Pensamento, m. - Acto ou efeito de pensar. Qualquer acto de inteligência. Fantasia. Ideia. Espírito. Uso da razão. Reflexões

sexta-feira, abril 21, 2017

O CURRAL

Longe vão os tempos em que eu vibrava e, de forma muito atenta e permanente, seguia, e participava em, com a paixão própria dos vinte anos, os acontecimentos políticos do quotidiano. Hoje em dia, a custo, leio alguns títulos de jornal, nunca vejo televisão não-ficional, e mesmo a outra muito raramente sem ser pela Internet, e fujo a sete pés do mais ínfimo vislumbre de qualquer noticiário - aquele sotaque de jornalista aprendido, forçado, repetido ad nauseum é insuportável. Oiço, para praticar o Francês, as notícias matinais pela rádio e, durante o resto do dia, através do Facebook ou do Reddit, com um lapso temporal de duas ou três horas, a não ser que seja durante o sono, logo fico a saber da histeria do momento. Por regra, são coisas que não me interessam, às quais não atribuo qualquer importância e que me aborrecem. Outras vezes, ainda bastantes, são coisas que me indignam profundamente mas que, normalmente, ou não indignam ninguém ou, quando indignam, desaparecem passado um dia. E, nos entretantos, assalta-me todo um manancial constante de sinais, de sintomas e, cada vez mais, de verdadeiras doenças, que vão afligindo o país e a nossa civilização, e sempre sem que algo se discuta com seriedade, como se estivesse eu fadado a assistir a um filme de terror, um filme onde estamos todos enfiados mas, paradoxalmente, um filme ao qual muito pouca gente assiste: preferem estar lá fora, no recreio. No final, sobra uma sensação de profunda impotência, de crescente irrelevância, como que um torpor hipotérmico que, levemente, vai prostrando, vergando e afundando todo um modo de viver, um modo de vida que chamo de meu, e nosso, e que me entristece profundamente pensar que não chegará aos meus filhos. Aos gritos, os porcos chafurdam, e triunfam, no curral em que se transformou o espaço público e mediático. Jornalismo? Uma anedota: um bando maioritariamente composto por assalariados dos fazedores de factos públicos. Comentário público? Insuportável: uma trupe de retransmissores acéfalos do interesse que vão servindo, excepção seja feita a dois ou três articulistas de valor. A governação? Asquerosa: uma vergonha que só engana quem quer ser enganado ou a quem lhe dá jeito. E, depois, sempre, a patrulha do politicamente correcto: armados em sabedores, arrogados de saberem a verdade e a imporem a estupidificação generalizada a quem se atreve a pensar de forma diferente. Nojo. Um curral? Certamente. E, com os meus quase quarenta, entre chafurdar na lama e sentar-me, à distância, a olhar o mundo tal como ele é, a opção é evidente. Depois, claro está, sobra-me a invasão de um pessimismo existencial: de tudo o que há de feio no mundo, o pior está dentro de nós: a cegueira que deriva na estupidez que, por sua vez, deriva na arrogância e, finalmente, na prepotência, tudo, claro está, alimentado pela ambição egótica de, na pequenez, reduzir a infinitude do mundo à nossa pequena e limitada condição. No final, se é para isto, então não se perde grande coisa. Ao menos isso.

quinta-feira, abril 20, 2017

DA ACTUALIDADE

"Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos que se conquista o internamento no manicómio: a incapacidade de pensar, a amoralidade, e a hiperexcitação".

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, 175, Assírio & Alvim, 2009, p. 194

terça-feira, abril 04, 2017

DO IDEAL

"... e, com quejandas lumieiras que esplendem na vanguarda desta caravana da Humanidade, que se vai demandando a Meca da perfectibilidade".

in: A Queda dum Anjo, Camilo Castelo Branco, Ulisseia, 1986, p. 132

domingo, março 26, 2017

SECURITY

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sexta-feira, março 24, 2017

O CAFÉ

Aqui há uns quantos anos atrás, mais de vinte já, ainda miúdos, à noite costumávamos parar sempre ali pelo Deck, no Estoril. O dinheiro, normalmente curto, durava mais investido em latas de cerveja vendidas na antiga Mobil e, de costas largas por sermos mais de vinte a almoçarmos todos os dias da semana ali no Deck, dávamo-nos ao luxo de as ir beber para o final da esplanada, por debaixo de uma árvore grande que ainda lá está, não lhe sei o tipo nem o nome, mas larga umas bolotas rijas e peganhentas. O Sr. Victor, o dono do Deck, tolerava a coisa. Afinal, vinte miúdos ali a almoçar cinco dias por semana dão jeito, a esplanada era grande e não estava cheia.
No entanto, houve um dia, algures durante a primeira metade dos anos 90, em que, talvez irritado com outra coisa qualquer, o Sr. Victor mandou o Quim dizer-nos para consumirmos alguma coisa. O Quim era o empregado mais novo do Deck: todo jovem gostava de mostrar que era quase tão novo como nós, dizia piadas enquanto dava cotoveladas e piscadelas para comprovar a cumplicidade etária. Naquela noite, estava encavacado. Pouco à vontade, lá nos disse que o Sr. Victor dizia que não podíamos estar ali a beber cervejas compradas noutro sítio, que pedíssemos alguma coisa. Éramos uns dez, talvez, já não me lembro. Em resposta, um do grupo, armado em esperto, cheio de preguiçosa insolência disse que, se era para pedir alguma coisa, então queria um café. Ninguém quis mais nada. O Quim lá foi em busca do tal café e a conversa retomou. Passam uns minutos, e nada de café. Por fim, lá vem o Quim de novo mas não traz o café na mão. Curiosos, aguardamos pela chegada dele, parecia uns centímetros mais baixo, vinha ainda mais encolhido. Quando chega alguém pergunta pelo café. E ele responde: "o Sr. Victor manda dizer para irem buscar o café onde foram buscar as cervejas". E vai-se embora, aliviado da missão. O grupo agita-se e indigna-se. "Então", diz um, "mas a gente vem para aqui todos os dias, somos sei lá quantos aqui a almoçar e agora é isto?". Concórdia geral. "Se é para ir buscar o café a outro lado então vamos todos", incita outro. Assentimento unânime.
Levantamo-nos, ofendidos, e, alçando as pernas sobre o varandim de ferro que dividia o Deck do seu concorrente vizinho, o Yate, trocamos de esplanada. Logo veio o Sr. Rodrigues, um galego que falava um português perfeito, perguntar-nos se queríamos alguma coisa, lá veio o café, pelo caminho verificou se as latas estavam vazias, as que estavam cheias ficavam, as vazias levantava-as. Encantamento geral, aquilo sim era serviço! Nos entretantos, mais alguns se juntavam ao grupo, e logo se repetia a estória, e logo se indignava o recém-chegado.
Do outro lado da cerca, o Sr. Victor, de braços cruzados, olhava lá de longe, encostado à goela da porta do Deck. Do Yate, de soslaio, o grupo vigiava e conspirava: exigia-se acção. Ora, a medida proposta era a evidente: os almoços passariam a ser tomados no Yate. Alguém relembrou o principal problema logístico: o bitoque do Yate custava 800 escudos, mais 100 que o do Deck. No entanto, retorquiu outro, até acabava por valer a pena porque o bitoque do Yate era de vaca, em vez do bitoque de porco do Deck, tinha mais batatas fritas e o molho era melhor. E foi assim que nos mudámos de armas e bagagens para o Yate, aliás, não tenho ideia de ter voltado a almoçar no Deck, e já lá vão mais de vinte anos. À Quarta-Feira o Yate fechava e nem aí dávamos a mão à palmatória, aproveitando a folga para ir comer uma pizza ao Don Formaggio.
Pelo caminho, foram ficando alguns momentos dignos de maior registo, como o dia em que os deuses nos deram razão na contenda com o Sr. Victor e choveu no Deck e no Yate não. Foi a única vez que vi o fim da chuva, e foi mesmo ali naquela divisória de ferro pintada de azul. Noutra ocasião, motivo de orgulho meu, bati o record de permanência na esplanada do Yate, mesmo que continuássemos a apelidar a actividade por "estar no Deck", tendo chegado após o jantar e saindo apenas depois do almoço do dia seguinte. E nunca estive sozinho, apenas que variava a companhia.
Os anos passaram, a coisa ficou e a estória, por alguma razão, passou a merecer o estatuto de estória para contar. Creio ter sido algures por 98 que, acompanhando uma namorada, fui a um jantar de aniversário de uma amiga dela onde eu não conhecia ninguém. Fiquei ao lado de um tipo simpático que, tal como eu, "era de Cascais". "Ah é?", interessei-me eu, "então e de onde", perguntei. Era de S. João. E eu? Eu era do Estoril, e depois lá surgiu a referência aos Salesianos do Estoril, "ah, andavas nos Salesianos?", pergunta ele, "andava, pois", respondo eu, e logo ele afirma que se eu tinha andado nos Salesianos então isso queria dizer que costumava ir ao Deck. Na mouche, pensei eu, e logo lhe disse que sim, que era isso mesmo, horas e horas passadas no Deck, apenas para logo corrigir e dizer "quer dizer, Deck não, Yate". O interlocutor, creio que se chama Miguel, ficou curioso: "por que não o Deck?". E, claro, satisfeito por haver tema de conversa, lá lhe contei a estória do café, não me poupando a nenhum pormenor, e terminando, ufano, com a moral da estória: "sei lá quanto é que o Sr. Victor perdeu em almoços com o ter-nos mandado ir buscar o café onde tínhamos ido buscar as cervejas". Como se a cara dele denotasse algum trejeito ou expressão que não decifrei bem perguntei-lhe se ele conhecia bem o Deck. Ao que ele me responde, "sim, sim, conheço muito bem. É que, sabes, o Sr. Victor é o meu pai".
Nesse dia, quem aprendeu uma lição fui eu: com desconhecidos, é melhor guardar as estórias para mim. No outro dia, aqui há uns meses, passei pela primeira vez em alguns anos pela frente da esplanada do Yate e do Deck. Foi com muita surpresa que vi que o Yate fechou e é agora o jardim de cerveja Deck-Beer. A cerca de ferro já não está lá e é o Miguel, um tipo simpático e que, com o passar os anos se vê perfeitamente que é a cara do pai, que montou o negócio e produz a cerveja artesanal. Anteontem, de passagem pelo Estoril, fui lá ter com uns amigos. Quem nos serviu as cervejas foi o Quim, que lá continua com a mesma farda e com o mesmo ar jovial. Mas, o que me sobressaiu mesmo foram as rugas que agora lhe decoram a cara, afinal, vinte anos já é algum tempo, e tenho ideia de que já não o via há mais cinco anos. Passados uns minutos depois de ter-me sentado, lá apareceu o meu insolente amigo que naquela noite, com o seu pedido atrevido, acabou por espoletar esta estória toda. Sentou-se e, de casaco de pele, todo bem-posto na vida, cruzou a perna, disse olá ao Quim e pediu um café.

LE VENT NOUS PORTERA



Noir Désir, 'Le Vent nous Portera', Des Visages des Figures, 2001

sábado, março 04, 2017

O PADRECO FRANCISCO

Em 1927, Freud defendia a importância da religião que, mesmo tida como uma ilusão, garantia uma forma de controlar os instintos auto-destrutivos da própria humanidade. Para ele, para podermos imaginar uma sociedade europeia sem religião seria preciso uma doutrina alternativa que, por um lado, mantivesse as características psicológicas religiosas do Cristianismo e que, por outro, garantisse o carácter sacro, formal e rígido da religião - o dogma, portanto. Passados quase cem anos não deixa de ser interessante ver como a hipótese freudiana se confirmou: primeiro, é verdade que a Europa deixou, grosso modo, de ser religiosa: a matriz cristã está lá mas a crença em Deus, no código moral da igreja ou na importância dos seus agentes é residual; segundo, há, de facto, uma doutrina alternativa que substituiu a religião mantendo todas as suas características fundamentais: a Democracia. Com as suas instituições altamente formais, o seu carácter salvífico e a crença que nela, na Democracia, reside a salvação da sociedade, assim a Europa encontrou o equivalente terreno e material para a transcendência religiosa: onde a salvação antes seria no outro mundo, a salvação agora garante-se no aqui e agora - e a Democracia é a forma de o garantir. Assim, em nome dessa crença, importa-se o dogma religioso para o plano da teoria política: as coisas ou são boas, porque democráticas, ou são anti-democráticas, e por isso más; o Bem e o Mal definem-se pela sua equivalência com o padrão democrático. E quem decide o que é democrático, ou bom, e o que não é? Os intérpretes da verdade religiosa, perdão, democrática, naturalmente. E a essência de Democracia - a discussão popular, o compromisso entre visões diferentes, a tolerância com os pontos de vista adversos, etc. - é liminarmente substituída pela imposição do ponto de vista desses arautos do democraticamente correcto através dos meios de propaganda oficial: os grandes grupos mediáticos que se alimentam, e vivem, do status quo substituindo na antecâmara digital as antigas igrejas. A Democracia, dizem eles, os bispos da nova doutrina, é a sua causa, é a sua missão. Mas logo a pervertem dando palco a quem lhes paga, ou interessa, a quem os chefes mandam falar. E depois sobram os padres e padrecos. A benzerem os fiéis (os militantes), a jurarem sobre as bíblias (os programas eleitorais) e dos seus palanques, agora púlpitos, anunciam sempre a boa-nova - a salvação! - que apesar de tardar a chegar se encontra sempre ao virar da esquina, desde que cumpram os devotos o seu dever de os eleger. Melhor exemplo de padreco não há que o Francisco Louçã: sempre compungido, de profecia em profecia, curvado e com o sermão na ponta da língua, o arauto moralista dos novos tempos caminha pela comunicação social como Jesus sobre a água: não interessa que seja contra a liberdade individual (é comunista), não interessa que seja contra a democracia (é comunista) ou contra a propriedade privada (é comunista). Não. Aquilo que interessa é que ele sabe o que é democrático, e por isso bom, e aquilo que é anti-democrático, e por isso mau. Que o que é mau coincida com o que os seus adversários fazem e o que é bom com o que os seus correligionários praticam, isso já não interessa nada. E agora, no seu auge, o Banco de Portugal. Nada mais apropriado para um Totskista inimigo da propriedade privada (o principal alicerce de uma verdadeira democracia pois os consumidores votam com a carteira sobre o que querem ver produzido) e adversário da economia de mercado no conselho consultivo de um banco central. Mas nada mais coerente! Porque, tal como muitos outros, também Louçã, apesar da sua cátedra, se deixa deslumbrar pelas lascivas curvas do grande capital - tal como os seus camaradas bloquistas que aturam as maiores safadezas do PS apenas porque lhes dá jeito. E é assim que, tal como muitos padrecos antes dele, Louçã, o maior moralista da nossa praça, vai deliciar-se nos cadeirões de couro do poder. No final, tal como Lampedusa profetizou, tudo muda para que tudo fique na mesma: afinal não é Louçã nem mais nem menos do que um Padre Amaro da política portuguesa. Deus o tenha.

quarta-feira, março 01, 2017

DRILL

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quarta-feira, fevereiro 15, 2017

ABSTRACTIONISM

"It is only by reducing people of flesh and blood to a mere idea that one can ignore the will of the majority in the name of democracy and institute a dictatorship in the name of freedom".

Richard Pipes, The Russian Revolution 1899-1919, Fontana Press, 1992, p. 132

SOL DE INVERNO (V)


terça-feira, fevereiro 14, 2017

CHOOSING VALUES

"Some inequalities (say, those based on birth) are condemned as arbitrary and irrational, others (say, those based on efficiency) are not, which seems to indicate that values other than equality for its own sake affect the ideals even of passionate egalitarians. A part of what we mean by rationality is the art of applying, and combining, reconciling, choosing among general principles in a manner for which complete theoretical explanation (or justification) can never, in principle, be given".

Isaiah Berlin, Equality, in: Isaiah Berlin, "Concepts and Categories: Philosophical Essays", Oxford University Press, 1980, p.83

NEXT LEVEL

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sábado, fevereiro 11, 2017

O TEMPO NOVO

Durante as últimas décadas, as democracias europeias têm sido governadas por dirigentes políticos que, ao invés de se preocuparem a governar em nome do povo, se têm ocupado a convencer o povo sobre o que é que este deve querer, ou não, para si próprio. Através de todos os meios, principalmente através de um meio mediático medíocre e corrupto, por todo o continente se tem propagandeado que o que está certo é advogar-se uma Europa multi-cultural, multi-religiosa e aberta a todas as civilizações exógenas, mesmo as mais hostis e violentas, tidas todas como iguais. Quem não concordasse com o axioma oficial logo era enlameado na praça pública como racista, xenófobo ou proto-assassino. A Europa multi-cultural, diziam-nos, é terra de paz, prosperidade e fraternidade - para todos no mundo. Esqueceram-se, no entanto, daqueles que já cá estavam.
Passadas décadas de inclusão social, de multiculturalismo, perante comunidades minoritárias que não se querem incluir - muito pelo contrário: comunidades que sonham com o dia em que a Europa adopte a cultura, religião e práticas sociais que essas comunidades deixaram nas suas terras de origem - os conflitos civilizacionais dão-se a cada rua e a cada esquina dessa inclusiva Europa. E enquanto o povo reclama, enquanto as pessoas vêem deteriorar-se a paz e a segurança que se habituaram a ter desde o final da Segunda Guerra Mundial, os seus dirigentes políticos apontam o dedo ao "medo", à "xenofobia", ao "racismo". Quem está errado é o povo, pois claro. E, de repente, com o avolumar dos casos de violência, por entre bombas, esfaqueamentos, fuzilamentos e atropelamentos, enquanto o arco da governação afirma que tudo está bem, quando é evidente que não está, para quem se poderá o povo virar? Para aqueles que apontam o dedo e dizem que o rei vai nu. E vai.
Se a isto juntarmos o facto de, por razões diversas, o bem estar económico estar em recessão, as condições de vida das populações estarem a piorar, e os seus governantes, por entre casos de mentira e corrupção, continuarem a afirmar que não se passa nada, cria-se a tempestade perfeita para a revolução. Com um discurso que aponta o dedo ao verdadeiro problema da imigração na Europa, que denuncia de forma certeira as dificuldades económicas daqueles que menos têm e que, falsamente, emulando a promessa socialista, promete a salvação pelo Estado, em França, a probabilidade de vitória de Le Pen é esmagadora. O povo, sedento de mudança, abraça o melhor de duas promessas, mesmo que ambas ilusórias: o estatismo das últimas décadas (atribuido-se à UE o ónus do seu falhanço) e o nacionalismo das suas fronteiras (onde reside a tradicional barreira de segurança face ao invasor bárbaro).
As consequências de uma vitória de Le Pen em França serão profundas para a Europa. Um FREXIT implicará, quase certamente, o fim do Euro tal como o conhecemos. Do mesmo modo, com eleições poucos meses depois, os alemães - que já escolhem a AfD (anti-Euro, eurocépticos) como terceira força neste momento - verão as suas eleições tornarem-se imprevisíveis. Na Holanda, Wilders, condenado em tribunal apenas por ter dito que os holandeses queriam menos imigrantes muçulmanos, lidera as sondagens. Na Europa de Leste, assolada na primeira linha de embate pelos refugiados sírios, a recusa da imigração muçulmana calcula-se nos 70% do eleitorado.
Apesar do acima exposto, com a excepção de Rutte na Holanda que, por interesse eleitoral, começou agora a incorporar a preocupação islâmica no seu discurso político, o arco da governação une-se no seu politicamente correcto e continua a dizer que é errado querer controlar a imigração. Que é errado pensar que a matriz cristã da Europa é algo que deve ser protegido. Que é errado pensar que os valores da tolerância, da igualdade (em particular a sexual) e da fraternidade são incompatíveis com o islamismo militante. Que é errado estar contra aqueles que querem abolir os costumes e as tradições, mesmo as meramente festivas e simbólicas como o Black Pete na Holanda ou a árvore de natal na Grand Place de Bruxelas, apenas porque são ofensivos para algumas minorias. Que é errado criticar o retirar a carne de porco dos menus escolares porque muçulmanos não comem porco. Que é errado estar contra o garantirem-se direitos especiais a minorias, tais como tirarem fotografias para passe ou passaporte de burka (podendo qualquer um debaixo dela utilizá-lo) enquanto os europeus nem de óculos podem ser fotografados porque impede a sua correcta identificação. Enfim, tornou-se habitual as pessoas estarem erradas e a elite que governa (políticos, colunistas, jornalistas, etc.) estar certa. E cá estão os censores de serviço nos media a explicarem-nos a todos porquê.
No entanto, muito pelo contrário. A asfixia do politicamente correcto parece estar a chegar ao fim. O divórcio entre o centro democrático - unânimemente unido no politicamente correcto - e o eleitorado chegou e é irreversível: as pessoas pura e simplesmente não concordam com a cartilha oficial e querem mudança. E, considerando que ainda somos democracias, ao contrário do que a elite pensante possa pensar, o que as pessoas verdadeiramente querem, especialmente quando em maioria, ainda conta para alguma coisa. Progressivamente, tal como temos vindo a assistir em França, entre o autismo do centro fiel à sua cartilha e o oportunismo dos eurocépticos, o que acontece é o centro unir-se contra o opositor. Mas, tomando nota de que as políticas do centro são sempre mais do mesmo, ao não conseguirem dar resposta àquilo que as populações verdadeiramente temem, ou desejam, aprofundando-se o divórcio, então o centro esboroar-se-á gradualmente para as mãos da oposição. Se Le Pen não ganhar agora ganhará a seguir. A maior vitória, aliás, já a conseguiu quando lhe foi oferecido de bandeja o papel de opositora oficial do regime.
Não concordo com a ideia de que o fenómeno que estamos a presenciar seja meramente o ressurgimento do nacionalismo por oposição à globalização. Também é. Mas, fundamentalmente, é uma revolta contra o desrespeito pelos valores e tradições basilares que fizeram das comunidades europeias o caso de sucesso civilizacional que é, ou que pelo menos foi. No entanto, como as elites governantes sempre viram as tradições locais como adversárias à implementação das suas utopias supra-nacionais e multi-culturais, também os seus adversários políticos as mantiveram juntas: e agora, com a recusa de uma mandam-se as outras igualmente fora. É um triste preço a pagar pela ignorância das elites progressistas, utópicas, e profundamente ingénuas, que nos governaram nos últimos anos.
A UE verá grandes alterações nos próximos anos. Ou um conjunto trans-nacional de políticos europeus consegue rapidamente proteger as identidades europeias, unindo-as no que têm em comum, conciliando-as com a pivotal liberdade e abertura económica, reformando a UE, permitindo o crescimento económico, libertando os europeus do estatismo cristalizante em que vivemos e devolvendo esperança e confiança aos europeus - algo que vejo como extremamente improvável - ou o desagregar, seja ele mais lento ou mais rápido, será a única alternativa. Seja como for, o mundo vai mudar. E, quer num cenário quer no outro, será impossível a países como Portugal continuarem a viver de mão estendida enquanto cantam hossanas aos valores solidários europeus. Para o bem ou para o mal, esse tempo morreu.

terça-feira, fevereiro 07, 2017

POPULISMO

O populismo de Trump é directamente proporcional ao populismo dos que histrionicamente o criticam. Mas não só: em Portugal, Sócrates foi populista. Costa é populista. Marcelo é populista. Já Passos, que fala do mundo real, nada tem de populista. Logo, é impopular. Porque é a sociedade destes tempos que vivemos que é ela própria populista: gritam todos muito alto pelos seus direitos sem ter a mínima preocupação de os alicerçar na realidade, ao mesmo tempo que esperneiam cada vez que a coisa não corre como cada um quer. Parecenças com Trump não são meras coincidências. Os jornais são populistas. As TV's são populistas. E por isso gostam muito do BE, que é populista. A Le Pen também é populista e, como tal, porque bons vendedores de banha da cobra não se preocupam com esquerda e direita, prometem ambos, a Le Pen e o BE, exactamente a mesma coisa: o sol na eira e a chuva no nabal. Ou seja, mundos e fundos que não há como pagar. E o discurso da mentira, da propaganda, da artimanha, só cola porque foram anos e anos de governações medíocres, arrogantes, moralmente superiores, tudo cheio de terceiras vias infalíveis, de fins da história. E isso também foi populismo, porque não era, nem nunca poderia ter sido, real. E, no meio de tanta merda, depois de tanto engano, o povo diz que se farta. E entre os populistas de um lado, os populistas do outro, ou os do meio, venha nem que seja o diabo, desde que seja diferente. Foi assim com Trump. E tudo indica será assim com Le Pen.

POLITICAL ENTITY

"Every religious, moral, economic, ethical, or other antithesis transforms into a political one if it is sufficiently strong to group human beings effectively according to friend and enemy. The political does not reside in the battle itself, which possesses its own technical, psychological, and military laws, but in the mode of behaviour which is determined by this possibility, by clearly evaluating the concrete situation and thereby being able to distinguish correctly the real friend and the real enemy. A religious community which wages wars against members of other religious communities or engages in other wars is already more than a religious community; it is a political entity".

Carl Schmitt, The Concept of the Political, University Chicago Press, 2007, p. 37

THE LARGEST NUMBER


terça-feira, janeiro 31, 2017

FREAKSHOW

Mais um episódio do podcast sensação da Direita.

GIBBERISH

                                                                             Daqui.

segunda-feira, janeiro 30, 2017

A PROPÓSITO DAS BICICLETAS

Na cidade onde vivo, Bruxelas, existe uma enorme obsessão por bicicletas. Por todo o lado existem ciclovias e às bicicletas são conferidos direitos especiais: circulam na estrada, circulam nas passadeiras, passam sinais encarnados, andam em ruas de trânsito proibido e podem circular, tanto no sentido do trânsito automóvel, como em sentido oposto ao permitido aos carros, mesmo quando as ruas são de sentido único. Ao mesmo tempo, incentiva-se fortemente a utilização da bicicleta, inclusive por pais com filhos bebés, quer em cadeiras especiais, quer em reboques ou acrescentes para o efeito, quer seguindo as crianças nas suas próprias bicicletas, pelas ruas, atrás dos pais.
A razão por detrás de tudo isto é que a bicicleta é tida como um meio de transporte saudável, não poluente e sustentável. E é. No entanto, também é verdade que numa cidade de trânsito caótico, como Bruxelas, cheia de automóveis, e onde se conduz por regra geral mal, torna-se perigoso andar de bicicleta: 28% dos mortos na estrada na Bélgica em 2015 foram ciclistas; ou, a título de exemplo, no Reino Unido um ciclista tem 17 vezes mais probabilidades de morrer na estrada do que um automobilista.
No entanto, estes factos não parecem ter impacto algum, quer nos cuidados a ter por parte das pessoas, quer em medidas eventuais a tomar por parte das autoridades. Não seria melhor obrigar os ciclistas a um comportamento igualmente responsável, tal como se obriga aos automobilistas, por forma a garantir a sua segurança, e a dos seus filhos quando é o caso, em vez de, ao privilegiar por absoluto a bicicleta face aos automóveis, ter como efeito secundário uma menor segurança rodoviária? E o que dizer dos pais que, apesar dos facínoras diversos que poluem as estradas belgas, andam livremente pelas ruas com os seus filhos como se de um calmo e seguro passeio pelo parque fosse? Ao valor que atribuímos ao facto de a bicicleta ser um meio de transporte mais sustentável não deveríamos contrapor o valor ainda mais importante da segurança rodoviária, especialmente no caso das crianças? E isso não obrigaria a perceber que a defesa por absoluto da bicicleta e a demonização do automóvel não contribui para a segurança rodoviária, incluindo em especial a dos próprios ciclistas?
Muito pelo contrário. Como é apanágio do tempo em que vivemos, vá alguém criticar os exageros - atente-se que falo apenas dos exageros e não da causa em si - absolutizantes dos cavaleiros da verdade, neste caso a "verdade" do axioma "os automóveis estão a destruir o planeta Terra", e será apelidado de "retrógrado", "burro", "egoísta" ou, talvez, "assassino ecológico". Vá alguém reclamar do perigo, em particular para os próprios, que representa a condução absolutamente irresponsável de bicicletas na cidade - como abunda por aqui - e, naturalmente, em caso de acidente, a culpa será do automobilista porque, lá está, é um automobilista. Nos entretantos, fecham-se as ruas ao trânsito, incentiva-se a fundo a "mobilidade sustentável" e, nem por um momento, se pára para pensar que, por melhor que seja para o ambiente uma bicicleta, e é verdade que o é, não deixa de ser um valor que deverá ser negociado, complementado e mitigado com outros valores, nomeadamente o da segurança, que são igualmente fundamentais. A grande verdade que a Esquerda, e boa parte da Direita também, se recusa a aceitar é que os valores nunca são absolutos: eles conflictam, colidem entre si. E cabe ao julgamento humano escolher sobre a forma como quer resolver, a cada passo, tais conflitos. É um inevitabilidade da condição humana que qualquer um pode verificar por si próprio desde que se muna de algum bom senso.
Aliás, a essência da Democracia encontra-se precisamente na capacidade de negociar conflitos de valores e ideias diferentes, que interessam a diferentes pessoas de forma diferente, e que podem ter diferentes resoluções. No entanto, ao assumirmos que a verdade é una, que os valores são absolutos e que aqueles que não concordam com as premissas da moda são "bárbaros", "retrógrados" ou "pouco evoluídos" e que, por serem maus, devem ver as suas ideias desconsideradas, então não estamos apenas a tomar más decisões: estamos a matar a Democracia. Precisamente aquela palavra em nome da qual os paladinos da verdade única tanto gostam de afirmar agir.

sexta-feira, janeiro 27, 2017

DAMNATION

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quinta-feira, janeiro 26, 2017

A WILD DANCE

"[According to Hamman] Nature is no ordered whole: so-called sensible men are blinkered beings who walk with a firm tread because they are blind to the true and profoundly disturbing character of reality, sheltered from it by their man-made contraptions; if they glimpse it as it is - a wild dance - they would go out of their minds. How dare these pathetic pedants impose on the vast world of continuous, fertile, unpredictable, divine creation their own narrow, desiccated categories?"

Isaiah Berlin, 'Hume and German Anti-Rationalism', in: Isaiah Berlin, Against the Current: Essays in History of Ideas, Oxford University Press, 1981, p. 169

segunda-feira, janeiro 23, 2017

A ASCENÇÃO E A QUEDA (II)

O sucesso da civilização ocidental representa, ou deveria representar, naturalmente, um orgulho para aqueles que dela fazem parte; no entanto, tal orgulho obriga a uma responsabilidade acrescida de tentar compreender as razões do sucesso. O que permitiu ao Ocidente chegar onde nenhuma outra civilização tinha chegado antes? Em primeiro lugar, o conhecimento da história que permitiu aprender com os erros dos outros. Os humanos, como todos os  seres vivos, aprendem por tentativa e erro: apenas vendo onde as coisas correram mal podemos emendar a mão, corrigirmos, e aprender a fazer melhor. A civilização ocidental não nasce por acaso, fruto de teorizações abstractas levadas a cabo por alguns homens de génio: a civilização ocidental nasce em cima dos escombros das civilizações passadas; foi fazendo do seu conhecimento conhecimento nosso, foi apropriando-nos do que vimos de bom e rejeitando o que vimos como mau que nos construímos gradual e lentamente a nós próprios. Adaptando a frase famosa de Kant, foi nos ombros de grandes civilizações passadas que construímos a nossa. O acesso ao conhecimento e, acima de tudo, a sua disseminação foram absolutamente fundamentais na construção da nossa civilização: apenas numa comunidade em que o conhecimento (e através dele a capacidade de correctamente interpretar a realidade das coisas) foi oferecido gradualmente a cada vez mais pessoas se pôde erigir uma comunidade alicerçada na força de todos, e não apenas no rasgo e na força do líder. É essa característica principal que permite que, ao contrário das outras, a civilização ocidental tenha evoluído para uma cultura de participação ao invés de uma cultura de subordinação: e apenas uma cultura onde todos são chamados a participar poderia permitir prosperidade económica junto com democracia política, a base da liberdade tal como a conhecemos. É o grande legado dos nossos antepassados uma sociedade norteada pela liberdade de, e para, pensar, agir e trocar; onde impera a defesa dos indivíduos alicerçada nos seus direitos e na sua esfera única, e inviolável, de acção individual (protegida pelo direito à propriedade privada).

Em segundo lugar, a especificidade que o Cristianismo ofereceu ao Ocidente, ou seja: os seus valores. A tolerância, a solidariedade, o necessário balanço da liberdade com a igualdade, ao contrário do que a muitos possa parecer a uma primeira vista, incorpora na perfeição os valores e ensinamentos de Jesus Cristo. No entanto, a seu tempo, souberam também os nossos antepassados separar o temporal do secular. Essa separação soube dar o espaço para os indivíduos tratarem dos assuntos terrenos como melhor lhes aprouvesse. Mas o desígnio divino que os orientava continuava presente dando, por um lado, sentido ao mundo e, por outro, garantindo valor a esse mesmo mundo material que não poderia ser desprezado porque, tendo sido o local de encarnação de Deus feito homem (e matéria), ganhava uma dignidade inestimável. Deste modo, fornecidos de um sentido para a vida, motivados para conquistar e melhorar o mundo (a obra de Deus), organizados em função de valores funcionais, justos e reconhecidos como tal, souberam os nossos antepassados construir uma civilização próspera, poderosa e, a seu tempo, que soube oferecer a maior dádiva que uma comunidade pode garantir aos seus membros: paz e segurança.


Uma vez aí chegados, e para impedir a decadência, sobra proteger o que herdámos. E para isso impôs-se uma luta centenária entre aqueles que tudo queriam mudar em nome de valores ou ideias que entendiam ser melhores e os outros, aqueles que se apoiavam no valor da tradição como forma de proteger aquilo que já havia sido conquistado. As instituições, sólidas, respeitadas, transmitiram por gerações as leis e os conhecimentos do passado; as famílias fizeram o mesmo, mas em especial com os valores. Mas a cultura de participação e de crescente afirmação e florescimento da liberdade individual permitiu incorporar a mudança num processo gradativo de melhoramento generalizado das condições de vida das pessoas. As instituições visaram sempre manter; quem obrigou à mudança foram os indivíduos, que armados da crescente liberdade para o poder fazer; souberam conquistar, por si próprios, um futuro melhor para os seus filhos. E aqui residia a força civilizacional: numa multidão que pelo trabalho e dedicação escalava a montanha social rumo a uma melhor situação de vida.

Mas, acima de tudo, também, ocuparam-se as pessoas de aceitar o sentido para a vida e para o mundo que o transcendente comum e partilhado lhes oferecia. O mundo, e as suas dificuldades, era aceite tal como ele era, a justiça suprema encontrava-se apenas no além e a melhor forma para lidar com as agruras da vida era aceitá-las como naturais e imutáveis. Com a serenidade que ter o futuro para além da morte definido garante, com a força que a união espiritual dos povos consagra e com uma postura realista perante o mundo, a civilização prosperou até atingir o grau de riqueza do qual, salvo excepções, ainda beneficiamos hoje.

(Continua)

ON TYRANNY

"On the other hand, when we were brought face to face with tyranny - with a kind of tyranny taht surpassed the boldest imagination of the most powerful thinkers of the past - our political science failed to recognize it".

Leo Strauss, On Tyranny, in: On Tyranny, University Chicago Press, 2013, p.23

SOL DE INVERNO (IV)


SOL DE INVERNO (III)


SOL DE INVERNO (II)


SOL DE INVERNO


quinta-feira, janeiro 19, 2017

MARKETINGMICON

                                                                                            Daqui.

A ASCENÇÃO E A QUEDA (I)

A civilização ocidental representa o momento onde a espécie humana conheceu a melhor qualidade de vida da sua história: nunca tantos viveram tanto e tão bem como hoje no Ocidente. Este triunfo civilizacional não foi alcançado do nada. Pelo contrário: foi fruto de todo um processo árduo de evolução da barbárie para um mundo onde se pode viver em paz, segurança e liberdade. Hoje, por regra, um ocidental, nem depende da sorte para sobreviver num mundo que não controla, nem vive num clima de conflito permanente onde a sua vida esteja de forma constante em risco. Pelo contrário: o homem ocidental pode viver a sua vida explorando os seus desejos, dando-se ao luxo de manifestar livremente as suas vontades e moldar a sua vida da forma como muito bem entende. Aliás, os grandes debates do Século XXI no Ocidente centram-se precisamente em todos os direitos, garantias e liberdades que se devem dar como adquiridas por parte de todos os cidadãos ocidentais por igual. E de tal forma triunfante a civilização ocidental é que muitos no seu seio advogam que esses direitos, liberdades e garantias devem ser oferecidos ao mundo inteiro, a todos por igual e sem excepção. Tal desiderato é absolutamente inédito na história universal.

Diz o ditado que quanto mais alto se sobe de mais alto se cai. A ser verdade o dito - e normalmente é - a queda da civilização ocidental será estrondosa e monumental, sobrando apenas a questão de saber quando tal fantástico evento ocorrerá - e de que forma. Tal como com a vida de cada um, as civilizações, aparecem, afirmam-se, vencem e conquistam apenas para, a partir de algum momento, declinarem, caírem e das duas uma: ou desaparecerem sem rasto num imenso oceano de esquecimento ou, no melhor cenário, verem os seus despojos finais acantonados atrás das vitrines dos museus daqueles que lhes sucederem. Assim foi com todos e, naturalmente, assim será connosco. Para muitos, os sinais da decadência estão por todo o lado e a queda já está a acontecer: decréscimo de poder no mundo, infertilidade generalizada, degeneração dos valores civilizacionais, etc., são os argumentos oferecidos. Para outros, a ascenção continua e a verdadeira civilização ainda não encontrou o seu apogeu: a revolução tecnológica contínua, o progresso material, a melhoria da qualidade de vida, os "avanços sociais", etc., são os contra-argumentos. Para os pessimistas, o pico civilizacional foi lá atrás; para os progressistas - optimistas, ela ainda estará por cumprir. Também é difícil encontrar concórdia sobre o que faz, ou fez, uma civilização: uns dirão que é o respeito pelas suas tradições, outros dirão que é a partilha de determinados ideais; alguns pensarão que se faz de exércitos, fronteiras e poder, outros dirão que é a cultura, a arte e o pensamento. Provavelmente, todos terão razão: a força de uma comunidade advém de um passado partilhado mas também de um futuro que se quer continuar a partilhar; igualmente, a pujança civilizacional faz-se de poder mas também da arte e engenho para o exercer - no mínimo dentro da sua comunidade. Para isso, fundamental será a única coisa que é comum a todos esses factores: a necessidade imperiosa que uma civilização tem de oferecer um certo sentido de pertença e identidade, uma perspectiva da vida e do mundo, uma narrativa se preferirem, que construída em conjunto, partilhada pela maioria, ofereça a força aos exércitos, a visão às artes e o rasgo e entusiasmo na busca pelo aperfeiçoamento constante da vida comum em nome de determinados valores partilhados.

Resumindo: uma civilização é mais do que um modo de vida, é uma comunidade - um viver em comum, com os outros que, de alguma forma, são como eu. Por esta perspectiva, o declínio civilizacional pode, então, ser diagnosticado quando este viver comum se desagrega, quer num lento processo de deterioração das bases civilizacionais, quer num processo de divisão através da emergência de um conjunto de blocos que se tornam independentes, antagónicos mesmo, entre si: quando esses blocos são tão heterogéneos que não conseguem sequer encontrar plataformas de entendimento que lhes permita continuar a conviver de forma pacífica e próspera, e quando o ódio de uns pelos outros quebra os últimos laços de fraternidade que obrigavam à necessidade última do compromisso social, nesse momento, fruto dessa fraqueza, dessa divisão, o todo perde a força de se impor no mundo e, naturalmente, mais cedo do que tarde, acaba por soçobrar perante aqueles que se querem impor sobre si. Concomitantemente, quer por cisão, quer por desistência, a queda será o momento último em que o declínio se efectiva em absoluto numa realidade onde aqueles que partilham os valores da civilização moribunda se vêem por alguma razão impedidos de os colocar em prática: o seu modo de vida acabou.

(Continua

quarta-feira, janeiro 18, 2017

BACK ON THE HORSE

                                                                               Daqui.

UM CÓDIGO POLITICAMENTE CORRECTO, JÁ!

Como parece estar na moda identificar discriminações, eu, não querendo ficar atrás, indignei-me hoje quando percebi que existe uma opressão imensa sobre os militantes da esquerda democrática levada a cabo aquando da conspiração fascista da direita reaccionária que levou à instauração do código da estrada: é inadmissível numa sociedade igualitária, fraterna e justa que aos automóveis que vêm da direita lhes seja dada sempre prioridade. Não é justo que alguém apenas por vir da direita tenha prioridade sobre quem vem da esquerda. Por que razão há-de o automobilista da direita chegar a horas e o da esquerda não? Exige-se justiça JÁ! Em primeiro lugar, proponho um sinal STOP em cada esquina de cada cruzamento. Aí, os automobilistas deverão debater de forma esclarecida, seguida de necessária votação, sobre quem deverá ter as prioridades; em segundo lugar, proponho uma comissão de inquérito, seguida da necessária convenção popular, para elaborar um guião para a justiça rodoviária que implemente a paridade entre as prioridades da esquerda e da direita, de forma alternada, regulamentada e digna. Em cruzamentos onde tal paridade não possa ser atingida deve ser consultado o ministério das obras públicas para proceder às necessárias alterações físicas dos locais injustos. Após esta importante reforma prometo que os sinais de STOP serão removidos, por completo, pois o trânsito fluirá sem reservas, entraves ou problemas. Deste modo, justo e progressista, alcança-se, não apenas a necessária superação de uma injustiça indigna mas, também, estimula-se o investimento público, em particular o sector das construções públicas, fundamental ao progresso rumo ao futuro.

terça-feira, janeiro 17, 2017

IMPERATIVO CATEGORICAMENTE CORRECTO

O imperativo categórico Kantiano ao longo dos tempos:

1785 - "Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal".

2000 - "Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo imaginar que estás a ser permanentemente observado por dois milhões de pessoas através da televisão".

2010 - "Age apenas segundo uma mínima tal que te permita não ser vilipendiado no espaço público por múltiplas minorias que controlam mediaticamente a definição do que é moralmente aceitável".

sábado, janeiro 14, 2017

MOTIONLESS

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sexta-feira, janeiro 13, 2017

BREVES NOTAS SOBRE A LIBERDADE: O Neo-Esclavagismo Racionalista

Se, por um lado, é verdade que o espírito do nosso tempo se faz de uma crença inabalável nos méritos do Homem, por outro lado, esse imenso optimismo humanista, ao alicerçar-se numa das maiores ilusões intelectuais da nossa História, é bem capaz de encerrar dentro de si próprio as sementes da nossa própria destruição. Que ilusão é essa? A ideia completamente fantasiosa de que superámos, ou poderemos superar, a violência da nossa condição humana - aquela que quase destruiu a Europa e o mundo ainda há pouco mais de setenta anos - e que continuamos a subir uma escada evolutiva infinita, sempre a progredir, sempre a melhorar, rumo a um ideal de progresso e florescimento humano que, mesmo que seja impossível de atingir na sua plenitude, se encontra no topo dessa mesma escada. De acordo com essa ideia, hoje somos melhores, mais inteligentes e, acima de tudo, mais evoluídos do que aqueles outros humanos que nos antecederam, seres perdidos na História e na barbárie hoje definitivamente ultrapassada. O rumo, pensa-se - ou talvez fosse melhor dizer: intui-se -, é por definição sorridente: se a evolução nos trouxe até aqui, e o aqui é infinitamente melhor do que o que já fomos no passado, então o futuro só pode trazer mais evolução, mais progresso e, consequentemente, mais desenvolvimentos, avanços e melhorias. Sonham-se com os avanços tecnológicos do amanhã e imaginam-se os mundos quase perfeitos que os nosso filhos e, quiçá, fruto dos descobrimentos medicinais, nós também ainda teremos o prazer de desfrutar nas décadas e séculos que estão por vir.
Esta ilusão progressista, uma mera promessa, serve de isco para uma ideia anterior que a sustenta: a noção que, de algum modo, há um destino, um telos, uma finalidade, para o universo e, consequentemente, para os homens também. É nesse telos que se descobre a razão, e o sentido, do mundo e, por conseguinte, da existência humana. Antes do advento da modernidade secular em que vivemos, esse porvir era oferecido pela religião, e era conhecido tanto pela fé como pela razão; hoje, com o triunfo do materialismo, sobra-nos a razão. Muita desta crença nas nossas próprias valias humanas, tal como na nossa capacidade de controlar o mundo, deriva de olharmos para nós próprios através daquilo que nos distingue dos demais: a nossa racionalidade. E, cheios de convicção nos méritos da nossa razão, assumimos que essa razão tem um carácter divino: aquilo que ela estabelece, tal como a antiga palavra de Deus, é aquilo que é verdade. Consequentemente, algo que é racional, por definição, é tido como algo que é verdadeiro (mesmo no nosso linguarejar, "ter razão" implica afirmar algo que é verdade e que deve ser aceite como tal por todos); e como uma coisa que é verdadeira não pode ser falsa, também uma coisa que é racional não o pode ser. E assim chegamos à noção de que dois postulados racionalmente válidos não podem ser contraditórios pois, como uma verdade não pode entrar em conflito com outra verdade, se dois postulados são igualmente racionais, e por isso verdadeiros, então terão que ser compatíveis entre si. Esta compatibilidade, ou melhor será dizer: a busca por essa compatibilidade, norteia muito do nosso tempo: para cada conflito, para cada percalço, para cada questão, recorrendo à nossa racionalidade, a custo, lá encontraremos a solução. E de solução em solução evoluímos, e dessa forma, porque convencidos do ritmo seguro e infalível da nossa razão, antevemos cheios de certeza que o futuro que os nossos passos buscam é melhor e, acima de tudo, mais verdadeiro. É dessa verdade que achamos ir descobrindo que vem o optimismo e a crença no progresso; e é dessa verdade racional que imaginamos dentro de nós que vem o carácter proto-divino que nos arrogamos de possuir. Assim, o absoluto, eterno e divino, para o homem contemporâneo herdeiro de Kant, é o racional que temos dentro de nós. Nietzsche exclamou pelo morte de Deus mas, na verdade, na boa tradição Tomista, Ele apenas foi substituído por uma outra crença, uma crença na harmonia racional do universo.
No entanto, se é verdade que a ideia de não contradição entre duas hipóteses igualmente racionais é uma noção válida no campo das ciências abstractas e matemáticas, também não será menos verdade que no campo das vidas dos homens, das suas morais e dos seus dilemas, representa uma noção que não poderia ser mais errada. E a vida dos homens, ao contrário dos robôs, não se faz apenas de matemática. No mundo moral, o valores colidem. No mundo dos homens, postulados igualmente válidos podem ser incompatíveis ou concorrentes. É tão racionalmente válido eu desejar viver numa sociedade segura como numa sociedade livre - mas apostar numa delas implica invariavelmente prejudicar a outra; eu posso querer ser corajoso - mas a prudência não deixa de ser fundamental a uma vida bem vivida; eu posso sonhar com a justiça a presidir à organização social da minha comunidade - mas a solidariedade e a clemência também são valores importantes numa comunidade. No final, implica perceber-se que se os valores colidem entre si mais do que descobrir qual a receita certa, ou verdadeira, para o dilema social, a verdadeira questão é escolher qual a combinação de valores que desejamos para as nossas vidas.
E a diferença é abissal.
Isto porque acreditar-se numa solução pressupõe sempre que as coisas são de alguma forma predeterminadas: uma solução que é a certa, e por isso verdadeira, será uma solução que terá que estar de acordo com um padrão universal de verdade, padrão esse que nos antecede a nós humanos que apenas nos pretendemos aproximar dele. A verdade é eterna, imutável e divina, a verdade é verdade independentemente de nós. Mas, mais do que isso, a verdade é apenas uma. E deste modo chegamos à implicação determinista, a grande consequência não falada dos modelos racionalistas. Sem o arbítrio de Deus, onde apenas a razão é verdadeira e universal, onde o que é verdadeiro e universal antecede a consciência humana, e onde a solução que pretendemos para o dilema moral é racional, então a solução que se persegue será verdadeira, universal e antecede a consciência humana.. Assim sendo, a solução já existirá antes de ser conhecida pelos humanos. Nada se cria, apenas se descobre. Nada se decide por nós próprios, apenas se revela o que devemos fazer. Em suma: não somos livres para escolher, apenas para perceber o que é suposto que nós façamos. É a morte da liberdade.
A alternativa é a do livre-arbítrio: assumir que escolher implica criar. Escolher verdadeiramente sem soluções pré-definidas como boas ou más implica assumir-se que o mundo é nosso para criar por entre as opções que temos pela frente - e não limitados pelas certezas de uns quantos supostamente iluminados. E com essa profunda liberdade vem a correspondente responsabilidade. Já o determinismo racionalista retira o jugo da responsabilidade do pescoço humano e coloca-o num pseudo-critério racional que, sendo universal, sendo absoluto e infalível, assume a responsabilidade da escolha, escolha essa que deixa de ser humana para passar a ser cósmica, universal, racional. Determinismo implica fatalismo, destino e fado. Já a liberdade implica criar, fazer e sonhar.
O paradoxo é que o determinismo, ao vender a ilusão de solução universal, sendo esta falsa, acaba por aprisionar-nos a um rumo que, não sendo necessariamente o melhor, condiciona-nos aos caprichos daqueles que nos garantem ter descoberto as soluções para os dilemas dos homens. São os novos messias: os heróis racionalistas que definem o que é racional, ou bom, o que se deve fazer, ou não, sempre cheios de certezas, sempre cheios de soluções. Ponha-se um actor, de bata branca, caderno de notas na mão, a afirmar que os últimos estudos garantem isto ou aquilo e o sucesso é garantido, seja esse sucesso vender detergente, carros, pessoas ou ideias. Já o caminho da verdadeira liberdade, a de pensar, escolher e criar, essa apenas oferece a vertigem do abismo: um universo sem sentido oferecido a priori e que, por isso mesmo, assusta. Muito. Mas também abre a vida à infinitude de destinos que as nossas escolhas podem criar. 
Assim, concluindo, por um lado, temos o falso conforto temporário (porque as "soluções" esbarram sempre na próxima esquina) que a ilusão de uma certeza sobre o sentido para a vida nos oferece - e a sensação de controlo que dela deriva, tanto a individual como a comunitária; por outro lado, temos a vertigem, e a responsabilidade, de termos os nossos próprios destinos, quaisquer que sejam, nas nossas mãos. Do primeiro, deriva o centralismo, o controlo, a conformidade, o monismo; do segundo, a espontaneidade, a autonomia, a criatividade, a diversidade. Entre um e outro, como sempre, se faz a diferença - enorme! - entre escravos e homens-livres. Mesmo que a esse grilho mental nos dias de hoje se dê o nome de razão.

TEACHING MATH

                                                 (Via Eduardo Freitas no FB)

terça-feira, dezembro 13, 2016

FILHOS PRÓDIGOS

Nos tempos de hoje vive-se a noção de que evoluímos positivamente: fisicamente, de mamíferos menos evoluídos; intelectualmente, de antecessores menos inteligentes; socialmente, de comunidades menos avançadas. Aliás, a ideia é precisamente a de "avanço": progresso, desenvolvimento, evolução, tudo a aumentar de forma positiva do passado para o presente - e a promessa de que assim pode continuar rumo a um futuro que se imagina como virtuoso e cheio de maravilhas salvíficas. No entanto, esta ideia é uma ideia muito recente, filha bastarda do iluminismo e do racionalismo científico que lhe sucedeu. Antes disto tudo, e durante a maior parte da existência humana, a representação do sentido da História era a oposta, a de decadência: o passado é que era idílico e paradisíaco e a existência humana representava uma queda desse Olimpo divino, no caso Grego, ou do Paraíso de Adão e Eva, no caso bíblico. A queda na imperfeição humana separava-nos da perfeição divina e condenava-nos a aceitar a tragédia como parte da vida. Nos dias de hoje a intuição é a oposta: todos os problemas terão uma solução, o optimismo garante a salvação (a derrota é ser pessimista), não há limites para o futuro (científicos, físicos ou morais), a vida eterna pode ser aqui e agora, haja tempo e saúde para lá chegar. No entanto, no seu âmago, a realidade da vida humana é muito mais coerente com a visão antiga do que com a moderna: tornamo-nos seres conscientes durante o paraíso que é a infância, na terra dos sonhos e da magia, isto apenas para dela inesperadamente cairmos quando tomamos noção dos paradoxos, das limitações e das tragédias que compõem a vida adulta. Aliás, a maçã, símbolo da fertilidade, que a serpente, símbolo fálico, oferece a Eva, e que esta prova, é a perfeita representação para a inevitabilidade da puberdade e a obrigação de com ela perder-se o paraíso que é a infância. A adolescência é a queda; a vida adulta é o embate no chão, na base de tudo, ou seja, no tomar noção da condição humana: a morte dos próximos, as perdas múltiplas, a consciência da finitude, etc., etc. Ser adulto implica lidar com o facto de sermos aquilo que somos. Ser realista, portanto. Mas nos dias de hoje em que o regresso ao paraíso perdido na infância está sempre prometido no futuro sempre presente ao virar da próxima esquina não há razões para se ter que crescer: para quê aceitar o que nos magoa se no futuro aquilo que nos magoa pode ser simplesmente mudado, eliminado, ou seja: resolvido? E dessa forma adia-se o amadurecimento. E prolonga-se a infância. E pune-se o realismo: para quê falar dos perigos e das obrigações do mundo dos adultos quando tudo à nossa volta nos ensina a viver de, e para os, sonhos? A abundância que a revolução industrial, a grande filha do Iluminismo, nos trouxe permitiu banquetear-nos na indolência, na arrogância e no luxo de não vermos o mundo tal como ele é mas tal como nós gostaríamos que ele fosse. E, tal como o filho pródigo, nesse luxo, nessa arrogância, e nessa indolência, desbaratamos a abundância material, moral e civilizacional que nos foi legada. Resta saber se haverá tempo para a redenção.

domingo, novembro 06, 2016

LINHAS DIREITAS T2

Entretanto, o Linhas Direitas está de regresso para a sua segunda temporada. Teve direito a teaser e já vai no terceiro episódio.

TO DIVIDE

"To divide (and not merely to distinguish as facets or aspects of one substance) body and soul, science and craft or art, the individual and society, description and evaluation; philosophical, scientific and historical judgement, empirical and metaphysical statements, as if any of these could be independent of one another, is for Herder false, superficial and misleading. (...) One upon a time men 'were all things: poets, philosophers, land surveyors, legislators, musicians, warriors'. In those days there was unity of theory and practice, of man and citizen, a unity that the division of labour destroyed; after that men became 'half thinkers and half feelers'. There is, [Herder] remarks, something amiss about moralists who do not act; epic poets who are unheroic, orators who are not statesmen, and aestheticians who cannot create anything. Once doctrines are accepted uncritically - as dogmatic, unaltered, eternal truths - they become dead formulae, or else their meaning is fearfully distorted. Such ossifications and decay lead to nonsense in thought and monstrous behaviour in practice".

Isaiah Berlin, 'Herder and the Enlightment', in: Isaiah Berlin, The Proper Study of Mankind, Farrar, Straus & Giroux, 2000, pp. 419-20

DOOMED TO CHOOSE

"What is here entailed is that the highest ends for which men have rightly striven and sometimes died are strictly incompatible with one another. Even if it were possible to revive the glories of the past, as those... pre-historicist thinkers who called for the return to the heroic virtues of Greece or Rome, we could not revive and unite them all. If we chose to emulate the Greeks, we cannot also emulate the Hebrews; if we model ourselves on the Chinese..., we cannot also be the Florentines of the Renaissance, or the innocent, serene, hospitable savages of the eighteen-century imagination. Even if, per impossible, we could chose among these ideals, which should we select? Since there is no common standard in terms of which to grade them, there can be no final solution to the problem of what men as such should aim at. The proposition that this question can, at last in principle, be answered correctly and finally, which few had seriously doubted since Plato had taken it for granted, is undermined. (...) But if this is so, then the notion of the perfect civilization in which the ideal human being realizes his full potentialities is patently absurd: not merely difficult to formulate, or impossible to realize in practice, but incoherent and unintelligible. This is perhaps the sharpest blow ever delivered against the classical philosophy of the West, to which the notion of perfection - the possibility, at least in principle, of universal, timeless solutions of problems of value - is essential".

Isaiah Berlin, 'Herder and the Enlightment', in: Isaiah Berlin, The Proper Study of Mankind, Farrar, Straus & Giroux, 2000, pp. 430-1

terça-feira, novembro 01, 2016

RESPECTING GUNNAR

                                                                          Daqui.

ON THE IMPORTANCE OF POLITICAL CULTURE

[Before the 1905 revolution] The Russian peasant household [dvor] was organized on a simple authoritarian model, under which full authority over the members and their belongings was entrusted to one person, known as bol'shak or khoziain. This family patriarch was usually the father...: he assigned farm and household duties, he disposed of propriety, he adjudicated domestic disputes,, and he represented the household in its dealings with the outside world. Customary peasant law endowed him with unquestioned authority over his dvor: in many ways, he was heir to the authority of the serf owner. Since the Emancipation Edict of 1861, the bol'shak was also authorized by the government to turn over members of his household to administrative organs for punishment. He was the paterfamilias in the most archaic sense of the word, a replica in miniature of the Tsar.
(...) The household allowed no room for individuality: it was a collective which submerged the individual in the group. Second, given that the will of the bol'shak was absolute and his orders binding, life in the dvor accustomed the peasant to authoritarian government and the absence of norms (laws) to regulate personal relations. Third, the household made no allowence for private property: all belongings were held in common. Male members acquired outright ownership of the household's movable property only at its dissolution, at which time it once again turned into the collective property of the new household. Finally, there was no continuity between households, and consequently neither pride in ancestry nor family status in the village, such as characterized Western European and Japanese rural societies. In sum, the Great Russian peasant, living in his natural environment, had no opportunity to acquire a sense of individual identity, respect for law and property, or social status in the village - qualities indispensable for the evolution of more advanced forms of political and economic organization".

Richard Pipes, The Russian Revolution 1899-1919, Fontana Press, 1992, pp. 93-5

sábado, outubro 22, 2016

ON PRIVATE PROPERTY

"Russia's absolutism showed particular qualities that distinguished it from that of the Bourbon's, Stuart's, or Hohenzollern's. European travellers to Muscovy in the sixteenth and seventeenth centuries, when ancien régime absolutism stood at its zenith, were impressed by the differences between what they were accustomed to at home and what they saw in Russia. The peculiar features of Russian absolutism in its early form, which lasted from the fourteenth until late eighteenth century, were marked by the virtual absence  of the institution of private property, which in the West confronted royal power with effective limits to its authority. In Russia, the very concept of property (in the Roman sense of dominion over objects) was unknown until introduced in the second half of the eighteenth century by the German-born Catherine II. Muscovite Russia had been run like a private estate, its inhabitants and territories, with everything they contained, being treated as property of the Crown. (...)
The Great Russian peasant, with centuries of serfdom in his bones, not only did not crave for civil and political rights, but... held such notions in contempt. Government had to be willful and strong - that is, able to exact unquestioned obedience. A limited government, subject to external restraints and tolerant to criticism, seemed to him a contradiction in terms. To the officials charged with administering the country and familiar with these peasant attitudes, a Western-type constitutional order spelled one thing only: anarchy. The peasants would interpret it to mean the release from al of obligations to the state which they fulfilled only because they had no choice: no more taxes, no more recruits, and, above all, no more tolerance of private property in land".

Richard Pipes, The Russian Revolution 1899-1919, Fontana Press, 1992, pp.54-56

sábado, outubro 15, 2016

STRANGERS TO THE FATE OF ALL OF THE REST

"The first thing that strikes the observation is an innumerable multitude of men, all equal and alike, incessantly endeavouring to procure the petty and paltry pleasures with which they glut their lives. Each of them, living apart, is a stranger to the fate of all of the rest; his children and his private friends constitute to him the whole of mankind. As for the rest of his follow citizens, he is close to them, but does not see them; he touches them, but he does not feel them; he exists only in himself and for himself alone; and if his kindred still remain to him, he may be said at any rate to have lost his country.
Above this race of men stands an immense and tutelary power, which takes upon itself alone to secure their gratifications and to watch their fate. That power is absolute, minute, regular, provident, and mild. It would be like the authority of a parent if, like that authority, its object was to prepare men for manhood; but it seeks, on the contrary, to keep them in perpetual childhood: it is well content that the people should rejoice, provided that they think of nothing but rejoicing. For their happiness such a government willingly labours, but it chooses to be the sole agent and the only arbiter of that happiness; it provides for their security, foresees and supplies their necessities, facilitates their pleasures, manages their principal concerns, directs their industry, regulates the descent of property, and subdivides their inheritances: what remains, but to spare them all the care of thinking and the trouble of living?
Thus it every day renders the exercise of the free agency of man less useful and less frequent; it circumscribes the will within a narrower range and gradually robs a man of all of the uses of himself. The principle of equality has prepared man for these things; it has predisposed men to endure them and often look on them as benefits.
After having thus successively taken each member of the community in its powerful grasp and fashioned him at will, the supreme power then extends its arm over the whole community. It covers the surface of society with a network of small complicated rules, minute and uniform, through which the most original minds and the most energetic characters cannot penetrate, to rise above the crowd. The will of man is not shattered, but softened, bent, and restrained form acting. Such a power does not destroy, but it prevents existence; it does not tyrannise, but it compresses, enervates, extinguishes, and stupefies a people, till each nation is reduced to nothing better than a flock of timid and industrous animals, of which the government is the shepherd".

Alexis de Tocqueville, Democracy in America, II, 4, VI (1835)

domingo, setembro 18, 2016

A AFIADORA DE FACAS

Quando me cruzo com as afirmações da deputada Mortágua logo Berlin me vem à cabeça: "single minded monists, ruthless fanatics, men possessed by an all-embracing coherent vision do not know the doubts and agonies of those who cannot wholly blind themselves to reality". Mesmo sem compreender nada do mundo, ou das pessoas, a senhora acha-se no direito de o vergar, a ele e a nós, à sua imaginada superior vontade. E do seu feliz desígnio, custe o que custar, nada resultará além da miséria daqueles os quais a senhora em seu nome se arroga de falar. Oiçamos a música do amolador: eles estão a afiar as facas. E o porco, mesmo que vegetariano, somos nós.

TAXTOON

 Via Luís Paixão Martins, no Facebook.

sábado, setembro 17, 2016

AS LIÇÕES DE VIDA DE FRASIER CRANE



Fazem hoje precisamente vinte e três anos que estreou na televisão norte-americana o primeiro episódio da série Frasier. Com um elenco de luxo composto por Kelsey Grammer, David Hyde Pierce, John Mahoney, Jane Leaves e Peri Gilpin, Frasier representa o mais bem sucedido spin off da história da televisão. Narrando as aventuras e desventuras de Frasier Crane após a sua saída de Boston e o decorrente abandono do bar Cheers, as onze temporadas de Frasier representam, por ventura apenas acompanhadas de Seinfeld, a época de ouro da sitcom americana. Naturalmente que séries como o já referido Cheers, ou Family Ties, ou ainda o revolucionário All in The Family com Archie Bunker, fazem todas parte do imaginário infantil de quem, como eu, nasceu e cresceu nos anos 70 e 80 do defunto Século XX. No entanto, Frasier, para mim, encontra-se uns quantos andares acima de todos os outros. Primeiro, e mais obviamente, pelos actores e enredos. Frasier apresenta um elenco de categoria inigualável: desde Grammer que, com a sua formação em Julliard e um percurso nascido no teatro regional e desaguado na Broadway, tinha explodido no panorama televisivo, transformando o irrelevante Frasier Crane numa das mais prezadas personagens do super sucesso da década de 80: Cheers; passando por David Hyde Piarce com seu imbatível talento para a comédia física repescado de uma obscura comédia (The Powers That Be, 1992-3) onde o neurótico Niles já existia ainda sem ninguém saber, não esquecendo John Mahoney, um late bloomer que apenas começou a actuar aos quarenta pela mão de John Malkovic, e terminando na componente feminina onde Jane Leeves, apesar do seu não muito bem conseguido sotaque de Manchester apenas evidente para quem conheça o sotaque de Manchester, sempre conseguiu encher o ecrã, em especial quando, de forma sempre inocente, se mantinha a leste do interesse latente, intrusivo, por vezes quase perverso, do tímido e altamente desajustado Niles, transformando os dois naquele que terá sido um dos mais bem conseguidos interesses românticos da TV. Finalmente, Peri Gilpin no papel de uma mulher independente propensa ao sexo ocasional mas longe, muito longe, do cinismo e superficialidade relacional próprios do sexo citadino do Século XXI, todos compõem um ramalhete de excelência que foi capaz de transportar para a televisão a finesse do teatro que, doze anos depois de terminado, ainda perdura como o paradigma da boa representação televisiva. Uma referência ainda para a qualidade dos actores convidados: desde a sempre fascinante Bebe Neuwirth no papel de ex-mulher de Frasier até aos outros trabalhadores da radio KACL (os actores que, por exemplo, dão vida a Bulldog Briscoe ou Gil Chesterton são sempre formidáveis), terminando naqueles que aparecem apenas por um ou dois episódios, uma participação em Frasier tornou-se num carimbo de qualidade interpretativa e uma medalha no peito de qualquer actor. Da mesma forma, o grupo de escritores, apesar de algumas mudanças entre as temporadas 8 e 10 felizmente corrigidas na brilhante temporada final, conseguiu manter o nível do enredo sempre entre o alto gabarito e o nada abaixo de genial: não conheço outra séria de televisão que consiga fazer uma piada mencionando o racionalismo panteísta de Espinosa ou um gewurztraminer de colheita tardia. Aliás, uma das características que separa Frasier de todos os outros é precisamente a profundidade intelectual: se, por um lado, é verdade que é um certo pedantismo cultural que preside à recriação do mundo de elite onde Frasier e Niles, normalmente sem sucesso, bem se tentam integrar, por outro lado, não deixa também de ser verdade que é a tensão entre o amor à excelência, ao belo, e ao transcendente da vida com a inescapável boçalidade humana que, agarrada ao ego, se banqueteia com o superficial, a imagem e com o que o outro pensa - no fundo a tensão entre o arauto da experiência do homus socialis e o abismo da mesquinhez da red carpet - que é responsável pelo brilhantismo de Frasier. Naturalmente, para escrever tamanha farsa social é fundamental que se tenha um profundo conhecimento das realidades que se procura retratar; e os autores de Frasier claramente têm: desde a música clássica, à ópera, ao vinho (a competição entre Frasier e Niles pelo título de Corkmaster será um pináculo da comédia televisiva), ao fine dining (quem nunca quis ir visitar o Le Cigare Volant?), passando pela pintura, literatura ou alta-costura, por todas as artes a série nos passeia oferecendo, por um lado, para quem as aprecia, um bónus cultural  que mais nenhuma série faz, quer, por outro lado, criando uma sátira social com uma profundidade inigualável: hoje, Frasier (ainda) será uma das melhores comédias da televisão; daqui por duzentos ou trezentos anos será uma enciclopédia que configurará um telescópio (mesmo que sem ser da Universidade de Cornell) directamente apontado sobre a sociedade americana (e não só) do final do Século XX. A esta intemporalidade ajuda a opção deliberada dos autores de evitarem as referências fáceis ao soundbyte pop do momento: nomes de pessoas famosas, eventos reais da altura ou caricaturas do que passava na TV, tudo isso é inexistente em Frasier. A série torna-se assim, tal como uma enorme peça de teatro clássico, numa sintetização do fundamental deixando de lado todo o ruído, ou lixo, com que todos temos que lidar no dia a dia. Uma espécie de transcendência ocorre aqui: identificamo-nos com a vida representada apesar de, e aqui reside o verdadeiro pretenciosismo da série, nos fazer olhar para cima, para a versão ideal, limpa, quase perfeita das interacções ridículas que as altamente imperfeitas personagens levam a cabo. No entanto, essas personagens são constantemente guiadas pelos mais nobres sentimentos e pelas mais belas virtudes. E aqui encontramos a verdadeira genialidade cómica de Frasier: na farsa e no ridículo que as melhores versões possíveis de nós próprios continuam a configurar. Neste sentido, Frasier é profundamente humano. E consolador: que resta fazer aquando da constatação do ridículo que somos para além de rirmos? Finalmente, e não menos importante, apesar de talvez ausente (tal como muitas das referências mais elevadas) para os espectadores mais jovens, em Frasier, encontro muitas das importantes lições de vida que são fundamentais a qualquer humano adulto. Na farsa social, por exemplo, torna-se evidente a infelicidade que uma vida orientada para a imagem e o superficial que os outros vêem em nós pode causar, apesar de o canto das sereias ser sempre apelativo aos egos de cada um. Mesmo que essa infelicidade seja terminar num beco traseiro no meio de abelhas e caixotes do lixo, e o canto das sereias fosse a importância de conseguir entrar na próxima - progressivamente mais restrita (e cara) - sala de um centro de spa, também aí nos identificamos com a caricaturada pulsão que motiva os comportamentos das personagens - e nos comiseramos com o triste fim que tal pulsão encontrou.  E se Frasier Crane se deixa seduzir pela fama, ou Niles pela ostentação, a tempo lá estará o enredo a fazê-los, mesmo contrariados, arrepiar caminho - ou, pelo menos, a falhar estrondosamente. E assim, na verdade, Frasier e Niles estão lá a sacrificar-se por nós: onde eles falham, nós, sem sair do sofá nem pagarmos os embaraços a que eles se sujeitam, podemos aprender que aquele não é o caminho. Outra lição será a importância da família que transparece sempre naquele apartamento: confortável (ou não configurasse ele em primeiríssimo plano uma réplica exacta do sofá que Coco Chanel tinha no seu atelier de Paris) mas, mais do que qualquer coisa, cheio de vida, de ligação emocional, de partilha, quer do bom quer do mau; uma casa cheia, e por isso bem capaz de oferecer companhia à solidão que tantas vezes sentimos. Aliás, tanto assim é não fosse Frasier toda uma série acerca da redenção da relação entre pai e filho, por um lado, e entre irmãos por outro. Mas, em última instância, para mim, a grande lição de Frasier encontra-se na falência última do perfeccionismo em que o nosso mundo é tão pródigo: às ambições mais que perfeitas de Frasier e Niles, ou aos interesses amorosos de Frasier, ou ainda à obsessão de suposto auto-conhecimento através da psiquiatria que ambos exercem, sempre a imperfeição do mundo se lhes coloca no caminho para lhes estragar os planos. A verdade é que num mundo imperfeito, cheio de falhas, - adulto, portanto - não há lugar para sonhos perfeitos. E é esse sonho perfeccionista infantil que impede sempre a cada momento a felicidade de Frasier: onde de outra forma ele poderia encontrar a felicidade, termina sempre a concentrar-se na falha que lhe lembra que o mundo não é perfeito - o que para um perfeccionista equivale a dizer que não é bom, harmónico ou belo. No entanto, a vida, sendo profundamente imperfeita, não deixa de ser a única coisa de jeito, ou de valor, que temos. Frasier transforma a incapacidade de lidar com a imperfeição em comédia e com isso relembra, ou ensina-nos, a mais bela das lições: na impossibilidade do perfeito, resta-nos amar a imperfeição - e rirmos com ela - sem nunca desistirmos de tentar fazer o melhor que conseguirmos com aquilo que temos. Frasier Crane nunca desistiu e quando, no último episódio, nos deixa, rumo ao desconhecido, com o poema Ulysses de Tennyson, é impossível não sentirmos nós também, tal como a sua família, a dor da separação. É por essa razão que a primeira coisa que faço quando vejo esse último, belo apesar de, porque não queremos nunca que o fim de algo inspirador chegue, altamente indesejável episódio, é voltar a ver o episódio-piloto, o tal que faz vinte e três anos hoje: é que se é verdade que Frasier nos ajuda a resolver e largar o imaginário infantil de vidas perfeitas, não deixa de ser verdade que ele próprio pode continuar a configurar aquele último refúgio de imaginária perfeição que a maioridade da minha idade ainda me permite usufruir.

sábado, maio 07, 2016

PATERNALISM

"In the world today individual stupidity and wickedness are forgiven more easily than failure to be identified with a recognised party or attitude, to achieve an approved political or economic or intellectual status. In earlier periods, when more than one authority rules human life, a man might escape the pressure of the State by taking refuge in the fortress of the opposition - of an organised Church or dissident feudal establishment. The mere fact of conflict between authorities allowed room for a narrow and shifting, but still never entirely non-existent, no man's land, where private lives might still precariously be lived, because neither side dared to go too far for fear of too greatly strengthening the other. Today the very virtues of even the best-intentioned paternalistic State, its genuine anxiety to reduce destruction and disease and inequality, to penetrate all the neglected nooks and crannies of life which may stand in need of its justice and its bounty - its very success in those beneficent activities - have narrowed the area within which the individual may commit blunders, and curtailed his liberties in the interest (the very real interest) of his welfare or of his sanity, his health, his security, his freedom from want and fear. His area of choice has grown smaller not in the name of some opposing principle - as in the ark Ages or during the rise of nationalities - but in order to create a situation in which the very possibility of opposed principles, with all their unlimited capacity to cause mental stress and danger and destructive collisions, is eliminated in favour of a simpler and better regulated life, a robust faith in an efficiently working order, untroubled by agonising moral conflict".

Isaiah Berlin, Political Ideas in the 20th Century (1950), in: Liberty, ed. Henry Hardy, Oxford University Press, 2008, p. 91

sexta-feira, maio 06, 2016

THE SHIFT

"In western Europe this tendency has taken the milder form of a shift of emphasis away from disagreement about political principles (and from party struggles which at least in part sprang from genuine differences of outlook) towards disagreements, ultimate technical, about methods - about the best ways of achieving that degree of minimum economic or social stability without which arguments concerned with fundamental principles and the ends of life are felt to be 'abstract', 'academic' and unrelated to the urgent needs of the hour. It leads to that noticeably growing lack of interest in long-term political issues - as opposed to current day-to-day economic or social problems - on the part of the populations of the Western European continent which is occasionally deplore by shocked American and British observers, who mistakenly ascribe it to the growth of cynicism and disenchantment with ideals.
No doubt all abandonment of old values for new may appear to the surviving adherents of the former as conscienceless disregard for morality as such. If so, it is a great delusion. There is all too little disbelief, whether conscienceless or apathetic, in the new values. On the contrary, they are clung to unreasoning faith and that blind intolerance towards scepticism which springs, as often as not, from an inner bankruptcy or terror, the hope against hope that here at least is a safe haven, narrow, dark, cut off, but secure. Growing numbers of human beings are prepared to purchase this sense of security even at the cost of allowing vast tracts of life to be controlled by persons who, whether consciously or not, act systematically to narrow the horizon of human activity to manageable proportions, to train human beings into more easily combined parts - interchangeable, almost prefabricated - of a total pattern. In the face of such a strong desire to stabilise, if need be, at the lowest level - upon the floor from which you cannot fall, which cannot betray you, let you down - all the ancient political principles begin to vanish, feeble symbols of creeds no longer relevant to new realities".

Isaiah Berlin, Political Ideas in the 20th Century (1950), in: Liberty, ed. Henry Hardy, Oxford University Press, 2008, p.83

sábado, abril 09, 2016

THE CHOICES

"So Marvin and I had reached a crucial point, a juncture to which full awareness inevitably leads. It is the time when one stands before the abyss and decides how to face the pitiless existential facts of life: death, isolation, groundlessness and meaninglessness. Of course, there are no solutions. One has a choice only of certain stances: to be "resolute", or "engaged", or courageously defiant, or stoically accepting, or to relinquish rationality and, in awe and mystery, place one's trust in the providence of the Divine".

 Irvin D. Yalom, Love's Executioner and Other Tales of Psychotherapy, 1989, p.260