a gritarem contra as vacas. “Viva às vacas”, “viva às vacas”, “fora às vacas”, “fora às vacas”, eis o pináculo de profundidade intelectual da democracia que a geração de sessenta e oito nos deixou.

GRETAS

E eis que o dia chegou. Em estando eu jantando um belo chateaubriand na pedra enquanto escutava em plano de fundo a rádio Klara, por entre o flamengo noticioso, às tantas começa o radiofone a expelir perdigotos ingleses de onda média que me captaram a concentração. Era ela, Greta, a Propagandeada Encapotada. Declamava de forma histriónica, misturando gemidos com soluços, uma poesia de tão fraca qualidade que, enquanto o ser culpava todos os que não ela - também eu, portanto - por andar gazetando às aulas, me fazia perguntar-me se seria teatro, comédia ou apenas a trágica realidade. Entre uma garfada de vaca e um trago de chá gelado temperado com manjericão - estou de dieta -, ia-me engasgando perante a surpresa. Então, afinal, a comoção toda é por causa daquilo? Nem no Crime da Pensão Estrelinha se declamou tão falsa e ridiculamente mal - e, atente-se, era propositado. Paradigma da decadência civilizacional, Greta a desgraçadinha, o oráculo do fim do mundo, chegou por fim aos meus ouvidos. Para que tal aconteça, a propaganda só pode estar redobrando esforços, digo-vos em tom de alerta agora enquanto intento que o meu cerebelo recupere da tentativa de lavagem cerebral. Ninguém escapa. Que vá a moça de volta para a escola, propus ainda com ganas de resolver o dilema angustiado que insistia em roubar-me a tranquilidade do repasto. Mas não irá. Porque os donos do mundo sabem que no estertor ocidental mandam as crianças: quer as adultas que não cresceram, quer as ainda infantes que não crescerão enquanto o precipício não chegar. Triste fado o de educar filhos e largá-los num mundo onde os mestres de marionetas comandam como querem a dança dos loucos. É uma conspiração? Não. É apenas a estupidez imoral dos filhos pródigos. E isso sou eu que digo porque me resta um assomo de optimismo: suspiro pela redenção do arrependimento que virá depois de desbaratada a Herança. À medida que me recomponho, assola-me ainda na memória a visão daquele Anti-Cristo de gabardine amarela que já me enfiaram pela vista dentro centenas de vezes. Metam-lhe um vestidinho azul e arranjem-lhe um clone e acabaremos todos como o outro que, perdido no hotel, se finou enlouquecido pela visão de uma aparição multiplicada. Eram Gretas, nós é que não sabíamos.

TEEN SPIRIT

A empresa Mennen, mais tarde comprada pela Colgate-Palmolive, lançou em 1991 um desodorizante especificamente desenhado para o público teenager feminino. O seu nome? Teen Spirit. Teve algum sucesso imediato e milhares de raparigas adolescentes o utilizavam. Uma dessas adolescentes, Tobi Vail, usava-o com tal abundância que o namorado, Kurt, que não usava muito desodorizante, acabou por ficar conhecido entre os amigos por cheirar a Teen Spirit. Ora, o miúdo tinha a mania que era revolucionário e passava os dias a discutir a revolução contra o capitalismo Ocidental e a afirmar que os adolescentes se identificavam, se não com a revolução, pelo menos com a ideia de fazerem uma revolução. Certo dia, após uma dessas dissertações pseudo-revolucionárias, para gozar com Kurt, uma amiga de Tobi, Kathleen Hanna de seu nome, resolveu fazer pouco dele e escreveu na parede de sua casa que o Kurt cheirava a Teen Spirit, ou seja, que podia ter a mania que era revolucionário mas, no fundo no fundo, apesar dos seus 25 anos, cheirava era a desodorizante de menina. O jovem Kurt, um aspirante a músico alheado ao seu próprio odor corporal emprestado, quando mais tarde viu o escrito na sua parede - “KURT SMELLS LIKE TEEN SPIRIT”-, interpretou poeticamente a mensagem como um elogio ao facto de ele, Kurt, ser um fiel intérprete do espírito rebelde dos adolescentes. Inspirado, escreveu de imediato uma letra para uma música à qual chamou “Smells Like Teen Spirit”. Foi um sucesso. Poucos meses depois estavam a gravar um disco e a música sai no final do ano, primeiro como single, e depois como a primeira faixa do álbum “Nevermind”. Kurt, Cobain de apelido, ficou famoso tal como a banda, os Nirvana, obtendo um sucesso fulgurante e acabando por venderem milhões de álbuns: em Janeiro de 1992 substituíram Michael Jackson no topo do Bilboard. Obscuro na história, no entanto, ficou o facto de as vendas do desodorizante Teen Spirit, graças à música, terem dispararado para os milhões: em 1992, cerca de um quarto das adolescentes nos Estados Unidos usava Teen Spirit. Moral da história? Aquilo que foi um dos hinos da rebeldia dos anos 90 foi igualmente uma das mais bem sucedidas campanhas publicitárias da história recente americana: apenas que involuntária, gratuita e completamente imprevista. A empresa Mennen agradeceu o crescimento, aliás, foi comprada pela Colgate nesse mesmo ano. Dois anos depois, em 1994, a vida atribulada de Kurt terminava voluntariamente na extremidade de uma caçadeira. Quiçá, o sucesso desmedido do seu ‘espírito adolescente’ tenha ajudado a premir o gatilho. Já o Teen Spirit, o tal desodorizante, esse continua a ser vendido ainda hoje. Está disponível em duas fragrâncias: Pink Crush e Sweet Strawberry. Afinal, a vida, tal como a revolução, continua.

IDEOLOGIA DE GÉNERO

Um bom exemplo da esquizofrenia da extrema-esquerda mediática e académica contemporânea é que as mesmas pessoas que advogam que não há uma correlação entre a minha biologia e o meu “género” são as mesmas que também defendem que há uma culpa minha em função da minha herança biológica, no caso a minha raça, e aquilo que os meus antepassados genéticos, logo biológicos, fizeram aos antepassados genéticos de pessoas de outras raças. Ou seja, aquilo que faz de mim culpado nem sequer é apenas a minha biologia, mas o histórico dessa biologia. Por outras palavras, a única coisa que me liga a essa suposta culpa é precisamente a biologia da minha raça actual: não fosse eu biologicamente caucasiano e estava livre de culpas. Assim sendo, se um homem biológico pode identificar-se com uma mulher e entrar em nome da lei pela casa de banho das mulheres dentro então o que me impede a mim de identificar-me com uma minoria racial oprimida num passado mais ou menos distante para me livrar de qualquer responsabilidade que me queiram imputar? Obviamente nada.

DO SAFE SPACE (II)

A busca pelo “safe space” não é mais que uma estratégia desesperada de procura de segurança por parte daqueles que emocionalmente nunca conseguiram ter, ou sentir, essa segurança nas suas vidas enquanto cresciam e, também, porque não lhes foi incutido o espírito e a força necessária para compreender que a realização pessoal reside forçosa e necessariamente fora de espaços seguros: a vida é sempre uma conquista, uma conquista heróica do indivíduo sobre o mundo. Na ausência do espírito de conquista sobra apenas a capitulação e o pedido derrotado de ajuda e protecção de quem não sabe proteger-se a si próprio do mundo. Do mesmo modo, a procura do estado como solução de segurança representa esse mesmo medo existencial: aquele que deriva da incapacidade das famílias protegerem os seus do, e prepararem-nos para, o mundo. O estado totalitário nasce precisamente da falência da sociedade em geral e da família em particular cumprirem com as suas funções. Infelizmente, porque o estado é uma estrutura de poder, nunca este poderá, muito pelo contrário, providenciar aquilo que falta em muitas das famílias modernas: amor.

DO SAFE SPACE

A decadência no Ocidente, natural e inevitavelmente também ela importada para Portugal pelos pacóvios deslumbrados, assenta em primeiro lugar no desaparecimento da Coragem. Que outro nome se pode dar a qualquer movimento político ou individual que clame pelo seu “direito” a não ser ofendido ou a ter um “espaço seguro” além de cobarde? Quando bem visto todo o politicamente correcto e a agenda identitária não passa de um elogio à cobardia, bem como a medida da nossa fraqueza: exigir aos outros, normalmente através do estado, o reconhecimento que não conseguem por si próprios. Pura fraqueza! Ainda para mais vendida pelos abutres da extrema-esquerda como uma virtude. No entanto, muito pelo contrário: a fraqueza e a cobardia são vícios. Virtude é o oposto: ter a coragem de transcender as ofensas e os riscos dos outros e da vida, ou seja, da liberdade. Fracos e cobardes acabam sempre como escravos. No caso presente, como deveria ser evidente, do estado, bem como daqueles que mandam nele

O BUROCRATA

O pináculo do socialismo é a figura do burocrata: é o burocrata que identifica “os anseios das populações”, é o burocrata que recebe os pedidos das populações, é o burocrata que recolhe os meios para que o estado aja, é o burocrata que age em nome do estado e, ainda, é o burocrata que regula e controla, tal como aplica o que regulou, as interações privadas das populações. É também o burocrata que vigia a população, que aconselha quando faz frio e avisa quando faz calor. O burocrata trata da saúde, educa os filhos, verifica a qualidade da nossa comida, garante a desinfecção dos nossos WC e patrulha as ruas impondo a ordem. Porque isto não é suficiente, e porque cada burocrata trata de justificar a sua própria importância pedindo a outros burocratas seus superiores por mais burocratas seus inferiores, todo o discurso político do estado socialista assenta em como criar mais estado, logo mais burocratas. Agora até burocratas para aferir se o género das crianças corresponde ao sexo biológico querem criar! Até o sexo será vigiado, verificado, certificado, taxado, imposto e decretado. O burocrata é o paradigma do homem civilizado socialista - e a burocracia o paraíso prometido.

FALÊNCIA MORAL

Uma comunidade pode justamente chamar-se civilizada quando o respeito, o civismo e a cordialidade social está de tal forma enraizada nos seus membros que tais comportamentos sejam tidos como naturais. A ideia de regular comportamentos, bem como de doutrinar conduta social através do estado, apenas revela uma necessidade, seja ela real ou imaginada, de impor comportamentos que não estão embutidos de forma natural e espontânea nos espíritos dos cidadãos. Assim sendo, quanto mais um estado mais sente a necessidade de regular, controlar, regulamentar, então das duas uma: ou a sua necessidade é real e atesta o supremo grau de incivilidade da comunidade ou, em alternativa, é uma necessidade inventada que demonstra um crescente divórcio entre a naturalidade dos comportamentos e a artificialidade das leis que se querem impor. Agora, aquilo que por definição um estado ultra regulador nunca pode representar, ao contrário do que a esquerda sempre pretende afirmar, é que é o pináculo da civilização. Não é, muito pelo oposto: a suposta necessidade de ultra regular apenas atesta a falência moral ou do estado ou da sociedade.

NA VARANDA

Lá em cima, as estrelas espraiadas num planetário natural. Lá em baixo, por entre cantos de grilos, uns cães ladram enquanto outras tantas vacas perdidas no breu largam um tranquilo badalar. Aqui, a meio caminho, na minha varanda, já de malas aviadas mas bem acompanhado por um medronho cá da quinta, vislumbro lá ao longe as luzes de Odemira que, apesar de conhecer bem na sua serena dimensão, não deixam de evocar-me a azáfama citadina onde amanhã vou mergulhar. Que se afiem as facas, cantam-me os grilos: a luta vai continuar.

RIACHO

O povo português, conservador e habituado a alombar com a carga dos que mandam, prefere o mal que conhece do que a tragédia do desconhecido. Por isso ou não vota ou vota PS, tal como antes de 74 ficava calado e, se fosse necessário, ia à manifestação. Para pô-lo a votar noutra coisa, no mínimo, havia que apresentar um fogacho de alternativa, um vislumbre de estratégia, que convencesse a tomar o risco. Ora, o génio do Dr. Rio lembrou-se foi de transformar o PSD numa espécie de PS de segunda categoria: sem a manha e a lábia do chefe Costa e sem o colinho da comunicação social. Resultado? Um grande vazio que gerou dois partidos à direita e deu gás a um que tinha acabado de aparecer. Aliás, o único título de jornal que logrou fazer passar nos últimos dias foi a ter a necessidade de afirmar aquilo que com qualquer outro líder do PSD sempre foi óbvio: que a alternativa ao Dr. Costa era ele. Ora, mas que alternativa? Isso ele já não explicou. Imagino que ele provavelmente também não saiba.

MARQUETISMO

Todo o marquetista que a coberto do slogan “comunicar é informar” engendra formas inconscientes de pôr incautos a comprar aquilo de que não precisam, ou seja, pôr pessoas a trocar horas de trabalho por coisas que não queriam, é um fascista em acção. Berlin chamaria tais gentes de persuasores escondidos. Também é por aqui que se esvai a nossa liberdade.

ISTO NÃO É A REALIDADE

Há um quadro famoso de Magritte que nos mostra um cachimbo com uma legenda que explica que aquilo não é um cachimbo. Ora, não é um cachimbo porque na realidade não há ali cachimbo algum. Não é, portanto, um cachimbo verdadeiro, é uma imagem, um reflexo, uma representação de um cachimbo. Esse quadro deveria ser a bandeira de todo o homem livre de propaganda: porque toda a informação mediática que nos chega também ela não é a verdade, é apenas uma representação, uma interpretação, por ventura errada, sempre distorcida, da realidade. Todos os telemóveis, televisões, ecrãs, jornais, todos eles deveriam vir com uma legenda que informa - de forma, essa sim, verdadeira - que aquilo que mostra não é, nem poderia ser, de facto aquilo que mostra: é apenas uma imagem, quiçá adulterada, da realidade. Vivemos pois no surreal e não na era da tão propagandeada informação, muito pelo contrário, vivemos sim na era da representação, aliás, na maior parte dos casos, manipulação mesmo. Percebermos que tudo o que nos rodeia é forçosamente uma ilusão é o primeiro passo para nos libertarmos das tretas que os marqueteiros nos querem vender. Acima de tudo? Nunca acreditar. Num mundo de mentiras e de ilusões sobra o céptico que se ergue das cinzas onde os vendedores de sonhos queimaram a boa fé.

OS MELHORES DO MUNDO

Que Portugal é o melhor país do mundo eu já sabia. Também sabia que tem o melhor jogador de futebol do mundo, o melhor treinador de futebol do mundo e o melhor secretario-geral da ONU do mundo. Tem claramente o melhor clima do mundo, as melhores praias, o melhor sol, as melhores cidades. O mar? O melhor do mundo. A melhor cozinha do mundo, essa é evidente também. Ministro das finanças? Olarilolé, um craque. Primeiro-ministro? Ui, um habilidoso genial. Presidente? Um humanitário de gabarito multiversal. Outra coisa onde somos muita bons, mesmo bons? Criar e cobrar impostos. Uma maravilha! Agora, neste estio, fiquei também a saber que temos os melhores peritos do mundo. Sabem tudo, e com perícia. Eles sabem de tudo sobre trama internacional, sabem tudo sobre incêndios na Amazónia, sabem tudo sobre o Brasil, os EUA, o Reino Unido. Sabem tudo de política, de economia, de constitucionalidade britânica, russa ou americana, sabem tudo sobre tudo, incluindo que quem não sabe o mesmo que eles sabem só poderá ser estúpido e atrasado mental. Essa é a maior sabedoria, a de tudo saber, incluindo saber tudo o que os outros não sabem! E graças a Deus que não se calam a berrar a sua sabedoria por todo o lado e a todo o momento! Só é pena que num país de tanto perito e de tanto sábio e de tanta opinião sábia não sobre um pouco de sabedoria para saber por que razão os melhores governantes do mundo teimam em nos trazer, de bancarrota em bancarrota, para os últimos lugares dos rankings europeus. É um mistério, seguramente.

LIBERDADE E IDEOLOGIA DE GÉNERO

O pressuposto fundamental da liberdade é que os indivíduos são livres de ser o que muito bem entendem. Ora, a ideologia de género interfere por decreto político e ideológico com a formação dos próprios indivíduos, inclusive na sua intimidade sexual. Não tem nada a ver com tolerância, com orientação sexual, com nada: tem a ver com ser contra a imposição de uma determinada ideologia moral às crianças, por decreto, pelo estado, contra as famílias se necessário.

ESTATISMO E IDEOLOGIA DE GÉNERO

A própria ideia de que estamos como estamos por culpa do governo é uma ideia estatista que explica, isso sim, porque estamos como estamos: está profundamente enraizada em nós a noção de que o governo e o estado comandam tudo e são responsáveis por tudo. “Eles” deviam fazer isto e aquilo, indigna-se o português no café; não percebo como “eles” ainda não resolveram isto ou aquilo, grita o do lado. O verdadeiro autoritarismo nasce desta propensão para pensar que os responsáveis pela situação são sempre “eles” porque por debaixo desta ideia está o pressuposto que “eles” são os que mandam sobrando apenas, por conseguinte, do outro lado um “nós” que é mandado. A verdade é que os responsáveis somos mesmo nós, nem que seja, como é o caso português, por omissão. Desta omissão e da propaganda organizada pelos aproveitadores se fazem as causas do momento, se decide o critério de bem e de verdade para todos, ao mesmo tempo que se ostraciza e crucifixa quem ouse pensar ou falar diferente. É a pulsão autoritária da própria sociedade no seu esplendor: basta ir ver as polémicas nas redes sociais sobre o que o famoso a ou b fez ou disse e a indignação geral pelo facto de os alvos do momento se recusarem a viver como essa gente entende que se deve viver. O fascismo está bem dentro de nós, essa é que é a verdade: estamos sempre prontos para meter o bedelho na vida alheia e explicar que para o bem dos outros esses outros deveriam agir como nós entendemos que eles devem agir. Aos verdadeiros fascistas cabe apenas cavalgar essa pulsão oferecendo uma narrativa que, por um lado, eleve ao patamar da virtude quem a aceitar e, por outro, demonize ao quinto dos infernos os adversários a abater. E o povoléu, hipnotizado pela propaganda logo liberta o fascista que há em si carregando com orgulho as forquilhas da indignação. É por esta razão que o autoritarismo é o estado natural da humanidade e a liberdade individual como um bem público só aparece no pináculo da civilização. Naturalmente, assim percebendo, torna-se evidente como os fascistas não poderiam fazer sempre outra coisa senão abominar essa civilização que os limita à liberdade. É, por isso, sempre em nome de um mundo novo, de um homem novo, de grandes ideais futuristas que o fascista procura vender ao incauto que ele, o fascista, é que sabe como o outro, o incauto, deve viver a sua vida. Promete o paraíso e, como um mágico, com uma mão escondida, rouba-lhe a liberdade. Evidentemente, tanto mais fácil se torna cair no conto do fascista quanto menos enraizados estiverem os valores da civilização que permite a liberdade. Em Portugal, como o século XX demonstrou, essa civilização tardou, se é que chegou, a impor-se. Hoje, com o advento deste partido socialista que tudo comanda e a aliança deste com a extrema-esquerda das causas e dos ideais anti-liberais e autoritários, deste caldo peçonhento se prepara o novo fascismo do amanhã. Infelizmente para nós, ao contrário do autoritarismo do Doutor Salazar, este novo autoritarismo - igualmente moral -da esquerda faz gala de querer transformar a própria natureza humana. O despacho sobre igualdade de género que há uns meses saiu é apenas um primeiro sinal: funcionários do estado a fiscalizar a identidade sexual das crianças, a escola a inculcar valores morais decididos por decreto político e ideológico, ora aí está o estado a impor o homem novo - e ai de quem ousar recusar a agenda estatal. O objectivo? Destruir a família e substituir a autoridade educativa familiar pelo estado. O poder supremo sobre o indivíduo é o verdadeiro objectivo por detrás do arco-íris ideológico que vende unicórnios e libertações imaginárias. Que não haja dúvidas, o fascismo já chegou, e ainda por cima chegou impondo-se na intimidade das crianças elevando doentes mentais a mártires e disseminando confusão sobre os restantes. Sexualizar crianças é um verdadeiro e hediondo crime, mesmo que seja cometido pelo estado. Sobra, portanto, a reacção. O primeiro passo é precisamente compreender que os responsáveis somos nós. A liberdade conquista-se, não se recebe como oferta. Assinar a petição contra o decreto é uma obrigação. Votar em quem recuse este atentado contra a nossa liberdade também. Em suma, assumirmos um combate contra os novos fascistas bem como contra os amorfos que pela sua omissão vão permitindo que uma minoria porca e aldrabona vá impondo uma agenda igualmente porca e aldrabona pela cabeça dos nossos filhos dentro. Quanto mais deixarmos apertar o garrote lunático da esquerda moralista mais violenta será a reacção: até as bestas dão coices quando apertadas demais. Portanto: reagir, lutar, gritar. Combater. Pela nossa liberdade e pela sanidade mental dos nossos filhos