Pensamento, m. - Acto ou efeito de pensar. Qualquer acto de inteligência. Fantasia. Ideia. Espírito. Uso da razão. Reflexões

segunda-feira, abril 28, 2008

ZECA AFONSO

"Traz outro amigo"



Não sendo o 25 de Abril o poço de virtudes que tantos lhe querem atribuir, do muito que teve de bom também muito permitiu de menos bom, tal como tudo na vida aliás, mas não deixa de ser a razão pela qual posso dizer isto mesmo sem me preocupar com quem ouve a minha opinião. Não é a única razão, tivessem muitos dos que tentaram influenciar o rumo de Portugal no pós-25 de Abril triunfado e provavelmente não poderia mesmo dizer aquilo que penso, mas para que esses não se arroguem do património da liberdade que contra ela tanto conspiraram por esse PREC fora, para que a liberdade seja mesmo património de Portugal, aqui fica uma homenagem a esses ventos de mudança que com tudo o que de bom e mau lhe adveio fizeram de ontem o Portugal de hoje. E que em tempos que continuam de apagada e vil tristeza, não nos esqueçamos que para se ser livre não basta apregoar a liberdade é preciso exercê-la, com genica, força e responsabilidade.

De qualquer forma reduzir o Zeca Afonso e a sua obra ao 25 de Abril e à Revolução também me parece hipócrita, é a mesma coisa que não ler Saramago porque o senhor é do Partido Comunista. Azares do destino, a cada um o seu fado, fica aqui a anotação ao dia que mudou o nosso país, mas também, e valendo por si só, a homenagem ao homem que nos deixou um legado musical que só honra Portugal e a lusofonia.

JOAQUIM PAÇO D'ARCOS, "HERÓI DERRADEIRO" (II)




















"À memória de Carlos Burnay da Cruz Sobral, português leal e destemido, morto aos 26 de Novembro de 1926, no Hospital de Caia, na Zambézia, em consequência dos ferimentos recebidos num combate corpo a corpo com um leão."

Dedicatória de Joaquim Paço d'Arcos no seu romance "Herói Derradeiro"

JORGE PALMA

"Encosta-te a mim"

JOAQUIM PAÇO D'ARCOS, "HERÓI DERRADEIRO"




















"Numa tarde de Julho de 1926 atravessava as florestas de Cheringona, no território da Companhia de Moçambique, um expresso de uma só carruagem da Trans-Zambézia Railway.
Regressava da Zambézia à Beira o governador do Território. Acompanhavam-no, além dos seus ajudantes, o autor destas linhas e uma pessoa estranha à comitiva: Carlos Sobral.
Carlos Sobral era ao tempo director em África da «Mozambique Industrial & Commercial Coy. Ltd.», um desdobramento, para fins comerciais, da Companhia de Moçambique.
Naquele pequeno salão da carruagem de caminho-de-ferro conversaram durante longas horas da monótona viagem, esses dois homens, tão profunda e apaixonadamente portugueses, que o destino por ironia, mas por útil ironia, colocara a dirgir interesses que meses mais tarde se haviam de patentear tão opostos aos nacionais.
Eram homens de diferentes idades: o governador aproximava-se dos cinquenta, Carlos Sobral andaria pelos trinta. (...)
Mourejando por terras onde frequentemente o português se avilta, adoptando os hábitos de indolência a que o clima convida, os usos mesquinhos próprios dos meios pequenos, esses dois homens, ao contrário, mantinham íntegras em si as melhores qualidades da raça. Eram dois verdadeiros portugueses.
Carlos Sobral estava em conflito aberto com os dirigentes londrinos da companhia que superintendia em África. Admitia como muito provável a hipótese de repudiar a situação em que trabalhava. Era um lugar magnífico, e muitos outros homens, em circunstâncias idênticas, transigiriam em tudo para não perder a situação que usufruíam. Ele não transigia em nada e ao perguntarem-lhe o que iria fazer no caso de se encontrar desempregado, respondia tranquilo, cheio de confiança e de optimismo: trabalhar. E já se expandia por todo um projecto de se dedicar à cultura do solo, à criação de gado, na vida rude e fatigante do mato, que ele tanto amava.
É preciso conhecer certos territótios de África e a eterna dependência em que o português ali vive do Estado ou das grandes companhias, alheado por completo das qualidades de iniciativa que fazem dele um elemento tão útil no Brasil, é preciso conhecer aqueles meios de parasitagem e de covardia, para admirar em todo o seu valor a serena confiança com que Carlos Sobral, por ser português de «antes quebrar que torcer», trocava uma cómoda e rendosa situação pela tão mais humilde e ingrata profissão de pequeno agricultor.
Nessa tarde - curiosa coincidência do acaso! - esses mesmos homens perante cuja arrogância Sobral não cedia, assinavam em Londres o terceiro e último contrato sobre o porto da Beira. Meses decorridos, por uma triste e dolorosa fatalidade, Carlos Sobral morria na Zambézia, vítima de si próprio, da sua coragem magnífica.
Alguns dias depois do seu falecimento chegavam à Beira, para conhecimento do governador, e para serem executados, os contratos do porto.
O Governador não os executou. Era a vez dele, agora, num assunto de muito maior gravidade, assumir a atitude para a qual, meses atrás, serenamente, dignamente, Carlos Sobral se encaminhava.
A minha observação fora exacta. Aqueles dois homens haviam-se estimado porque ambos possuíam, entre a degradação e a vileza quase gerais, essa rija fibra moral dos portugueses de outro tempo.
Ao retratar a figura primacial deste pequeno romance eu não quis biografar Carlos sobral, pois que a sua vida foi muito diferente da do protagonista. Este é solteiro e Carlos Sobral era casado com uma nobilíssima senhora que foi a mais dedicada e a mais inteligente auxiliar da sua vida aventureira e trabalhosa.
Eu não quis fazer História, pretendi escrever umas páginas poucas em que focasse a miséria duns e a grandeza de outros.
E dar-me-ei por feliz se no decorrer destas linhas transparecer, em homenagem a Carlos Sobral, alguma coisa do seu espírito audacioso e cavalheiresco e da sua alma tão grande e tão justa."

in INTRODUÇÃO, "Herói Derradeiro" de Joaquim Paço d'Arcos

ANDREW BIRD

"Imitosis"

IDENTIDADE (III)

"A cada hora mudo o meu ser,
e assim exerço o meu despótico poder."

"Fausto", Goethe

SPOON

"The Underdog"

IDENTIDADE (II)

"Eu sou aquele que poderia ter sido,
e o meu nome é Nunca Mais."

Dante Gabriel Rossetti

sábado, abril 19, 2008

IDENTIDADE

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."

in Tabacaria, Álvaro de Campos

quinta-feira, abril 03, 2008

INDIANA JONES

Vídeo removido

ANA MOURA

Aqui há uma semana ou duas tive a oportunidade de ir jantar à "Casa de Linhares", por muitos conhecida como o "Bacalhau de Molho". Ouvimos um cartaz de fadistas fantásticos, jantámos muito bem e os minutos deram em horas e, sem dúvida, foi uma grande noite à portuguesa, daquelas que nos lembraremos sempre.

Mas se há algo a destacar é a voz e a alma da Ana Moura. Fantástica, aliás a sua carreira vai de sucesso em sucesso, para muitos (onde eu humildemente me insiro) a melhor fadista portuguesa da actualidade, tem uma voz espectacular e, mais do que isso, uma alma que nos inunda quando temos a oportunidade de a escutar. É de ouvir, sentir e elevarmo-nos no ar, curvados perante o talento puro de quem faz aquilo que nasceu para fazer. Delicioso!

Aconselho vivamente a experiência de a ouvir ao vivo, sem microfones, e a uns míseros metros de distância, se bem que agora terão de esperar porque a Ana Moura anda por terras estado-unidenses em digressão.

Aqui fica um fado para apreciar:

"Os Búzios"

ONE MILLION STRONG

Climate change is an urgent issue that requires immediate solutions. That's why I've joined with Al Gore and others across the country and around the world who want to halt global warming.

We're on the verge of being over one million strong and I'm asking you to join us. Please click here today to become part of the solutions to global warming:

http://wecansolveit.org/alliance

If leaders in business and government are going to make stopping climate change a priority, we need to send a loud message that we want action now. That's why I'm asking you to get involved today:

http://wecansolveit.org/alliance
Together, we can stop global warming.

JOAQUIM PAÇO D'ARCOS, "ANA PAULA, PERFIL DE UMA LISBOETA"





















O romance "Ana Paula" foi premiado pela Academia das Ciências com o Prémio Ricardo Malheiros 1938. No entanto, a par da distinção, a academia divulgou um parecer onde criticava "as imperfeições, deslizes de semântica, erros de gramática, defeitos de expressão, incorrecções de grafia, expressões francesas ou afrancesadas" bem como condena a "expressão deturpada que ameaça tornar-se endémica na expressão literária portuguesa de hoje".

Nesse mesmo dia, 25 de Novembro de 1938, o autor, Joaquim Paço d'Arcos, enviou à Academia das Ciências a seguinte missiva:

"Ex.mo Sr. Secretário Geral da Academia das Ciências,

Soube pelos jornais da tarde de ontem que a classe de Letras da Academia deliberou conferir-me o Prémio Ricardo Malheiros 1938. Fui concorrente e não sou tão imodesto que possa, em boa verdade, dizer não me ter sido agradável receber essa honrosíssima distinção. Mas a notícia de ontem não era completa; vi hoje que o prémio não me fôra concedido por me ter sido reconhecido o direito de conquista e sim por muita indulgência e graciosa atenção dessa Academia.
Aprecio muitíssimo as dádivas dos Mecenas mas não costumo implorá-las.
E nas condições em que o prémio foi concedido a minha dignidade literária não me permite aceitá-lo.
Confiado em que V.Ex.a compreenderá o direito que me cabe de dar esta carta a publicidade dada ao parecer da Academia, subscrevo-me de

V. Ex.a
Com a mais alta consideração
At.º V. Obg.º
Joaquim Paço d'Arcos"

A resposta não se fez esperar e em 16 de Dezembro do mesmo ano, a Academia, pela mão do seu Presidente, o Sr. Dr. Júlio Dantas, lamentou a "resolução do moço e ilustre escritor, esperando que, esclarecidos os factos" não manteria a decisão de desistência do prémio.

Na tréplica o autor, o Sr. Joaquim Paço d'Arcos, manteve a sua decisão e fez notar o seguinte:

"Mas a língua é o que o povo e os artistas fazem dela e não o que os gramáticos querem. Correspondessem as minhas obras exactamente ao espírito da época em que foram escritas e à linguagem vulgar nela falada, ganhassem elas o favor do público pelos anos fora e os meus netos ainda haveriam de assistir ao divertido espectáculo de a Academia, no ano 2000, em parecer condenatório de um moço escritor que pretendesse laurear, abonar, com passos da "Ana Paula", o vernáculo de uma lei transgredida. O que hoje é condenado entraria assim na gaiola térrea em que os gramáticos obstinados pretendem enclausurar para todo o sempre o génio da língua em permanente evolução".

E termina dizendo:

"Passada a celeuma eu voltarei ao silêncio da minha vida, cautelosamente afastado dos vossos prémios. E nesse silêncio, com a ajuda de Deus, tentarei prosseguir a minha carreira, utilizando a língua portuguesa e servindo-a, não como seu escravo, mas como um dos seus mais humildes lavrantes".

Com um estilo irónico, de uma quase paradoxal inocente perspicácia, foi um prazer ter conhecido a literatura do Joaquim Paço d'Arcos. Recomendo vivamente e agradeço à Ana (ver o blogue da Ana aqui) que mo apresentou.