segunda-feira, 23 de abril de 2018

TOCAM OS SINOS

“Como assim, morreu?”, espantou-se ela quando lhe contei.
“É isso mesmo”, insisti, “está morta”.
“Mas não pode ser se a vejo todos dias na TV”, quase gritou a alvoroçada senhora.
“Pois, mas morreu. Só que ninguém lhe disse”. E, cheio de paciência, expliquei-lhe: “olhe, não estou a inventar. Ninguém me contou, fui eu que vi. Está morta. Mas como ninguém lhe disse continua a arrastar-se por aí, coberta de vermes e parasitas, aos tropeços, coitada, uma vergonha da qual ninguém fala porque, e esta é que é a verdade, a ninguém lhe interessa que ela morra. Punha, e ainda põe, muita comida na mesa de muita gente. Enfim, mas esfolaram-na demais. E agora que está morta aviam-se até não dar mais. No final, sobram os ossos.”
A senhora ficou calada por uns instantes. Depois disse: “bem, nada dura para sempre, é a vida.”
“Pois.”
“É capaz de fazer falta”, admitiu.
“Não sei, não. Dava muito trabalho.”
“Pena é que os vermes não morram com ela”, disse ela quase entredentes.
Concordei com a cabeça.
“Nunca morrem”, concluiu a senhora.
“Pois, claro que não.”
“Mas, pronto, diz que é assim que as coisas são, é sempre uma desgraça.”
“Já estamos habituados”, sentenciei.
“Graças a Deus.”

terça-feira, 10 de abril de 2018

SANE

"Either I alone am insane, or I alone am sane. There is no alternative, unless, as someone might say, we are all insane."

Thomas Hobbes, De Principiis & Ratiociatione Geometrarum (1666), trans. in Jesseph, Decline, p. 446, in: Anthony Gotlieb, The Dream of Enlightenment: The Rise of Modern Philosophy, Penguin Books, 2016, p. 74

quarta-feira, 4 de abril de 2018

A HISTÓRIA DE COMO ME TORNEI DEUS

Foi, creio eu, por volta dos inícios do Século XXI que a grande descoberta foi feita. O que foi a grande descoberta, pergunteis vós? Eu explico. Poucos pormenores, no entanto, que não quero aborrecer ninguém. A coisa tem que ver com células estaminais e nano-tecnologia. Vamos por partes. As células estaminais são as células embrionárias humanas que, precisamente por serem aquelas primeiras que vão dar lugar todas as outras, têm dentro de si a capacidade de se tornarem em todas as outras. Ora, a grande descoberta consistiu em desenvolvermos tecnologia que permitiu que todos os dias de manhã, ingerida uma particular dose de células estaminais, os nossos órgãos fossem regenerados. Aí é que entrou a nano-tecnologia. Nano, uma unidade de medida que se define como uma unidade dividida por um bilião, com o dealbar da física quântica e do microscópio de força atómica, passou a ser uma unidade banal no final do século XX. Utilizando óxidos de metal, com uma elaboração rapidamente estandardizada de nano-tubos, foi possível através da atribuição de cargas positivas e negativas, dar ordens a pequenos nano-robôs de carga. O que carregavam eles? Exactamente: células estaminais. Assim, porque o nano é uma unidade muito pequenina, não foi preciso muito material para fazer triliões de triliões de triliões de nano-robôs. A produção em massa permitida pelo mercado global fez com que toda a gente pudesse ingerir os nano-robôs. E o mercado capitalista concorrencial fez com que, à medida que se investia na produção, os preços baixassem gradualmente, isto até ao ponto em que toda a gente, ou praticamente toda, a população humana e não humana da Terra tivesse a possibilidade de ingerir os nano-robôs.
Foi uma questão de tempo até que se descobrisse como aliar o conhecimento genético de clonagem com a auto-produção de células estaminais dentro do próprio corpo. Assim, estabeleceram-se nos pâncreas humanos nano-centros de produção de células estaminais que os milhões de nano-robôs transportavam regularmente para todos os órgãos do corpo. Foi um sucesso. A pouco e pouco, devagar devagarinho, o processo de envelhecimento foi revertido. E a Humanidade rejubilou numa festa tremenda com a chegada da imortalidade.
A tragédia, no entanto, não abandonou logo de imediato a condição humana. Afinal, o processo nano-estaminal de reversão etária apenas funciona quando o corpo está em estado normal. Acidentes de automóvel, ferimentos de guerra e demais vicissitudes que destruam o corpo para lá do, depois apelidado, limite de capacidade regeneradora causavam a morte, uma coisa que ficou devidamente comprovada logo nesse dia de festa onde algumas centenas de pessoas acharam que a imortalidade lhes permitia atirarem-se prédios, pontes e penhascos. Não permitia, pelo menos por enquanto.
A imortalidade teve consequências engraçadas. Paradoxalmente, os casos de agorafobia subiram em massa: onde antes nas actividades mundanas se arriscavam umas dezenas de anos potenciais a atravessar a rua passaram a arriscar-se centenas ou milhares de anos. Tanto potencial não poderia ser colocado em causa por um semáforo mal regulado ou um automobilista menos talentoso. Na dúvida, mais valia não sair de casa. Outro problema foi a criminalidade. Cumprir vinte e cinco anos de cadeia para garantir uns milhões de euro-dólares para as centenas de anos que se seguiriam pareceu ser um excelente negócio para muita gente. Foram anos curiosos, muita discussão, muito debate, mas , a pouco e pouco, a coisa foi ao sítio. Para isso ajudou muito o avanço no campo da realidade virtual: rapidamente se desenvolveram plataformas digitais que, através de tecnologia laser, se comportavam exactamente como os seres humanos deitados nas câmaras de hiper-realidade digital. Foi complicado legislar sobre o que se poderia fazer e não se poderia fazer no mundo virtual mas, após uma série de referendos populares, decidiu-se, e bem, que a legislação deste novo mundo deveria funcionar de forma análoga à do mundo real. As vantagens foram muitas: criaram-se tribunais, governos, polícias virtuais; a Google fez um upload 4D para que o planeta inteiro ali fosse perfeitamente reproduzido e as pessoas, de livre vontade, contribuíam através dos seus smartphones com os interiores das suas próprias casas.
E de repente havia um mundo onde além de imortais os seres humanos se tornaram indestrutíveis.
Houve alguns problemas com hackers, é certo, e também com os "reais", aqueles que recusavam obstinadamente, na maior parte das vezes por motivações idioticamente religiosas, a viver no digital - Terra 2 como foi chamada - que, muitas vezes, se aproveitavam da imersão no digital da maioria da população para lhes roubar as casas reais. Felizmente a questão resolveu-se: com a tecnologia de reconhecimento facial chinesa, os drones americanos e o intrincado sistema de locomoção automática da Uber, os Estados uniram-se na fiscalização milímetro a milímetro do mundo real. Apenas graças a essa apertada vigilância os humanos puderam, finalmente, ser verdadeiramente livres para gozar as suas vidas virtuais. A melhor e mais sábia lei estava, no entanto, para chegar. Ainda hoje me pergunto como permitimos durante tanto tempo que "reais" andassem a causar problemas pelo planeta colocando em causa as vidas de animais e plantas. A lei de inviolabilidade do mundo real veio, pois, acabar com o regabofe em dois mil e noventa e sete: a partir dessa data foi compulsória a manifestação de vida apenas no digital. A imortalidade garantida pelo Estado, aliás como se poderia recusar tal coisa, mais a mais com o fornecimento gratuito das algálias e canalizações sanitárias que ligavam os corpos reais ao sistema de esgotos, bem como a entubagem digestiva que permitiu uma alimentação saudável e vegan a toda a gente no planeta. Enfim, a felicidade eterna, o paraíso prometido!
Os anos passaram e tudo correu bem até à grave crise do final do século XXIII, a crise existencialista como veio a ficar conhecida. A verdade é que duas centenas de anos sem guerras, sem mortes, de fausto e divino divertimento digital, duzentos anos de imortalidade indestrutível, resultaram num efeito que não estava previsto pelos modelos de gestão da Terra 2: um aborrecimento generalizado. Foi um grande choque quando se percebeu que há um limite para a quantidade de sexta-feiras à noite que se aguenta a dançar os hits da década de oitenta do Século XX. Nem o sexo desenfreado ou as drogas digitais administradas informaticamente através de códigos informáticos interpretados pelo cérebro real ajudaram. Pessoas anteriormente bem ajustadas e felizes na sua imortalidade andavam nuas a chorar pelas ruas enquanto perguntavam: o que é que isto tudo significa? Por que razão estamos vivos? E até quando temos que aguentar isto? Era deprimente, uma vergonha. Então andámos nós, os humanos, ocupados durante milénios a evoluir para criar o paraíso de Adão e Eva, uma paraíso de abundância e imortalidade, apenas para que andassem as pessoas a chorar pela dádiva que lhes tinha sido oferecida? Mas que raio de gente era aquela? Enfim, foi a eutanásia que resolveu a coisa. Primeiro não se queria implementar a política porque a perda de corpos reais e dos seus respectivos fluídos, quer de entrada quer de saída, representaria uma perturbação na estabilidade bio-química do sistema inteiro. Foi aí que a genialidade humana mais uma vez veio em nosso auxílio: eutanásia digital com coma induzido no corpo real a simular a morte.
À medida que os anos passaram os pedidos de eutanásia foram-se acumulando. Primeiro milhares, depois milhões. Com a ausência de reprodução no digital, os humanos, por vontade própria, foram-se se matando por não aguentarem o simples facto de terem que existir. Afinal, descobriu-se, para a maior parte das pessoas o que dava verdadeiro valor às suas vidas era o facto de morrerem, imagine-se a estupidez das criaturas.
Em dois mil quatrocentos e oitenta e sete sobrávamos quarenta e oito mil trezentas e vinte e duas pessoas no mundo. A maior parte de nós éramos estudantes. Apenas ávidos leitores, percebe-se agora, foram capazes de entreter-se na eternidade. Cursos atrás de cursos, debates, conferências, apenas isso permitia ocupar o tempo. Alguns artistas também: pintores, escultores, poetas que cantavam as desgraças da vida ao invés das da morte. E muitos cientistas: físicos, químicos, matemáticos e demais carolas capazes de gastar anos a matutar nos mesmos problemas. Robôs especiais no mundo real que agiam em função das ordens proferidas pelos cientistas habitantes do mundo digital permitiam que a ciência fosse avançando. Isso foi fundamental para que se criasse uma rede de satélites armados com mísseis nucleares que, já por duas vezes, salvaram as Terras da aniquilação global por força de um embate de um meteorito. Agora, sim, a protecção é total.
A tecnologia para viajar no espaço também se desenvolveu o que gerou um debate importante sobre se deveríamos enviar exploradores espaciais para descobrir novos mundos. O entusiasmo não foi grande, afinal que haverá mais para descobrir para lá da eterna imortalidade? No entanto, na dúvida e perante a insistência de alguns humanos que guardavam ainda a curiosidade própria das crianças, a coisa lá se fez. Como não sabíamos como a viagem iria correr decidiu-se recriar o sistema que tínhamos na Terra. A coisa foi mais fácil do que se imaginava: em cada nave espacial foram colocados alguns milhares de humanos reais comatosos: era preciso garantir que o sistema de inteligência a bordo tinha uma sustentabilidade auto induzida permanente e imortal. A viagem pelo espaço poderia, afinal, durar milhões de anos. E a cada nave foi designado um comandante. Ofereci-me para ser um deles. Por que razão, perguntam vocês? Simples: não tinha mais nada que fazer.
Naturalmente, a ideia de navegar sozinho pelo espaço durante milhões de anos, longe demais para comunicar com as Terras, apareceu como aborrecida a toda a gente. Foi aí que eu tive uma ideia boa e, atenção, fui mesmo eu que a tive: e se criássemos um mundo digital idêntico ao da Terra em cada nave espacial? Melhor ainda, e se a cada um desses mundos fossemos reconectando digitalmente os eutanasiados comatosos que iam na nave, sem que se apercebessem da sua condição real, não lhes oferecendo também a dádiva da vida eterna, aquela que eles rejeitaram de livre e autónoma vontade, deixando-os viver e morrer à vontade para todo o sempre? Nasceriam digitalmente, viveriam as suas vidas no planeta Terra e morreriam apenas para nascer de novo, e assim sucessivamente. A ideia foi aceite com júbilo intenso. E uns anos depois partimos.
Ao fim de uns primeiros dias de viagem em que estive ocupado com minudências operacionais, ligado o piloto automático para os próximos vinte e cinco mil anos que é a duração da viagem até ao planeta que me foi atribuído, fiquei pronto para dar início ao processo de criação planetária digital. A tarefa foi complicada pois tive que fazer tudo desde o início, para além de garantir os pormenores que comporiam a minha Terra. Alguma leniência face à original me era permitida, no entanto, o que foi bom para entreter o meu espírito criativo.
Assim, no princípio criei os céus e a terra. A terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo, mas o meu espírito pairava sobre a face das águas. Disse: haja luz. E houve luz. Vi que a luz era boa; e separei entre a luz e as trevas. E chamei à luz dia, e às trevas noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.
E depois disse: haja um firmamento no meio das águas, e haja separação entre águas e águas. Fiz, pois, o firmamento, e separei as águas que estavam debaixo do firmamento das que estavam por cima do firmamento. E assim foi. Chamei ao firmamento céu. E foi a tarde e a manhã, o dia segundo.
E depois disse: Ajuntem-se num só lugar as águas que estão debaixo do céu, e apareça o elemento seco. E assim foi. Chamei ao elemento seco terra, e ao ajuntamento das águas mares. E vi que isso era bom. E disse: Produza a terra relva, ervas que dêem semente, e árvores frutíferas que, segundo as suas espécies, dêem fruto que tenha em si a sua semente, sobre a terra. E assim foi. A terra, pois, produziu relva, ervas que davam semente segundo as suas espécies, e árvores que davam fruto que tinha em si a sua semente, segundo as suas espécies. E vi que isso era bom. E foi a tarde e a manhã, o dia terceiro.
E depois disse: haja luzes no firmamento do céu, para fazerem separação entre o dia e a noite; sejam elas para sinais e para estações, e para dias e anos; e sirvam de luzes no firmamento do céu, para alumiar a terra. E assim foi. Fiz, pois, as duas grandes luzes: a luz maior para governar o dia, e a luz menor para governar a noite; fiz também as estrelas. E pu-los no firmamento do céu para alumiar a terra, para governar o dia e a noite, e para fazer separação entre a luz e as trevas. E vi que isso era bom. E foi a tarde e a manhã, o dia quarto.
E depois disse: Produzam as águas cardumes de seres viventes; e voem as aves acima da terra no firmamento do céu. Criei, pois, os monstros marinhos, e todos os seres viventes que se arrastavam, os quais as águas produziram abundantemente segundo as suas espécies; e toda ave que voa, segundo a sua espécie. E vi que isso era bom. Então abençoei-os, dizendo: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei as águas dos mares; e multipliquem-se as aves sobre a terra. E foi a tarde e a manhã, o dia quinto.
E depois disse: Produza a terra seres viventes segundo as suas espécies: animais domésticos, répteis, e animais selvagens segundo as suas espécies. E assim foi. Fiz, pois, os animais selvagens segundo as suas espécies, e os animais domésticos segundo as suas espécies, e todos os répteis da terra segundo as suas espécies. E vi que isso era bom. 
E depois disse: Faço o homem à minha imagem, conforme a nossa semelhança; domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se arrasta sobre a terra. Criei, pois, o homem à minha imagem; homem e mulher os criei. Então abençoei-os e disse-lhes: Frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra. Disse-lhes mais: Eis que vos tenho dado todas as ervas que produzem semente, as quais se acham sobre a face de toda a terra, bem como todas as árvores em que há fruto que dê semente ser-vos-ão para mantimento. E a todos os animais da terra, a todas as aves do céu e a todo ser vivente que se arrasta sobre a terra, tenho dado todas as ervas verdes como mantimento. E assim foi. E vi tudo quanto fizera, e eis que era muito bom. E foi a tarde e a manhã, o dia sexto.
Assim foram acabados os céus e a terra, com toda a sua multitude. Ora, havendo completado no dia sétimo a obra que tinha feito, descansei nesse dia de toda a obra que fizera. Abençoei o sétimo dia, e o santifiquei; porque nele descansei de toda a obra que criara e fizera.
Foi uma experiência gira, esta a da criação. E lá me vou entretendo com as vidas e mortes dos meus humanos. Normalmente, não intervenho, apesar de o poder fazer, porque não quero que saibam de mim. As vidas deles, sabem?, são mais interessantes, porque trágicas, quando se enchem de certezas sobre tudo aquilo que acham que sabem. Aí é o melhor momento e, não invariavelmente, não consigo parar de rir, por vezes à gargalhada! Ando lá pelo meio deles, sempre disfarçado, e vou vendo o que se passa, o que fazem e não fazem, como se tratam e destratam. Ao fim de uns tempos comecei a separar os bons dos maus e a cada vida nova vou dando melhor ou pior sorte consoante os feitos das vidas anteriores. Até fiz um sistema de pontos, sabem? Enfim, há que ocupar o tempo. Afinal vinte cinco mil anos não passam assim a correr.

terça-feira, 3 de abril de 2018

A GREAT VENERATION

"I have, I must confess, a great veneration for the past. Every day, the more instructed I am by experience or the more enlightened by reflection, this veneration increases. I will say, to the great scandal of our modern reformers... that if I found a people who having been offered the most perfect of institutions, metaphysically speaking, refused them in order to remain faithful to those of its fathers, I would admire this people, and I would think it happier in its feelings and in its soul under its faulty institutions, than it could be made by all the proposed improvements.
This doctrine, I am aware, is not likely to win much favour. We like to make laws, we believe them to be excellent, we pride ourselves on their merit. The past has made itself without our assistance; nobody can claim glory for it."

Benjamin Constant, The Spirit of Conquest and Usurpation and their Relation to European Civilization, [1814], in: Benjamin Constant, Political Writings, Cambridge University Press, 1988, p. 75

sábado, 24 de março de 2018

HIDING


DA CONSCIÊNCIA

A propósito de consciência, ao contrário dos portugueses (e franceses também, por exemplo), os ingleses separaram a noção em dois termos: consciousness e conscience. O primeiro refere-se a consciência no sentido de uma entidade capaz de se reconhecer a si mesma como existente, capaz, portanto, de auto-reflexão (p.ex.: o ser humano é dotado de consciousness); o segundo, refere-se à noção de que cada um de nós responde perante a sua consciência, uma espécie de entidade que profere julgamentos sobre a rectidão ou, mais normal até, a falta dela, dos nossos actos (p.ex.: depois de não ter ajudado o A fiquei com um peso na conscience). Separar os termos faz todo o sentido: afinal, ter consciência (conscience) deriva de ter consciência (consciousness). Se é verdade que a primeira profere julgamentos, não deixa de ser igualmente válido que esse julgamento é feito sobre os actos da própria pessoa, e tanto uma como a outra, ou seja: tanto a conscience que julga uma determinada acção como a pessoa que a praticou, estão incluídas e unidas sobre a mesma consciousness. Este pormenor é curioso porque no termo consciousness está implicada a capacidade de postular o que é certo e o que é errado, enquanto que o termo conscience muitas vezes aparece como que uma entidade quase exterior ao próprio sujeito da acção que aplica esses mesmos postulados. Assim, não ter um termo para consciousness significa não ter um termo específico que traga a responsabilidade do julgamento (o postulado sobre o que está certo e o que está errado) para dentro da entidade julgadora, a conscience. De igual modo, implica partir do pressuposto que apenas por se ter a capacidade de julgar então esse julgamento será particularmente reflectido. Pode não ser. Ao mesmo tempo, a externalidade que se oferece ao paradigma certo vs. errado por não separar as duas dimensões do conceito não é benéfica: alguém habituado a obedecer a um parâmetro que não reconhece como inteiramente seu está mais atreito a deixar que outros julguem por si. Pior ainda, significa não ter um termo próprio para aquilo que é mais definidor da condição do ser humano: a sua capacidade de auto-reflexão, o ponto de partida da nossa própria existência.

FORMALISM

"What people then get used to is not so much the content of the rules, a close examination of which would always lead them into perplexity, as the possession of rules under which to subsume particulars. In other words, they get used to never making up their minds. If somebody then should show up who, for whatever reasons and purposes, wishes to abolish the old "values" or virtues, he will find it easy enough provided he offers a new code, and he will need no force and no persuasion-no proof that the new values are better than the old ones-to enforce it. The faster men held to the old code, the more eager will they be to assimilate themselves to the new one; the ease with whicli such reversals can take place under certain circumstances suggests indeed that everybody is asleep when they occur. This century has offered us some experience in such matters: How easy was it for the totalitarian rulers to reverse the basic commandments of Western morality-"Thou shalt not kill" in the case of Hitler's Germany, "Thou shalt not bear false testimony against thy neighbor" in the case of Stalin's Russia."

Arendt, Hannah, Thinking and Moral Considerations , Social Research, 38:3 (1971:Autumn), p.417

terça-feira, 20 de março de 2018

A ODISSEIA DO UROBORUS

Na Odisseia de Homero, Ulisses parte na sua aventura deixando para trás a sua mulher, Penélope. Durante vinte anos de ausência, Penélope, fiel ao seu marido, tem que idealizar diversos estratagemas para justificar a sua permanente recusa em aceitar um novo esposo. O mais famoso destes estratagemas é a célebre mortalha de Penélope: Penélope afirma aceitar um novo marido quando acabar de tecer uma mortalha para o pai de Ulisses. No entanto, esperta e virtuosa, após passar os dias a tecer, ocupava igualmente as noites a desfazer o que havia tecido durante o dia mantendo dessa forma a sua fidelidade a Ulisses.
Esta imagem de auto-destruição que permite uma perpétua criação faz lembrar muito o uroborus, o símbolo arcaico da serpente ou dragão que se alimenta a si mesma. Símbolo de imortalidade, para Jung, o uroborus representa a integração do 'eu' com o seu subconsciente, com a sua sombra, uma espécie de completude, um estado de maturação que representa o estádio máximo de individuação do ser humano. A autofagia criadora é aqui, portanto, o símbolo da auto-suficiência, da plenitude e da independência. Daí que o uroborus seja um símbolo recorrente nas mitologias antigas como exemplo da perfeição criadora divina.
No entanto, esta simbologia parte do pressuposto que falamos do sagrado, do divino. O mundo, aquilo que é, por ser perfeito e total, é necessariamente auto-suficiente: alimenta-se a si próprio eternamente; por definição, o mundo, porque compreende tudo aquilo que é, não deixa nada de fora. Não é, portanto, alimentado, depende apenas de si próprio. Contudo, se é verdade que tanto o uroborus como a mortalha de Penélope partilham um processo de certo modo auto-suficiente, também não pode deixar de ser notado que representam situações muito distintas: o uroborus representa totalidade, maturação, completude; já a mortalha de Penélope representa o vazio deixado por Ulisses, uma amputação portanto, e a ausência de movimento: Penélope está como que parada no tempo à espera do seu marido. Ela não cria, ela apenas ilude os outros de que está criando algo. O uroborus, pelo contrário, representa a ideia de transcendência em relação ao quotidiano: o eterno retorno apenas é retorno porque é eterno, divino mesmo; para Penélope nada é transcendente - a não ser, talvez, o amor a Ulisses -, nada é criador, tudo está parado à espera de Ulisses. O uroborus cria e transforma-se, integra-se; Penélope não. O primeiro realiza-se, a segunda depende de outro, um outro que lhe dá sentido e que com a sua ausência lhe causa o imobilismo.
Outro símbolo de perpétua criação e destruição é o mito de Sísifo. Aqui, o herói perpetuamente empurra uma enorme rocha pela montanha acima apenas para que ela role de novo para baixo a cada vez que o topo é atingido. Sísifo, no entanto, é condenado àquela situação e a sua condição representa uma pena infligida por outrem, no caso Zeus. O eterno labor e a inutilidade, ou falta de significado prático para a sua árdua tarefa para lá da própria condenação, representa uma metáfora para a própria existência humana: Camus explica que o sentido para uma vida forçosamente absurda passa por imaginar Sísifo, apesar de condenado, feliz. A aceitação da condenação, ou seja, da inevitabilidade da nossa condição humana, aquela de lutar e trabalhar sem que se perceba algum significado cósmico que ofereça sentido às nossas vidas será, nesta visão existencialista, a chave da felicidade. Supera-se a condenação, aceitando-a. A felicidade de Sísifo depende da máxima de Camus: "não há destino que não possa ser superado pelo desprezo" (The Myth of Sisyphus, 2005, Penguin, p. 117).
Deste modo, se virmos a questão pelo lado jungiano, a integração da sombra existencialista - a falta de sentido transcendente para a vida - passará por aceitar que a justificação que damos a nós próprios para a nossa existência é suficiente. Assim, atingimos a felicidade perpétua: sem sentido, sem significado, sem objectivo, na nossa auto-suficiência poderemos continuar o nosso labor, a nossa condenação, postulando nós próprios o nosso devir. Transcendemos o absurdo aceitando a impossibilidade do transcendente. De certa forma, esta maturação, ou individuação, representa, de facto, uma completude: nada mais precisamos além de nós próprios. Por outras palavras: o antigo divino somos nós. Onde antes éramos condenados, agora estamos libertos porque ao aceitarmos e integrarmos a nossa condição conquistamos a liberdade.
Para Nietzsche esta liberdade, no entanto, representou um perigo: se somos nós próprios que postulamos o sentido para a nossa felicidade então a fonte de autoridade - a base da moralidade, portanto - passa do transcendente, e por isso comum a todos, para nós próprios. É este perigo que Nietzsche identifica: onde Deus morreu, sobram então os homens que o mataram, e a estes, sendo subjectivos por natureza, parciais e imperfeitos, sem algo objectivo, permanente e imutável onde basear a sua moralidade, tudo passa a ser permitido. O caos, portanto.
O grande dilema da modernidade do qual Nietzsche foi presciente é precisamente este: como poderá uma civilização sem nada que a baseie sustentar-se a si própria? Será uma civilização deste tipo o uroborus? Ou, por outro lado, será que uma civilização sem base ontológica para lá do reconhecimento de que não há base possível representa uma mortalha de Penélope, ou seja, um tecido que nunca se termina, nunca se cumpre? Por outras palavras: a mera aceitação existencialista e materialista da condição humana como um fundamento para uma vida plena representará uma libertação ou, pelo contrário, apenas uma resignação?; será o pressuposto existencialista o expoente máximo do humanismo ou, por oposição, uma mera amputação face ao potencial humano?
O mundo ancestral do homem primitivo, o do uroborus, é um mundo mágico encantado por natureza: tudo ocorria sem explicação para lá da vontade desse mesmo mundo que, sendo mágico, representava uma constante manifestação divina. Os deuses encarnavam e decidiam tudo: o bem e o mal, a vida e a morte, o tempo, as culturas, a caça, a chuva e os trovões, os animais e, claro, os homens. A experiência humana desenrolava-se imersa nessa magia: inconsciente, nada se questionava, tudo era divino. Foi o monoteísmo que veio separar o campo material do divino: para Deus ficou a criação, o transcendente e o eterno; para o Homem, o material, o perene e o sofrimento. É a queda do paraíso: ao amadurecer e compreender a sua condição o Homem atribui o mágico a Deus e assume a sua condição. Emancipa-se por oposição ao divino, ainda que essa oposição seja uma oposição através da subserviência. Guarda, no entanto, a promessa de salvação: o regresso ao paraíso após a morte. Esta promessa permitiu à religião organizar a sociedade e impor hierarquia e ordem que fosse para lá do mero poder físico. Fazer o que está certo, a moral portanto, é o que permite a salvação, mesmo que esta moral, como Nietzsche também argumenta, seja uma moral ressentida - a resposta dos fracos e oprimidos face aos fortes que deles dispunham.
Este processo apenas foi aprofundado com o Cristianismo: onde antes o mundo material era apenas um deserto a atravessar para conquistar o acesso ao paraíso passou a haver valor: como poderia o mundo não ter valor se nele Deus se fez Homem? O mesmo para a criatura: se Deus se fez Homem como eu, e me chamou de irmão, como posso eu não ter valor? Esta valorização divina, este regresso do divino ao mundo material, é a chave do investimento humano no mundo: o Homem supera-se ao que o rodeia e vê-se como instrumento da obra de Deus. No entanto, para temperar esta arrogância, o Cristianismo oferece também o triunfo da noção de vítima: afinal, Deus veio ao mundo para ser crucificado na cruz.
O dualismo divino-material, apesar disto, persistiu; aliás, foi aprofundado no próprio mundo material: a Deus o que é de Deus, a César o que é de César. Onde o monoteísmo ofereceu uma separação entre o divino e o material, o Cristianismo veio oferecer valor ao Homem, ao mundo e ao trabalho do primeiro em transformar o segundo.
Abriu-se, no entanto, a porta de saída: quanto mais o Homem se valorizou, quanto mais transformou, então mais ele controlou e mais ele se arrogou. Daí que Gauchet se refira ao Cristianismo como la religion de la sortie de la religion - a religião da saída da religião. E onde antes havia dualismo, ao chegarmos ao Século XXI sobra apenas o mundo material, bem como a promessa existencialista de que tal mundo bastaria. Apesar dito, sobreviveu intacta a noção de protecção e libertação das vítimas e dos fracos ou oprimidos, em nome dos quais devemos agir e nos organizar. No entanto, com a modernidade secular, a razão de ser para a protecção dos mais fracos e desprotegidos, o Cristianismo, deixou de ser comummente aceite como o fundamento da moralidade civilizacional. O receio de Nietzsche, e para o qual ele nos alertou, foi precisamente aquele que se verificou durante o Século XX: onde mais se implementou a revolução em nome dos oprimidos e das vítimas, mais se oprimiu, matou e destruiu. Porquê? Porque nessas experiências se retirou também a base moral que protegia essas mesmas vítimas - o Cristianismo. Do mesmo modo, se explica a adesão popular a tais movimentos: porque incorporaram o discurso, apenas que meramente na forma, da mãe de todas as revoluções - a Cristã. Infelizmente a forma sem o conteúdo revelou-se como a receita perfeita da mortandade.
O dilema Nietzschiano continua bem presente entre nós, apenas que disfarçado no zeitgeist pelo manto opaco da tecnologia contemporânea. A grande revolução tecnológica que a civilização ocidental ofereceu ao mundo dotou o Homem com um devir, especialmente hoje em dia: a salvação parece estar ao virar da esquina. Hoje, quando olhamos em redor e vemos as possibilidades de transformação que a tecnologia permite, quer ao mundo quer aos próprios indivíduos, é muito difícil de aceitar a ideia de que estamos estagnados, ou decadentes. Pelo contrário, a transformação tecnológica oferece a promessa da superação da condição humana pela própria tecnologia. A investigação mais recente no campo das células estaminais, da nano-tecnologia e da robótica fazem antever um futuro não muito distante onde esperanças médias de vida exponencialmente aumentadas representam um cenário perfeitamente plausível. Haverá maior promessa de superação da condição humana do que esta? Superar a limitação física, conquistar a imortalidade, viajar pelas estrelas; que podem as antigas religiões oferecer que supere tamanha oferenda?
Hoje o mundo é mágico de novo e, ao mesmo tempo, cheio de promessas. Tudo parece ser possível: é no mundo material, no aqui e agora, que o paraíso é prometido. Onde antes Deus prometia a redenção e a salvação por caminhos misteriosos, e normalmente penosos, hoje a ciência promete facilidades, confortos e, também, salvação. Ninguém percebe bem como funciona um ecrã táctil, ou sequer a Internet ou a televisão, estas coisas simplesmente nos aparecem, é o regresso ao mundo mágico primitivo: o Éden tecnológico-digital. Ao mesmo tempo, o dualismo passa cada vez mais a existir entre o mundo material e o digital, que dele deriva; esta nossa criação onde o espaço e o tempo são conquistados e, como verdadeiros deuses déspotas, pomos e dispomos de tudo como bem entendemos. O poder humano parece, de facto, ser infindável neste admirável mundo novo. O controlo, ou a ilusão de controlo, permitem acreditar que, de facto, somos nós que imprimimos valor e sentido ao mundo.
Posto isto, a questão que eu gostaria de colocar parte da distinção com a qual comecei este texto: estaremos nós no nível de integração do uroborus ou, pelo contrário, à espera da salvação como Penélope? Para resolver o dilema de Nietzsche temos que dar resposta a esta questão. Dirão os optimistas que o uroborus está aqui: criamos, dispomos, controlamos, e aquilo que ainda não controlamos acabaremos inevitavelmente por conseguir controlar. Contudo, se bem analisarmos as coisas parece-me mais que estamos, como Penélope, angustiosamente à espera da salvação. Conceptualmente, que diferença faz se o Éden fica para lá do véu da morte ou se, mais agradável, fica no aqui e agora?
Há, todavia, uma grande diferença entre a promessa de salvação divina e a promessa de salvação tecnológica: a primeira não depende de nós, é-nos oferecida. O mundo não precisa de nós, é certo, mas nós precisamos dele. Dele dependemos. É esse mundo que nos transcende que nos ofereceu a possibilidade de existência, o dom da vida, e por mais que a venhamos a manipular no futuro é na matriz que nos foi oferecida, que nos antecede, que vamos sempre operar: por mais que sejamos criadores nunca deixaremos de ser criação. Ou seja, e por outras palavras, por mais que ofereçamos um certo sentido às nossas criações, mesmo à forma como vivemos, não poderemos alguma vez oferecer sentido à nossa própria criação: esse sentido pertence ao acto da criação, um acto no qual participámos involuntariamente, e sem dele estarmos conscientes. E disto a promessa materialista e existencialista não trata: resolve a existência mas apenas escondendo o facto da criação. Sísifo, não esqueçamos, foi condenado. E por mais que despreze a pedra que todos os dias empurra no limite das suas forças, desprezo dificilmente poderá ser a base de uma moralidade humana. O que pode o desprezo contra a tirania para além de aceitá-la? No final, onde tudo é absurdo, que diferença faz se somos livres ou se, como Wilson no 1984 de Orwell, ao sermos forçados a ser livres, acabamos a amar o nosso tirano?
A promessa do uroborus implica a ideia de completude; rejeitar meramente o transcendente escondendo o facto da criação original não é um acto de integração, muito pelo contrário, representa uma amputação. A vida é absurda porque lhe retirámos a possibilidade de poder significar alguma coisa, alguma coisa que para nos oferecer significado terá que ser, por definição, maior do que nós.
Quando bem analisada, a mensagem existencialista configura também ela uma hipótese sobre o mundo, no caso com dois postulados: o primeiro, é de que o mundo não tem significado; o segundo, é que é possível ser-se feliz sabendo que o mundo não tem significado. Ora, nem a primeira nem a segunda são fáceis de demonstrar. A primeira representa uma certeza sobre a criação do mundo que manifestamente, precisamente porque nos é transcendente, nos está vedada; a segunda representa outra impossibilidade: porque pressupõe que mesmo que o mundo não tivesse qualquer significado nós poderíamos sabê-lo.
Daqui resulta que, se é certo que a aceitação da condição humana será até parte integrante de uma receita de felicidade, a subtracção do transcendente às nossas vidas nunca poderá ser o devir do uroborus; muito pelo contrário, onde antes havia a ideia de Deus agora colocámos a ideia de ciência: ambos os conceitos dão sentido ao nosso mundo, ambos prometem o paraíso e ambos orientam a nossa vida para o futuro. A diferença, no entanto, é que o segundo, porque pressupõe que tudo do qual necessitamos está conceptualmente ao nosso alcance e existe apenas no aqui e agora, não deixa grande espaço para o transcendente; já a ideia de Deus, ou do divino, implica também a participação humana no transcendente, uma participação que se assume como parte integrante da condição humana.
Voltando ao início, a Jung e à noção de integração, no que poderá então consistir a verdadeira maturidade, aquela que integre de facto a nossa sombra e nos traga completude? E aqui parece-me que é evidente que passará muito mais por reconhecer a existência de uma componente transcendente à nossa própria condição humana, e da qual esta resulta e depende, que faz parte do nosso mundo e, portanto, de nós próprios. Este reconhecimento, que é também uma aceitação, depende directamente da noção de humildade que o absurdo até pode ser absurdo para nós mas que isso não obriga a que o seja também para o mundo. Este exercício de extrapolação é a base da Fé, é certo, mas não deixa de ser uma atitude profundamente racional: não posso professar uma conclusão sobre algo que desconheço.
Reconhecer este desconhecimento é fundamental mas é também ele muito difícil: o Homem como ser consciente que é controla o que o rodeia através da compreensão; reconhecer, e aceitar, a existência de algo que não podemos compreender, logo que estamos impedidos de controlar, é um acto de grande coragem porque implica reconhecer o abismo sobre o qual todos periclitamos.
Postular a ausência de sentido para o mundo é um acto de arrogância. Sísifo, aliás, foi condenado precisamente pela sua húbris. Não será esta ainda maior arrogando-nos de que nada mais existe com significado no mundo para além de nós próprios? E não será esta mesma noção materialista também ela um exercício de Fé, apenas que arrogantemente fundada em pressupostos postulados por nós próprios ao invés de aceitar - aceitar de facto - que a aquilo que nos transcende é também, mesmo que sem razão compreensível, aquilo que nos cria?
Integrar, ou para ser mais correcto, reintegrar o transcendente na vida do Homo Materiales será, portanto, o caminho. E, olhando para os resultados práticos no Ocidente do triunfo materialista, será também, muito provavelmente, uma necessidade: o dilema de Nietzsche está bem vivo e a demandar resposta. O uroborus, enredado que está nas teias de ilusões criadas pelos teares das Penélopes contemporâneas, continua claramente por cumprir. Contudo, uma conclusão podemos tirar: o aprofundamento da narrativa materialista apenas que afasta a possibilidade de completude. Afinal, não pode alguma vez estar completo aquilo que se vê amputado de uma parte integrante do seu ser.

segunda-feira, 12 de março de 2018

DESSINTONIA

Um tipo que esteja meio de fora, como é o meu caso, ao navegar pelas redes sociais e mediáticas portuguesas fica com uma sensação que, à falta de melhor expressão, ocorre-me qualificar de "dessintonia". Na Europa vive-se um momento de grande incerteza que, a todos os níveis, de uma forma ou outra, não deixará de afectar fortemente Portugal: por entre o Brexit de um lado e o momentum federalista das instituições do outro, por entre a recusa do multiculturalismo no leste e a adesão popular democrática aos que recusam o multulturalismo no centro-norte, por entre os dislates de, entre outros, os próprios portugueses e a impaciência das contas certas do norte, entre as espadas e as paredes, por Portugal, de Europeu discute-se a canção da Eurovisão. Ao mesmo tempo, dos EUA vêm sinais inquietantes que se aproxima uma grande crise económica que irá impactar o mundo inteiro. Já por Portugal, enquanto se assiste impávida e serenamente ao estafar das almofadas financeiras geradas com grandes sacrifícios em anos anteriores, de americano discute-se os Óscares de Hollywood. Nos entretantos, no mundo político indígena controlado por uma frente de esquerda cujo suporte parlamentar lança vivas aos passarinhos da Venezuela e aos assassinos da Coreia do Norte, o país já esqueceu os mortos dos incêndios, o mais baixo investimento público dos últimos quarenta anos, os mortos dos incêndios!, as contas para pagar nos hospitais, os mortos nos incêndios!!, as listas de espera, os mortos dos incêndios!!!, enfim, importante, importante mesmo é a bola: a bola é que mete tudo a mexer. Deve ser porreiro viver num país onde as grandes preocupações são os gemidos do festival da canção, os vestidos dos famosos americanos ou os ódios aos clubes rivais de futebol. Grave? Escandaloso? Um ex-primeiro-ministro ir dar aulas para a universidade, isso é que é grave. É mesmo um mundinho à parte, o nosso quintalinho. E quem está de fora, tal como os estrangeiros de carteiras recheadas que são acusados de destruir com o seu investimento a celebrada pobreza dos centros históricos em ruína, só pensa mesmo que tanta dessintonia é capaz até de ser uma coisa porreira. Para as férias, naturalmente.

RIVALS


UM GÉNIO

Em Portugal, a breve trecho, sobrarão sobretudo os turistas; depois, militantes dos partidos "detentores de cargos públicos", em particular do PS, sindicalistas, funcionários públicos, reformados (estrangeiros) e retornados portugueses (com reformas estrangeiras), jornalistas avençados dos poderosos donos do país (a garantir que tudo está bem), um pequeno número de empresários exportadores que conseguiram contornar a legislação nacional (até o Estado reparar), donos e empregados de restaurante, bar e/ou esplanada, homens das bolas de Berlim e gelados das praias (devidamente certificados), taxistas, condutores de riquexó, e um bando de desgraçados que, por não saber melhor ou não ter conseguido o visto, não conseguiu fugir. E uma estátua do Dr. Costa, o visionário que compreendeu que em Portugal não é preciso governar, basta não ferir interesses instalados, controlar a comunicação social, aumentar os impostos (apesar de garantir o contrário) e distribuir o saque fiscal pelas corporações e pelos apaniguados da extrema-esquerda indígena. O Dr. Costa é um génio, é o que vos digo.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

THE EDEN OF TYRANNY

"Where the many are, there is security; what the many believe must of course be true; what the many want must be worth striving for, and necessary, and therefore good. In the clamor of the many there lies the power to snatch wish-fulfilments by force; sweetest of all, however, is that gentle and painless slipping back into the kingdom of childhood , into the paradise of parental care, into happy-go-luckiness and irresponsibility. All the thinking and looking after are done from the top; to all questions there is an answer; and for all needs the necessary provision is made. The infantile dream state of the mass man is so unrealistic that he never thinks to ask who is paying for this paradise. The balancing of accounts is left for a higher political or social authority, which welcomes the task, for its power is thereby increased; and the more power it has, the weaker and more helpless the individual becomes.
Wherever social conditions of this type develop on a large scale the road of tyranny lies open and the freedom of the individual turns into spiritual and physical slavery."

C. G. Jung, The Undiscovered Self, 1957, in: C. G. Jung, The Undiscovered Self, Penguin Books, 2006, pp. 58-9

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

FÉ, RAZÃO E ATEÍSMO


Parece-me que existem graves equívocos nos tempos que correm a propósito das noções de 'Fé', “Razão” e “Ateísmo”. É preciso notar que mesmo o conceito de 'religião' tal como o conhecemos hoje em dia é algo bastante recente: até os pensadores iluministas começarem a questionar a ideia de Deus e o fenómeno da religião a noção de separar a experiência religiosa das outras componentes da vida não se colocava: viver implicava um exercício, acima de tudo, de fé; ou seja, de operacionalização das crenças de cada um, normalmente partilhadas, sobre o mundo. Naturalmente, dessa crença fazia parte no Ocidente a noção de um Deus criador, um fiel numa balança eterna sobre o Bem o Mal e que, após a morte física de cada um, seria o julgador supremo capaz de garantir benesses ou castigos às almas imortais que configuravam a essência do ser humano.
Com o advento da modernidade, em particular a partir de Descartes e a sua busca pela pedra de indiscutível certeza sobre a qual se poderia erigir o exercício de conhecimento “científico” do mundo, o célebre “penso, logo existo”, separam-se as águas: de um lado, temos aqueles que entendem que a descoberta do mundo e de Deus, consequentemente da essência humana e do sentido para a vida, passa pela análise fria, mecânica e causal da razão; do outro, aqueles que entendem que a razão pode explicar as particularidades mecânicas do mundo mas que o significado, os porquês de as coisas serem como são, para sempre seriam o terreno de uma explicação que a razão humana não poderia alcançar.
No entanto, para se chegar a esta divisão, a religião teve um papel fundamental: onde o monoteísmo tinha separado o mundo mágico do homem pré-histórico em divino e material, o Cristianismo, com o nascimento de Deus feito matéria e homem, veio oferecer valor ao mundo: como poderíamos não valorizar o mundo material, as coisas, se Deus, Ele próprio, se tinha feito matéria também através de Jesus? A vantagem competitiva que esta ideia veio trazer aos europeus vai afirmando-se ao longo dos mil anos que vão desde os estertores finais do Império Romano até ao advento do Renascimento: onde no final do Helenismo se voltavam os olhos para o divino já esotérico, ou onde os bons cristãos apenas olhavam para a cidade de Deus, a pouco e pouco o valor do mundo e o interesse em compreendê-lo foi fazendo o seu caminho: a Razão explicava os 'comos', a Fé explicava os 'porquês'. São Tomás, por exemplo, o pináculo do pensamento filosófico Cristão, dedicou a vida a harmonizar Deus e Razão, a Palavra e o Filósofo (no caso Aristóteles).
Com a revolução tecnológica (e moral) do século XV que resultou em grandes cismas intelectuais e uma enorme mortandade na Europa por força de conflitos religiosos (não exclusivamente mas assim justificados) os filósofos, cientistas e pensadores do Iluminismo procuraram, naturalmente, explicar e compreender o fenómeno religioso. O facto de a Razão oferecer um conjunto enorme de explicações sobre a Fé e a Religião, e a Fé, ou os seus fieis servidores e intérpretes, não oferecerem nenhuma explicação que fosse para lá do dogma tradicional fez com que, no debate de uma com a outra, a segunda fosse gradualmente perdendo terreno para a primeira. A pouco e pouco instala-se a ideia de que a experiência religiosa está separada da experiência do mundo. Que a religião deve ser limitada pela Razão. Ou que a ideia de Deus e do religioso é, em si mesma, absurda.
Primeiro, com a Religião Natural do Iluminismo que mais não era do que assumir o antigo Dogma de que o Divino e o Racional eram uma e a mesma coisa, apenas que agora despido do palavreado religioso e assente numa suposta certeza científica: para compreender-se o sentido da vida e chegar a Deus, o criador do mundo, já não era necessária a Fé, bastava descobrir os segredos do mundo através da ciência. Não foi difícil a esta noção triunfar no Ocidente Cristão: afinal, para o pensamento Cristão, o que era racional era bom e configurava uma expressão de Deus. Do mesmo modo, não foi difícil conciliar com as bases clássicas do Ocidente: afinal, já para Platão o Bom e o Racional tinham que ser coerentes.
No entanto, o ritual antigo da Igreja, o palavreado dogmático dos Evangelhos, o cheiro asfixiante dos incensos, da madeira velha dos púlpitos, as pedras velhas dos altares e, ainda mais importante, a exigência de humildade (muitas vezes não praticada) perante a figura de Cristo, tudo isso representava uma absoluta contradição com o ambiente do laboratório, da discussão científica e, mais importante, não era compatível com a arrogância do Homem que, à medida que via o seu mundo ser cada vez menos o centro do Universo, se transformava cada vez mais no centro de um Mundo que queria compreender, transformar e, em última instância, controlar.
Depois, veio a subjugação Kantiana do religioso face ao racional: a moral deveria ser entendida como baseada na razão pura, num mundo racional e transcendental onde, abstraídos das imperfeições humanas, os homens, a custo, conseguiriam obter um conjunto de preceitos racionais, logo universalmente válidos, que permitiriam ser uma base para uma paz perpétua. Curiosamente, apesar de muito esforço na sua viagem ao mundo racional, Kant não conseguiu oferecer ao mundo dos homens mais do que o seu Imperativo Categórico – “age como se a tua acção pudesse ser tornada uma regra universal” – que, convenhamos, não é muito diferente da chamada 'Regra de Ouro', algo já presente no mundo pelo menos desde o Reino do Meio do Antigo Egipto, bem como na mitologia Indiana e que, desde aí, numa ou outra forma, desde Thales na Grécia a Séneca em Roma, para nós, Ocidentais, fez o seu caminho até tomar a forma que melhor conhecemos no Evangelho (Lucas 6:31:) “faz aos outros o que queres que te façam a ti”. Para tanta razão faltou oferecer um pouco mais além do que aquilo que já cá andava desde o início dos tempos.
No entanto, a roupa racionalista que Kant oferece para as bases da moralidade, por estar de acordo com os tempos, fez sucesso: Nietzsche, que percebeu melhor do que ninguém as consequências da renegação racionalista ao Cristianismo que estava implícita na tese Kantiana, proclamou a morte de Deus. E garantiu que competia agora aos homens, aqueles que mataram Deus, criar uma nova moralidade assente na vontade humana. Atente-se no “criar”. Apesar disso, através da inspiração Kantiana, durante os últimos duzentos anos, e até meados do Século XX, temo-nos ocupado a “descobrir” uma moralidade. Para Fichte, por exemplo, Deus é a Lei Universal que se explana através da acção humana: criar será, portanto, descobrir.
Pelo caminho, renegando progressivamente mais a religião, tanto vista como uma projecção ilusória do Homem face ao seu próprio desejo de perfeição, como afirmou Feuerbach, ou como um instrumento de controlo de massas, o célebre ópio do povo Marxista, o religioso passa a ser visto como algo que é mau, que nos reduz, que nos limita. E de um mundo onde as autoridades religiosas limitavam os actos dos cientistas passámos para um outro tempo onde são as autoridades científicas que limitam os actos dos religiosos. Naturalmente fica, para já, a pergunta: se foi a religião, em particular a Cristã, que serviu de base para todo o conhecimento do mundo que temos, ou que julgamos ter, como poderemos conservar esse conhecimento sem a base que o suportou? Ou, por outras palavras, se matámos a base da moralidade que nos guiou até aqui como podemos garantir que não cairemos, como tantos antes de nós, no abismo do esquecimento?
É na resposta a esta questão que temos a distinção entre Fé e Razão. Para os primeiros, não há vida completamente humana sem Fé: esta faz parte da experiência de ser humano. Para os segundos, algo que não possa ser explicado pela lógica argumentativa e testado pela experiência empírica não poderá ser considerado verdadeiro.
Para desfazer este equívoco vou primeiro situar o termo “ateísmo” nesta dicotomia. Apesar de a uma primeira vista poder parecer paradoxal, o ateísmo deve ser colocado em primeira instância no campo da Fé. Isto por duas razões óbvias: a primeira é que um ateu proclama saber que Deus não existe; a segunda é que o ateu não pode provar que Deus não existe, apenas que quem acredita em Deus não pode provar que Deus existe. Ora, assim sendo, na sua base ambos exprimem uma crença: um postulado que não pode ser provado. Assim, o ateu, tal como o crente religioso, acredita em alguma coisa: no caso do ateu na não existência de Deus. No entanto, sobra a ausência de prova sobre a sua crença. Ao mesmo tempo, a linguagem do ateu faz-se de argumentos e de provas científicas. Assim, deverá ser igualmente colocado no campo da Razão. Em suma, o ateu assume a ciência como o caminho da sua verdade mas exprime uma convicção do seu resultado final que não pode provar por forma alguma. Não é diferente dos antigos filósofos naturais, apenas que exprimindo a crença contrária de que Deus não existe. Deste modo, o ateísmo torna-se irrelevante para a discussão entre Fé e Razão: partilha com uma, a Fé, o resultado (mesmo que de sinal contrário) e com a outra, a Razão, a metodologia (que perverte ao assumir uma convicção que não demonstra). O ateísmo é, portanto, uma opinião, uma manifestação de fé sobre o mundo, tão válida como outra qualquer desde que não assuma a arrogância de se considerar verdade.
Sobra-nos, portanto, o embate entre a Fé e a Razão sem nos preocuparmos com o fenómeno do ateísmo. E aqui parece-me que há um mal-entendido muito grande a propósito da sua suposta incompatibilidade. Que tenha havido, como fui mostrando ao longo do texto, uma evolução grande na forma como se entende a religião, ou a Fé, e uma controvérsia sobre as bases da legitimidade moral, logo política, da comunidade é algo natural. Que esta evolução fosse derivando num conflito foi inevitável porque o que estava em causa era a autoridade sobre a comunidade: quem a detinha, não a queria perder; quem não a tinha, queria conquistá-la. No entanto, hoje, com o advento da democracia liberal, o debate sobre a Fé e a Religião torna-se uma questão de consciência individual. Ao mesmo tempo, com a modernidade secular, pela primeira vez, Fé e Igreja são duas entidades distintas: é perfeitamente possível ter Fé fora da Igreja. Livres do problema da autoridade política e religiosa, o debate deveria ser mais profícuo. Os argumentos deveriam ser mais claros. As premissas bem explicadas. A serenidade deveria imperar.
Apesar de tudo isto, assim não tem sido. E assim não tem sido porque, parece-me, as regras do debate têm sido ditadas por um dos lados: no caso, a linguagem científica e racional do nosso tempo. A questão que se tem exigido aos crentes religiosos é a de que demonstrem que a sua crença é verdadeira. Mas isso é, naturalmente, impossível: Fé é Fé porque implica saber algo que não pode ser sabido de outra forma. Se pudesse ser sabido de outra forma não seria Fé, seria conhecimento empírico, logo científico. Pretender compreender a Fé, analisar a Fé, saber se a Fé é plausível ou não, como Kierkegaard argumentou, implica matar a Fé: ter Fé implica saber algo como verdadeiro que não poderia ser sabido de outra forma. Nomeadamente, a existência de Deus ou um determinado sentido para a vida. Jacobi, na sua contenda com Fichte sobre o que era o ateísmo, defendeu a noção de salto mortale: para lá do conhecimento da razão, que explica os 'comos', sobra explicar os 'porquês'. E os 'porquês' pertencem ao campo do divino, às causas e não aos resultados, à criação e não à obra; para conhecer o divino, portanto, é preciso abandonar a lógica, o racionalismo, o científico e abraçar a noção de Deus num salto mortal rumo ao abismo do transcendente. Ter Fé não é, por conseguinte, saber algo contrário à ciência: é conhecer para além da ciência, é conhecer o que a ciência não poderá algum dia conhecer.
Daí que o embate entre Fé e Razão seja uma mera ilusão sobre quem não compreende o que é, por um lado a Razão e, por outro, a Fé. Se a segunda trata do transcendente ao conhecimento humano já a primeira é apenas procedimental. A Razão é um mecanismo formal que nos permite organizar o mundo defronte dos nossos olhos. Os seres racionais, por serem racionais, conseguem reconhecer regras, padrões e procedimentos, causas e consequências. No entanto, nada existe no mundo da experiência científica que nos garanta para lá de qualquer certeza que, primeiro, o conhecimento científico que já temos é verdadeiro. Popper explica, e bem, como apenas podemos ter a certeza do que é falso, nunca do que é verdadeiro, porque tudo o que desconhecemos pode provar-nos errados, tal como sempre assim foi no passado a propósito de tudo aquilo que já tivemos como certo e entendido como verdadeiro - o princípio da refutabilidade. Segundo, e consequentemente, a ideia de que a Razão nos permite saber a verdade está igualmente longe de estar provada como verdadeira. A ideia de que existe sequer uma verdade para ser conhecida implica desde logo, a priori, uma hipótese sobre o mundo que não pode ser demonstrada empiricamente. O mundo pode ser uma ilusão idealista, pode ser uma simulação num computador do futuro ou, quiçá, apenas o sonho de uma entidade solitária. Agora, saber que a ciência dos homens, com os seus testes laboratoriais e as suas hipóteses especulativas, permitirá conhecer, de facto, sem dúvida, com certezas, algo de verdadeiro sobre o mundo para lá do mero saber que algumas causas geram outras consequências, ou seja, saber-se que pela Razão se podem conhecer as primeiras causas, não deixa de ser uma extraordinário exercício de... Fé. Talvez por isto mesmo o debate seja tão pouco sereno: o facto de a linguagem do racionalista ser feita de conceitos gerais e abstractos pretensamente universais não lhe confere uma característica de verdade, é certo, mas confere-lhe a ilusão dessa certeza. Ilusão a qual é o combustível dos fanatismos e, como a História bem o demonstra, dos maiores crimes a que a Humanidade já assistiu.
Fernando Pessoa escreveu que "a meio caminho entre a fé e a crítica está a estalagem da razão. A razão é a fé que se pode compreender sem fé; mas é uma fé ainda, porque compreender envolve pressupor que há qualquer coisa compreensível" (Desassossego, 2009, p. 194 [176]), uma passagem que me parece resumir bem o que quero transmitir.
Concluindo, o debate é infrutífero por duas razões: primeiro, porque tanto a Fé como a Razão são imprescindíveis: a Razão guia-nos por um mundo onde apenas a Fé nos sustenta a embarcação. Segundo, o debate é desnecessário porque ambos os lados do debate se ocupam de coisas diferentes: um dos 'porquês', o outro dos 'comos'. Pessoa, a este propósito, também escreveu que “ter opiniões definidas e certas, instintos e paixões de carácter fixo e conhecido - tudo isto monta ao horror  de tornar a nossa alma um facto, de a materializar e tornar exterior. Viver num doce e fluido estado de desconhecimento das coisas e de si próprio é o único modo de vida que a um sábio convém e aquece." (Desassossego, 2009, p. 456) Talvez possa ser esta a maior afirmação do valor da Fé: não nos esquecermos que o mundo que não conhecemos, nem poderemos compreender, está ao nosso alcance desde que não aprisionemos a nossa mente na aridez gélida dos conceitos científicos. Talvez os nossos paradoxais tempos de, por um lado, grande optimismo na salvação tecnológica da condição humana e, por outro, de grande desilusão e insatisfação para com, apesar da abastança material, o  facto de termos de lidar com uma profunda ausência de sentido para a vida mais não sejam do que uma grande demonstração prática, científica portanto, da enorme amputação que significa para um ser humano ver-se privado da Fé: ao depositarmos as nossas esperanças na crueza física dos meios do materialismo científico corremos o sério risco de perdermos os fins que a Fé, e apenas ela, nos é capaz de oferecer. Do mesmo modo, ao nos arrogarmos de saber, ou poder saber, a Verdade colocamos em risco a humildade responsável com que devemos abordar o imenso desconhecido que continua a ser o mundo. No final, tal como em tudo o resto, convém recordar Aristóteles que, sabiamente, nos faz sempre lembrar das virtudes do meio termo.

domingo, 14 de janeiro de 2018

SOBRE AS ELEIÇÕES NO PSD

Algumas notas breves e rápidas sobre a vitória de Rui Rio ontem para Presidente do PSD.

1. A vitória é indiscutível mas será preciso ter consciência do facto de a candidatura derrotada ter tido um score eleitoral muito elevado o que obriga a uma especial atenção por parte do presidente agora eleito para com os derrotados da noite. Se Rui Rio tem essas características pacificadoras é algo que eu há muito duvido, mas se não as tem então espero que as arranje, isto para bem do partido e de uma união fundamental que se exige para derrotar a frente de esquerda maioritária no parlamento. A sua primeira tarefa será essa, a de pacificar e unir q.b. o partido, coisa que não se apresenta nada fácil, e deverá, naturalmente, começar já no Congresso Nacional.

2. O meu maior receio prende-se com o relacionamento com o PS. Qualquer postura colaboracionista com um manipulador sem escrúpulos como é Costa será fatal para o PSD. Espero sinceramente que a conversa da treta do "PSD não é um partido de direita" acabe e que o rumo nacional de reversão do trabalho de Passos Coelho não se alargue ao PSD. Este receio foi a principal razão pela qual apoiei Santana Lopes. Espero também que os órgãos nacionais do partido não se tornem numa espécie de passerelle por onde se pavoneiem todos aqueles que passaram os últimos anos - tão difíceis para o partido - a maldizer o PSD, Passos Coelho e a governação da coligação.

3. Aguardo com curiosidade pelo prometido "banho de ética". Nomeadamente, que medidas serão tomadas no que concerne à militância interna do partido. Nova refiliação? Regime de incompatibilidades entre cargos partidários e lugares no aparelho de estado? Novo regime de quotas? Alterações positivas nestes âmbitos serão muito bem-vindas, desde que não controladas pelos caciques que apoiaram Rio, nem feitas à sua medida ou dos seus interesses.

4. Uma palavra para Pedro Santana Lopes. Santana pode ser acusado de muita coisa mas de falta de entrega ao partido, ou pouca dignidade e educação na forma como se apresentou aos militantes, não poderá ser ele acusado. Foi um bom candidato, representou uma postura coerente e válida dentro do partido, teve um resultado muito digno e merece o respeito, e agradecimento, de todos os militantes.

5. Uma outra palavra, naturalmente, para Rui Rio. Não tenho a menor dúvida que é infinitamente melhor do que Costa. Que é honesto, sério e trabalhador. Que é competente. Assim, feita a escolha dos militantes, terminadas as eleições, será ele o próximo Presidente do PSD e no que depender de mim será também o próximo Primeiro-Ministro de Portugal. Assim o espero e assim o desejo. Votos de muito boa sorte, bem precisa.

6. Finalmente, uma palavra para Pedro Passos Coelho. É, sem dúvida alguma, a pessoa que eu preferiria ver a liderar o PSD. Assim não foi, tenho muita pena mas a vida continua e o partido também. Espero, no entanto, que ande por aí. Portugal e o PSD continuam a precisar dele.


sábado, 13 de janeiro de 2018

FROSTY


SEM DÚVIDAS

Hoje? Pedro Santana Lopes. O PSD onde sempre esteve: na reforma do país contra os interesses instalados.

NO AEROPORTO

No aeroporto, à espera de embarcar, duas mulheres encontram uma terceira, amiga de uma delas. "Por aqui", pergunta a que a conhece, abraçam-se e beijam-se muito e a amiga comum passa às apresentações: esta é a fulana tal e está no serviço tal. "Ah é?", admira-se a outra, e como e quando é que entrou, pergunta logo, e durante minutos relatam todas como, quando e por quem é que entraram para "o serviço". Primeiro, a avença, explica a recém chegada, depois em 2001 a regularização. Ah, bendita regularização! São duas as datas fundamentais na vida dos nossos regedores: a de nascimento e a da entrada ao serviço. Riem-se muito, a vida corre bem para os servidores do Estado. Entretanto, vem aí o embarque, as senhoras chegam-se logo à frente. Diz que têm prioridade.

A EVIDÊNCIA

Das duas, uma: ou bem que o Dr. Rio admite apoiar um governo do Dr. Costa ou bem que quer ser líder do PSD. As duas é que não.

O CERCO (VII)

O Observador, sem dúvida, tem a melhor coluna de opinião do país: é independente, séria e anti-sistema. Infelizmente, o mesmo não pode ser dito das suas notícias: em pouco tempo, tornaram-se elas também opinião, apenas que mascarada de notícia. Fazem processos de intenção, gozam com os objectos de notícia, adjectivam a seu bel-prazer (por exemplo, nesta notícia, o speaker estava "excessivamente" entusiasmado). É pena. Não me esquecerei da cobertura que fizeram à campanha do PSD em Lisboa, profundamente desonesta, e, parece-me, preparam-se para fazer igual com Santana Lopes. No final, para mim, é um elogio: em Portugal, grave, grave, é ser aplaudido pela classe jornalística.

BLIND AS A BAT