Pensamento, m. - Acto ou efeito de pensar. Qualquer acto de inteligência. Fantasia. Ideia. Espírito. Uso da razão. Reflexões

quarta-feira, janeiro 18, 2006

O CONSULTÓRIO

Sentaram-se os dois confortavelmente.
Ele voltou a mexer-se. Afinal não estava confortável. Olhou nervosamente o consultório à sua volta. Mexeu-se novamente, colocando a perna esquerda sobre a direita.
Na realidade Júlio não conseguia perceber como é que alguém poderia estar confortável numa situação daquelas. Era a sua primeira vez num consultório de psicologia e esperava ser hábil o suficiente para não parecer um idiota completo.
“Então o que o traz aqui?”, inquiriu a psicóloga.
“Sinceramente, doutora, não lhe sei dizer muito bem. Ou melhor... Até sei.”, balbuciou, “Quer dizer... Olhe... Sabe?”, enchendo-se de coragem, “Isto, no fundo é tudo culpa da Sónia.”
“Da Sónia? Quem é a Sónia?”
“Tantas perguntas”, pensou ele, “A minha colega... A razão disto tudo. O Dr. Brito não lhe explicou?”
“Calma”, incitou ela, “Respire fundo e diga o que lhe apetecer. Temos tempo”.
“Tempo”, ponderou ele. Tempo era aquilo que decididamente lhe faltava agora.
De repente o tempo alargou-se. E ele tentou explicar o que raio fazia ali.

Júlio nascera na Guarda. Não estava no interior esquecido. O seu pai era médico e tinha uma vida bem confortável. Tal como o pai era filho único, bom estudante e dono de uma infância feliz. Da sua mãe já ele não se lembrava. Partira abandonando-o a ele e ao marido. Se calhar fora essa a razão para o grande apego que tinha ao seu pai. Tinham sido os dois abandonados. Mas com a enfermeira Dulce em casa bem como com a sempre prestável empregada interna Dona Odete, o lugar fora rapidamente preenchido. Na escola tinha amigos, uma namorada e saía sempre a seguir ao jantar para brincar. Mais tarde a brincadeira deu lugar a umas passas e umas jolas. Nada de grave. O Júlio era responsável.
Aos dezoito anos partiu para Lisboa para estudar medicina. Como o pai.
E o seu mundo virou-se ao contrário.

“Sabe Doutora, isto é difícil de explicar. Realmente não sei por onde começar”, atirou ele mais parecendo um qualquer réu num julgamento. Torcia as mãos, suava pela testa e remexia-se constantemente na cadeira.
“Que tal pelo princípio?”, inquiriu a mais perfeita imagem da serenidade.

Saber o que seria o princípio apresentava-se como uma tarefa complexa para o Júlio. Talvez desde o primeiro momento em que chegou a Lisboa. Alugara um quarto, perto da Junqueira, que dividia com mais três colegas universitários. O João, estudante em Engenharia Naval, o Pedro que estudava Direito e a Sónia que estudava Psicologia.
Desde o início que simpatizara com a Sónia. Um rapariga gorducha e simpática que lhe oferecia uma companhia divertida, inteligente e cheia de alegria. Rapidamente começaram a sair com alguma frequência tornando-se bons amigos. Em algumas ocasiões, não menos frequentes, foram bem mais do que amigos. Estavam bem assim.
Os dois primeiros anos passaram muito bem. Até que uma noite, no quarto conversando com ela algo aconteceu. Sónia, deitada na sua cama, enrolando-se nos lençóis, enquanto fumava um cigarro perguntou-lhe: “Sabes que esta tua incapacidade de assumires relacionamentos com as mulheres é bem capaz de estar relacionada com o facto de teres sido abandonado pela tua mãe quando eras pequeno. Se calhar devias de ir a um psicólogo ou isso...”
Aquelas palavras ecoaram na cabeça do Júlio como se de sinos se tratassem. Sónia continuou tentando dar força ao seu argumento mas ele nem a ouviu mais. E se aquilo fosse verdade? E se o abandono da sua mãe o afectasse na forma como se relacionava com as mulheres ou mesmo na forma como via o mundo? E se a sua mãe fosse, por omissão, responsável por parte da sua vida? Um impedimento à sua própria felicidade?
Aquela ideia, uma vez inserida no seu cérebro, não mais sairia de lá. Quem seria a sua mãe? Estaria viva? Morta? Lembrar-se-ia sequer que tinha um filho?
Quando era pequenino, o Júlio, costumava fantasiar com uma mãe que era astronauta e que tinha ido numa viagem histórica rumo às estrelas. Só uma missão dessas a poderia ter forçado a tomar a terrível decisão de abandonar a sua família. Sonhou enumeras vezes com uma bonita senhora chorando do alto do seu fato de cosmonauta e acenando com pesar a uma multidão que implorava para que ela não deixasse o filho...
Sonhos à parte, a verdade é que Júlio nunca tinha perdoado à sua mãe pelo facto de ter partido e nunca mais ter dito nada. Não se faz. Mesmo que as coisas estivessem muito más com o seu pai, ele era o filho. E os filhos não se abandonam.
Os dias passaram e de repente o Júlio deu por si constantemente absorto em pensamentos relacionados com a sua mãe. Andava macambúzio e tristonho. Procurou o nome dela na lista telefónica mas não o encontrou. Fez searchs na net mas não deu nada. Lembrou-se daquele programa Ponto de Encontro
como será que eles encontravam as pessoas
e decidiu contratar um detective. Mas não tinha dinheiro para isso. Talvez um dia.

“Então...”, quis saber a psicóloga, “...tem andado deprimido ultimamente é isso?”
“Pois. Sabe... Eu não sei muito bem o que é isso de estar deprimido mas...”
“E é por isso que veio cá hoje?”
“Não é bem. Quer dizer... Não inicialmente. Mas depois do que aconteceu fui obrigado...”, admitiu Júlio com bastante dificuldade.

É verdadeiramente incrível como o cérebro humano em situações de aperto consegue divagar e levar a nossa consciência à velocidade da luz para outros momentos. Júlio, querendo abrir o seu coração naquele consultório estranho, só conseguia pensar na sua mãe. E em Sónia.
Foi num Domingo solarengo de Dezembro, com o calor emanado pela janela da mansarda em que vivia a dar uma sensação agradável de acolhimento, que Júlio se viu à vontade para explicar a Sónia o seu estado de espírito. Viu-se, então, confrontado com um desafio.
“Chega de depressão”, impôs Sónia, “Isto assim não é nada. Vamos tentar descobrir a tua mãe. Mas à séria… Depois logo se vê!”
O que é que diz a uma proposta destas? A ideia andava na sua cabeça há muitos anos mas sempre a empurrara para aquele baú cerebral especial de onde não saem os pensamentos incómodos. Desta feita não. Era um desafio pendente e estava na altura de o resolver.
Esta decisão foi a causadora de todos os acontecimentos extraordinários e surpreendentes que acabariam por levar Júlio, de forma inapelável, a uma consulta com a psicóloga da Rua Latino Coelho, n.º 3.

“Ó Júlio...Repare...”, disse a psicóloga cortando o silêncio reinante, “Eu compreendo perfeitamente que esta seja uma situação diferente para si. Todos os meus pacientes que vêm pela primeira vez, por mais ou menos grave que seja a razão que os traga cá, se sentem naturalmente inibidos. Envergonhados até. É perfeitamente natural. Agora, qualquer que tenha sido o motivo que o traz aqui, o que quer que tenha feito à sua amiga Sónia pode contar-me. Eu estou aqui para o ajudar. Desabafe. Vai ver que se sente melhor.”
“Ó Doutora eu não fiz nada à Sónia!”, insurgiu-se Júlio, “Eu só disse que ela foi a causadora disto porque ela é que me incitou a procurar a minha mãe. E o Dr. Brito...”
“A sua mãe?”, interrompeu a psicóloga, “É melhor explicar-se calmamente...”, incitou ela com um sorriso plácido.
E Júlio desinibiu-se. Finalmente contou a sua história do princípio ao fim. A infância, a adolescência, a vinda para Lisboa, a Sónia e a sua última grande conquista: A descoberta da sua mãe.
Quando Júlio terminou o relato a psicóloga mexeu-se desconfortavelmente na sua imponente cadeira.
“Pois é Doutora. O Dr. Brito bem me tinha dito que a Sra. era a minha cara chapada...”