quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

UM OLHAR DE DUBROVNIK

Ela murmurava algo verdadeiramente imperceptível.
Vestida com um robe de banho que apertava com força, estava naquilo há horas de certeza.
Num ritmo frenético balançava-se interminavelmente para a frente e para trás. E murmurava.
Nada se ouvia naquela casa a não ser o stressante ranger da cadeira de madeira sob o peso de uma rapariga nova. E os seus murmúrios.
Quando eu entrei na sala fiquei sem saber o que fazer.
"Ana! O que é que se passa?", atirei eu.
A resposta foram mais murmúrios imperceptíveis e angustiantes.
Aquilo não era normal.
A Ana era uma rapariga que eu tinha conhecido há algum tempo atrás. Dávamo-nos bem e construímos uma relação interessante.
Ela escrevia pequenas frases para cartões numa pequena empresa familiar mas o que queria mesmo fazer era escrever um livro. Encorajei-a sempre a dar esse passo mas ela ainda não o havia feito. Dizia que ainda não era altura. Ao mesmo tempo trabalhava como vendedora numa loja de moda num centro comercial suburbano.
Foi aí que eu a conheci.
Andava à procura de uma prenda para o dia da Mãe. Não sei como será com as outras pessoas mas para mim encontrar uma prenda que seja, digamos, perfeita, não é um desafio fácil
para não dizer impossível
e qualquer tipo de ajuda vai bem.
"E que tal uma camisola", inquiriu uma bela rapariga, morena e de olhos verdes.
Retorqui que não me parecia má ideia. Tão simples, não é?
Passado uma semana andava de caso novo com uma rapariga gira, inteligente e cheia de piada.
O tempo foi passando de uma maneira bem agradável. Gastava um pouco mais de gasolina para estar com ela mas, enfim, há sacrifícios que vale bem a pena fazer.
Ao vê-la ali tão perturbada não a reconheci.
É preciso ver as coisas como elas são. A Ana crescera no interior esquecido do país. Quando tinha nove anos perdeu a mãe e o pai num acidente de viação. Foi criada por uns tios que viviam mais a norte. A vida não era fácil. Tinha de ajudar na quinta e os tios não se importavam se ela ia às aulas ou não. Só queriam saber se tinha tratado dos animais e da horta.
Levantava-se todos os dias ás cinco e meia da manhã para tratar dos seus afazeres na quinta antes de ir para a escola. Ás vezes faltava mas mesmo assim era a melhor aluna da turma. Adorava a disciplina de Português porque podia escrever pequenas histórias nas aulas de composição escrita. Começou a escrever poemas mas não tinha ninguém que estivesse interessado em lê-los. Era pena.
Aos quinze anos soube por uns primos que um outro primo vivia em Braga onde tinha um restaurante. Por vontade própria falou com ele e foi para lá, onde passou a viver num pequeno quarto pago com o dinheiro que recebia do seu trabalho no restaurante. Cozinhava, limpava e servia ás mesas. Para poder alugar o quarto, arranjou um Bilhete de Identidade que dizia que tinha dezoito anos onde colocou uma fotografia que, com a ajuda da copeira que percebia de maquilhagem, a fazia parecer bem mais velha.
Além disto tudo ainda arranjava tempo para estudar. Acabou o secundário com uma razoável média de catorze, na área de humanidades e sem nunca ter chumbado.
Eu não tenho jeito para datas. Não decoro uma. Não sei dizer precisamente há quanto tempo é que a Ana é a minha namorada. Mas já lá vai bem mais do que um ano. Sim. Posso dizê-lo com toda a certeza porque ainda aqui há uns meses atrás fomos jantar a comemorar o nosso aniversário.
Fomo-nos conhecendo a pouco e pouco. À medida que ela me ia contando a história da vida dela o meu respeito por ela aumentava incomensuravelmente. Ela não era uma miúda qualquer. Era uma grande mulher.
Recordar tudo aquilo que eu sentia por ela só me fazia compreender menos aquilo que se passava agora à frente dos meus olhos.
Ela não chorava certamente porque já não tinha mais lágrimas para deitar fora. Não falava comigo. Não falava por e simplesmente.
"Vou chamar um médico", disse-lhe não estando certo de que ela tivesse ouvido. A reacção foi nula. Ela não estava cá.
Telefonei para um amigo dos meus pais que era psicólogo e descrevi-lhe aquilo que estava a acontecer. Ele prontificou-se logo a ajudar-me.
Peguei em algumas das suas roupas, vesti-lhe um casaco e levámo-la para uma clínica de um seu amigo onde com a ajuda de algumas drogas com nomes impronunciáveis ela adormeceu.
"Ela vai ficar assim durante bastantes horas. Talvez umas sete ou oito", foi-me dito.
Fui novamente para casa dela na esperança de perceber melhor o que teria acontecido.
Aquela sala vazia parecia ainda estar cheia de lamentos. Cheia de tristeza. A dela e a minha.
Pensei em avisar alguém da família dela mas depois não discerni quem deveria avisar. Os tios nem pensar. Talvez o primo. Não, esse também não. Aquilo lá em Braga também não tinha corrido muito bem. Depois dela acabar o secundário o primo não levou muito a bem a sua vontade de vir para Lisboa estudar na universidade. Talvez se tivesse apaixonado por ela. Não era difícil alguém se apaixonar por ela. Mas isso também já tinha sido há uns anos atrás.
Quando a Ana chegou a Lisboa teve de começar tudo de novo. Mas mais uma vez ela triunfou. Arranjou estes dois empregos e ainda teve tempo para começar a tirar um curso de artes literárias. Faltam-lhe dois anos e depois acaba. Dra. Ana. Se a vida dela não é a prova cabal da imensa força interior que um ser humano consegue ter dentro de si próprio, então não sei o que poderá ser. O que a teria quebrado desta maneira tão veemente e inacreditável?
Não avisei ninguém. Acho que também não queria que alguém a visse assim.
Adormeci durante umas horas. Sinceramente, não sei quantificar quantas foram.
Quando acordei parecia que o tempo não tinha passado. Lá estava a cadeira. Lá estavam os murmúrios.
Demoradamente chapinhei no lavatório. Só me vinha a Ana à cabeça. Fechei a torneira e olhei-me vagamente no espelho do armário que ela tem por cima do lavatório. Continuava atónito. Desesperado. Inquieto.
Abri o armário por reflexo condicionado. É raro utilizar o lavatório e não abrir o armário para tirar a escova de dentes e em minha casa há um armário praticamente igual. Ia fechá-lo a pensar na estupidez da sua abertura, quando reparei numa caixa cujo título não dava margem para dúvidas.
Há muito tempo que não sentia aquele calafrio na espinha quando nos apercebemos repentinamente de algo que não estávamos minimamente à espera. Qualquer coisa que tivesse acontecido com a Ana estaria certamente relacionada com o conteúdo daquela caixa.
Saí a correr de casa e fui a toda a velocidade no meu velho Renault 5 para o hospital. Nem olhei para o resto da casa de banho. Se o tivesse feito teria percebido tudo sem margem para dúvidas. Lembrei-me durante o caminho que a Ana há umas semanas atrás
seria há menos ou mais de um mês?
andou-se a queixar de andar mal da barriga de manhã. Até tinha vomitado algumas vezes. Seria coincidência a mais. Quando recordei aqueles minutos em que ela se balançava inquietamente naquela cadeira velha, murmurando desesperos, só me vinha à cabeça uma solução.
Corri pelas escadas acima e irrompi pelo quarto dela a dentro. Ela estava acordada. Olhámo-nos e eu vi logo que algo dentro dela estava diferente. O olhar era vazio. Distante. Triste. Só me lembro de um dia ter visto esse olhar.
uma senhora que me alugara um quarto em Dubrovnik
Ali, naquele momento eu soube com toda a certeza. Era o olhar de uma mãe que perdera um filho.

terça-feira, 6 de setembro de 2005

PONTO DE RUPTURA


Segismundo nunca tinha disparado uma arma. Não sendo apenas por essa razão, suores frios escorriam-lhe pela fronte. As mãos tremiam-lhe. O seu cérebro funcionava em modo de sobrevivência o que significava forçosamente que o instinto se sobrepunha à razão. Mas Segismundo não sabia disso. E esse foi o seu erro.

Em 1981, no Casal de Santa Filomena, um bairro degradado da Amadora, numa rua cujo nome era o número 7, viviam várias famílias de fracas possibilidades financeiras. Na porta 23 moravam os Lima. Luís e Soraia, os pais, passavam sérias dificuldades para, com apenas dois quartos e sem casa de banho, criarem os seus cinco filhos. Quando Soraia no final do Verão engravidou novamente o sentimento não foi de grande felicidade. Joel não se pode dizer que tenha sido desejado.
Ao longo dos seus 23 anos Joel já tinha estado por variadíssimas vezes em conflito de interesses com as autoridades. Aos 9 anos fora apanhado a roubar fruta numa mercearia o que lhe valeu um sério susto na esquadra da Mina. Foi aí que conheceu o Mário, um rapazinho angolano que, sendo mais velho, lhe ensinou umas quantas coisas que talvez fosse melhor não ter aprendido. Os “mineiros”, alcunha que Mário havia inventado para os polícias destacados naquela esquadra, rapidamente passaram a ter Joel debaixo de olho. Daí em diante foram várias as vezes que Joel foi dormir à “Mina”, chegando mesmo a passar um ano num reformatório. Nunca se meteu a fundo na droga mas descobriu nela uma forma de garantir o seu ganha pão.
Foi no ano passado que Joel se endireitou. A razão desta súbita mudança de comportamento chamava-se Eunice.
“Estou farta!”, atirou ela, “Não te vou buscar à “mina” nem mais uma vez!”. E pronto. Podia ter sido mais uma frase de uma discussão que se repetia por tantas casas daquele bairro. Mas Eunice era diferente e Joel sabía-o. Tinha de optar. E ele escolheu aquela rapariga de olhos verdes que tanto o fascinava.

Naquela manhã fria de Novembro o supermercado estava praticamente vazio. Os carrinhos circulavam livremente pelos corredores sem obstáculos nenhuns.
Quando Joel entrou para comprar pão e leite não imaginava quem é que iria encontrar ali.
“Jôjô... man... ‘tavas nos frosques?”, ouviu por detrás da sua cabeça. “Já não te via há bués...”, continuou Mário perante um Joel incomodado. No último ano evitava Mário sempre que podia. Isto tinha sido facilitado porque mais de metade desse ano Mário havia-o passado na cadeia. Não o fora visitar. E quando ele saira há um mês Joel passara a não frequentar os sítios onde sabia que o poderia encontrar.
“Não man... Tenho andado busy... C’a miúda a moer-me a cabeça... ‘Tás a ver?”, respondeu-lhe um Joel atrapalhado. E tinha razões para isso. Quando se está dentro de uma organização criminosa, por mais pequena que ela seja, sair é sempre difícil.
“Yah man... É na pura... Mas... ainda há o stress daquelas 50 gramas que me cravaste antes de eu ir para a choldra...”, lembrou-lhe Mário da razão de tanto incómodo.
“Pois... Eh... ando à rasca man... Pá’ semana?”, alvitrou esperançado.
“Man... Se eu esquecer a cena... ‘Tás a ver man?... É um favor que faço... Né?”, Mário falava como um agente do KGB em plena guerra fria. “E tens de morder man que...”, continuou em tom secretivo, “se eu ‘tou pa’ ti... tu ‘tás pa’ mim...”,terminou com um gesto dramático que parecia mimetizado do D. Corleone de Marlon Brando.
“...Eh...E que favor é esse, man?”, inquiriu um fortemente apreensivo Joel.
“Ohhhhhh... n’é nada bro...”
“Nada como? Droga?”, insistiu Joel.
“Não te preocupes man...”

“Aquilo foi uma cena muit’a marada”, declarou um nervosíssimo Júlio perante os dois Inspectores da Polícia Judiciária. “Nem sei o que vos diga...”,continuou.
“Tenha calma e conte-nos exactamente o que viu. Nem mais nem menos”, disse calmamente o Inspector mais alto, entre dois bafos num Sg Ventil já quase no filtro.
“Eu ‘tava no carro à espera da minha mãe no estacionamento, né...” começou Júlio depois de respirar fundo, “...mas passado um bocado fartei-me. A minha mãe ia só comprar o almoço e já lá estava há uma boa meia-hora. Saí do carro naquela... sei lá... ‘tava farto e ia dar uma olhadela ao supermercado a ver se a via...”
“Isso eram que horas?”, perguntou o mais baixo dos dois inspectores.
“Eh... deviam ser umas dez e meia”
“Continue”
“Eh... Bem... E quando cheguei a meio do parque de estacionamento vi que ‘tava um tipo com cara de quem ‘tava à espera de qualquer coisa na esquina do supermercado c’a rua que vai para a Estrada da Amadora. Oh pah...E eu pensei que o gajo ainda me queria assaltar, ou uma cena assim, e por isso fiquei por ali para ver se quando a minha mãe saísse ele não fazia nada... Mas também não queria que o gajo me visse... Para que é que haveria de ir à procura de chatices, n’é?”. Júlio parou de falar como que para recuperar o fôlego.
“E depois?”, instigou o mais alto, acendendo mais um Ventil.
“Depois...Depois é que foi a merda toda...”
“Força...É mesmo na merda que estamos interessados”
“Eh...pah... Apareceu o bófia por trás. Eu vi o gajo a vir mas o black não, ‘tão a ver? Vindo do nada e pelo único sítio que o black não podia ver”
“E então? O que é que o polícia fez?”, questionou o mais baixo. Parecia que falavam à vez.
“Oh...pah...O bófia vinha já c’a fusca apontada e o black ‘tava de costas nem imaginava, ‘tão a ver? Eh... pah... e de repente vira-se! ***-se... o black mete a mão no casaco enquanto se vira e fica de frente para o bófia c’a mão enfiada no casaco...”
“Mas o agente não chamou pelo homem?”, interrompeu o mais alto.
“Não pah! O gajo já vinha c’a pistola apontada e ia devagar para o outro não o ouvir. E por acaso o black vira-se quando o gajo ‘tava a chegar. O black apanhou o cagaço da vida dele quando se voltou e deu de caras c’o bófia”.
“Ok. E depois o que aconteceu?”, instigou o mais alto. Afinal não falavam à vez.
“****-se... Depois foi o bófia a dizer: O teu amigo já disse que estavas aqui armado. Deita-te já!”
“Deita-te já??”, espantou-se o mais baixo, “Tem a certeza que foi assim?”
“Absoluta!”
“E depois?”
“Oh pah...”, parou e abanando levemente a cabeça continuou. “Oh meu... O black começa a gritar que não tinha arma nenhuma e tira a mão do casaco...Eh pah... E o c***ão do bófia dispara, man! O gajo disparou man...”

O mais baixo dos dois olha para uma carteira com ar absorto. Pousa-a ao lado de uma maço de Marlboro ensanguentado numa mesa cheia de pequenos pertences.
“Fumar mata mesmo...”, diz o mais alto.
“Joel Lima... Menos um...”, diz o mais baixo.

quinta-feira, 1 de setembro de 2005

A COISA QUE NÃO DEVERIA SER

para o meu Pai

O Grande Homem subia com extrema dificuldade as escadas. Dois homens, não tão grandes, o ladeavam e ofereciam amparo para que ele não caísse. Não havia nada de especial no cimo das escadas. Não havia nenhuma necessidade específica que justificasse tamanha empresa. Mas ele continuou com todo o esforço do mundo a fazer aquilo que já fazia há oitenta longos anos. Não seria hoje que falharia. Não. Falhar, falham os jovens. Os velhos sabem. E Ele sabia. Sabia que não teria de subir aquelas escadas mais nenhuma vez.

António nasceu no interior esquecido e atrasado de um Portugal longínquo que vivia ainda os decrépitos últimos anos da I República. Quando o imponente General Gomes da Costa proferiu o seu infame discurso de Coimbra, António era novo de mais para perceber sequer que a revolução estava em marcha. Mas, com sagaz e precoce inteligência, ouviu palavra por palavra a transmissão radiofónica do primeiro discurso do novo Presidente do Conselho. Estávamos em 1930 e Oliveira Salazar tornava-se Chefe de Governo da Ditadura. António exultava. O povo estava entusiasmado acreditando no jovem estadista e no futuro do Império.
António ligava a tudo. Percebia tudo. Rapidamente ultrapassou a mãe na capacidade de compreender o mundo, se bem que este em Vila Nova de Foz Côa, a mais de um dia de distância de Lisboa, capital de um país orgulhosamente só, não fosse o mundo amplo e rico que uma mente dotada como a de António mereceria. Conhecia os pássaros e a natureza. Empenhava-se em pequenas engenhocas com os amigos, tendo ficado mestre na arte de contruir uns pequenos carros de corrida em que só os realmente bons e profissionais não se desfaziam monte abaixo sob o peso do seu tripulante. Era um nadador exímio. Quantas vezes se teria banhado no rio Côa, onde tantos anos depois se descobririam gravuras rupestres de particular importância. Os amigos respeitavam-no. Não era de andar sempre à pancada mas era de punho fácil. E impunha respeito.
A infância foi feliz. E traquinas. Um bom passatempo para ele e os amigos era esperar atrás de uma curva que alguém passasse numa bicicleta. Grandes risadas deram ao verem as caras surpreendidas daqueles que por força de um pau espetado por entre os rails da roda dianteira se estatelavam ao comprido no chão... Não era bonito. Mas tinha piada.

É interessante como aqueles que estão prestes a partir se lembram de muitas coisas que passaram a vida a esquecer-se. A infância... Esse mundo maravilhoso e sem limites onde nós nos multiplicamos numa imensidão de seres, cada um mais extraordinário do que o outro... Um dia somos polícias, no outro somos ladrões. Um dia o Super-Homem, no outro o Batman. Um dia jogador de futebol, no outro um brilhante piloto que conduz uma potentíssima mota que, por acaso tem um selim e pedais... Quando somos crianças podemos ser tudo e não temos de ser nada. Todas as opções estão em aberto.
O Grande Homem, sentado na sua poltrona favorita, olhava pela janela do seu escritório. Interrogava-se como seria possível que aquele António traquinas se tivesse tornado neste idoso em tão pouco tempo.
Há uma certa serenidade em quem aceita a única coisa que é definitiva.
O GrandeHomem aceitava a Coisa Que Não Deveria Ser com toda a dignidade. Quem é velho sabe que há batalhas que não se devem combater. E há algumas verdades inalienáveis.

Aos dezoito anos António viu-se em apuros. O seu pai falecera e, em plena II Guerra Mundial, encontrava-se com a mãe e duas irmãs a seu cargo.
Não foi uma altura fácil. Trabalhava durante a noite numa empresa de material electrónico onde aplicando-se com extraordinário afinco conseguia terminar as suas tarefas mais cedo e juntando quatro cadeiras, duas lado a lado, dormitava durante uma ou duas horas antes de ir para a Universidade. Estudar engenharia com tão poucas horas de sono não era fácil. Descobriu que conseguia dormitar nas aulas sem ser apanhado, escondendo a cabeça com a mão esquerda que se apoiava na sua testa enquanto mexia o seu lápis, como se tomasse apontamentos, com a mão direita.
Tirou o curso com distinção e mudou de emprego. Seria bem sucedido. Toda a gente que o conhecia o sabia.

O Grande Homem riu-se para si próprio. Como lhe pareciam confortáveis aquelas cadeiras naqueles tempos. Tinha saudades de sentir aquela força que só os jovens têm. A capacidade de tornar a adversidade em seu favor. De se sujeitar a tudo. A sede de conquista. A garra da vitória...
Entusiasmado pela recordação dessa energia levantou-se com o olhar do António traquinas...

António era um homem bem parecido. Levava as meninas a passear ou a ver um espectáculo. Viajava muito sempre com aquela mala de viagem que comprara na sua primeira vez em Paris. A Paris do final dos anos quarenta. Os cabarés, os artistas de rua e as óperas. A Paris libertada da guerra. A Paris renascida e livre...
António exultava com a Europa. Visitou todos os recantos do Velho continente. E foi a África. E correu toda a América. Viu o Novo Mundo e a esperança da América do Norte, visitou as velhas pirâmides da Central e experienciou os perigos da do Sul... Já mais velho visitou a Ásia. O fascinio exótico da Tailândia ou a comida intragável dos Chineses. Na sua viagem conhecera o mundo inteiro. Vira o bom e o mau. As belezas naturais e as conquistas arquitectónicas da Humanidade. Conhecera as gentes do mundo.

O Grande Homem tentava agora vestir, com bastante dificuldade, o seu sobretudo preferido. “O mais distinto do São Carlos”, dissera vezes sem conta aos seus filhos. O Grande Homem sorria sentindo-se o pequeno António a fazer uma qualquer traquinice. Vestir um sobretudo no pino do verão pode parecer uma loucura ou pelo menos uma profunda idiotice para qualquer um. Mas para o Grande Homem aquilo que os outros pensavam dele já não lhe interessava para rigorosamente nada. Era o seu sobretudo. E queria vesti-lo.
O Grande Homem era Grande porque era muito mais do que aquele velho e frágil ser humano. O Grande Homem era Grande porque era o António traquinas e sonhador ao mesmo tempo que o jovem que competia com marinheiros em bares a ver quem bebia mais shot´s de whiskey ou canecas de cerveja. Sentia-se fraco. Mas forte de espírito. Determinado. Sabia o seu destino. Mas continuava a sonhar. Sonhava com o sucesso dos seus filhos. Sonhava com o início de vida dos seus netos. Sonhava, ainda, com as brincadeiras dos seus bisnetos. Na última semana vira-os a quase todos. Estava pronto.

António casou mais do que uma vez. Que se soubese tinha três filhos. No entanto não seria totalmente descabido pensar-se que pudesse ter mais. Só ele, ou nem mesmo ele, o saberia. A sua vida era plena de conquistas e bons momentos. António era corajoso. Após o 25 de Abril, durante o PREC, quando os executivos de topo iam para o emprego nos automóveis das mulheres para que os operários não vissem a sua riqueza, António trocou o seu único carro por um distinto MG B GT. Ninguém se atreveu a riscá-lo.
António detestava comunistas. Não suportava as camisas para fora nem as barbas longas. Irritavam-no os discursos cassete de operários que queriam ter sem esforço aquilo para o qual ele estudara e trabalhara anos a fio sem dormir. Uma vez, quando saía da Companhia e viu umas dezenas de trabalhadores juntos num mini-comício marxista foi até lá e começou a chamar-lhes calões. O primeiro que se mexeu na sua direcção levou um murro nos queixos que ficou logo prostrado no chão. Tal como o segundo. Com a ajuda de mais dois colegas puseram fim à manifestação.
Nessa altura andavam a ocupar casas. A de António era isolada nas escarpas do Guincho. Dormia na sua cadeira de baloiço agarrado à sua caçadeira. Quando eles finalmente tentaram tomar-lhe a casa pô-los em fuga apontando a sua arma. Eram mais de vinte. “Sou divorciado, os meus filhos estão criados...Avancem! Avancem todos! A sério! Garanto-lhes que os primeiro doze caem!”, gritou-lhes ele. Ninguém avançou. E mais ninguém tentou ocupar aquela casa. “O gajo é maluco”, diziam os vermelhos da zona.

Estes acontecimentos marchavam pela mente do Grande Homem. Mais uma vez António exultou. Que grande viagem tinha sido aquela desde Vila Nova de Foz Côa, no distante ano de 1924 até ao ano 2005. Como o mundo tinha mudado. O seu último carro tinha duzentos cavalos. O primeiro que havia conduzido tinha dois bois... O mundo era tão mais pequeno com a televisão. Lembrou-se dos relatos emocionantes do Peça na Londres bombardeada pela aviação Nazi. Na altura a guerra não se via... A sua primeira televisão fizera sucesso. Toda a gente da rua tinha ido lá a casa para ver aquela primeira transmissão da Feira Popular. Que orgulho que tinha sentido! Lembrou-se daquela viagem a Amsterdão, no tempo em que não havia auto-estradas, para ver o Benfica jogar a final dos Campeões Europeus com o Real Madrid. Quando o Benfica perdia 2 – 0 chegou a pensar que tinha feito 4000 quilómetros para nada mas com um golo do Águas e outro do Cávem o Benfica acaba por empatar. A perder 3 – 2 ao intervalo, na segunda parte o Coluna volta a empatar e o grande Eusébio marca mais dois fazendo com que o Benfica fosse Bi-Campeão Europeu derrotando o mítico Real Madrid por 5 – 3. Poucos Portugueses estavam no Estadio Olímpico de Amsterdão e António era o que mais saltava ao ver com os próprios olhos o momento mais glorioso da vida do Glorioso.
Lembrou-se daquela modelo francesa que conhecera no combóio. Mais tarde viria a mudar-se para Portugal para estar com ele. Lembrou-se de muitas outras mulheres. Aquela alemã de cuja janela teve de saltar em cuecas para fugir do marido...
O Grande Homem pensou na sua mulher. Tinha sido a sua fiel companheira dos últimos anos. E chamou-a.

Ela pegava na mão do Grande Homem. A expressão dele era de fragilidade absoluta. Mas um sorriso despontava. A Grande Viagem tinha valido apena. Deitado na cama, sob os lençois e com o seu sobretudo, o Grande Homem despediu-se com um até breve. Afinal, na escala cósmica que diferença fazem dez, vinte ou cem anos? Vamos todos para o mesmo sítio...
O grande Homem apertou-lhe a mão. E depois deixou de apertar. A cabeça dela caiu sobre a cama. O António traquinas deixara de ser.

sexta-feira, 8 de julho de 2005

BOA NOITE, ESTE É O JORNAL NACIONAL

“E aqui lavra o fogo intensamente”, descrevia o Homem Que Apesar de Estar Não Estava Mesmo Lá, “que como podem ver está prestes a ficar completamente fora de controlo. Faltam homens, Manuela, para combater o fogo.” Moveu-se um pouco para mais longe das labaredas e retomou o seu discurso vazio de emoções. “Como podem ver, aquelas casas...vou pedir ao nosso câmera que as ap...sim...ali à direita....”, interrompeu-se ele com rigor, “...mas como dizia, como se pode ver agora nas imagens, aquelas casas, salvo intervenção superior, deverão estar irremediavelmente perdidas o que será uma grande tragédia. Dificilmente aqueles poucos homens com baldes e mangueiras conseguirão impedir que a tragédia, blah blah blah.... tragédia... blah...tragédia...blah blah... tragédia...”

Voltámos a ver a suada e adrenalinada face do repórter.
“Dona Maria, diga-me o que sentiu quando perdeu a sua casa?”. E ela chorou. “Oh...Meus Deus Nosso Senhor que perdi tudo o que tinha...”
as lágrimas angustiantes escorriam-me pelo ecran da televisão
“Não sei que faça... Que sou viúva desde que o meu António se foi e não tenho mais nada...”
uma poça formava-se no arraiolos da minha sala
“Mas diga-me, Dona Maria, agora que perdeu tudo o que tinha, como....ehhh... sente-se triste é?

“Como vimos aqui em primeira mão, na Televisão de maior audiência, este incêndio é uma grande tragédia. Não perca logo, a seguir ao Jornal Nacional, os desenvolvimentos dramáticos e horrorosos que a sua Televisão preferida, não vai deixar de passar repetidamente ao longo dos próximos dias. Nada nos escapará e...
o meu dedo moveu-se e
............................................
silêncio.
A boca da apresentadora movia-se repetidamente mas eu não a ouvia. Reparei naquele boca plastificada e lembrei-me das barbaridades que já de dentro dela tinha ouvido sair. E da do marido.
E acho que foi naquele momento.
Olhando para trás foi naquele dia que me revoltei. Olhei para a cara do repórter, que mais uma vez suava pela televisão dentro, e pensei
“se faltavam homens para apagar o fogo e tu estavas lá e não estavas a apagar o fogo então que raio és tu? Porque Homem não és com toda a certeza. Podías ter ajudado a apagar o fogo. Podías ter ajudado a Dona Maria com todas as tuas forças ao invés de expores a sua mágoa e tristeza em troca de uns pontos de audiência. Tu, Que Estavas Mas Não Estavas, consideras-te um espectador de índole superior. Observas e relatas a miséria alheia e nem quando está ao chegar da tua mão amenizá-la te dignas a perder a reles pose de um David Attenborough no National Geographic. Quem é a Dona Maria para ti? Um humano com h pequeno? Uma espécie de antílope corredor que foge da poderosa chita? Como podes ser um espectador? Como podes olhar a Tragédia e não te revoltares? Como podes olhar a Tragédia e apenas balbuciar o Seu Nome repetidamente porque quanto mais dramático melhor???

“Porque ele está morto”, disse-me ele por trás de mim.
Virei-me abruptamente.
“Quem és tu?”, tremeliquei eu vocalmente.
“Eu sou Herético, sou Aquele Que Se Revolta”, informou-me com serenidade.
“Foi o Grande Poeta”, continuou, “que disse que os cobardes muitas vezes morrem antes de morrer... Grita comigo e nem depois de morto morrerás...”

Olho para trás e sorrio. Estaria eu morto? Se estava ressuscitei gritando. E bem alto.

quinta-feira, 7 de julho de 2005

AQUELA QUE DEIXOU DE SER


“De onde vêm os pensamentos?”, pergunta Aquela Que Não Sabia Muito Bem O Que Andava Aqui A Fazer.
“Da parte detrás da cabeça”, responde-lhe sarcasticamente Herético, Aquele Que Sabia Que Não Sabia Muito Bem O Que Andava Aqui A Fazer.
Hermética tentou revirar os olhos para dentro para tentar perceber o que ele lhe dizia. Não resultou. Um espelho talvez... Não... Também não. Hermética pensava mas não percebia porquê.
Resolveu fechar os olhos. Para se pensar não se precisa de ver. E Hermética ouviu. Ouviu o rouxinol do Torga. Ouviu a cascata. Ouviu, ainda, o barulho dos pneus nas grades da ponte.
“Cala-te”, grita-lhe Herético, “para pensares não precisas de ouvir”.
E Hermética tapou os ouvidos.
O vazio. Não... “Espera aí”... “Que cheiro é este?”
Era o cheiro da chuva de borracha que não pára de cair há mais de dez mil sóis. Só quem vive debaixo daquela ponte o sabe. Talvez os americanos também o saibam.
Mas para pensar não é preciso cheirar. Nem saborear. Nem tactear.
Hermética fechou-se.
O Castelo era muito pequeno no início. A porta era difícil de ultrapassar.
O Castelo era escuro no início. Início? Hermética não sentia nada. E se não sentia nada, não sentia o tempo. Não sentia o espaço. Não estava em lado nenhum.
“Mentirosa!”, disparou com mestria Herético. “Estás no Ponto Firme”, continuou, “Estás no Inultrapassável”.
Herético, com o súbito desejo de transmitir aquilo que sabia não saber muito bem, entusiasmou-se. “Repara Hermética como o Castelo é bonito. Repara como é grande. Vê sem abrires os olhos como o Castelo não tem fim. Estás a ver? E ouves todos os sons do mundo. Mas fá-lo sem destapares os ouvidos. Repara como é bela a praia dentro do Castelo. Passa os sentidos por essa areia fina e branca que se esvai por entre os teus dedos. Inspira esse perfume
Ungaro?
que tanto apreciavas no teu marido. Olha! Aí está ele de regresso do sítio donde ninguém regressa. Olha para cima Hermética”, ordenou-lhe, “vês as estrelas ? Repara na constelação de Leão...”

E o Cavalo Branco levou Hermética para além do Ponto Firme. Que nem um buraco negro com o seu desmedido vício da Gula, Hermética engole-se a si própria para se regurgitar em seguida nas multiplicidades que o seu ser ao longo de todos os tempos viveu. O Caleidoscópio é real. Todas as cores são mais vivas do que aquelas que a Deusa Íris lhe tinha apresentado. O Cavalo Que Era de Todas as Cores acelerou e Hermética viu. A semente astral que nos traz o cometa. O triciclo divino que balança indefinidamente pelo Cosmos. Sentiu a Fonte da Sabedoria. Falou com quem lhe deu a vida. Sentiu quem lha tentou tirar. Mas fugiu para mais longe ainda. Reconheceu o seu Caminho. Libertou-se do Dogma e renunciou a um Deus para se reencontrar com Ele logo de seguida. Afinal ela era Ele e Ele era ela. Sabia agora que sabia muito menos do que havia para saber. Com a força da emoção reviveu tudo o que tinha vivido mas muitas vezes mais e tanto mais depressa como mais devagar. Conheceu o Erro e amou a Virtude. Lembrou a Esperança. Sucumbiu ao Amor...

Sentiu o chão debaixo de si. O Cavalo Branco já não estava. Cheirou a terra molhada daquele dia de Primavera. Ouviu um Michelin 630 especialmente colocado em França para efeitos de IRS. Hermética abriu os olhos. E Hermética já tinha deixado de ser.

“Não posso deixar de te achar bela”, confidenciou Herético. Foi mais longe. “Aliás deixa-me dizer-te que tu, Aquela Que Perdeu O Nome Nos Terrenos Inultrapassáveis da Quinta Dimensão, és para mim a Alquimista. O que tocas reluz de sapiência...”
“Herético...”, ronronou gulosamente Alquimista. “De onde vêm os pensamentos?”
“Ó querida...”, retorquiu Herético, “toda a gente sabe que vêm de Paris no bico da Cegonha...”

segunda-feira, 4 de julho de 2005

MANIFESTO DO PARTIDO SURREAL

“Pertenço a uma geração perdida e só me reencontro quando assisto acompanhado à solidão dos meus semelhantes”, diz-nos Jacopo Belbo pela mão do Umberto. Sim Umberto sem “H”.
Não sei se em 1970 a geração estaria perdida. Sei que nos anos 90 estava rasca. Não faço a mínima ideia como está nos anos... Anos quê? Anos 10? Soa-me muito mal... Nem sequer é isso. Anos 20 é de 2020 a 2030. Anos 10
vá lá ainda se admite
é de 2010 a 2020. E de 2000 a 2010? Somos a década sem número e sem nome... Somos os anos perdidos... Seremos nós os 9 meses pré-natais de um novo século?
Geração perdida...
Todas as gerações são gerações perdidas. E todas se reencontram. Porque haveremos nós de ser diferentes?

E eu, assim, me manifesto e digo basta!
Declaro morte à triste comiseração geracional.

Ninguém se encontra antes de se perder. Como se pode encontrar uma coisa que já se tinha? Andar perdido será por ventura a melhor coisa da vida.
Durante um bocado.
Andar por aí.
Dar umas voltas.
Se eu souber para onde vou não vejo bem o caminho.
Não vejo a leve inflexão para o roxo daquele específico miosótis.
Quem vai todos os dias cheio de pressa para o sítio onde sabe que tem de ir não pode reparar com atenção no leve odor a manhã que escorre todos dias pelo parapeito da nossa janela.
Seja no campo ou seja na rua buliçosa da Cidade.
Quem sabe para onde vai só quer lá chegar. E só chegar não tem piada....
Lembremo-nos de que o Caminho será sempre aquele que nós quisermos que ele seja...

Viva à geração perdida!
Viva aos heróis da Revolução eternamente adiada!

“O quê?”, questiona o abade. “O quê?!”, repete incrédulo. “Você afirma que há a possibilidade dos Essénicos, magos na arte dos medicamentos naturais, pela mão de José de Arimateia ao Lhe dar de beber por uma esponja, ter adormecido o Cristo Redentor, explicando-se dessa forma o facto do Salvador ter perecido ao cabo de seis horas de cruxificação, quando o natural seriam três dias, evitando assim o triste destino de todos menos d’Ele, em que se partiam as pernas do condenado para acelerar o processo de asfixia???”; “Como???”, encoleriza-se o abade, “você tem o desplante de colocar a hipótese do Filho não ter morrido na cruz e que se calhar a razão pela qual não se encontrava no túmulo três dias depois, ser afinal a mais natural delas todas, ou seja, Fugiu???”. O abade estava fora de si perante tamanha heresia. “Seu... Seu... Seu... Como???”. Perdia-se o abade pelos férteis e infiéis terrenos das hipóteses destapadas pelas súbitas e indesejáveis conexões mentais que lhe importunavam e empalideciam os seus bem educados neurónios... “Como se atreve?”, continuou, “Como se atreve a afirmar que a Grande Religião se baseou numa história contada duzentos anos após a morte do Salvador, assente em documentos de origem pouco documentada e escritos não se sabe muito bem por quem, sob a égide de um Imperador de Roma que visava nada mais do que a manutenção do seu nada Secular Poder?”
“Sim”, responde Herético. “A Religião é o ópio do Povo”. “É o instrumento do controlo das massas...”

Quem sabe o que realmente se passou? A História é escrita pelos Vencedores e dos Vencidos não se Rezará...
O que somos nós se não a nossa História? Se não a conhecemos ou a colocamos em causa, quem seremos nós?

“O Futuro”, responde Herético, “Seremos o Futuro...”

E assim declaro por decreto surreal o Fim da História.

Somos a geração perdida. Reescreveremos a História. Daremos voz aos Vencidos. Decidiremos o Futuro. Todo o Futuro e não apenas aquele que os Anteriores decidiram por nós.

Seremos a Voz do Novo Mundo...

domingo, 3 de julho de 2005

Será o regresso?
Será o início?
Será o fim do início ou simplesmente não será nada? Ou antes é que não era nada?
E agora?
Já é?
É. E será novamente.