quarta-feira, 24 de dezembro de 2003

AS COLINAS ESTÃO VIVAS COM O SOM DA MÚSICA

Um dos maiores desgostos que já tive na minha vida foi, por altura dos meus seis anos, ter descoberto que o Pai Natal não existia. Devo dizer que resisti como pude a tamanha heresia para o meu pequeno mundo de então.
O local da ocorrência foi no recreio
lembro-me como se tivesse sido a semana passada
mesmo antes da aula de ginástica. O Rafael resolveu anunciar em voz alta, para que todos o ouvissem, que sabia que o Pai Natal não existia.
isso é impossível
A minha reacção não foi apenas de incredibilidade mas de tentar convencer toda a gente que aquela afirmação era idiota e que, portanto, o Rafael era ainda mais idiota.
É preciso ter em atenção que desde que me lembrava de existir que o Pai Natal fazia parte da minha vida. Todos os anos ele descia pela chaminé e me oferecia precisamente aquilo que eu tinha pedido. Ora, isto fazia com que ele consistisse na personagem mais incrível com quem eu alguma vez me defrontara. Não só conseguia percorrer numa única noite o mundo inteiro, como conseguia transportar um enorme saco vermelho do tamanho do mundo com ele, como, ainda por cima, acertava em cheio nas coisas que eu desejava. O Pai Natal era um dos meus maiores amigos. Dava-me coisas boas, tal como os meus pais, mas nunca se zangava comigo. Sejamos sérios, o Pai Natal era o maior.
Realmente é preciso assumir: Eu estava comprado. Ninguém falava mal do Pai Natal e safava com isso...
Como é evidente revoltei-me profundamente com o Rafael. Qual não foi a minha surpresa quando mais amigos meus aceitaram aquela afirmação profana como verdadeira. Rapidamente fundei o grupo dos que acreditavam no Pai Natal e que, com argumentos válidos, procuravam demonstrar que o Pai Natal existia de facto. O melhor argumento foi, sem dúvida, dizer que os meus pais me tinham dito que o Pai Natal existia.
estás a chamar mentiroso ao meu pai?
A discussão prolongou-se durante a aula de ginástica
era dia de trampolim
e, devo-vos dizer, foi completamente infrutífera. Cheguei a casa mais convencido do que nunca que o Pai Natal era absolutamente real. Como não o poderia ser? Estava na televisão, as pessoas todas falavam nele e todos os dias 24 de Dezembro tinha de me esconder para que ele não me visse.
Quando a minha mãe chegou a casa fui rapidamente contar-lhe o que tinha acontecido umas horas antes, procurando uma importante aliada. Era preciso fazer qualquer coisa para impedir que a vil mentira inventada pelo Rafael
havia a possibilidade de terem sido os pais dele
não contaminasse o resto das pessoas. Era altura de agir e, portanto, altura de pedir ajuda à mãe...
Nunca me hei de esquecer da expressão patente na cara da minha mãe quando terminei o relato. Foi nesse momento que percebi que não tinha razão. Os meus pais tinham-me enganado...
Não chorei, não gritei nem me revoltei. Apenas aguentei de pé, incrédulo, o peso gigante da desilusão. A magia tinha acabado.
Não vos vou dizer que acho que não se deve fazer os miúdos acreditarem no Pai Natal. Se calhar essa grande desilusão foi uma grande lição.
não ser dogmático
Devemos questionar sempre os nossos conhecimentos porque a qualquer momento pode vir algo que nos diz que estamos errados e que vira o nosso mundo de pernas para o ar. E esta noção foi, provavelmente, a melhor prenda de Natal que alguma vez recebi.
Passados vinte anos olho para o Natal de uma maneira completamente diferente. O meu mundo é infinitamente maior e dentro dele cabem muito mais coisas. O bem não vai sempre até aos bons como o mal também não vai sempre até aos maus. Muitas vezes até é ao contrário. O cinzento, nos dias de hoje, triunfa claramente sobre o branco e o preto. Enfim, as coisas são muito mais complexas.
Quando penso nisto,
o Natal é sempre uma boa ocasião para por as coisas em perspectiva
vem-me sempre à cabeça a maneira como via as coisas quando era pequenino. É que o Natal é mesmo isso. É fazer-nos voltar atrás e acreditar que existe mesmo uma altura do ano em que as pessoas são todas amigas e boas, uma altura em que a solidariedade impera sobre a inveja e a cobiça, uma altura em que os milagres, se calhar, até podem acontecer.
Aqueles filmes todos na televisão sobre como as pessoas más ficam boas ou como, por incrível que pareça, o Pai Natal existe mesmo, enchem-nos de esperança que a magia que um dia perdemos volte e nos arrebate novamente para um mundo incrível e maravilhoso.
E é isso mesmo. O Natal é esperança. Esperança de voltar a acreditar no nosso mundo de criança.
É evidente que há um problema. Não há bela sem senão. È que quando regressamos à realidade compreendemos o que realmente é o Natal: É a aquela minúscula altura do ano em que, supostamente, fazemos aquilo que, certamente, deveríamos fazer o ano inteiro.
O Natal é a nossa desculpa para continuarmos a acreditar que somos todos boas pessoas e que fazemos todos aquilo que devemos fazer. Aquilo que está certo. E como todos sabemos isso não é bem assim. Nem no Natal.
Na realidade, o Natal é um importante fôlego para a máquina económica que rege a sociedade, principalmente em altura de crise, e uma forma eficaz de nos pôr a gastar dinheiro. Para mim,
desculpem-me aqueles que não concordem comigo
para sentir o Natal e, efectivamente, pô-lo em prática, não é preciso gastar o dinheiro que não se tem em pequenas prendas para dar às pessoas e que muitas vezes apodrecem numa recôndita gaveta. Peço desculpa mas a amizade não se vê por prendas ou cartões. A solidariedade não se vê através de mensagens SMS ou de emails.
Os verdadeiros valores do Natal são intemporais e valem muito mais do que qualquer coisa que o dinheiro possa comprar.
Não me compreendam mal. Eu gosto do Natal tal como ele é. Gosto de receber prendas inesperadas e, especialmente, que gostem e apreciem aquelas que ofereço. Agora não façamos mais do Natal do que aquilo que ele efectivamente é: Um ritual agradável.
Para mim o Natal há de ser sempre aquilo que passou a ser desde aquela longínqua tarde de Dezembro em que percebi a verdade à cerca do Pai Natal.
O Natal para mim significa uma época em que tenho a oportunidade de estar reunido com a família toda e onde podemos todos confraternizar; uma oportunidade de estar à lareira e sentir efectivamente que não estou sozinho neste mundo; uma oportunidade de ver o “Música no Coração” e acreditar que as colinas estão mesmo vivas com o som da música; e, não nos esqueçamos, o Natal é uma altura em comemoramos o nascimento
acredite-se ou não
de alguém que trouxe valores muito importantes a este mundo. E esses, sim, foram uma grande prenda de Natal...