sábado, 10 de novembro de 2018

AD ABSURDUM

Eu acho isto excelente: é um argumento ad absurdum que ajuda a demonstrar como a mudança de sexo legalmente certificada pelo Estado é um embuste inaceitável. Afinal, se o Estado anda a certificar homens como mulheres e mulheres como homens por que não há-de certificar velhos como novos ou novos como velhos? Ou, já agora, como objectos, animais ou substâncias? O próximo caso imagino que seja algo como isto: homem processa o Estado por certificar através do Cartão do Cidadão que a sua esposa era uma mulher apenas para descobrir que afinal a senhora em questão é um ser humano do sexo masculino apenas que tratado com hormonas femininas e operações plásticas de vária ordem, incluindo genital. Por mais que a propaganda ideológica diga o contrário, lamento mas a terapia hormonal e plástica não altera a realidade cromossomática de ninguém, no caso do indivíduo do exemplo seria sempre XY, ou seja: masculina. O Estado certificar um indivíduo XY como XX está a levar pessoas ao engano e, quanto a mim, a colocar-se a jeito para ser processado - e bem. Qual a indemnização que uma pessoa casada anos com alguém que imaginava ser de um sexo e que afinal se revela de outro tem direito? Quer da parte do cônjuge, quer da parte do Estado? O curioso é que a malta da extrema-esquerda e das causas indentitárias acha sempre que o Estado serve para tudo mas, imagino, nesse caso, já não deveria servir para nada: um transsexual que minta sobre o seu verdadeiro sexo ao seu cônjuge sairá impune porque é o próprio Estado que o reconhece como tal. No final, venham é mais destes loucos (será que não é propositado?) como o holandês do artigo para que se revele a insanidade da agenda pós-modernista identitária e que se regresse à natural base biológica, a única que permite certificar seja o que for.

POUCOCHINHO MAS EM ALEMÃO

O provincianismo português leva, por um lado, à ilusão de que a realidade portuguesa é a maior e melhor do mundo. No entanto, por outro lado, paradoxalmente, esse mesmo provincianismo traz com ele um inconsciente complexo de inferioridade face a um mundo que não se compreende. Desse complexo deriva o deslumbre para com o estrangeiro, e com as coisas do estrangeiro, coisas essas que são vistas como mais civilizadas e mais avançadas do que as da pátria que o provinciano, mesmo imaginando enorme, não deixa de sentir como pequenina. Isso faz com que para se valorizar face aos vizinhos, no desespero, o provinciano se transforme em parolo, um parolo deslumbrado com a civilização estrangeira que quer importar para Portugal. É essa importação que, como dizia o Eça, precisamente por não ser natural, nos fica sempre curta nas mangas. E são essas curtinhas mangas que se acabam sempre a revelar nas figurinhas ridículas com as quais, devido ao seu mesquinho umbigo, o parolo, sempre a querer alçar-se ao nível superior ao seu e onde imagina estar essa civilização superior à qual quer mostrar pertencer, ao dar ares de pavão e galaró exibicionista, se estatela em atitudes despropositadas, embaraços desagradáveis e motivos de vergonha alheia. Agora alguém que faça o favor de traduzir isto para alemão e mandar para a sede nacional do PSD: aparentemente o seu presidente é demasiado civilizado para responder em português aos jornalistas que o questionavam sobre as infracções legais do seu secretário-geral.

TOPS

Pessoalmente, ninguém me convencerá que a moda das calças curtas pelos tornozelos não é uma conspiração capitalista das multinacionais vendedoras de roupa: vendem mais caro calças com menos tecido. Moda seguinte? Barriga à mostra, tops para homens.

POUCOCHINHO

A relação do Dr. Rio com a Ética faz lembrar aquela célebre resposta do Richard Nixon ao David Frost em que aquele assume que “se o presidente dos EUA o faz então é legal”. O Dr. Rio, que é homem de vôos ainda mais altos, não se fica pela legalidade; não, legalidade é poucochinho, para o Dr. Rio a bitola é pela Ética mesmo: “se o Dr. Rio o faz é porque é ético”, poderia ser o lema. Ora, o problema é que, como os exemplos do Dr. Barreiras Duarte e do Secretário-Geral Silvano o demonstram, no que concerne à Ética, muito pouca gente concorda com o Dr. Rio, por ventura apenas os seus mais directos apaniguados. Daqui deriva uma dessintonia evidente entre, por um lado, a imagem de paladino da Ética que o Dr. Rio faz gala de exalar e, por outro, aquilo que todo o comum dos mortais entende como comportamento ético. Como a Ética do Dr. Rio não aparenta ser muito diferente daquela que impera numa classe política desacreditada, acrescentando-se ainda que aquilo que o Dr. Rio prometia trazer para essa classe política era precisamente um novo exemplo ético, então conclui-se que, feitas as contas das quais o Presidente do PSD parece gostar tanto, o Dr. Rio não acrescenta rigorosamente nada. Aliás, muito pelo contrário, até subtrai: é mais um que apregoa o que não faz e que só faz o que lhe interessa, ou lhe dá jeito, tratando dos seus independentemente das malfeitorias que eles venham a fazer. Entre a irrelevância política incapaz de apresentar um fogacho de alternativa, ou sequer oposição, à frente de esquerda parlamentar que nos governa rumo ao abismo e a hipocrisia ética constantemente desmascarada, entre um e outro, 20% é bem capaz de ser demais para o Dr. Rio. O CDS e o Aliança, imagino eu, agradecem. Sobra o desejo que esta página negra do PSD seja rapidamente virada e que, no futuro, a liderança do Dr. Rio seja vista como uma pequena questiúncula numa história maior de um dos grandes partidos da democracia portuguesa.

O COMBATE

Quando afirmar o óbvio - por exemplo, que homens e mulheres são biológica e psicologicamente diferentes - se revela um acto de heresia então torna-se por demais evidente que a ditadura do politicamente correcto imposta pela agenda identitária da esquerda não é mais do que um embuste ideológico contra o senso comum e, como todas as ideologias contrárias à liberdade individual, um atentado contra a dignidade das pessoas a quem pretendem impôr uma falsa verdade. Do mesmo modo, não - nem pouco mais ou menos! - o género, tal como sexo, não é uma construção social, coisa que se demonstra de forma factual e científica. Por isso mesmo, e isto é algo que tem que ser dito, não é aceitável termos nos currículos escolares uma imposição ideológica dessas ideias. Pior ainda: é absolutamente inadmissível termos professores a interrogar crianças e pré-adolescentes sobre as suas preferências sexuais, tal como se se sentem melhor ou pior com este ou aquele sexo. Esta última ainda tanto mais inconcebível considerando que terapias de “mudança de sexo” não passam de uma alteração artificial de um equilíbrio hormonal acoplada com operações plásticas, bem como mutilações genitais, que alteram a aparência exterior dos indivíduos mas que, como é evidente, nada mudam face à realidade cromossomática que define o ser humano e o divide, pasmem-se, em apenas dois sexos com naturais diferenças entre si. Aquilo que os Estados vergados à agenda identitária da esquerda estão a impôr sobre as nossas crianças no ensino obrigatório é uma violência que as famílias e os pais devem rejeitar de forma absoluta e inequívoca, isto para bem da saúde e estabilidade mental dos nossos filhos. Da mesma forma, a lei aprovada que permite a adolescentes “mudarem de sexo” a partir dos 16 anos sem o consentimento dos pais é um atentado terrível contra a família: nesta temática, entre os 16 e os 18 anos, o Estado manda mais dentro da família do que os próprios pais, coisa tanto mais descabida se considerarmos que o mesmo Estado que entende que um indivíduo que não tem maturidade suficiente para votar já terá maturidade para decidir de forma definitiva sobre um tema tão complexo e traumático como uma operação tão violenta como a “mudança de sexo”. Destes exemplos se devem retirar duas conclusões: primeiro, que estes temas são fundamentais para a sociedade pelo que devem os partidos políticos ter posições muito claras sobre esta matéria para que os cidadãos possam decidir em quem votar; depois, que é forçoso que as pessoas acordem para o autêntico crime que a agenda extremista da esquerda vai impondo a pouco e pouco, quer através de especialistas académicos em pseudo-ciências subsidiadas pelo Estado, quer através dos próprios ministérios para onde os radicais se infiltraram para desenhar políticas de género e orientação sexual - neste aspecto a aliança do PS à extrema-esquerda é perigosíssima -, tudo sempre pela calada e a coberto do politicamente correcto que não pode ofender minorias (como os activistas homossexuais) e ultra-minorias (como os transexuais). Urge agir, não tenhamos dúvidas.

NEO-MARXISMO

Esta manhã, num assomo de masoquismo, estive lendo os artigos do Observador sobre a convenção do bloco de esquerda que decorre este fim de semana. Verdadeiramente extraordinário é ver os jornalistas portugueses (infelizmente nem o Observador é excepção) a falarem das tendências A ou B, das figuras X ou Y, como se falar de marxistas, marxistas-leninistas ou trotskistas fosse uma coisa banal em democracia. Não é. Falamos de correntes comunistas, todas elas apologistas dos regimes comunistas que nos últimos 100 anos mataram mais de 100 milhões de pessoas. Falamos de lunáticos que encolhem os ombros perante as atrocidades cometidas pelo regime totalitário da Coreia do Norte. Falamos de gente que acha que na Venezuela, onde milhões de pessoas passam fome HOJE, é que se vive em liberdade e que o problema é a economia de mercado livre do Ocidente. Não, não é normal falar-se de comunismo e comunistas numa democracia liberal pela simples razão que todos os comunistas são contra a democracia liberal. No entanto, para a comunicação social portuguesa estes comunistas são democratas, são políticos como os outros. Já um tipo que se assuma um democrata liberal mas que seja contra a ideologia de género, que renegue a ditadura do politicamente correcto ou que exprima uma opinião polémica é logo prontamente apelidado de extremista, como se estes do bloco de esquerda não fossem eles sim profundamente extremistas, ou de fascista, como se estes do bloco de esquerda, estes que conspiram abertamente contra as liberdades ocidentais, não fossem eles os verdadeiros advogados do “tudo no Estado e nada contra o Estado“, ou seja, perfeitos fascistas. Esta hipocrisia mediática perverte profundamente a democracia portuguesa, e muito do descrédito do regime passa precisamente por este jornalismo de copy paste, sem qualquer crivo de coerência intelectual, onde hoje se pode dizer o contrário do que se disse ontem sem que se questione o que quer que seja, tal como um comunista se pode fingir de democrata. Uma tristeza.

CORTINA DE FERRO

A cortina de ferro ainda não desapareceu. Muito pelo contrário, os seus efeitos ainda se fazem sentir hoje, uma evidência empírica mas que não impede de não faltarem em Portugal bandos de comunistas - um deles está hoje reunido em congresso - a anunciar a banha da cobra, bem como um número infindável de idiotas úteis que, seja por estupidez, inocência ou interesse, continuam apostados em enviarem-nos para o lado de lá.

O FUTURO DO SEXO

Numa sociedade hiper-sexualizadada e hiper-estatizada torna-se a cada dia mais evidente que o próximo passo será - para o nosso bem e segurança - o de regulamentar publicamente o sexo. Declarações, certificações e cláusulas especiais; carimbos, aprovações e, naturalmente, as respectivas taxas, assim serão os preliminares sexuais daqui por menos de vinte anos. As vantagens deste sistema público sexual são evidentes: o fim do assédio, o fim das violações, o fim do desconforto emocional em busca de consolo sexual com outras pessoas. No entanto, a maior vantagem será mesmo que, em nome da coerência para com os valores actuais, uma vez que o sistema será tutelado pelo Estado então imperará a justiça sexual pública que naturalmente garantirá igualdade na satisfação sexual para todos. Ora, isto forçará a que todos contribuam sexualmente para que haja um mínimo de sexo garantido pelo Estado para aqueles que menos têm: a satisfação sexual é um direito! O imposto sexual, assim será chamado, obrigará os sexualmente privilegiados a conviverem intimamente com os sexualmente oprimidos, isto claro, independentemente de sexo, género, condição, idade, raça ou, quiçá, espécie. Que se enganem os críticos: sexo forçado não é violação se for mandado pelo Estado. Pelo contrário, sexo estatal é felicidade e harmonia social, em última instância, o mais prazenteiro dos diversos prazeres sexuais: quem fornica a mando do Estado fornica com todos! Ah, a felicidade de imaginar tal sistema! Ah, a libertação orgásmica face aos constrangimentos das sociedades oprimidas pela moralidade arcaica dos nossos antepassados à qual nada devemos! Assim sendo, proponho que se crie já um partido para lutar pela causa da igualdade sexual. Quem não apoiar será, evidentemente, sexista e opressor. Vamos lá, vá, estuguemos o passo que já estivemos mais longe e nunca tão perto. A felicidade está já aí ao virar da esquina.

O NOVO MARXISMO

O grande problema da esquerda marxista no pós-segunda guerra foi o enorme sucesso do capitalismo e da economia de mercado. O crescimento económico, a riqueza gerada e a crescente terciarização da economia fizeram com que os marxistas deixassem de ter oprimidos para libertar: os cada vez menos operários existentes cada vez mais ganhavam mais e engrossavam, através das oportunidades geradas pelo mercado livre, bem como do fruto do seu esforço em aproveitá-las, as fileiras das classes médias. A sociedade aburguesou-se porque, e isto é o ponto fulcral, a sociedade enriqueceu como um todo: os mais pobres das nossas sociedades ocidentais são muito mais ricos, mas muito mais ricos mesmo, que os pobres, não apenas da época da industrialização, como daqueles países que, ainda hoje, não se organizam em economias de mercado.
Como resolver a questão do ponto de vista marxista? Ora, onde não havia oprimidos para libertar teriam que se inventar. Daí que, desde aí, porque os pobres desapareciam a olhos vistos, se tenham ocupado a traduzir o conceito da superestrutura marxista opressora da esfera económica para a identitária: porque os seres humanos não são iguais, e em todos os sistemas existem hierarquias, a extrema-esquerda identificou aqueles que poderiam ser mais facilmente persuadidos de que as responsabilidades da sua condição menos agradável face aos mais bem sucedidos se deveriam atribuir ao sistema capitalista, e em particular a quem controlaria o sistema, o novo bicho papão agora inventado para preencher o papel outrora representado pela burguesia no velho-marxismo: o hetero-patriarcado branco.
Deste modo, apropriando-se, em alguns casos, de aspirações legítimas (igualdade sexual entre homens e mulheres, descriminalização da homossexualidade, etc.), e noutros, de ressentimentos (a criação de riqueza generalizada cria forçosamente um maior número de indivíduos muito mais ricos que a maioria, e com uma desigualdade maior, o chamado 1%), a extrema-esquerda conquistou um novo discurso que, precisamente por dar resposta a algumas aspirações legítimas, teve boa aceitação social, em particular nos jovens, e desse modo conseguiu embrulhar em papel dourado um produto bem velhinho: a destruição do modo de vida Ocidental, ou seja, o fim do mercado livre, a restrição da propriedade privada e a instauração de um suposto homem novo, o homem livre de todas as opressões, de todas excepto aquelas causadas pela autoridade do Estado que serviria agora para forçar os indivíduos, mesmo que contra a sua mais profunda vontade, a viver a liberdade que os líderes políticos e espirituais do movimento definiriam que cada um de nós deveria viver.
No entanto, atente-se, este novo marxismo consegue ser pior que o original: enquanto o marxismo tradicional, apesar de denunciar uma opressão intelectual que com um suposto ópio alienava o povo, se concentrava nos meios de produção materiais, já este neo-marxismo identitário soma ao velho marxismo materialista a interferência pública na regulação das próprias identidades dos indivíduos. Ou seja: aumenta o seu raio de acção para dentro dos próprios indivíduos que pretende, através da propaganda e da educação estatal, moldar à sua vontade, de acordo com a sua ideologia de género e os rácios que os seus pseudo-especialistas inventam. Dessa forma, o totalitarismo que advoga é muito mais poderoso: no admirável mundo novo da extrema-esquerda não apenas os bens dos indivíduos são organizados pelo Estado como também a sua sexualidade, identidade de "género" ou, nos casos mais extremados, até mesmo a biológica.
A família será, naturalmente, a última linha de defesa a quebrar. Daqui decorre a vontade - absolutamente esdrúxula, aliás -, e que foi bem sucedida, de dar o "direito" a crianças de 16 anos de "mudarem" de sexo independentemente da vontade dos pais. Ou seja, um menor de idade não pode votar porque se entende que não tem maturidade para esse acto de responsabilidade mas, o mesmo Estado, já entende que o mesmo menor já tem maturidade para decidir de forma permanente sobre operações de mutilação genital e de introdução hormonal para transitar - na aparência - de sexo. O que daqui resulta é que, neste aspecto, o Estado já manda mais do que os pais, e isto é inaceitável porque, como deveria ser evidente, enquanto menor um filho ou uma filha estão à guarda da família.
A agenda da extrema-esquerda não vai parar. O ressentimento dos vencidos da história, aliás, nunca terá estado tão perto da vitória no Ocidente. No entanto, e isto parece-me pertinente, esta agenda igualitária, identitária, profundamente sexualizada, não colhe o apoio da maioria das pessoas. Seja por questões identitárias, seja por outras que também advogam como o multiculturalismo, ou, ainda, pelo falhanço económico nos locais onde conseguiram de facto ter poder (Venezuela, Cuba e, em âmbito diferente, no Brasil) cresce uma forte rejeição popular a este movimento neo-marxista. Nos jovens, através da internet, a darkweb e figuras como Jordan Peterson, estão a dar cartas e a arrastar consigo verdadeiras multidões. Apesar disto, esta agenda, de uma forma mais radical ou de uma forma mais intelectual, ainda domina as elites: nas universidades, onde uns se validam aos outros, nos media, nos partidos, nas organizações não-governamentais, nas agências governamentais. Daqui se percebe que a grande consequência deste status quo seja um discurso mediático das elites em profunda dissonância com as bases populares, uma dissonância que tem, de forma progressiva e indesmentível, debilitado os centros políticos e reforçado as votações de movimentos conservadores nos valores e mais liberais na economia. Assim tem sido na Europa (França, Alemanha, Holanda, Suécia, Áustria),com maior força no Leste, (Hungria, Polónia), tal como nos EUA, com Trump, e, agora, no Brasil, com Bolsonaro.
Em suma, se o centro moderado não for capaz de rejeitar a agenda cultural, política, económica, e sexual, deste novo marxismo, então esse centro será a curto prazo substituído por quem se prontificar a rejeitar essa agenda.

ESTADO LIVRE DO ALENTEJO

Lá fora, na varanda, a ausência de vento deixa a pairar na atmosfera húmida da serra alentejana o aroma a sobreiro ardido que a chaminé vai esfumando na noite. Cá dentro, rodeado de taipa e debaixo do tecto de madeira, no rádio toca o Vibrato da Antena 2, devidamente acompanhado pelo tique-taque do relógio de parede centenário que herdei do meu Pai. Ainda há pouco, cheio de corda, bateu as dez badaladas. Na minha poltrona, defronte da lareira e ainda confortado pelo jantar, leio o Camilo enquanto vou bebendo o medronho cá da casa. A liberdade, penso eu, é isto.

DA POLARIZAÇÃO

O Adolfo Mesquita Nunes tem escrito abundantemente sobre o problema da polarização política que se vai vivendo em Portugal, e não só, e que se traduz numa certa erosão do centro político e numa consequente crispação do debate entre pontos de vista que, de tão antagónicos entre si, colocam a prazo em risco a própria natureza democrática do nosso regime. Neste artigo - que linko abaixo nos comentários - diz o Adolfo, e passo a citar, "[que se trata] de uma polarização moral, a separação entre bons e maus, patriotas e antipatriotas, corruptos e lesados, elites e o resto das pessoas. Esta polarização impede o reconhecimento da legitimidade do outro lado, porque não é possível fazê-lo quando, do lado de lá, estão antipatriotas ou corruptos ou elites". Em seguida, continua o Adolfo afirmando que "para derrotar o socialismo, que é mau para o país, para vencer a esquerda, que tem uma visão muito diferente da minha, não preciso de prescindir da liberdade nem da democracia liberal nem de simpatizar com autoritarismos."
Ora, estamos, portanto, completamente de acordo nestas palavras. Há, no entanto, uma coisa que nos separa e é um optimismo que permeia o discurso do Adolfo fazendo com que ele acredite que para defender a democracia liberal baste fazer uma apologia da liberdade e da democracia liberal rejeitando os discursos dos extremos. Aqui eu estou em desacordo, primeiro, devido às causas da polarização e, depois, na prática ou estratégia que a direita liberal e democrática deve adoptar face a esta polarização.
Quanto às causas, concordo com o diagnóstico do Adolfo, mas o problema é que este não chega. É preciso também perceber que o que está na base do proto-desaparecimento do centro democrático é o facto de um compromisso fundamental no campo dos valores se ter erodido: onde antes a direita e a esquerda democrática, apesar de concorrentes eleitorais, partilhavam um compromisso valorativo assente na defesa da economia de mercado, no princípio da igualdade perante a lei e nos valores tradicionais das sociedades europeias, agora, no mundo contemporâneo, este compromisso não é evidente. Partidos comunistas, por exemplo, partilham agora o poder em Portugal tendo rompido o cordão sanitário que o centro moderado, e bem, lhes tinha imposto durante toda a nossa vida democrática. A razão para a importância desse cordão sanitário separando a extrema-esquerda do resto (a extrema-direita tal como se vai definindo hoje está proibida constitucionalmente) prende-se com o facto de serem partidos contra a economia de mercado, contra a liberdade individual protegida pela propriedade privada, contra a NATO, etc., etc.. A sua entrada na arena das alianças governativas em Portugal, tal como nos ministérios, fez com que o cinismo eleitoral tenha substituído a coerência ideológica como base do discurso político. Como pode um debate não ficar extremado quando ele é travado com extremistas é a primeira pergunta à qual a proposta do Adolfo não responde.
Depois, ainda no campo das causas, uma clivagem no âmbito dos valores impede que o debate permaneça dentro da área de conforto do compromisso democrático. Aqui, como exemplo mais flagrante, temos a agenda de género que tem vindo a ser advogada nas universidades, nas redacções e nas agências não-governamentais e que, em Portugal, acabou de entrar nos currículos do ensino obrigatório. Termos professores a perguntar a alunos se se sentem bem no seu sexo ou a trazer a intimidade e a privacidade da orientação sexual para a sala de aula é algo que mexe profundamente com as pessoas, tão profundamente que, aqui, a mera afirmação da liberdade torna-se irrelevante: é liberdade quando a escola impõe a um indivíduo um conjunto de preceitos sexuais que estão em profundo desacordo com aquilo que são os valores dos pais e da família desse indivíduo em particular? Um exemplo ainda mais concreto: que conceito de liberdade é este que defende que um jovem de dezasseis anos não tem maturidade suficiente para votar mas que pode, à revelia dos pais e da família, decidir-se por uma "mudança de sexo" que, mais não sendo do que uma mutilação sexual e uma ingestão violentíssima de hormonas, consiste num processo de consequências imprevisíveis e, pior, traumaticamente irreversíveis? Que liberdade é esta onde para "mudar de sexo", entre os dezasseis e os dezoito anos, o Estado manda mais dentro da família do que a própria família que, no limite, pode perder em tribunal a custódia do jovem?
Como não pode o debate ficar extremado quando vivemos uma disputa sobre o que significa o conceito de liberdade em que num dos campos, e bem alavancada nas academias subsidiadas e nas redacções dos jornais, temos uma extrema-esquerda cujos programas, assumidamente, estão apostados em destruir o modo de vida ocidental? Esta é a pergunta fundamental à qual o optimismo do Adolfo não responde.
Onde os valores não são partilhados sobra a gritaria sobre o que cada conceito significa, essa é a lição que as últimas décadas de multiculturalismo ocidental nos estão a ensinar.
Depois, quanto à prática: se não concordamos com o que significa o conceito de "liberdade" como pode a apologia da liberdade do Adolfo significar o que quer que seja neste debate polarizado? Para uns e outros significará, consoante a boa ou má vontade, aquilo que quiserem, ou que lhes dê jeito querer, entender que o Adolfo quer dizer por liberdade. No limite, acaba por não significar nada.
É por isso que é preciso fazer mais do que simplesmente advogar a liberdade. É preciso defender a nossa liberdade, a liberdade da nossa civilização, uma liberdade assente nos nossos valores, nos nossos princípios, nomeadamente uma defesa intransigente da economia de mercado assente na propriedade privada, a não abdicação da igualdade perante a lei independentemente de raça, sexo ou orientação sexual (as quotas de afirmação positiva infringem abertamente este princípio, por exemplo) e a defesa da crença que, no limite do possível, o Estado deve estar fora da esfera íntima das pessoas, especialmente ainda mais no caso das crianças. Mais haveria, mas, suspeito, basta defender estes pequenos princípios para que a polarização se efective: porque do outro lado estão radicais que enquistados no Estado, nas academias e nas redacções conspiram abertamente contra precisamente estes princípios que acabei de enunciar.
Finalmente, uma última nota mais prática: a grande maioria das pessoas não se identifica com a rejeição destes princípios por mais propagandeados que sejam pelos órgãos de comunicação social. Muito pelo contrário, toda a agenda multicultural que pretende defender as regras das democracias liberais sem defender os valores que permitiram, e permitem, que essas regras funcionem, não está a dar resposta a este ataque à base valorativa do nosso modo de vida; daí que, com esta presente dissonância entre, por um lado, as elites políticas supostamente moderadas que se abstêm de entrar no debate dos valores e, pelo outro lado, as populações que crescentemente o vão exigindo, dessa dessintonia nasce a erosão eleitoral do centro moderado: quando o centro não defende o compromisso político baseado nos valores perfilhados pelas populações então as populações vão procurar líderes que defendam os seus valores. Aqui reside verdadeiramente a génese do populismo polarizado, pois que, vendo a oportunidade, podem muito bem os que se levantam contra a ofensiva contra o nosso modo de vida revelarem-se como demagogos que mais não visam que o seu interesse particular de chegar ao poder. E isto é muito perigoso.
Daqui decorre que a verdadeira defesa do compromisso democrático e liberal terá que, sob pena do desaparecimento eleitoral dos centros moderados para os extremos, incorporar uma defesa intransigente dos valores democráticos e liberais, tal como serem esses valores advogados e defendidos pelos moderados na arena política. Não o fazer representa um perigo tremendo para a democracia e para o nosso modo de vida. Esse é o repto que deixo, não apenas ao Adolfo - alguém que muito prezo e que vejo como um grande aliado na defesa da nossa democracia liberal – mas a todos aqueles que queiram ajudar a defender o nosso modo de vida: democrático e liberal. Maior causa que esta não haverá na nossa geração.

DO YOU HEAR THE PEOPLE SING?

Lá em cima dos cavalos, seguem as elites, os senhores donos da verdade, das redacções dos jornais e dos conselhos de administração que mandam colocar as notícias, os especialistas das academias que explicam com certeza todos os fenómenos sociais, culturais e políticos, os donos, e fazedores, do politicamente correcto, do bem e da verdade multicultural, diversa e progressista, essa verdade que anuncia admiráveis mundos novos sem perceber, porque não leram ou, tendo lido, não compreenderam o Huxley, que esses mundos anunciados nada têm de novo, menos ainda de admirável. Cá em baixo, a ver passar a parada de lunáticos, rangendo, rosnando e murmurando entre dentes, estão as pessoas que, todos os dias, metem mãos à obra e vão à luta tratar de si próprias e da sua família. Os de cima, aqueles que tudo sabem, riem-se com desprezo da ignorância e estupidez dos outros, os que assistem cá de baixo. Desdenham dos que não sabem a verdade da qual eles são os fiéis intérpretes. No entanto, esquecem-se eles, os iluminados herdeiros da revolução, da revolução boa e verdadeira, que para toda a acção há uma reacção, e que para toda a revolução há uma contra-revolução. E tal como um dia os tambores rufaram por aquela da qual se consideram herdeiros também virá o dia em que os tambores rufarão pelos novos miseráveis, os novos desprezados, os agora esquecidos e desdenhados. Pergunta o coro se ouvimos as pessoas a cantar? Os dos cavalos não ouvem nada a não ser a eloquência das suas próprias palavras. E quanto menos ouvirem mais rapidamente cairão dos seus belos e limpos cavalos brancos. No final, quando o rufar dos tambores coincide com o bater dos corações das maiorias, chamem-lhes populistas ou o que quiserem, nada há a fazer: o povo, já se esqueceram, é sempre quem mais ordena. Convém ouvi-lo a cantar.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

2084

Excerto da rubrica “Dúvidas dos Leitores” da futura publicação “A Verdade” do Partido Único Humanista Português:


”Ontem na sala de aulas da dixiplina de educassão sexual quando o setor esplicou o exercicio numaro cuarenta do kamasutra neutro de jénero ouve um pensamento proibido que pensei sem querer mas que pensei na mesma i que foi o pensamento sobre se calhar o setor não dever andar a praticar sexo com os colegas mesmo que seja para nos ensinar a ser-mos todos iguais e depois o setor viu a minha cara e disse que eu tinha problemas de integração de minorias. Tou muito priocupado Será que sou fáxista?”

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O FIM DA DEMOCRACIA LIBERAL

Podemos definir democracia de diversas formas. De uma forma mais literal, como o auto-governo do povo; de uma forma mais formal, como um conjunto de regras que garantem uma representação política a todos os membros de uma comunidade política; ou, por exemplo, de uma forma mais lata, como um conjunto de liberdades, direitos e garantias individuais que configuram as nossas sociedades políticas contemporâneas ocidentais. O facto de um conceito poder ter diferentes interpretações pode dar azo a muitas confusões, sendo um bom exemplo desta situação o facto do conceito de democracia ser tão lato que o Partido Comunista Português entenda que a defende, ou que o Presidente da C.M. de Loures, Bernardino Soares, tenha ficado famoso por advogar que a Coreia do Norte seria, segundo ele - e o PCP -, uma democracia.

Na verdade, Bernardino Soares tem razão: a Coreia do Norte pode perfeitamente ser considerada uma democracia: tem eleições (ainda há pouco tempo, em 2014, 100% dos cidadãos participaram num acto eleitoral electivo onde o actual líder obteve 100% desses mesmos votos), tem partidos políticos (unidos numa frente partidária comum) e tem representantes eleitos por mandatos de cinco ou quatro anos consoante os cargos. Por outro lado, é dado adquirido que na Coreia do Norte existem campos de concentração, perseguição política, assassinatos políticos e um regime totalitário comunista responsável por um número incalculável de mortos situado algures entre os 700.000 e os 3.5 milhões de mortos. Há, portanto, uma diferença muito grande entre a nossa democracia e democracias como as da Coreia do Norte, um regime que o Partido Comunista Português branqueia de forma cúmplice ao receber enviados do Partido Comunista da Coreia na sua Festa do Avante, bem como os regimes Comunistas, igualmente apoiados pelo PCP, de Cuba e da Venezuela  também eles responsáveis por milhares de mortos e a destruição completa das economias desses dois países.

A questão, portanto, não é se somos a favor da democracia, tal como o PCP afirma ser, mas de que tipo de democracia somos nós a favor. A diferença entre o PCP, ou o BE, e os antigos partidos do chamado arco da governação substancia-se nos valores que estão assumidos como fundamentais na base da constituição das democracias ocidentais. Esses são os valores da igualdade perante a lei e da liberdade individual, quer política quer económica, consubstanciada no direito inalienável à propriedade privada estabelecido na organização de uma sociedade baseada nas regras das economias de mercado, ou seja: onde a livre produção, troca e consumo de produtos assume o papel fundamental como forma de organização económica de um país.

Estes princípios, ao contrário de simples mecanismos procedimentais de eleição democrática, é que constituem a base da democracia liberal tal como a conhecemos: de nada serve podermos eleger o nosso "chefe" se não pudermos dispor da nossa propriedade; de nada serve podermos eleger o nosso presidente da câmara se não tivermos a liberdade de pensarmos como muito bem entendermos; de nada serve uma democracia se não tivermos a possibilidade de educar os nossos filhos de acordo com os nossos valores.

Assim sendo, a defesa das nossas democracias faz-se defendendo os valores e princípios que as sustentam. É partilhando esses valores que depois podemos discordar se queremos mais ou menos impostos para programas sociais, se queremos o Estado a fazer coisas ou meramente a garantir que outros façam, ou se queremos o erário público investido em obras públicas ou políticas sociais. Essas discussões entre quem alinha mais à esquerda ou à direita são próprias da democracia liberal que, ao contrário do que muitos dizem, não tem nada de unanimidade; pelo contrário, na sua essência a democracia é uma discussão perpétua sobre como nos devemos auto-governar. No entanto, essa discussão apenas se mantém cívica, profícua e razoável enquanto concordarmos no essencial; e esse essencial são os valores fundamentais que norteiam as nossas comunidades, no caso do Ocidente, os valores fundamentais da liberdade individual, propriedade privada, economia de mercado e igualdade perante a lei.

A partir do momento em que estes valores entram em colapso todo o sistema entra em colapso porque onde os valores são diferentes, opostos mesmo, então os conceitos deixam de fazer sentido, isto porque significam uma coisa e, ao mesmo tempo, o seu contrário. O PCP - ou o BE - e a sua defesa da democracia, uma democracia que nada tem a ver com a nossa, é um excelente exemplo disto: adeptos fanáticos do comunismo, do fim da propriedade privada e da liberdade individual, apologistas sem vergonha de regimes totalitários que na história da Humanidade foram responsáveis por mais de cem milhões de mortos, não podem ser parceiros sérios na gestão dos sistemas - no caso, as democracias liberais ocidentais - que eles próprios nos seus programas juraram destruir.

A principal característica das democracias ocidentais contemporâneas prende-se com um pressuposto filosófico racionalista que convenceu culturalmente as nossas sociedades que os valores são todos relativos e apenas os procedimentos formais, porque ausentes de conteúdo subjectivo e supostamente universal e racionalmente válidos, serão necessários para manter as democracias ocidentais. Para esses optimistas ingénuos, a cultura e os valores individuais são independentes da validade racional dos mecanismos procedimentais democráticos e liberais do Ocidente. Para esta perspectiva, independentemente do quadro mental e cultural de cada um, perante a superioridade científica da modernidade, todos nos subjugaríamos aos procedimentos democráticos e liberais de forma voluntária. Esta é, por exemplo, a base filosófica do multiculturalismo, da defesa da imigração como solução para o problema demográfico europeu ou da renegação da herança Cristã como pedra basilar da civilização ocidental.

Do mesmo modo, porque predomina a crença na validade universal dos pressupostos racionais e científicos que supostamente justificam a moral contemporânea - ou seja, são princípios verdadeiros -, facilmente se cai na tentação de ver o crítico dessa visão como alguém que, por professar uma ideia diferente, terá forçosamente uma ideia errada: quando nos achamos donos da verdade não comprometemos essa verdade com aquilo que sabemos ser falso. A verdade apregoa-se, não se discute. A verdade assume-se, não se compromete. A verdade é evidente, não se renega. A ilusão de verdade que o carácter pseudo-científico da sociologia política contemporânea nos oferece com uma mão traz agarrada com a outra, escondida, a ditadura de um pensamento único: precisamente o maior adversário da democracia liberal. É aqui que nasce a base da ditadura do politicamente correcto, uma ditadura estabelecida e decidida nos corredores das universidades, jornais, televisões e, naturalmente, assembleias parlamentares.

No entanto, esta pseudo-certeza, esta arrogância suprema de considerarmo-nos os donos da verdade, uma verdade nova porque supostamente despida da roupagem cultural, religiosa e atrasada das quais os nossos antepassados nunca se conseguiram separar, tem tanto de verdade como qualquer outra crença cultural do passado que, exactamente nos mesmos termos, proclamasse uma verdade e anunciasse a salvação através dos seus ensinamentos (sobre a falácia do racionalismo escrevi aqui, aqui e aqui). Foi, aliás, precisamente contra o dogmatismo religioso que os valores da liberdade individual e igualdade perante a lei foram erigidos; foi precisamente contra os privilégios daqueles que muito tinham à custa dos que nada poderiam ter que o estabelecimento do direito à propriedade privada foi instituído.

Este compromisso conservador-liberal entre a igualdade (perante a lei) e a liberdade (perante o Soberano) está hoje em risco. Senão, a título de exemplo, vejamos: em nome da igualdade estabelecem-se quotas que mais não fazem do que criar leis que forçam a tratamentos desiguais de acordo com o sexo. O mesmo se passa com a questão da raça, da orientação sexual e a proveniência geográfica. Hoje, no Ocidente, as oportunidades são fortemente limitadas pela circunstância racial, sexual e íntima de cada um. Deste modo, em nome da igualdade e da liberdade destrói-se a igualdade (tratamento diferenciado pelo Estado de acordo com a raça, sexo ou orientação sexual) bem como a liberdade (o Estado tem o poder de discriminar de acordo com raça, sexo ou orientação sexual).

Esta alteração fundamental no equilíbrio de valores que constitui a base primordial ocidental representa uma séria ameaça à existência das nossas democracias liberais. Se é verdade que os procedimentos formais liberais procuram garantir a continuidade temporal das nossas democracias não deixará de ser ainda mais verdade que sem os valores que os justificam esses procedimentos nada significam para além de simples normas que o Estado nos força a cumprir. Isto comprova-se pela facilidade com que princípios fundamentais - como a igualdade perante a lei que acima referi - foram substituídos por outros que configuram hoje regimes apostados num construtivismo social que infringe frontalmente as bases da nossa civilização. Neste aspecto, a democracia liberal que nos trouxe uma prosperidade inédita, bem como a paz que experimentámos nos últimos setenta anos no Ocidente, já morreu.

Os sinais desta crise imensa são evidentes e assinaláveis. Com o desaparecimento de um quadro de valores que sirva de base para o consenso democrático e liberal desaparece o chão sobre o qual todas as nossas instituições funcionam. A primeira coisa a desaparecer é a capacidade de diálogo. Onde os valores fundamentais não são partilhados, ou seja, onde uma determinada visão do mundo não é partilhada, torna-se impossível discutir assuntos práticos, pelo contrário: onde a visão do mundo não é partilhada discutem-se visões do mundo. Com o tempo, diferentes visões do mundo competem pelo poder porque apenas o poder as poderá colocar em prática. Tal processo inicia um ciclo vicioso de polarização e de extremar de posições políticas mas, porque a cisão está ao nível do quadro de referência mental, logo moral, com que descrevemos o mundo, são cisões que também são morais. Onde as visões do mundo não são conciliáveis, porque nada há mais alto do que a perspectiva pela qual justificamos o mundo e a vida, os conflitos já não são apenas políticos, são totais. As derrotas eleitorais tornam-se derrotas morais, tal como as vitórias se tornam vitórias do Bem e da Verdade. Não há, nem podem ser tolerados, compromissos. Neste estado de agitação, o debate político é a rua, mesmo que digital, e a arma é, no melhor dos casos, o insulto ou, no pior, um pau ou uma arma. Primeiro, nas franjas mas, depois, à medida que a polarização se alarga e o centro desaparece pelo buraco negro criado pela ausência do compromisso moral que nos sustentava, surgem então os demagogos que, quer de um lado quer do outro, procuram capitalizar a instabilidade, a insegurança, a agitação e o ódio para perseguir as suas próprias agendas.

Deste modo, instaurou-se na Europa e no Ocidente uma verdadeira guerra civil cultural: de um lado, os apóstolos do tempo novo, fieis crentes no progresso da Humanidade, na igualdade valorativa de todas as culturas, no Estado como garante máximo da racionalidade moral da vida pública e instrutor prático dos valores sociais através da educação escolar, não apenas técnica mas também cívica e moral; do outro lado, todos os que não se identificam com esta mudança abrupta no nosso modo de vida. Aqueles que não querem abdicar dos princípios fundamentais que nortearam a nossa civilização, e que não acreditam na redenção moral apregoada pelos novos profetas do admirável mundo novo. Acima de tudo, aqueles que prezam a sua cultura, a sua história, as suas tradições. E também aqueles que, independentemente de tudo, valorizam os princípios fundamentais da democracia liberal.

No entanto, estes valores modernos, pseudo-racionais e moralistas da igualdade não têm nada de novo, a não ser a roupagem identitária que agora vestem. Estes princípios defensores do Estado como garante da construção de um homem novo e de uma sociedade livre de desigualdade são os velhinhos princípios marxistas, razão pela qual vemos, no caso português, o PCP e BE tão empenhados nestas causas de construtivismo social. A diferença é que, durante a segunda metade do Século XX, ao compreenderem que a classe operária que supostamente queriam defender, e orientar, estava satisfeita com a vida beneficiando da maior criação de riqueza que a história da Humanidade alguma vez viu, precisaram de encontrar, primeiro, novos oprimidos para libertar e, depois, novos conceitos para descrever o status quo que, tal como na Rússia em 1917, pretendem substituir. Assim, nasceu a opressão do patriarcado, branco e masculino, o grande inimigo das minorias oprimidas: os não-brancos, as mulheres, os homossexuais, etc., etc. Deste modo, assim como se avança a causa progressista também se avança a agenda comunista e estatista. Que agenda é essa? A substituição do nosso modelo de democracia pelo deles: o tal que com tão terríveis resultados triunfou na URSS, na Coreia do Norte, em Cuba ou na Venezuela, sempre com o apoio, no caso português, do PCP e do BE.

No final, a guerra cultural, bem como a capitulação da democracia liberal, que estamos a viver tem o mesmo adversário de sempre: as forças negras da opressão, do controlo e da subjugação da liberdade individual face ao poder dos colectivistas moralistas que julgam saber melhor do que todos os outros o que é bom para todos. Resta saber se a resistência ainda virá a tempo de evitar que a guerra cultural se transforme em guerra civil ou, na ausência de reacção, no triunfo do marxismo cultural do Século XXI que a prazo terá, naturalmente, as mesmíssimas consequências que todos os seus antecessores do Século XX: a morte e a miséria.




quinta-feira, 30 de agosto de 2018

AMOR E LIBERDADE

Bill Hicks, um dos maiores comediantes de stand up do final do Século XX, dizia poucos meses antes da sua morte, num espectáculo apropriadamente apelidado de Revelations, que a vida é como uma viagem num parque de diversões, com altos e baixos, rodopianços para a direita ou para a esquerda, mas uma viagem que podemos mudar a qualquer instante porque se encontra sempre assente numa escolha. Essa escolha, segundo Hicks, está presente a todo e a qualquer momento e consiste numa escolha entre o amor e o medo, uma decisão que cada um de nós toma e que define a forma como vivemos cada momento das nossas vidas. Escolher o amor, para Hicks, implica abrir o peito ao mundo, escolher a liberdade, a sua e a dos outros, bem como, fundamentalmente, assumir e abraçar os riscos da vida; escolher o medo, por oposição, implica fecharmo-nos em casa, escondermo-nos refugiados numa ilusória segurança atrás de sete chaves, e permanecer em ambiente seguro à espera do estafeta da Telepizza. Hicks seria tudo menos um apóstolo de uma religião ou de qualquer particular forma de governo, muito pelo contrário – definia-se como sendo um revolucionário de extrema-esquerda –, mas esta noção de que a vida é sempre, primeiro, uma escolha e, depois, uma escolha entre o medo e o amor, é um postulado ontológico com interessantes implicações filosóficas e, consequentemente, políticas, muito para lá do que, por ventura, o próprio Bill Hicks imaginaria.

A noção de começarmos numa escolha, desde logo, é importante porque implica o livre-arbítrio, a soberania do indivíduo: somos nós que escolhemos a forma como devemos viver a nossa vida e, como agentes responsáveis que somos, somos também nós que colhemos as consequências – os frutos – dessa escolha que fazemos. Liberdade implica responsabilidade. Depois, as hipóteses sobre as quais a escolha se debruça: de um lado, o amor, com a liberdade e o risco que se lhe associa, uma espécie de salto mortale de fé, ou esperança, rumo a um mundo que desconhecemos, mas que abraçamos; do outro, o medo que impele ao controlo, uma cedência ao impulso securitário de recusar o desconhecido e quedarmo-nos por tudo aquilo que já conhecemos, logo que podemos controlar, e que por essas duas razões não representa uma ameaça. O caminho do medo, atente-se, não é o de agir em nome do medo, pelo contrário, é o de fugir dele, de o evitar, de o recusar, em suma: escondê-lo. Ceder ao medo, portanto, implica rejeitar tudo aquilo que possa causar medo, receio ou ansiedade. No entanto, e parece-me que este seria o ponto de partida de Bill Hicks, a vida não pode ser nunca coisa alguma além de uma viagem assustadora, um susto que apenas o amor nos pode convencer a viver. A vida, uma experiência limitada pelo nascimento e pela morte, é algo que nos acontece, que não controlamos: não decidimos o nosso nascimento, a nossa morte (o suicídio é a excepção) ou, sequer, a maior parte das circunstâncias que num mundo tão complexo dão contorno aos nossos caminhos de vida. Crescer e amadurecer implica este reconhecimento: o de existirmos num estado de profunda vulnerabilidade face ao desconhecido, em última instância corporizado na morte que espera inapelavelmente por todos nós no final do caminho. Este reconhecimento, este facto indesmentível, é profundamente perturbante e, precisamente por ser aquilo que de mais cru e firme se pode saber acerca de nós próprios, e da nossa condição, define-nos enquanto seres conscientes. Ora, se nos define isso significa que nos afecta, que nos determina de alguma forma, que nos limita no espaço do mundo, na nossa experiência de vida: sabermos algo definitivo acerca de nós próprios implica levar isso em consideração nas nossas vidas.

Daqui deriva a tal escolha primordial e permanente. Temos uma escolha – uma escolha à qual todos somos forçados, é verdade, mas uma escolha não obstante – porque todos nós ao nos defrontarmos com esse enormíssimo facto que define as nossas vidas, o facto de inapelavelmente as perdermos, somos forçados a lidar com ele, utilizando para isso formas diversas: há quem se tente esquecer, rejeitando a noção, outros há que adiam na ânsia de uma solução transcendente e, também, muitos outros há ainda que por diversas razões acabam por aceitar o facto com naturalidade. É dessa diferença, uma espécie de pluralismo primordial, que deriva a liberdade de escolha: perante a condenação implicada pela nossa partilhada condição humana e, principalmente, pelo medo que essa condição nos inspira a todos, a forma como lidamos com o medo é aquilo que primeiro nos define, já não apenas enquanto humanos, mas enquanto indivíduos. O ser humano sabe que vai morrer, e por isso tem medo; já o individuo tem que lidar com o facto de ser um ser humano e, porque cada um lida como cada qual, é então pela forma como enfrenta esse medo primordial face à condição humana que cada indivíduo se define – perante os outros mas, fundamentalmente, perante si próprio. A escolha de Hicks, então, não será tanto entre o amor e o medo, apesar de também o ser, mas essencialmente sobre a forma como se lida com o medo que, de uma forma ou de outra, nos afecta a todos. A escolha será, pois, entre ceder a esse medo ou, por oposição, superá-lo, ultrapassá-lo, conquistando dessa forma a capacidade para verdadeiramente abraçar a vida. Daqui, advém o carácter do indivíduo. A sua coragem, que todos reconhecemos porque todos partilhamos o ponto de partida existencial, ou a sua cobardia. A sua nobreza, ou a sua fraqueza. Será, portanto, partindo do facto primordial de todos partilharmos esse medo existencial que nascem as virtudes e os defeitos com que caracterizamos o carácter humano: porque todos enfrentamos a vida e a morte, então todos as enfrentamos com maior ou menor coragem, ou com maior ou menor cobardia. Podemos exercer maior cautela e ponderação, tal como podemos impor maior temeridade ou estupidez, no entanto, não existem vários graus de morte e de vida, não há cinquenta sombras de cinzento no que concerne ao fundamento basilar da experiência humana – o cinzento deriva apenas da forma subjectiva como lidamos com esse absoluto –, tal como não há escape possível à dicotomia: por outras palavras, somos forçados à escolha, somos compelidos a enfrentarmos a nossa condição e, consequentemente, a definirmo-nos perante ela.

A primordial escolha entre o medo e o amor é, portanto, uma escolha entre abraçar a vida, e os riscos que lhe são inerentes, ou ceder ao medo de a perder, imobilizando-nos, fechando-nos. A forma como exercemos este acto deliberativo fundacional, mesmo que na maior parte dos casos inconsciente, define-nos enquanto indivíduos, revela o carácter de cada indivíduo tal como a abordagem com que cada um enfrenta a sua vida. O caminho do amor é, portanto, por definição, também o caminho da coragem, até porque pressupõe ainda uma dificuldade acrescida: assumir-se a condição humana como uma inevitabilidade, e com ela os riscos, e os medos derivados desses mesmos riscos, como parte integrante da experiência de ser humano, implica também tomar consciência que o risco é permanente, logo que não basta escolher uma vez. Pelo contrário, a escolha recai perante a experiência da vida, e do medo, logo, permanece a par da condição de existência: se vive, então tem medo de morrer. A perenidade, a caducidade e a mudança são constantes da experiência de vida, pelo que a escolha não apenas é inevitável e forçada, mas também é perpétua e necessariamente repetida a cada instante. Viver de forma consciente, com coragem e nobreza, implica então, primeiro, uma abertura ao mundo, ao desconhecido e ao misterioso e, depois, a tomada de consciência de que essa atitude derivada da escolha não cessa a momento algum, pelo contrário, revela-se numa predisposição para a mudança, para um modo de existir que não é estático, e que apenas é constante no seu perpétuo movimento, na sua ininterrupta e contínua necessidade de reafirmação. A escolha do amor, tal como a pedra de Sísifo, é sinónimo de uma tarefa árdua e repetitiva.

Um indivíduo parte sempre do que não sabe para aquilo que passa a saber. Ora, isto implica enfrentar o desconhecido, o estrangeiro: o caos. O acto consciente é sempre um acto de afirmação perante o desconhecido, um desconhecido que se torna conhecido, logo acomodável, inteligível e, com sorte, controlável. O mero acto de ganhar consciência pressupõe, portanto, o enfrentar do desconhecido por forma a ordená-lo, formá-lo, controlá-lo. Jung apelidava este salto no desconhecido de um chamamento para a aventura, porque aprender implica sempre lidar com aquilo que se desconhece – e, por definição, aquilo que se desconhece pode ser perigoso, logo representa um risco. Assim, não apenas a existência força a aventura, e uma escolha, mas também a existência consciente, aquela que distingue os seres humanos dos demais, aprofunda essa mesma aventura, e essa mesma escolha. O caminho do amor é, então, o caminho da aventura: criar, pensar, agir, postular, em suma: arriscar. E é da aceitação desse chamamento para a aventura, desse chamamento para enfrentar o desconhecido, que deriva o valor e a nobreza da vida humana. Uma vida bem vivida será então uma vida heroica, aquela que conquista terreno ao desconhecido clamando-o para o campo do conhecido, ou seja: o herói que oferece ordem ao caos. Em suma, uma vida boa é aquela que contribui de forma positiva para o aprofundamento do conhecimento humano, seja em que arte, ou parte, for.

Do mesmo modo, também o oposto se pode definir. Ceder ao medo implica, porque esse conhecimento nos assusta, rejeitar a consciência da inevitabilidade da morte e da mudança ou da transformação constante que é a vida. Do mesmo modo, porque o desconhecido amedronta, o próprio acto consciente se torna penoso e, consequentemente, apreendido como perigoso. A infância, precisamente porque é um estado ainda inconsciente e ignorante, representa então o paraíso do qual a maturidade consciente nos quer vir tirar. Daí que a quem escolha o medo, ou seja, quem responda negativamente ao chamamento da aventura, a aventura que através da experiência e do conhecimento progressivo nos trará a maturidade, a esses que vão rejeitando o desconhecido, a maturidade e a consciência do mundo tal como ele é, em nome do conforto e segurança do que já conhecem, a esses a infância aparece como refúgio: o paraíso confortável, sem conflitos ou necessidades de aventuras, onde tudo faz sentido e se conjuga numa realidade eterna, harmónica e imutável. Quem não responder afirmativamente ao chamamento da aventura vai-se agarrando a esse imaginário infantil perfeito e utópico onde o sol brilha na eira e a chuva cai no nabal. No entanto, o mundo é madrasto e, salvo poucas excepções, a dureza da realidade, das coisas tal como elas são, acaba sempre por se impor aos sonhos perfeitos e infantis que estabelecem mundos tal como imaginamos que eles deveriam ser. Aí, o chamamento para a aventura, normalmente sobre a forma de uma tragédia, torna-se irrecusável e a maturidade, ou seja: o reconhecimento da condição humana tal como ela é, força-se sobre os espíritos, mesmo aqueles que por todos os meios foram continuando agarrando-se ao seu imaginário infantil. Mais uma vez a escolha se impõe. E se quem corresponde à tragédia com a coragem de quem abraça o mundo – o caminho do amor que temos vindo a descrever – tende a superá-la, já aqueles que escolhem o caminho do medo, ou seja: aqueles que por receio rejeitam a necessidade de aceitar a realidade da condição humana tal como ela é, a esses sobra o ressentimento: pela dor, pelo medo constante e pela condição humana; em suma: pela desilusão de aquilo que é não ser como eles pensam que deveria ser.

O caminho oposto ao do amor assenta então sobre dois pilares fundamentais: o primeiro, já referido, é o ressentimento de quem não aceita o facto de ter sido forçado a sair do paraíso infantil. O segundo, deriva da actividade consciente, apenas que alimentada pelo medo em vez do amor. Se o amor leva a abraçar o mundo, a enfrentar o desconhecido, já o medo, pelo contrário, leva a separar-nos do mundo, rejeitando-o, a afugentar o desconhecido, a retirá-lo da nossa experiência, a impedir que nos afecte. Isso torna necessário que toda a experiência seja já conhecida, que tenha sido já anteriormente digerida, ou seja: que o mundo esteja já previamente controlado. Ora, apenas aquilo que julgamos controlar se nos revela como conhecido, isto porque aquilo que afugenta o medo, mesmo que de forma apenas ilusória, é precisamente o controlo que julgamos exercer sobre aquilo que nos afecta, ou que nos poderá vir a afectar. No entanto, como se pode controlar aquilo que desconhecemos? Não se pode, e desta evidência se retira a impossibilidade de sucesso desta abordagem perante o mundo: por mais que queiramos exercer controlo sobre o mundo, tal como ao infante a quem foi arrancado o paraíso infantil, mais tarde ou mais cedo o mundo se revelará tal como ele é – e quanto mais ele for rejeitado, quanto mais nos separarmos da sua realidade, pior será o ajuste face ao real, e maior será a tragédia que o revelará. Este foi, por exemplo, precisamente o alerta que, por outras palavras, Burke nos deixou antevendo o trágico desfecho da Revolução Francesa de 1789.

Ressentimento é o combustível e o controlo é a arma de quem tem medo do desconhecido, da aventura para onde a vida nos atira. Assim, o caminho do medo, o do controlo, é igualmente o caminho da tirania pois a única forma de garantir controlo sobre o mundo, no qual se inclui o mundo dos homens, é poder exercer controlo sobre os membros da comunidade. Ora, para controlar é necessário mandar, impor, fazer obedecer. Garantir que os outros obedecem à nossa vontade é, por definição, a única forma de garantir controlo sobre os outros. Do mesmo modo, e tal como a história o demonstra, é tanto maior o tirano quanto mais fraco o indivíduo for: quanto mais ele rejeitar o desconhecido, quanto mais ele ceder ao medo, normalmente sobre a forma da paranoia, mais ele recorrerá ao controlo, ao mando, à força, à tirania. No entanto, o controlo total, por mais que se mate e que se imponha, é sempre impossível. A derrota, e a morte, como a história e o conhecimento da condição humana igualmente o demonstram, estarão sempre garantidas no final do caminho. Reconhecer esse facto – a tal escolha primordial do amor –, precisamente por ser um acto de abdicação, de humildade perante um mundo do qual dependemos e do qual nascemos, um acto de amor portanto, a ser feito a priori poupa também vidas incontáveis.

Uma distinção, no entanto, importa fazer entre a figura do herói e a do mártir. Herói, é aquele que reconhecendo o mundo tal como ele é demonstra ter a coragem para escolher entre as opções que tem pela sua frente, sempre com o intuito de aprofundar o seu conhecimento (e o dos outros) ou a sua condição no mundo (e a dos outros); mártir, é aquele que abdica de escolher ele próprio em benefício do que ele imagina ser o bem de outros. Se é certo que mártires os houve na história da humanidade aos quais muito devemos, no entanto, também não deixa de ser verdade que o martírio não é exemplo de norma, menos ainda quando falamos de vida comunitária: sob a pena de extinção, o martírio será sempre uma excepção, nunca a regra. Escolher o amor não implica o martírio, muito pelo contrário: implica a responsabilidade de lidar com a vida, uma responsabilidade para a qual, muitas vezes, o martírio até poderá representar uma abdicação, quiçá mesmo capitulação.

A história demonstra bem como esta oposição dicotómica na predisposição humana para o medo ou para o amor se revela sempre – e também sempre com os mesmos resultados. Onde a escolha vencedora foi a aversão ao risco, ao desconhecido, uma aposta no controlo, na segurança, na arrogante certeza do conhecido, ou seja, onde o caminho foi o autoritarismo centralizador e dominador, aí sempre acabou por eventualmente revelar-se a separação face ao mundo tal como ele é através da tragédia da miséria e da morte. Do mesmo modo, e por uma evidente oposição, onde o caminho do amor, do respeito pela liberdade, e onde o risco da vida foi celebrado como uma oportunidade para crescer, criar e aprender, ou seja, nas sociedades que ofereceram liberdade aos seus indivíduos, apesar dos altos e baixos que caracterizam a vida, sempre o corajoso enfrentar do desconhecido acabou por gerar os seus frutos: foi nas sociedades mais livres de sempre que foi gerada a maior riqueza de sempre e o maior bem estar para o maior número de pessoas.

Amor implica liberdade – e desta deriva riqueza material, como a história o demonstra, mas também espiritual pois apenas na imersão e conexão de todos e cada um para com o mundo e enfrentando o desconhecido o transcendente se torna possível. Do mesmo modo, medo implica controlo – e deste deriva miséria, morte e destruição material, mas também espiritual: não pode florescer o espírito humano quando aprisionado aos mandos e desmandos de outros seres humanos. Os verdadeiros revolucionários, os indivíduos movidos pela coragem e pela nobreza de carácter, são, portanto, aqueles que querem libertar – porque libertar é um acto de amor. Pelo contrário, todos aqueles que acenando as bandeiras do medo, apelando à segurança, querem exercer controlo, domínio – no fundo: poder – sobre todos os outros, esses não são revolucionários: são uma amálgama de iludidos com cantilenas de paraísos infantis, ressentidos com a coragem dos outros, ou com o próprio mundo e, outros ainda, piores, que anseiam sublimar as falhas que se arrogam a imaginar no mundo impondo a sua vontade sobre ele, ou seja: sobre os outros. No final, de uma forma ou de outra, a este todo uma coisa une: a escolha do medo e a fraqueza que os impede de reconhecer, e aceitar, o mundo tal como ele é. Por alternativa, como Hicks bem à sua maneira lembrava, temos o caminho do amor: revelado num acto de fé, de abertura de cada um ao mundo, e reconhecendo nesta nossa condição partilhada de sermos humanos um ponto de partida para a conquista do desconhecido. Amor, liberdade e coragem são, em suma, os valores maiores desta estranha condição que é ser humano.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

LIBERALISMO E CONSERVADORISMO

A tensão entre estes dois conceitos é antiga mas, quando olhando para ela, é fundamental levar-se em consideração que os significados atribuídos aos dois conceitos variam com o tempo o que, naturalmente, implica alterações na forma como estes se relacionam entre si. Liberalismo começou por ser sinónimo de quase tudo aquilo que se opunha ao Antigo Regime, apenas que, ao longo dos últimos duzentos anos, e com o triunfo dos ideais liberais, se foi dividindo em diferentes interpretações sobre qual o bom liberalismo, ou mesmo sobre o que significa ser liberal. Hoje, por exemplo, no mundo Ocidental o termo 'liberal' consegue simultaneamente significar uma coisa e o seu contrário. Para mim, significará sempre o que tenho como o seu significado mais puro, o chamado liberalismo clássico: uma sociedade tolerante baseada na liberdade individual defendida sem concessões através da igualdade perante a lei e o direito inviolável à propriedade privada e à livre troca.
O mesmo ocorreu no campo conservador. Primeiro, conservadores seriam aqueles que se opunham à mudança preconizada pelos liberais. Aí, conservadorismo seria, portanto, sinónimo de adversário do liberalismo. No entanto, nem todos os conservadores eram iguais: não poderemos, por exemplo, confundir a corrente ultramontana, tendo De Maistre como exemplo maior, que rejeitava o liberalismo por este representar uma afronta à ordem hierárquica social e que via o Antigo Regime, com particular ênfase no Absolutismo Russo, como o antídoto para a desgraça anunciada pela ciência, pela difusão do conhecimento e pelo debate de ideias. Para De Maistre, a verdade já era conhecida e resultara na harmonia do corpo social pelo que era o próprio debate e o mero exercício da dúvida científica que corporizava o maior adversário da hierarquia social e, consequentemente, da paz e da ordem. Para De Maistre, atente-se, a solução para o problema liberal era a apologia da figura redentora do carrasco.
O conservadorismo de De Maistre dificilmente pode ser tido como conservadorismo hoje em dia. A sua visão reaccionária face à revolução intelectual, moral e institucional do liberalismo será hoje tão ou mais revolucionária do que qualquer outro adversário do ordenamento liberal. Não poderemos, por exemplo, confundir o "conservadorismo" de De Maistre com o de Burke. Para este último, o problema do liberalismo era o universalismo abstracto das soluções racionalistas dos revolucionários liberais. Aqui, não se pedia a figura do carrasco, não se pedia o absolutismo hierárquico, não se pedia sequer uma rejeição da mudança; para Burke, o essencial era reconhecer-se que os dilemas morais dos homens eram demasiado complexos para serem resolvidos a regra e esquadro com soluções teóricas universais que se advogavam superiores aos milénios de experiência civilizacional a lidar com esses mesmos dilemas e que tinham derivado nas instituições que governavam as nações europeias, cada qual com as suas particulares características. Burke alertou, e quanto a mim bem, que as abstracções universalistas configuram soluções artificiais, tão falíveis como todas as invenções humanas, exercícios teóricos especulativos separados da realidade objectiva dos homens, uma realidade que é tanto melhor compreendida quanto melhor for conhecida a forma como os homens lidam ela. Burke foi ainda mais longe ao defender que a liberdade não pode ser mantida onde o respeito pela nobreza da dignidade humana não exista, pelo contrário: quando a liberdade for apenas justificada por critérios abstractos e racionalistas, porque estes se encontram despidos da particularidade da nossa própria humanidade, então ela rapidamente degenerará no caos e violência. Ora, esta objecção não é estapafúrdia - e tanto não o era que foi Burke precisamente aquele que previu o desfecho sanguinário da revolução francesa.
Não podemos, portanto, olhar para o conservadorismo apenas como uma espécie de generalização do princípio estabelecido por Oakeshot no On Being Conservative onde ser conservador seria uma disposição conservadora, avessa à mudança, uma espécie de predisposição vã e permanente de manter aquilo que há por oposição àquilo que pode vir a ser, isto porque se vive receando um futuro pior. Do mesmo modo, também não pode ser visto o conservadorismo como o exercício reaccionário de De Maistre, um pensamento percurssor - e inspirador - de grande parte dos autoritarismos e totalitarismos do Século XX. Parece-me mais adequado ver a essência do pressuposto conservador como esta desconfiança face à universalidade racional e abstracta que o Iluminismo inicialmente,  imitando as ciências naturais, advogou como sendo a promessa de uma solução perfeita e definitiva para os problemas morais e políticos da Humanidade.
Uma outra questão que me parece relevante para a dicotomia liberalismo-conservadorismo é aferir a forma como a sua interligação foi fundamental no advento da democracia liberal. Se, por um lado, é pivotal para o advento da ordem liberal a ruptura que foi feita com a noção absolutista de que o poder é divino e descendente através da hierarquia social - não pode haver liberdade individual sem o pressuposto fundamental de que todos os indivíduos são iguais perante a comunidade -, também não deixa de ser verdade que o lado racionalista do liberalismo iluminista, do qual Rousseau é um bom exemplo, nos legou um igualmente poderoso adversário da ordem liberal: desde a noção de liberdade colectiva assente na 'vontade geral', passando pelo formalismo procedimental Kantiano até ao historicismo pseudo-científico, primeiro de Hegel e depois de Marx, existe derivada da inicial revolução liberal toda uma tradição que, de forma mais directa ou indirecta, representa um poderoso adversário da ordem liberal contemporânea. A base ontológica desta tradição é precisamente o racionalismo geométrico e abstracto como fonte de norma moral e política, ou seja: em maior ou menor degrau, precisamente a apologia de tudo aquilo contra o qual Burke se insurgiu. Neste sentido, não pode deixar de ser notado que o pressuposto conservador de Burke representa um poderoso aliado da ordem liberal.
Não será grande novidade, portanto, afirmar a noção que a democracia liberal deriva de um compromisso entre liberais, que advogaram a liberdade do indivíduo face ao grupo, e conservadores, que rejeitaram a justificação racional para o colectivismo anti-Antigo Regime. Muito mais haveria ainda para analisar nesta tensão complexa entre conservadorismo e liberalismo, no entanto, para efeitos de síntese, gostaria de focar-me em três pequenos pontos que, parece-me, resumem bem a forma como o conservadorismo, ou pressupostos derivados deste - aliados a partes do Romantismo -, postularam importantes críticas ao movimento liberal e, hoje em dia, representam pilares fundamentais para, primeiro, a manutenção de uma democracia liberal e, depois, a defesa intransigente da liberdade individual como valor primeiro das nossas comunidades políticas - com a rejeição do socialismo vigente que essa opção implica.
Primeiro, a noção de que o mundo moral e político não é nem a caverna de Platão nem o mecanismo tipo-relógio de Newton ou Descartes: não existe, ou pelo menos não há nada que aponte no sentido de que exista, um princípio objectivo, universal e racional - e acessível à mente humana - que harmonizando valores e princípios possa servir como critério absoluto sobre a validade dos julgamentos morais humanos. Daí que não possa existir real conhecimento aceite de forma universal sobre se um julgamento moral é verdadeiro ou falso. Este ponto é fundamental porque não havendo forma de garantir uma solução correcta para um dilema moral então é no imperfeito julgamento humano que recai a responsabilidade de decidir.
Em segundo lugar, e de certa forma derivado do primeiro ponto, a noção de que o dilema moral é inevitável. Os humanos perseguem coisas que valorizam - valores -, e diferentes indivíduos perseguem, logo valorizam, coisas diferentes. Do mesmo modo, muitas das coisas valorizadas são incompatíveis entre si o que obriga a uma escolha forçada entre diferentes fins e valores: normalmente não se consegue ter o sol na eira e a chuva no nabal. Ao contrário da utopia racionalista platónica onde se advogava que todos os valores acabariam por harmonizar-se, bastando para atingir essa harmonia compreender verdadeiramente a essência sobre o que certo valor ou conceito de facto significaria, pelo contrário, no nosso mundo real, valores e conceitos são essencialmente incompatíveis entre si forçando a escolha entre eles: se eu quero ter prazer, então eu posso prejudicar a saúde; se eu quero ser corajoso, então abdico da segurança; se eu persigo a riqueza então eu provavelmente abdico do descanso; etc., etc., tudo isto são valores e muitos deles são incompatíveis uns com os outros. Escolher é, por isso mesmo, uma vicissitude inescapável da condição humana, tanto nas nossas vidas particulares como nas nossas vidas comunitárias.
Em terceiro lugar, e juntando a inevitabilidade da escolha (ponto 2) com a ausência de um padrão universal - filosófico ou científico - que nos garanta as respostas certas (ponto 1), sobra a questão sobre quem deve decidir qual a resposta a dar aos dilemas morais e políticos de uma comunidade. É precisamente aqui que a visão conservadora é particularmente importante: ao rejeitar-se que haja uma construção teórica capaz de aliviar o fardo da escolha humana perante os dilemas que se lhes deparam sobra apenas a defesa intransigente do julgamento humano, julgamento o qual, fruto da subjectividade humana, é necessariamente feito por cada indivíduo. Mais: na ausência de uma resposta verdadeira e ideal sobra-nos a inevitabilidade de existirem várias respostas possíveis. Esta é a base do pluralismo, uma noção que obriga ao diálogo, à tolerância e a uma apologia do julgamento humano individual. Qualquer exercício especulativo teórico que pretenda oferecer uma solução a priori que substitua o essencial julgamento individual sobre os dilemas da vida, quer a individual quer a colectiva, representa, portanto, uma porta aberta para a substituição da liberdade individual por uma outra qualquer solução colectiva, solução essa que será forçosamente menos liberal porque assentará necessariamente na imposição aos indivíduos de um particular critério de escolha - um critério que lhes é alheio e, consequentemente, uma infracção directa na liberdade de decidirem eles próprios como lidar com os dilemas morais que os afectam.
Muito mais haveria para dizer como forma de defender a noção que o liberalismo não apenas tem muito que aprender como, mais importante, deve muito ao conservadorismo. Em última instância, o liberalismo (clássico) assenta na defesa intransigente da liberdade individual perante a comunidade; mas, no conflito constante de valores que é a vida humana, esta defesa não é mais do que colocar no nosso sistema de valores a liberdade individual acima de outros valores também eles importantes. Essa escolha, no entanto, não foi feita ex-nihilo baseada em modelos teóricos dos quais se escolheu racionalmente um numa qualquer posição original, posição essa à qual se acede sempre que um indivíduo é racional (e quando não se acede é porque o indivíduo em questão não é racional ou inteligente - uma acusação que inquina grandemente o debate verdadeiramente liberal). Pelo contrário: houve toda uma tradição civilizacional que permitiu atingir um estádio evolutivo onde a apologia da liberdade individual representou uma escolha colectiva, o que nos obriga a prestar atenção às circunstâncias culturais e civilizacionais que permitiram essa escolha - porque sem elas poderemos não conseguir continuar a justificar a defesa da liberdade individual. Do mesmo modo, essa escolha ganha muito mais força quando compreendendo que o ser humano não é melhor defendido por uma qualquer abstracção metafísica ou teórica que apregoe os caminhos racionais do paraíso na terra. Para mim, entre o paraíso racionalista libertário e o paraíso marxista não há grande diferença: não é de homens e mulheres de carne e osso que eles tratam. Prefiro a defesa intransigente da dignidade humana, dignidade essa que é apenas garantida evitando o crime moral que é forçar escolhas aos indivíduos quando as consequências dessas escolhas afectam precisamente aqueles sobre quem elas foram impostas. Um dos maiores legados conservadores à ordem liberal foi precisamente o pressuposto basilar do direito à liberdade: o dever da responsabilidade de lidar com as consequências das nossas próprias escolhas.
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domingo, 3 de junho de 2018

A ANATOMIA DE UM GOLPE PALACIANO

A maior parte das pessoas não se apercebeu mas houve uma revolução em Portugal, uma revolução seguida de uma contra-revolução. No final, voltou tudo à estaca zero. O acontecimento mais relevante no status quo político-económico português foi a queda de Ricardo Salgado. Curiosamente, apesar da cobertura mediática inevitável a que um acontecimento deste tipo obriga, uma análise séria e minimamente aprofundada sobre o ocorrido não tenho conhecimento de que tenha sido feita. Diz-se, e bem, que Ricardo Salgado era o "Dono Disto Tudo" (DDT), mas, exceptuando a teia desmontada a propósito da Operação Marquês, o que significava na práctica ser o DDT?
Um dos poucos vislumbres do exercício desse poder de bastidores, do verdadeiro poder em Portugal, está no livro que José Gomes Ferreira publicou (link para uma sua entrevista a apresentar o livro). Aí, José Gomes Ferreira defende a sua tese de que a estranha, e para muitos inexplicável, demissão "irrevogável" de Paulo Portas teria sido feita em coordenação com Ricardo Salgado. O objectivo seria fazer cair o Governo de Passos Coelho para garantir que um novo governo mais amigo de Salgado impedisse a queda do BES. Esse objectivo, graças à tenacidade de Passos Coelho, foi impedido: o BES, e Salgado com ele, caiu, revelando as teias do poder oligarca português, agora tão evidentes nas escutas e vídeos da Operação Marquês, por exemplo. O que possibilitou essa limpeza? Passos Coelho e a Procuradora Geral da República que o seu Governo apoiou.
A revolução que ocorreu em Portugal foi a queda do seu Regedor, Salgado. Uma revolução que ocorreu por mandato democrático e o popular, o de Passos Coelho, que em nome do interesse nacional soube lutar contra os poderes mais e menos obscuros, as teias da oligarquia do chamado "bloco central de interesses". Já a contra-revolução começou com o episódio irrevogável, instaurou-se com a criação da Geringonça e venceu com a vitória de Rui Rio para a Presidência do PSD - e o consequente afastamento do único adversário do bloco central de interesses, Pedro Passos Coelho.
A oligarquia do bloco central de interesses manda no país distribuindo dinheiro, benesses, empregos e oportunidades de negócio garantidas pelo Estado. Num país onde o Estado é omnipresente, quem nele manda manda em quase tudo. E quem manda em quem manda no Estado, os DDT da vida, mandam mesmo em tudo. Daí serem os donos disto tudo. Passos Coelho ao querer libertar a economia do Estado representou uma ameaça para a oligarquia, é verdade; mas o perigo mesmo, e letal para Salgado, apenas ocorreu quando Salgado percebeu que Passos não iria engolir as negociatas do BES, que iria deixar a justiça actuar e, mais importante, que não iria salvar o BES e o seu Presidente. A partir daí tornou-se evidente que Passo Coelho teria que ser substituído: primeiro, como já acima referi, o irrevogável de Portas. Correu mal, Passos deu a volta. Depois, a campanha mediática intensa para substituir na liderança do PS António José Seguro, que tinha acabado de vencer as eleições europeias, pelo antigo n.°2 de Sócrates, António Costa, aquele que Seguro assegurava ser "amigo dos negócios" (link). Correu bem. Em seguida, todo o apoio mediático à vitória de Costa contra Passos nas legislativas de 2015. Correu mal, Passos venceu as eleições. Depois, o grande passo de magia: rompendo-se o consenso constitucional de que o partido mais votado, mesmo que em minoria, governaria, comprou-se a extrema-esquerda e formou-se um governo de frente de esquerda que, paradoxalmente, apenas foi possùivel para se deitar abaixo aquele que mais lutou contra a oligarquia corrupta que governava Portugal. Um sucesso retumbante, portanto.
Desde aí, de regresso ao poder, vemos todas as mesmas personagens que governavam com Sócrates de regresso ao Governo (link). Com a UE a garantir juros baixos através do programa de Quantitative Easing (compra de títulos de dívida pública portuguesa por parte do Banco Central Europeu abaixo do preço de mercado, link), com os juros da dívida pública artificialmente baixos, pode a frente de esquerda de Costa continuar a austeridade, cativando pagamentos a curto prazo - como no Serviço Nacional de Saúde, por exemplo (link) -  enquanto distribui prendas (link), benefícios (link) e empregos (link) pelos amigos (link), bem como pelas corporações afectas aos membros da Geringonça, desta última sendo o melhor exemplo o consequente controlo dos sindicatos no sector da educação com o desaparecimento de cena de um dos maiores adversários dos Governos de Passos: Mário Nogueira.
Durante os últimos dois anos, Costa, e com ele o bloco central de interesses - agora alargado aos interesses do BE e do PCP -, tomaram de novo o controle completo do país: Governo, economia, comunicação social e, com uma melhoria significativa face à versão anterior: ao incluir o BE e o PCP garantiu-se a paz social através do controlo dos sindicatos (link), o elemento que faltava para que o poder fosse total. Senão, a título de exemplo, vejamos: durante a governação de Passos Coelho se um bebé nascia numa ambulância caia o Carmo e a Trindade porque o Governo era insensível; se agora o Governo cativa verbas fundamentais para o funcionamento do IPO (link), já ninguém diz grande coisa.
Pior ainda é a desresponsabilização política completa. Em 2017 morreram mais de cem pessoas em fogos por notória incúria estatal (link), irresponsabilidade de um conjunto de pessoas nomeadas pelo Governo a poucos meses da época de fogos (link) e, pior ainda, por falência de um sistema de alerta de incêndios, o célebre SIRESP, que não foi mais do que uma enorme negociata que meteu o Grupo Espírito Santo e António Costa ao barulho (link): tudo isto deu em nada. Mais grave: o Governo tentou por todos os meios esconder o relatório do ocorrido (link), relatório que comprova que provas fulcrais foram apagadas (link), destruição de provas essa posteriormente confirmada pela auditoria (link).
A vitória final da contra-revolução foi tida, no entanto, dentro do PSD. Primeiro, com a campanha mediática mais suja que alguma vez assisti em Lisboa onde a candidata do PSD foi constantemente apoucada, enlameada, inclusive por membros da sua própria lista (link), em constantes manobras políticas onde até mesmo o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, amigo pessoal de Salgado, e o Jornal Observador não se pouparam a prejudicar (link). Passos assume a derrota e acaba substituído por Rui Rio, o homem que desde o início assumiu que se fosse necessário até faria uma coligação com o PS de Costa, reeditando o célebre Bloco Central, para retirar a extrema-esquerda do poder (link). Desde aí, oposição do PSD? Nem vê-la. Finalmente o país dorme em paz. Não se fala de sondagens, não se fala de greves, não se fala do livro de Gomes Ferreira, apenas se discute futebol e o festival da Eurovisão.
E quanto ao CDS? Sobre isto basta recordar que Assunção Cristas recebeu de bandeja um partido pelas mãos de Paulo Portas, o tal homem que, de acordo com o acima disposto, esteve disponível para fazer cair o governo de Passos para salvar Salgado. A intervenção final de Portas no Congresso da sua saída foi, estranhamente, focada em grande parte na necessidade de Portugal ter boas relações com Angola (link). Agora na Mota-Engil, acusado inclusive de a ter beneficiado (link), entre a sua actividade empresarial que lhe rende agora mais de trinta mil euros por mês (link) e o episódio do irrevogável, Portas inaugurou há poucos dias o seu meritíssimo tribunal de opinião televisivo. Será, certamente, independente. Quanto à Mota-Engil, onde Angola é uma peça fundamental (link), imagino que veja com bons olhos tamanha influência. Já da nova liderança do CDS, Cristas, ela própria com nacionalidade angolana (link), ainda terá que mostrar ao que vem - e até que ponto votar Cristas será uma coisa diferente de votar Portas. Uma coisa foi certa: a primeira coisa que fez enquanto líder do CDS foi desfazer a coligação com o PSD de Passos.
A contra-revolução é, portanto, praticamente total: não deixa ninguém, ou pelo menos quase ninguém, de fora. A dívida pública voltou a aumentar (link), os avisos sobre subidas de juros estão aí (link), e o Quantitative Easing vai eventualmente acabar (link), mas nada se passa em Portugal, um Portugal tão calmo como o de Salazar: até a visita da Chanceler Merkel não mereceu sequer um apupozinho da estrema-esquerda. Entretanto, Costa manda - e os Donos Disto Tudo mandam mais ainda, dando-se ao luxo de escolher sobre quem serão os fantoches, quer à esquerda quer à direita, a governar em nome deles.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

APOLOGIA DO(A) POLÍTICO(A)

Os homens e mulheres inteligentes, educados(as) e bem informados(as) do Século XXI sabem perfeitamente, sem margem para dúvidas, que os assuntos da comunidade não podem ficar entregues às mãos rapaces dos "privados", que é como quem diz dos(as) cidadãos(ãs) individuais; não, esses apenas pensam no seu interesse próprio. Para que a justiça seja cumprida é evidente que aquilo que é comum, e isso significa tudo o que é importante para a maioria, deverá ficar nas mãos santas, proto-divinas, puras, do Estado. O Estado garante a bondade da gestão pública, e não há dúvida sobre o mérito de tamanha evidência. Um pormaior será que o Estado não é governado pela máquina de inteligência artificial ainda por inventar e que garantirá futuramente a gestão perfeita, lá chegaremos mas infelizmente ainda não: faz-se a gestão do Estado por intermédio de alguns(as) indivíduos(as), pessoas de assinalável mérito pessoal, académico e moral que, atente-se!, ao contrário dos(as) restantes indivíduos(as) apenas pensam no interesse colectivo, nunca no seu próprio umbigo. Estes seres impolutos, graças a Deus!, gerem então o património comum, bem como os dias de trabalho que a maioria da população transforma em impostos para contribuir para a causa pública. Daqui se deve concluir que a maior das virtudes do homem, ou mulher, civilizado(a) é aceitar que, muito melhor do que ele(a) próprio(a), é o(a) político(a) o homem, ou a mulher, adequado(a) para a gestão dos frutos de uma grande fatia do seu trabalho, i.e. todo o esforço anual traduzido em impostos, bem como todo o património cultural, económico e infra-estrutural do seu país. A grande virtude do homem, ou mulher, civilizado(a) será, portanto, a confiança que lhe merece o(a) político(a), pois é no(a) político(a) que o homem, ou mulher, civilizado(a) confia o que lhe pertence, e ainda a regulação da forma como irá o homem, ou mulher, civilizado(a) trabalhar, casar, cozinhar, passear o cão, comer, enfim: viver. E a cada momento que, azar do Destino!, o Estado atropela algum(a) incauto(a), falha de alguma forma, ou falha com alguma coisa, logo grita o homem, ou mulher, civilizado(a): que se regule mais, que se taxe mais, que se dê mais poder ao(à) político(a)! O(A) político(a) será o(a) arauto moral da civilização, naturalmente. A esta evidência não encontra o homem, ou mulher, civilizado(a) qualquer demonstração empírica de falibilidade. Muito pelo contrário: o(a) político(a) é infalível. Deus o(a) abençoe.

domingo, 20 de maio de 2018

REQUIEM

Onde os valores são partilhados, discutem-se factos; onde os factos são partilhados, discutem-se valores. Quando valores e factos são comuns, discutem-se métodos; quando nem valores ou factos são comummente interpretados, sobra a gritaria, o onanismo oratório e, a seu tempo, a força.