Pensamento, m. - Acto ou efeito de pensar. Qualquer acto de inteligência. Fantasia. Ideia. Espírito. Uso da razão. Reflexões

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

COMPLEXIDADES CONJUGAIS

Ela não conseguia deixar de olhar para a maçaneta da porta.
Era uma daquelas maçanetas rectangulares que se empurram para baixo para abrir. Aquela, em particular, não se mexia há tempo demais. E a Joana não estava a gostar nada disso.
"Zé !!", gritou. Não houve resposta. Tinha havido uma discussão
mais uma troca de ideias um pouco acalorada, tentava ela convencer-se
e ele tinha-se fechado no escritório. Estava lá há mais de duas horas e tanto tempo não era costume.
Ela encostou o ouvido direito
aquele com que conseguia ouvir razoavelmente
e procurou com muita atenção qualquer sinal de vida que tivesse proveniência de dentro da divisão. Enquanto escutava o silêncio, percorreu mentalmente as paredes forradas a livros procurando perceber onde o seu marido estaria.
Ela era muito orgulhosa. Jamais daria o braço a torcer. Só o facto de já ter perguntado por ele demonstrava claramente um sinal de fraqueza da sua parte. Ela não iria entrar no escritório. Se ele quisesse que viesse atrás de si mais tarde quando lhe tivesse passado o amuo.

Joana e Zé estavam casados já há mais de vinte e cinco anos. Se lhes perguntássemos se eram felizes a resposta seria invariavelmente sim, se estivessem juntos, ocasionalmente um coro de lamentos, se estivessem separados. Há muitas pessoas neste mundo que aumentam a sua felicidade a lamentarem-se. Quanto pior forem as coisas que tiverem para contar, quanto mais for possível se vitimarem, mais prazer sádico essas pessoas têm com a sua própria existência. E em Portugal há muito disto.
A Joana e o Zé não seriam o cúmulo desta situação mas tinham muitas destas características. O que gerava muitas discussões. E quanto mais espalhafatosas melhor. Não seria uma discussão se não terminasse com um bater de porta e um ar ofendido. Se por ventura pudéssemos presenciar as suas discussões, verificaríamos com algum espanto que a alternância dos papéis, entre quem saía da divisão com um ar ofendido e a bater com a porta e quem nela ficava lançando vitupérios, era quase perfeita. E isto poderia ser matéria de aturado estudo para uma equipa de psicólogos já que era um exercício de sentimentos e emoções controladamente descontroladas interessante de analisar. Quem tinha a possibilidade de sair da sala, normalmente significava que estava a perder a discussão. Se quem ficasse na sala fosse atrás da pessoa a derrota seria minimizada. Por isso mesmo ela nunca iria atrás dele.
Quando as pessoas convivem há muitos anos ganham manias. Modos de estar e de conviver que muitas vezes acabam por se constituir num mundo privado, estranho para os demais, que congrega características que para os outros poderão parecer de autêntica loucura. A casa da Joana e do Zé era, nesse sentido, uma verdadeira casa de doidos.
Eram daqueles parzinhos de liceu que continuaram a namorar durante a universidade e, logicamente, acabados os cursos e introduzidos no mercado de trabalho abraçaram o desafio do casamento. E fizeram bem. Naquilo que um era paranóico o outro gozava. Naquilo que um tinha muito jeito o outro não valia nada por aí além. E isso era bom porque naquilo que eles eram realmente iguais era na necessidade intrínseca de competir com todos os demais. Se eles tivessem os mesmos talentos o namoro não teria durado uma semana.
Tendo os dois quarenta e sete anos, era difícil de discernir qual seria o mais bem sucedido nos seus respectivos campos profissionais. Ela, tradutora, ganhava menos do que ele, advogado, mas compensava essa falha sabendo falar inglês, francês, alemão, espanhol e italiano praticamente na perfeição. Até já tinha aparecido um convite para fazer traduções em simultâneo no Parlamento Europeu mas recusara para não ter de sair do seu país e, consequentemente, abdicar de estar com a sua família. Aquilo de que abdicou foi de um grande ordenado numa decisão que foi tomada pelos dois.Tinham três filhos. Habituados a uma casa cheia de gente, nunca faltava animação. Quando não era a confusão habitual, fruto da interacção física de cinco pessoas numa mesma casa, era os filhos a discutir entre eles ou com os pais. Quando tudo estava calmo, discutiam eles.

Desta vez a questão era o local onde iriam passar um fim de semana a dois. Ela queria ir para a terra dos pais dela, em Évora, enquanto que ele desejava ir para o Porto onde um casal amigo vivia e o convívio era sempre agradável.
preferes os amigos à tua mulher
Mal ela atirou aquele pronuncio ele compreendeu que no campo da teoria conjugal ela tinha razão. Podia ter-lhe respondido que a preferia todos os dias da semana durante os últimos vinte cinco anos o que só por si já era um grande feito
acrescentaria ele a atalho de foice só para picar
mas admitiu para si próprio que se aquele fim de semana era a dois, deveria ser a dois e não a quatro. Só lhe restava sair de cena, com a batalha perdida.
Ela exultou com a vitória e a perspectiva de um tardio Irish Coffee no Café Arcada na bonita Praça do Giraldo.
Mas agora ela estava preocupada. Tanto tempo fechado no escritório não era decididamente normal. Começou-se gradualmente a aperceber do ridículo que encerrava a situação. A picuice. A mesquinhez. O pequenino em que eles se transformavam para, constantemente, levar cada um a sua a avante. A competição. A teimosia doentia de quem tem sempre razão e nunca se engana. Não é que as discussões lhe gerassem infelicidade. Ela tanto se divertiria em Évora como no Porto.
mas preferia Évora...
Apeteceu-lhe chamar por ele outra vez.
De repente percebeu.
"Sacana, ele ainda é mais maquiavélico do que eu", pensou, "quer é que eu entre por ali dentro a chamar por ele preocupada. Realmente, não há paciência"
Foi até à cozinha e preparou um café para si própria.
Pensou nas últimas palavras do marido.“Ainda me vais pedir desculpa hoje pela forma como falaste comigo”. Realmente ela até era capaz de se ter excedido um pouco. Tinha dormido mal e ainda tinha menos paciência do que de costume. Essa falta de paciência causada pela falta de sono era colmatada por mais teimosia do que o normal. Eram os ingredientes ideais para uma quezília conjugal.
"Tantos anos depois e ainda não percebeu que quando não durmo fico quezilenta?! Se não percebeu, percebesse..." Ela enxotou os pensamentos, lembrando-se como sempre faziam as pazes antes de irem dormir. Muitas vezes, nesses momentos mais íntimos e carinhosos, perguntavam-se se não discutiriam tanto só para depois terem a oportunidade de fazer as pazes. Dali a pouco tudo estaria bem, pensou ela.
Acabado o café, levantou-se e pôs-se a andar de um lado para o outro, em passo rápido, revivendo a discussão enquanto esfumava a recém adquirida cafeína e gastava a já bastante coçada carpete do corredor-
Três horas haviam passado. Pareciam muitas mais.
De repente sentiu um calafrio na espinha. Daqueles arrepios gelados que fazem o cérebro estagnar estarrecido perante uma possibilidade horrorosa demais para poder ser verdadeira. E se lhe tivesse acontecido alguma coisa? Ainda havia pouco tempo tinham recebido os resultados das análises ao sangue e ele tinha acusado um certo excesso de colesterol. E ultimamente andava mais cansado. Lembrou-se como uns dias antes se tinha queixado de que as escadas se tinham tornado cansativas. E a discussão tinha sido um pouco mais acalorada do que o costume. E pensando bem ele tinha saído da sala a suar ligeiramente...
"Oh Meu Deus!", ela tentou afugentar esse pensamento. Mas não conseguiu. Tinha passado demasiado tempo.
Dirigiu-se imediatamente e em passo estugado para a porta do escritório. Seria uma estupidez se algo acontecesse e ela em nome de um orgulho parvo e pequenino não estivesse lá para o ajudar. Abriu a porta com a firmeza de quem cumpre aquilo que tem de ser e olhou em redor do compartimento. Pareceu-lhe vazio. De repente reparou num par de pés
descalços
que sobressaiam no chão em relação à secretária.
"Zéééééééééeéé...", ouviu-se a gritar em plenos pulmões, precipitando-se para o seu marido que se encontrava deitado no chão de olhos fechados.
Ninguém, nem a própria Joana, pode afirmar com certeza sobre o que lhe terá passado pela cabeça naqueles milésimos de segundo que demorou a alcançar o corpo imóvel do seu marido. Agarrou-se a ele com toda a força
"Desculpa, querido... Desculpa! Eu estou aqui! Está tudo bem!"
Imagens desconexas de uma vida partilhada a dois principiaram a escorrer-lhe pela face.
Talvez por isso mesmo ela sentiu um forte aperto na sua perna direita. Abriu os olhos e deparou-se com aqueles olhos verdes a que estava tão habituada.
"Estava a ver que não...", disse-lhe ele com um ar trocista,"... Já me doíam as costas..." E acrescentou com aquela malícia de canto de boca, "Eu disse-te que ainda me irias pedir desculpa hoje..."