quinta-feira, 22 de abril de 2004

NOTA DO BLOGGER:

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quarta-feira, 14 de abril de 2004

OS MEIOS JUSTIFICAM OS FINS

À primeira vista este título está mal escrito
os fins justificam os meios – disse Niccolò Machiavelli
mas o objectivo é esse mesmo.
De facto há algo no mundo que está ao contrário. E não é este título.
Dinheiro. Guita. Pilim. Carcanhol. Tudo palavras que simbolizam algo com que todos nós lidamos e, mais, aprendemos a lidar desde novos
aquelas notas de 20 e 50 escudos de brincar que tive quando era novo
porque sem isso não se consegue interagir com o mundo.
Na realidade, não há mundo sem dinheiro. Pelo menos o mundo dos humanos.
Parece-me, portanto, importante que nos debrucemos, se queremos efectivamente analisar este nosso mundo, sobre a origem, a evolução e a problemática do dinheiro, ou melhor,
em linguagem económica
da moeda.
Se virmos bem a moeda não é mais do que um intermediário. Na verdade ela, por si só, não serve para absolutamente nada. Eu não posso comer moeda, não posso vestir moeda, não posso andar de moeda, não posso jogar à moeda,
por acaso jogar até posso
até mesmo oferecer moeda é uma coisa que não se faz.
A moeda só ganha importância quando nós percebemos que isto de andar a pagar umas quantas galinhas por mês a prestações para comprar um carro de bois não era muito eficaz...
Convencionou-se, e muito bem, um intermediário de trocas permitindo que nem eu, para adquirir o tal carro de bois, ficava sem ovos ao pequeno almoço, nem o anterior dono do carro ficava com ovos a mais.
Até aqui tudo bem. O que me parece digno de reflexão é o facto de que um intermediário que apenas foi criado para que as trocas, portanto o desenvolvimento social, fossem incrementadas se tenha, ao longo dos tempos, tornado no fim último da existência humana. E isso é que está ao contrário.
A moeda apareceu como um meio para alcançar um fim
a sobrevivência
mas hoje em dia representa um fim em si mesma. O altar máximo da sociedade humana.
Podemos argumentar que o dinheiro é que nos permite a sobrevivência. E é verdade. Mas só até um determinado ponto. E isto é importante porque consiste na principal diferença de hoje com o antigamente. Na realidade, para a maior parte de nós grande parte do dinheiro que gastamos, não o fazemos com a nossa sobrevivência, fazemo-lo para saciar necessidades que se podem considerar supérfluas.
Não estou a falar da casa e do carro mas de certa casa e de certo carro. Não estou a falar de elementos ou objectos fundamentais para o nosso funcionamento normal enquanto membros de uma sociedade assente na inovação tecnológica mas, sim, de certas coisas que todos nós temos e que se formos a ver bem vivíamos muito bem sem elas.
Aliás, sejamos honestos connosco próprios. O ser humano pode partilhar 98% do seu legado genético com um gorila mas não é nenhum idiota. Só tenta obter aquilo que lhe parece importante para a sua vida. A questão que se coloca então é qual a utilidade do marketing ou da publicidade mais agressiva? A única racionalização possível para a existência de campanhas publicitárias tão agressivas só poderá ser o facto de, na realidade, nós não precisarmos tanto desses produtos como eles nos fazem acreditar. Mensagens subliminares, imagens apelativas
o que é que uma mulher nua tem a haver com uma qualquer marca de champô?
que nos fazem acreditar que realmente necessitamos desesperadamente de um abridor de latas eléctrico porque isto de abrir latas à mão dá muito trabalho...
E sabem o que é mais engraçado? É que a maior parte destas coisas acabam numa qualquer gaveta, ou caixa, à espera de ser descoberta na próxima mudança. E quando esta chega perguntamo-nos para que é que raio queremos aquilo. Mas não deitamos fora. Não podemos. Custou-nos cinco contos...
Mas essa industria dá trabalho a muita gente e tal... É verdade. Mas a questão não é se o fabrico dos abridores eléctricos deste mundo dão muitos trabalhos a muita gente ou não. A questão é se os muitos trabalhadores deste mundo deveriam produzir abridores eléctricos ou não...
Que rumo deveríamos nós seguir? Que futuro queremos para nós? Essas é que são as questões importantes e que quase ninguém pensa nelas.
Levantamo-nos um dia e perguntamo-nos sobre o que queremos
uma casa, uma piscina, um carro grande, um barco
e chegamos à conclusão de que a única coisa de que temos de ter para ter essas coisas todas é muito dinheiro. E o pior é que a maioria das pessoas mata-se a trabalhar para ter isto e aquilo.
Endividam-se até aos cabelos, cobiçam aqueles que aparecem nos media com aquelas coisas que eles tanto querem, e que se calhar ainda estão mais endividados do que eles, e depois, quando conseguem ter qualquer coisa parecida com tudo aquilo que sonharam, reparam que se querem manter tudo aquilo que têm, não têm tempo para gozar o fruto do seu trabalho..
E entretanto os filhos crescem nas creches e dizem primeiras palavras como bola ou outra coisa qualquer que não tem rigorosamente nada a haver com papá ou mamã...
Isto para aqueles que têm sorte porque a maior parte das pessoas vai desta para melhor a sonhar com o que poderia ter tido se tivesse ganho o totoloto.
E depois ainda há aqueles que nem sonham porque tudo aquilo com que poderiam sonhar era apenas com um dia em que não passassem fome. E estes são biliões...
Eu não sou um contestatário do sistema.. Acredito piamente que a economia de mercado é o sistema que trouxe aos humanos o período de maior desenvolvimento e progresso. Quando um sistema funciona e dá problemas e estes não se resolvem o problema não é forçosamente do sistema. O problema é das pessoas. E até pode ser verdade que haja muita gente com muito dinheiro que faz por não resolver os problemas da sociedade porque isso não é bom negócio mas a triste realidade é que essas pessoas só têm dinheiro porque nós lhes compramos as coisas que eles vendem.
Quem tem o poder é o comprador. Ele é que decide que tem sucesso ou quem não tem. Ele é que decide que gastar recursos a fazer abridores de latas automáticos é uma boa ideia. Portanto se há problemas a culpa é nossa. De todos nós.
Na realidade, esta situação só acontece porque os meios justificam os fins. Porque o objectivo é a moeda, é o arrecadar o máximo que for possível.
Como tudo na vida, o dinheiro traz vantagens e desvantagens. As vantagens são permitir-nos alicerçar a sociedade tal como ela é hoje em tudo aquilo que traz de bom.
As desvantagens para mim reduzem-se a uma. É o conceito de utilidade marginal. A utilidade do dinheiro nunca acaba porque a única utilidade que tem é servir para tudo. Ora se o dinheiro serve para tudo então nunca é suficiente porque o ser humano quer sempre um bocado mais. E se é o dinheiro que me permite ter tudo então eu tenho de ter muito dinheiro.
Só que há outras coisas na vida.
E isto é que as pessoas tendem a esquecer-se.
Além do progresso material, do mundo das coisas, há o progresso espiritual. Há a forma como encaramos o mundo e as coisas. Como nos encaramos a nós próprios. Há o momento específico que nos fez rir. Há a forma como compreendemos o mundo, o sol e os planetas. Há as questões que gostaríamos de ver respondidas.
No fundo há os porquês. Os para ondes e os quandos. É isso mesmo... Há todas aquelas coisas que o dinheiro não consegue comprar.
Como eu disse, não sou um contestatário do sistema. Mas sonho com o dia em que os humanos tenham a coragem de olhar para nós próprios como um todo, assumam como fundamental a resolução dos nossos problemas e olhem para cima, contemplem as estrelas e o universo, e se comprometam a tentar compreender o que raio andamos nós aqui a fazer...
E já agora... Que os nossos filhos continuem a saber que o papá é mais importante que uma qualquer bola... Mesmo que ela seja do Benfica.

domingo, 28 de março de 2004

NOTA DO BLOGGER:


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haas_jager@hotmail.com

DEVANEIOS TEMPORAIS


Por mais que me custe a admitir a idade começa a pesar.
Entenda-se que não é por ser velho de idade, é apenas por esta se começar a notar. Quando começo a ficar preocupado com o avolumar de anos, deprimido com aniversários, saudoso dos “velhos tempos”, quer dizer que algo se passa.
porra, quando o nível de colesterol é uma preocupação, definitivamente se passa algo de muito errado...
“Ah, coisa e tal... É a vida, blah, blah, blah”. O caraças é que é.
Peço muita desculpa mas isto deixa-me nervoso. Pior do que isso, deixa-me enervado. Não sei se já repararam mas o tempo, essa quarta dimensão cósmica que nos rege a vida a todos e a tudo, é das coisa mais irritantes que este cosmos tem.
Se não vejamos. Quando estamos a divertir-nos como verdadeiros patrícios no tempo dos romanos, o tempo esvanece-se por entre os nossos dedos que nem areia, pior, que nem migalhas de areia. Quando estamos aborrecidos ou a fazer algo que não nos entusiasma particularmente, ou pior ainda a trabalhar em algo que nos desgosta profundamente
que nem a maioria das pessoas da sociedade actual
o tempo parece que, ao passar por nós, pára numa tentativa bem sucedida de escárnio cósmico, similar aqueles antigos colegas da escola que quando nos viam no castigo apontavam e riam dizendo “nós safámo-nos”...
E é mesmo. A única coisa que sobrevive ao tempo é o tempo. Tudo o resto, mais cedo ou mais tarde, acaba por acusar o peso tridimensional da quarta dimensão. Mentira. A Cher também não parece sentir o peso da idade.
O tempo é efectivamente algo de muito estranho. É algo que só se nota quando se pensa nele. Daí essa bi-percepção paradoxal que nos causa. Eu não posso acreditar que o cosmos nos fosse pregar uma partida de mau gosto onde nos forçávamos a uma eternidade aborrecida e entediante tendo por única alternativa uns breves momentos acelerados e divertidos.
Na verdade, apenas pensamos que essa alternativa existe já que apenas comparamos as duas hipóteses depois de as experimentarmos. Não as escolhemos. Olhamos para elas contemplando o passado e por alguma razão achamos que no futuro poderemos escolher. A alternativa não está no tempo em si mas na forma como o aproveitamos. Optamos normalmente por o ocupar ao máximo, ficando desgostosos pelo facto de ele parecer passar mais rápido.
Ou seja, a triste realidade é que qualquer que seja a verdade à cerca do tempo e da forma como ele se manifesta subjectivamente a cada indivíduo, nós não podemos fazer nada a esse propósito. É uma constante da vida. É uma imponderabilidade.
Mas como em tudo o Homem acha que pode enganar os feiticeiros do cosmos e influenciar as forças universais em seu proveito. Isto porque ninguém gosta que o tempo passe. Mentira. Todos gostamos que o tempo passe
nunca mais são cinco horas para eu ir para casa
o que não gostamos é das consequências nefastas que o tempo arrasta para a nossa própria existência. Não gostamos de nos olhar ao espelho e vermos rugas ou indícios claros de queda capilar. Não suportamos a ideia de que já não conseguimos passar um dia inteiro a correr sem sentir no dia seguinte dores excruciantes nas costas e nos músculos das pernas. E aquilo que nos incomoda verdadeiramente é o facto de súbita e rapidamente nos apercebermos que caminhamos inexoravelmente para o nosso fim.
O ridículo disto tudo é acharmos que se não tivermos rugas
pealings e botox parecem surtir efeito
ou que se tivermos um crânio enfeitado com uma farta cabeleira
implantes, capachinhos, a moda do deixar crescer de lado e pentear para o meio ou o ainda mais ridículo GLH parecem ter forte aceitação
afugentamos a morte.
Na verdade a nossa mensagem parece ser simples. Enquanto nos empanturramos de Macdonalds, devoramos pizzas e nos encharcamos em molhos e fritos, correndo sérios riscos de irmos desta para melhor aos quarenta, acreditamos que afugentamos o nosso fim mostrando a nós próprios, todos os dias no espelho, uma imagem o mais próxima possível daquele adolescente forte, vigoroso e imortal que um dia acreditámos genuinamente ser.
Pois é. É a velha história do ser e do parecer. Esta sociedade humana continua, que nem crianças inocentes, a acreditar que aquilo que parece é. O que é que se há de fazer?
Aquilo que me parece mais importante a este respeito tem mais a haver com o facto de haver uma veneração idiota à juventude. Pior. Veneração a certas coisas da juventude. Um exemplo disto são as modelos que são cada vez mais jovens, como se mulheres com mais de quarenta anos andassem nuas pela rua.
Mas por outro lado, o carácter inovador, vanguardista e, quiçá, mais inocente dos jovens é totalmente ignorado nos domínios da decisão política e social.
Ora, eu acho que deveria ser exactamente ao contrário. Não se deveria tentar esconder do espaço público a idade porque só assim aprenderemos a lidar com ela. Se tudo à nossa volta girar à volta da juventude ou como manter a nossa aparência jovem, todos nós nos sentiremos impelidos a ir por aí. E é um mau caminho porque, por e simplesmente, é o caminho contrário a aquele que iremos indubitavelmente percorrer.
Por outro lado, o entusiasmo, a energia, a utopia do pensamento mais jovem é que deveria ser fortemente apoiado e incentivado. Só assim nos poderemos ver livres de alguns vícios de sistema que permanecem ad eternum porque as únicas pessoas que podem alterar algo são precisamente aqueles que já estão no sistema há muito tempo e por isso mesmo, na sua maioria, eles próprios já não tem a energia suficiente para modificar verdadeiramente alguma coisa.
É que se virmos bem as coisas são mesmo assim. Como é que esperam que os humanos lidem bem com a sua idade se todos os dias lhes enfiam pelos olhos dentro informação atrás de informação dizendo subliminarmente que se não parecermos jovens não vamos a lado nenhum?
Se pensarmos bem isto da idade é um grande negócio. Nem faço ideia dos ganhos astronómicos que a indústria cosmética faz por anos com produtos que supostamente nos fazem regressar anos atrás
parecem
e que na realidade não servem absolutamente para nada.
A Cher é um bom exemplo disto. Eu não tenho nada contra ela. Cada um faz o que quer. Agora tenho sérias dúvidas que seria positivo para a nossa sociedade que as mulheres e homens de sessenta anos andassem todos aos saltos a fazer as vidas que faziam quando tinham vinte anos... Isso não é sinónimo de evolução.
estagnação talvez
Eu também não gosto da ideia de envelhecer e mais cedo ou mais tarde ir desta para melhor. Na realidade, sonho com a ideia de que ao longo dos anos mais próximos novas descobertas científicas nos permitam viver mais e melhor. E por sua vez que esse tempo extra nos permita ainda mais descobertas que nos permita viver ainda mais e ainda melhor.
Na minha cabeça, um mundo futuro onde poderíamos comer aquilo que nos apetecesse sem sequelas negativas para a nossa saúde
come manteiga filho que isso não faz mal nenhum
um mundo onde vivêssemos centenas de anos é uma forte possibilidade. Temo que infelizmente seja demasiado futurista para ser vivido por nós mas quem sabe?
Salvador Dali acreditava nisso e já morreu
Agora aquilo que me parece verdadeiramente importante é que em todos os campos da vida os seres humanos aprendam a lidar com as contingências da vida e evoluam rumo ao seu destino como pessoas melhores e que se sintam bem consigo próprias.
Se eu tentar ao longo da minha vida ser jovem para sempre vou ser sempre infeliz porque por mais que pareça, nunca o serei. É um combate inglório.
Na mesma medida não evoluirei para experimentar as coisas boas de uma idade mais avançada
não sei muito bem quais mas espero descobrir quando lá chegar
talvez a serenidade, a calma, a experiência e a consciência de um passado bem preenchido.
São coisas que também são importantes de serem legadas aos mais novos. É do interesse de qualquer espécie animal assimilar o conhecimento daqueles que já percorreram a maior parte do caminho. Ao invés, a nossa sociedade parece pródiga em ignorar, ostracizar ou, pelo menos, esquecer os seus elementos mais velhos. Desperdício de recursos...
Parece-me cada vez mais que uma pessoa só é verdadeiramente adulta e feliz quando aceita o seu destino, compreende o seu caminho e faz as suas escolhas. Parece que o resto do mundo quer ser criança para sempre.
Enfim...
Colesterol, queda de cabelo e rugas, marcas de tempos bem aproveitados. Okay, venham elas mas, por favor, muito devagarinho...
INSÓNIA

por VM

Vivemos sob a falsa noção de colectividade e deixamos que alguns “entendidos” escrevam a História segundo os seus pontos de vista. E afinal, aquilo que mais nos define como espécie é o que nos isola no indivíduo.
Cada mente é um Mundo.
Descobriu-se, num estudo recente, que os danos causados ao ozono do Planeta remontam às primeiras actividades agro-pecuárias da humanidade. O próprio Sol, elemento de suporte da vida, é apenas uma das 400 biliões de estrelas e, à semelhança de um ser vivo, nasce, vive e morre. Portanto vejamos: 1. somos incapazes de manter uma sustentabilidade com o ecossistema, para o fazermos teríamos de ignorar a nossa capacidade de pensar e retroceder à condição animal de colher o que a Natureza dá; 2. mesmo sendo possível esse equilíbrio, a Terra e os ecossistemas nela existentes têm prazo de validade.
Irónico não é? Foi-nos dada a capacidade de observar e processar estes dados no mesmo saco com o instinto animal de sobrevivência e proliferação da espécie. E o que fazemos? Cada um se fecha no seu mundo onde pode ser dramaturgo, encenador e cabeça de cartaz. Dão-nos um cenário e nós escrevemos a nossa peça. Cada um vive o Inferno ou o Paraíso que escolher. Somos um colectivo de indivíduos a viverem, cada um o seu filmezinho personalizado. A memória elege o que reter, os mesmos estímulos provocam efeitos diferentes em cada um e ainda ninguém me convenceu que vemos todos as mesmas cores.
Os iluminados vivem num paraíso de cores, sabores e amores, em paz com a finitude de tudo. Os pragmáticos vivem para o material, remendando as falhas do sistema temporariamente como um bypass ou um lift facial. Não param para pensar porque se pensam param. E tomam consciência de que nada é eterno e de que a importância que dão ao pormenor é muitíssimo relativa. Os depressivos infernizam-se, tornam-se insensíveis à vida, sentem-se enganados mas são eles os burlões que se inibem de sentir porque pura e simplesmente não vale a pena. A normalidade? A existir tal coisa, será um misto de tudo. Diferentes estados provocados por diferentes estímulos.
Que a mente nos proporciona ser tudo ao mesmo tempo...
Que a imaginação é na verdade uma dimensão...
Que somos eternos na nossa finitude...
É tudo uma questão de perspectiva.
Ah! E saber o que fazer para atingir o que não se sabe? Ouvir o que vem de dentro?...de momento só perguntas. Encontrei o Amor na minha viagem, confrontei o Ódio, mastiguei a Morte e questionei a Vida... hoje fecho os olhos e amanhã faço tudo de novo. Uns dias mais intensos outros mais macilentos. C’est la vie.
CRÓNICA DE UMA BEBEDEIRA SOLITÁRIA

por HJ

O João queria ser cowboy.
Andar a cavalo sem destino, de cidade em cidade, de saloon em saloon.
Duelos.
Desafios. A incerteza do amanhã. A adrenalina do medo constante da finitude.
Mulheres. Saias compridas em fuga, com medo à espera de alguém que as salve do desconhecido, do incerto.
O João queria ser salvador.
Heróis.
Heróis temidos e falados pelo deserto fora em murmúrios venerados de respeito.
Cartazes publicitários avisando-nos que o João era um herói. Que nos compravam o João.
Velhos tempos. Whisky.
Cadeiras de baloiço que rangem sob o peso de um velho homem do campo.
Calma. Tempo que se esgota num lamento sem fim. Sem expectativas.
O João queria ser cowboy.
Destino. Pressão. Necessidade. Sociedade mecanizada onde já não cabem cadeiras de baloiço. Pelo menos das que rangem.
Whisky.
Whisky em bares cheios de pessoas sozinhas.
Imortais. Imortais ausentes do seu próprio destino barulhento e veloz.
O João olhou à volta e viu a manada. O João era cowboy.
Humanos à espera de algo difícil de definir.
O João tem muitos cavalos mas eles não bebem água. Pagam portagens.
O vapor de um combóio. O escape de um autocarro.
O João queria ser herói.
Hoje não há heróis. Há caixas de supermercado, cheias de coisas que o dinheiro pode comprar.
Dinheiro. É a espinha dorsal de um mundo onde os cartazes publicitários nos vendem os heróis. Vendem, não compram.
Whisky. Copos. Coisas cheias que se esvaziam num ápice.
Fuga. Fuga para um sítio longe demais.
Mais dois whiskys e lá vai ele na sua fuga para lado nenhum.
Os cavalos não se despistavam. Sabiam sempre o caminho de casa.
Mas qual casa? O João está em fuga. Em fuga para casa.
O João queria ser herói. Os heróis não fogem.
Sapateado trémulo nas escadas para cima. Os heróis não tremem.
Mãos tremidas falham na fechadura de uma porta forte demais. Os heróis não falham.
Olhos enevoados não encontram o interruptor. Para quê?
O sofá até range. Um ranger que se transforma numa porta para outro sítio. O tal sítio longe demais.
O João adormeceu.
O herói fugiu.

sábado, 14 de fevereiro de 2004

A UTOPIA DA PEDRA AMARELA

Eu ás vezes pergunto-me se fazemos a mínima ideia para onde vamos.
Desta pergunta aquilo que primeiro me vem à cabeça é o facto de ela conter a palavra “vamos”. Nós vamos. Nós.
nós, quem?
E esta é que é a grande questão. Saberemos nós que quem vai a algum lado somos nós? Que eu sozinho não vou a lado nenhum?
Nós caminhamos por este planeta, perdido num universo grande demais para se saber sequer onde estamos e acreditamos que a vida se baseia na nossa pessoa sem nos apercebermos que se levarmos em consideração a medida cósmica somos um pequeno micróbio cuja insignificância é, precisamente, a única coisa que poderia significar alguma coisa.
Nós. Nós os humanos.
Um dos sentimentos que me transporta por esta vida é a noção de que somos uma comunidade. Temos os mesmos sentimentos, funcionamos sobre as mesmas leis, temos objectivos comuns e sonhamos com as mesmas coisas.
objectivos
Isto é importante. Temos objectivos comuns. Falamos da nossa subjectividade individual e não nos lembramos que ela só existe porque sobre ela paira o fenómeno, intrinsecamente humano, da objectividade.
Existem, de facto, duas dimensões sociais: Aquela que nos afecta de um ponto de vista individual, a tal subjectividade, e a outra que nos afecta enquanto comunidade, que nos diz respeito a todos, a tal objectividade.
E era sobre isto mesmo que eu gostava de falar. É que algures, na penumbra de um tempo já passado, nos esquecemos que o indivíduo
por melhor que seja
nunca poderá chegar a lado nenhum sem ser acompanhado pela comunidade. Ou melhor só a comunidade é que poderá chegar a algum lado. E por “chegar a algum lado” entenda-se ser melhor, compreender mais e responder a aquelas questões que nos acompanham há tanto tempo. Pelo menos a algumas.
E esta é que é a questão. Há problemas que são de nós todos e nós temos a triste mania de acharmos que se são de todos então não são de ninguém. Mas são. São de alguém. De alguém que não está interessado em os resolver.
Vou-vos falar de um grande problema que poderá vir a afectar a nossa espécie e do qual muito pouca gente ouviu falar e ninguém parece interessado em resolver.
Há cerca de dois anos atrás uma equipa que estudava o ADN humano chegou à conclusão que os seres humanos apresentavam uma estranha falta de diversidade genética considerando a idade da nossa espécie.
Quando os seres vivos se reproduzem o seu ADN evolui mas deixa a marca dos seus progenitores, ou seja, analisando o ADN nós podemos fazer uma espécie de árvore genealógica genética.
Este projecto permitiria ir agrupando os indivíduos em famílias genéticas até que se encontrasse o elo comum. Supostamente esse elo comum deveria ter alguns milhões de anos pois fósseis como a Lucy indicam que os primeiros hominídeos terão aparecido à cerca de 5 milhões de anos.
Quando esse trabalho árduo foi terminado o resultado foi surpreendente: O elo comum existiu há cerca de 75 mil anos.
Quer isto dizer que nessa altura a espécie humana viu-se, de forma drástica e repentina, reduzida a um número muito reduzido de indivíduos
provavelmente na casa dos milhares
fazendo com que todos os seres humanos que existem actualmente descendam todos desses estóicos sobreviventes. Assim se explica a pouca diversidade genética da nossa espécie.
Este estudo apenas lançou uma série de novas questões. Porque teria isto acontecido? Terá sido alguma espécie de cataclismo natural? Um meteorito? Terá sido alguma misteriosa doença? Que acontecimento repentino poderia ter feito desaparecer, num tão curto período de tempo, a maior parte da nossa espécie que, na altura, seria constituída por milhões de indivíduos?
Esses cientistas apontaram claramente para algo repentino e global porque se não fosse global, a evolução genética apresentaria diferenças em diferentes locais, coisa que não acontece; do mesmo modo deverá ter sido repentino porque se não o fosse provavelmente as variedades genéticas extintas teriam tido tempo de se reproduzir.
O que terá, então, acontecido?
Respostas conclusivas serão muito difíceis de obter mas podemos perceber que a nossa pacata existência nunca deverá ser entendida como um dado adquirido. Antes deveremos entendê-la como uma dádiva que devemos preservar a todo o custo e com todas as preocupações.
Paralelamente a este estudo, e sem com ele estar minimamente relacionado, um grupo de geólogos perguntava-se por que razão um lago no Parque Natural de Yellowstone, nos Estados Unidos da América, se parecia estar a mover em direcção a um bosque vizinho. Com a ajuda de uma nova tecnologia desenvolvida pela NASA para o estudo, em profundidade, do planeta Marte, descobriu-se a razão do estranho movimento do lago de Yellowstone. Abismados ficaram quando se aperceberam que por debaixo desse lago existe uma câmara magmática com cerca de 45 km de diâmetro. Ou seja, uma gigante gruta na crosta terrestre que faz com que o magma do manto terrestre suba até próximo da superfície.
Este fenómeno já era conhecido em planetas como Vénus e é apelidado de supervulcão. A câmara magmática vai forçando a crosta até a romper e, nesse momento, é expelido com uma força brutal até que a camada de crosta que por cima dele se encontrava, ficando sem base de sustentação, cede e forma uma gigante caldeira. O lago movia-se porque a crosta terrestre acusa a pressão do magma.
Os cientistas ficaram abismados porque não se sabia que esta espécie de vulcão poderia existir no nosso planeta. Era património de planetas instáveis e onde não há lugar para a existência de vida.
Apelida-se este fenómeno vulcânico de supervulcão porque a quantidade de magma expelido no momento da explosão é infinitamente superior a qualquer vulcão a que tenhamos assistido à sua erupção. Todo o magma é expelido de repente.
Estudando mais atentamente a geologia de Yellowstone os geólogos crêem, considerando o diâmetro da câmara magmática e a quantidade de magma que esta tem capacidade para guardar, que o seu ciclo de erupção será aproximadamente de 600 mil anos. Estudando a fauna e a geologia da superfície calcularam que a sua última erupção terá ocorrido sensivelmente há cerca de 600 mil anos...
Isto quer dizer que a próxima erupção tanto pode ser amanhã como daqui a vinte ou trinta mil anos. Não é, portanto, problema de ninguém...
Mas quais as verdadeiras consequências deste supervulcão? Como nos poderá ele afectar?
Para responder a esta questão os cientistas estado-unidenses usaram a lógica e chegaram à conclusão que se existia um supervulcão, então poderiam existir mais.
O próximo passo desta viagem ao mundo da investigação científica leva-nos até às imediações da Indonésia. Aqui descobriram-se uma série de rochas de elevada dimensão que não deveriam estar no local onde foram encontradas porque não são constituídas por matéria geológica que exista nas imediações das ditas rochas. Elas não poderiam estar ali. Ora como não são obra humana teria de haver alguma de elas serem naturalmente transportadas até ali. Ou melhor expelidas.
A resposta para esta questão é um outro supervulcão que existe a cerca de 100 km das já referidas rochas. Imagine-se a potência da explosão de um supervulcão...
Os cientistas ávidos por respostas apressaram-se a estudar esse novo supervulcão e chegaram a algumas conclusões. A câmara magmática é sensivelmente metade da do supervulcão de Yellowstone e o seu ciclo de erupção rondará os 300 mil anos.
Agora o mais importante é que, analisando a envolvente ambiental do supervulcão da Indonésia, os geólogos chegaram á surpreendente conclusão de que a sua última erupção terá ocorrido entre há 80 e 70 mil anos atrás.
à pois...
Exacto. É isso mesmo. Precisamente um intervalo temporal onde se encaixa perfeitamente a tal marca dos 75 mil anos onde algo repentino, brutal e global terá acontecido e que terá dizimado 90% da população humana de então.
E esta, hein?
Estes dois estudos científicos só foram cruzados porque um dos cientistas de Yellowstone, por fruto do acaso, assistiu à apresentação das conclusões do estudo sobre a diversidade genética. E somou dois e dois. E achou que o resultado era quatro.
Não pretendo alarmar ninguém. A questão é que toda a comunidade humana deveria estar ao corrente de que existem perigos
sejam agora ou daqui a 20 mil anos
que nos poderão alterar radicalmente a forma como levamos a nossa vida.
E o mais importante é que deveríamos estar a estudar como resolver estes problemas ou, pelo menos, minorar as suas consequências.
A Humanidade não está preparada para enfrentar estes desafios. E são desafios de todos nós porque nos afectarão a todos. A nós ou aos nossos netos ou trinetos.
Preparamo-nos para isto custaria muitos milhões. Sinceramente gostaria muito mais de ver os meus impostos a serem aplicados nestas causas verdadeiramente humanitárias
tais como a fome, as doenças como o cancro ou a SIDA
do que assistir impotente a guerras altamente dispendiosas ou projectos milionários que não nos trazem nada de novo.
Sim... Eu sei. Pode ser só daqui a uns milhares de anos.
Mas mesmo assim. Preferia que fossemos explorar o espaço, as novas tecnologias, os transportes do futuro, a genética terapêutica, o funcionamento do cérebro humano, os novos combustíveis e a história do nosso planeta. Preferia o conhecimento, o estudo e a compreensão. Preferia a comunidade objectiva do que as megalomanias subjectivas do indivíduo.
Mas não. Vamos bombardear o Iraque...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2004

OS NOVOS MISSIONÁRIOS


Missionário, s. m. Pregador de missão; propagandista.
Eu no outro dia vi o Sr. José Eduardo Moniz, director de programas da TVI a falar no telejornal desse mesmo canal, em horário nobre, e fiquei, naturalmente, curioso sobre o que motivaria tal comunicação aos telespectadores da TVI.
Meus amigos... As palavras fogem-me por debaixo da língua para tentar descrever o enorme sentimento de revolta que aquele ser humano me causou a ler
do teleponto que nem verdadeiro jornalista
um comunicado desprezível para quem detém um sentido mínimo do que é decente numa sociedade democrática e evoluída como eu gosto de sonhar que é a minha.
A questão era que o Sr. Moniz estava muito escandalizado pelo facto de o Presidente da República
imagine-se o Presidente da República a ter a lata de criticar os jornalistas
ter referido no seu discurso que a actuação dos jornalistas no âmbito do caso Casa Pia deveria ser alvo de ponderação pois corria-se o risco de estar a lançar nomes de pessoas inocentes para a lama pedófila onde tantos nomes, lenta e agonizantemente, se afundam.
E isto é verdade. E se aqueles nomes que a TVI e os seus amigos jornalistas, vieram transmitir a dizer que tinham sido alvo de investigação
arquivada por falta de provas
não tiverem nada a haver com o caso? Se o caso foi arquivado não quer dizer que eles provavelmente serão inocentes? É que se o forem vão ficar, injustamente, para o resto das suas vidas encobertos por um gigantesco sinal luminoso que aponta a todos os que os vêem na rua
olha aquele gajo se calhar é pedófilo
Como é que o Sr. Moniz e amigos se propõem a resolver o caso? Eu não falo daqueles que foram acusados. Falo daqueles que não o foram por falta de provas. Porque, provavelmente, serão inocentes. Não terão os amigos dos, agora acusados, sido investigados?
é natural
E serão todos pedófilos?
claro que não
E a questão é esta meus amigos: O que é que o Sr. Moniz pensa fazer para reparar o bom nome daqueles que, irresponsavelmente, ligou ao caso Casa Pia, apesar de terem apenas sido investigados e não acusados?
A resposta é nada. Zero. O Sr. Moniz não quer saber disso.
Estou-vos a falar deste caso porque me parece o exemplo ideal para descrever a actual situação social que vivemos hoje em dia.
Hoje nós assistimos ao facto de qualquer canal de televisão, ou jornal, pode dizer aquilo que lhe apetece, escudado na liberdade de imprensa e na protecção das fontes, sem sequer ter a responsabilidade de saber se é verdade ou não.
E isto é tanto mais importante se levarmos em consideração que a comunicação social é a mais importante forma de influenciar as pessoas.
Hoje em dia tudo aquilo de que se fala e discute na opinião pública é consequência daquilo que os media nos dizem. Na realidade, eles são os novos missionários, os difusores da verdade escondida, os reveladores do conhecimento supremo.
E isto é verdade. Que nem os padres que no século XV, e seguintes, seguiram para o mundo incivilizado a revelar a existência de Deus aos nativos, os media revelam-nos o que acontece por esse mundo fora. Ora, isto seria muito bom se eles não dessem a sua opinião e, com isso, influenciassem as mentes daqueles que, desprevenidos, absorvem tudo aquilo que vêem na caixinha mágica como um dogma impossível de contestar.
Mais ainda. São os media que decidem o que é notícia e o que não é notícia. Ou seja, filtram a realidade dos acontecimentos diários, reduzindo-os aos 50 minutos de um telejornal, baseando-se num critério desconhecido do que eles consideram ser o interesse do público.
E aqui é que bate o ponto. Qual é o interesse do público? Será aquilo que vende mais jornais ou dá mais audiência?
hoje o Marco bateu na Sónia
A partir do momento que os media são um negócio, eu permito-me a desconfiar da noção que eles perfilham de “interesse do público”. Peço desculpa, mas audiências e vendas nunca poderão ser sinónimo de liberdade porque essa liberdade está constrangida pelo interesse do mercado. Uma notícia interessante para uma minoria ou que nos poria todos a pensar duas vezes sobre qualquer coisa se calhar não é veiculada porque não é “do interesse do público”, ou seja, não vende ou não é compreendida por quem é o público alvo de determinado órgão de comunicação social. E isto é grave. É muito grave. É grave o suficiente para que o Presidente da República teça comentários sobre este assunto.
E sabem o que é mais giro? É que o Presidente da República, o mais alto magistrado da Nação, o Chefe de Estado, no dito telejornal teve direito a dois ou três minutos para falar sobre este e outros assuntos, enquanto que o Sr. Moniz esteve um quarto de hora a mandar bitates sobre o que ele acha que o Presidente da República deveria ter dito.
ó Sr. Moniz, o que o senhor pensa não interessa a ninguém
ó Sr. Moniz, o senhor não é notícia
ó Sr. Moniz, o senhor não foi eleito por ninguém e não representa ninguém
Isto entristece-me e revolta-me.
Vivemos numa sociedade que segue, invariavelmente, os ditames daquilo que é expelido pela gigantesca máquina da comunicação social. Os media dizem-nos o que devemos comprar para comer, vestir ou divertir. Eles decidem quem são os ícones máximos da sociedade, ou seja, quem são os modelos de vida dos nossos jovens. Eles deliberam unilateralmente sobre o que consideram ser o interesse público
um comunicado do Sr. Moniz não é de certeza
e afogam-nos com vagas sucessivas de “interesse público”.
E depois é tudo imediato. Sem continuidade. Aquilo que é verdade hoje está completamente esquecido no dia seguinte. E dão-nos tanta informação que se transforma em desinformação, pois nós não conseguimos apreender e processar convenientemente toda a informação que recebemos.
é como tentar encher um pequeno balde debaixo da cascata do Niágara
Esta é que é a realidade que o Sr. Moniz naqueles longos quinze minutos não disse: A comunicação social é o quarto poder, é o mais poderoso deles todos porque fiscaliza todos os outros e, incrivelmente, é o único que não é fiscalizado por ninguém, ou seja, é o único poder ilimitado.
Mas a situação ainda se torna mais difícil.
É que quando alguém aparece a dizer que o poder dos media terá, de alguma forma, de ser regulamentado, todos os jornais abrem com parangonas a dizer que essa pessoa é fascista e quer acabar com a liberdade de imprensa.
ridículo
Como é que se resolve isto?
Eu cá, só sei que nada sei. Mas apesar de nada saber sei que o Sr. Moniz sabe de certeza tudo o que eu deveria de saber sobre isto. E não tenho de me preocupar porque ele vai-me dizer de certeza.
O LEVIATÃO

Há uma coisa em que eu estive a pensar e que me parece pertinente o suficiente para que eu transponha esse pequeno pensamento desblogueado para este blog. E tem a haver com o Estado.
Não sei se já repararam mas nós temos o hábito de nos referir aos agentes do Estado como “eles”.
este ano eles levaram-me o dinheiro todo em impostos
Normalmente referimo-nos ao Estado sempre na terceira pessoa
aqueles gajos nunca mais tapam o buraco da rua
e pensamos que a nossa vida é gerida e ou regulada por outras pessoas e damos por nós constantemente a criticar a sua conduta porque não é do nosso agrado. No entanto, ficamo-nos por aqui. Criticamos os tais terceiros e pronto.
O nosso contributo para a resolução dos problemas que identificámos é falarmos sobre eles no café em tom resoluto e decidido e depois ir para casa ver as notícias e que mais coisas “eles” fizeram. Provavelmente no dia seguinte terei novos argumentos sobre assuntos antigos
dados por um “ele” comentador
e, se tiver sorte, novos assuntos para eu próprio comentar se concordo ou não.
Ora, isto para mim não faz muito sentido. E não o faz por uma razão muito simples: O Estado não são “eles”, somos “nós”.
Nós temos esta noção de que o Estado é um ser autónomo, grande
gigante
e poderoso e que temos todos de lhe fazer a vontade porque se não o fizermos apanhamos uma multa ou vamos para a prisão.
não deixa de ser verdade
Agora, não nos podemos esquecer que o Estado é um invenção do Homem. Só há Estado porque há muitos anos atrás alguém achou que se havia regras que os grupos sociais tinham de cumprir, então deveria haver uma forma de garantir que essas regras fossem cumpridas.
O Estado nasceu para dar segurança e bem estar às pessoas que vivem sobre o seu jugo. Mas o mais importante é mesmo a ideia de que o Estado é um mero instrumento inventado pelos homens para viverem melhor. E mais. O Estado não existe por si só, só existe porque há pessoas. E não são “eles” porque “eles” não são diferentes de “nós”. Na realidade, “eles” somos “nós”.
Sinceramente, parece-me que as pessoas se esquecem do seu real poder. Falamos e criticamos, mandamos bocas e bitates, vociferamos e discutimos uns com os outros mas esquecemo-nos que o Estado só faz o que nós quisermos que ele faça.
o Estado faz aquilo que interessa a alguns e não a todos
Isso é culpa de todos, então. E há alguns que se aproveitam.
Vamos ver realmente onde está o poder:
Primeiro, há o poder de fazer as leis que reside na Assembleia da República. Ora esta é eleita por todos nós. Nós é que escolhemos os nossos deputados.
escolhemos entre os que nos dão a escolher
Certo, mas podemos punir aqueles que se portam mal ao não votarmos nesse ou nesses partidos. Por isso, em teoria, os deputados são nossos enviados para fazer as leis que são do nosso agrado. Só não o fazem porque nós não vamos todos votar, porque não os conhecemos, porque não lemos as propostas eleitorais e porque não prestamos a mínima atenção a aquilo que se passa no Parlamento.
Segundo, há o poder de executar as leis. É o governo. Como é evidente este é eleito, se bem que indirectamente, por todos nós. E senão gostarmos dele podemos mandá-lo embora após quatro anos. A verdade é que só analisamos a actuação dos governos naquilo que atrai a atenção dos media. Tudo o que não é mediático não existe. Ora isto é giro porque normalmente mediático é aquilo que é mau. Logo, os governos são sempre maus.
Terceiro, há o poder judicial que só faz aquilo que a lei
esta foi feita por todos nós como já se viu
manda.
Em quarto lugar, temos o poder dos media. Estes são aqueles que nos dizem pela televisão, rádio e jornais aquilo que nós devemos comprar, escolher ou votar. É, para mim, o mais importante deles todos. Principalmente porque finge que não tem nada a haver com o Estado.
No entanto, na sociedade moderna não se passa nada que os media não influenciem. E o mais giro é que é um poder que fiscaliza todos os outros
pode falar mal de governos, deputados e juizes
mas não é fiscalizado por ninguém porque existe uma coisa chamada “protecção de fontes”. Mas até mesmo este poder depende do povo, da população, ou seja, de “nós”. O jornal só é poderoso se houver pessoas que o comprem, tal como o telejornal só interessa se alguém o vir. Se nós formos críticos a julgar a qualidade de um telejornal, tal como somos críticos a julgar a capacidade de um ministro, então talvez esse poder fosse mais fiscalizado. Talvez sentíssemos que “eles” somos “nós”...
Por último, ainda há outro poder. O maior de todos. O gigante dos gigantes que tritura todos os outros pequeninos poderes: O poder económico. Todos nós assistimos ao facto deste poder cometer injustiças sobre os cidadãos
estes sacanas estão a despedir gajos todos os dias
mas não fazemos absolutamente nada. Será que ninguém se lembra que a única razão porque as empresas são poderosas é porque “nós” compramos os seus produtos?
Será que ninguém se lembra que todos os poderes só são poderosos porque nós deixamos que eles sejam poderosos?
Será que ninguém se lembra que se nós quisermos podemos, mais tarde ou mais cedo, mandar abaixo qualquer um destes poderes?
Será que alguém pensa antes de comprar umas meias em qual é a empresa que as produz?
Será que alguém enquanto vê o telejornal pondera na possibilidade de que aquilo que ali está pode não ser bem assim? Que os jornalistas são pessoas que dão a opinião pessoal e subjectiva? Que a televisão não é a máquina da verdade mas sim um ponto de vista falível, subjectivo e parcial?
E esta é que é a questão. Criticamos
com ou sem razão
tudo o que nos apetece e achamos que por podermos fazer isso vivemos em Democracia. Esquecemo-nos que se não existir uma capacidade de os cidadãos se associarem a causas importantes
ou não
que considerem que devem ser defendidas, haverá sempre alguns que se aproveitam do amorfismo social para fazer valer os seus interesses individuais.
A Democracia exige muito mais do que dizer o que nos apetece. Estar num café a dar a nossa opinião não serve absolutamente para nada a não ser influenciar aqueles que nos ouvem. E gritar bem alto quanto muito incomoda aqueles que não têm nada a haver com a discussão.
A Democracia exige deveres além de direitos. Exige a nossa atenção e nosso esforço para a resolução dos problemas que afectam a sociedade. Toda a sociedade. Implica perceber que aquilo que é mau para mim não quer dizer que seja mau para todos.
A verdade é que “nós” andamos a dormir. Achamos que o Estado, esse bicho gigante e pesado tem de resolver todos os problemas que nos afectam a todos e que “nós” só temos de levar a nossa vida como nos apetece. Não temos capacidade de crítica social porque não damos continuação às críticas que fazemos. Vivemos no imediato e aquilo que nos enfurece hoje está esquecido amanhã. Pior. Aqueles pobres coitados que não são amorfos e que querem fazer algo pela sociedade
por eles e por todos
são mal tratados e não lhes damos atenção. Bem podem andar a recolher abaixo assinados ou a bater de porta em porta que se for algo que nos obrigue a sair da nossa mecânica rotina diária, então não interessa.
Nós estamos alheados e uniformizados. Algures
e não foi há muito tempo
perdemos a nossa capacidade de tentar mudar o que está mal. O que está mal para todos. Sem dúvida que o egoísmo social é a nova forma de resolução dos problemas das pessoas.
eu voto de acordo com aquilo que é melhor para mim.
Será que ninguém se lembra que o todo é sempre maior do que a soma das partes?
Realmente não sei que caminho esta sociedade vai tomar. É que por um lado temos as pessoas que estão atentas a tudo e à espera de ganhar proveitos sobre os outros; por outro lado temos aqueles que também estão acordados mas que pensam no todo e não na sua pequena parte; e depois temos os outros, aqueles que se sujeitam às regras e se esqueceram de que as podem mudar. E estes são a maioria que decide quais as empresas que têm sucesso, os programas que vemos na televisão, quais os governos que governam...
Sabem...
Peço desculpa mas isto para mim não é bem a Democracia que tantos ao longo dos tempos sonharam. Democracia implica esclarecimento nas decisões, um esclarecimento social que vise o melhor para todos e não o melhor para cada um.
Mas o mais grave é que se não tivermos cuidado e começarmos a educar as nossas crianças rumo à sociedade do conhecimento, a colocar os instrumentos de que dispomos ao serviço de todos visando o estímulo das nossas capacidades, então correremos o sério risco de vir a viver em demagogia, ou seja, numa real ditadura da maioria, onde a maioria nem disso se apercebe porque, simplesmente, “eles” é que mandam...