Pensamento, m. - Acto ou efeito de pensar. Qualquer acto de inteligência. Fantasia. Ideia. Espírito. Uso da razão. Reflexões

terça-feira, novembro 24, 2009

JARED DRAKE, VISIONEERS


Este filme será tudo menos consensual. Num futuro próximo e distópico, os EUA são assolados por uma improvável vaga de explosões humanas. Aparentemente, certos indivíduos chegados a um certo ponto insustentável de stress acabam por literalmente rebentar. Até aqui pode parecer pura parvoíce mas não é. O que é é uma original e muito interessante crítica à sociedade moderna e ao materialismo consumista que parece alastrar e impregnar todos os domínios da nossa vida. Ao acompanharmos a personagem principal na sua tentativa de não rebentar acabamos por viajar rumo ao âmago da experiência humana e às grandes questões que, aparentemente, muitos de nós hoje em dia esquecemos. Este filme foi tudo menos aclamado pela crítica. Pelo contrário, ao ser classificado como comédia, muito do público que obteve foi à espera de umas boas gargalhadas. Claramente não teve tal coisa porque Visioneers não é uma comédia apesar de ter momentos de comédia e como protagonista um notório Stand Up comediant que obteve recentemente sucesso com The Hangover (2009). Visioneers é muito mais do que uma comédia. É, ao melhor estilo literário de Orwell com o seu 1984 ou do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, uma crítica satírica a uma sociedade cada vez mais desligada das suas mais profundas emoções, por isso mesmo cada vez menos humana a fazer lembrar o A Clockwork Orange (1971) de Stanley KubricK. O filme conta ainda com a excelente participação de Zack Galifianakis que acrescenta dimensão ao filme com uma interpretação séria e intensa, características aliás que fazem sucesso na sua comédia (aconselho vivamente o seu Special no Comedy Central). Ao mesmo tempo contamos com uma bem conseguida realização de estreia de Jared Drake que exalta a intensidade da narrativa. Finalmente o argumento, também de estreia, de Brandon Drake (são irmãos) é francamente bom. A estória está ligada, vem em crescendo e surpreende-nos, não por qualquer twist mas pela densidade que consegue transmitir. Uma surpresa completa. Um trabalho que pela desilusão imediata comercial e pela qualidade substantiva que apresenta tem tudo para ser um filme de culto de uma geração mais nova.
Votação IMDB: 6.5
Votação Desblogueada: 9

THE TARANTINO CODE

Muito bom, vale a pena dar uma olhadela. E agradeço a confirmação de que não estou louco, sim, tal como há anos ando a dizer, o Tarantino é igual ao Roger Federer.

Apanhado aqui.

quinta-feira, novembro 19, 2009

WOODY ALLEN, "WHATEVER WORKS"


No que diz respeito a este filme tenho de começar por uma declaração de interesses: Primeiro, tenho o Woddy Allen como o meu realizador preferido; segundo, considero o Larry David como, provavelmente, o maior génio da comédia televisiva dos últimos vinte anos. Juntar estes dois talentos gerou em mim grande antecipação. Não fiquei desiludido. Woody Allen, num estilo teatral, consegue fazer uma comédia simples e satírica onde, sem grandes surpresas, nos apresenta um conjunto de estereótipos que através de interacções banais tentam descobrir o amor. No fundo a tese, já conhecida é certo, baseia-se na ausência de sentido existencial e faz uma apologia do amor como, se não o sentido, pelo menos o significado dessa mesma existência. Simples, simpático e divertido. Não é de estranhar que temáticas filosóficas presentes em trabalhos mais antigos como Annie Hall (1977), Manhattan (1979) ou Hanna and Her Sisters (1986), reapareçam aqui porque este guião já tem mais de trinta anos. Não será o melhor trabalho de Woody Allen mas depois do seu "período inglês" e do, quanto a mim, pouco conseguido Vicky Cristina Barcelona (2008) este regresso a Nova Iorque merece uma especial saudação. Quanto a Larry David, o que dizer do talento por detrás de Seinfeld e de Curb Your Enthusiasm? Se é certo que o papel de Boris Yellnikov não foi escrito a pensar nele (nos anos 70 David andava a penar pelos bares de stand up comedy de Nova Iorque enquanto sobrevivia como motorista particular ou outros trabalhos do género)a verdade é que lhe assenta como uma luva. Quanto a mim um sucesso de casting. Uma última referência para Evan Rachel Wood. Já a conheço desde pequenina na série de final dos anos 90, Once and Again, e já se vislumbrava ser um talento natural. A confirmação da esperança nesse talento, para mim, veio com o espectacular The Wrestler (2008) onde faz uma lateral mas excelente aparição. Aqui volta a não desiludir no papel teatral de uma ingénua que chega à grande cidade. Ainda ouviremos falar muito dela, é a minha convicção. Quanto a Whatever Works, quem não gosta de Woody Allen ou de Larry David não vai gostar deste filme mas quem aprecia dará o tempo como muito bem empregue.
Votação IMDB - 7.4
Votação Desblogueada - 8

sábado, novembro 14, 2009

PLANO INCLINADO


Vejo este programa e penso naquela gente que anda para aí a defender com unhas e dentes o socretinismo vigente. E recrudesce em mim a firme convicção de que é preciso agir. Seja por olhos vendados, seja por ignorância, seja, como é tantas e tantas vezes, por interesse que ele agem, só poderão ser criticados pela acção política. Se o actual estado de coisas não representa a absoluta necessidade de um toque a reunir, ou representando-o não é percepcionado como tal, então "nuvens negras", muito negras virão no horizonte. Eu falo só por mim, é certo, mas prezo muito dormir de consciência tranquila. Esta gente tem que ser impedida.

HÁ ÁGUA NA LUA


"É a confirmação: no lado escuro da lua, nas crateras permanentemente obscuras do pólo sul, há muita água congelada. O choque do motor de um foguetão Centauro contra a cratera Cabeus, a 9 de Outubro, observado de perto pela sonda LCROSS da NASA, permitiu confirmar o que outros engenhos enviados até ao satélite natural da Terra tinham já sugerido com bastante certeza".

sexta-feira, novembro 13, 2009

O BOM, O MAU E O VILÃO


O Bom é Sócrates, evidentemente. O Mau é Armando Vara porque, ao contrário de Sócrates que não sabe nada de negócios privados, andou a fazer o que não devia. Já o Vilão é, como não poderia deixar de ser, o jornalista que nos mostra isto. Porquê? Porque insulta o Bom da estória.

O problema da repetição nauseabunda desta historieta (suspeitas sobre Sócrates e consequente resposta deste a acusar tudo e todos de calúnia) não é ter de ouvir incessantemente o indecente acto de vitimização de Sócrates, infelizmente esse sacrifício decorre da democracia que temos (já se sabia ao que se ia nas últimas eleições, voltámos a elegê-lo, isto é um problema também mas de outro nível). Não. O actual problema da repetição constante desta vitimização é a quantidade absolutamente inacreditável de "casos" em que o nosso Primeiro-Ministro está permanentemente envolvido. Vêm-me à memória dois provérbios populares: 'A mulher de César não basta ser séria, é preciso parecer'. E também o, muito popular, 'onde há fumo há fogo'. Com Sócrates, pelos vistos, aplica-se o inverso da sabedoria popular: Onde há muito fumo, não pode haver fogo nenhum e malandros dos que simplesmente dizem que há fumo, esses que se calem mesmo que de tanto fumo estejam intoxicados, malandros desses vilões que põem à vista de todos que, independentemente de ser séria ou não, a mulher de César pelo menos não o parece ser.

Há aqui uma diferença abissal: Existem uns que dizem que a mulher de César, por ser mulher de César ainda tem que ter mais cuidado em parecer séria, ou seja, não basta ser, é preciso que não existam dúvidas quanto à sua seriedade; por outro lado, existem outros que nos dizem que a mulher de César, só por ser mulher de César, é séria e por isso aqueles que nos mostram que, independentemente de o ser ou não, pelo menos não o parece ser, esses são caluniadores. Quem não percebe a gravidade desta inversão, não percebe a nobreza e especificidade da actividade política. É por isso que o provérbio não fala da mulher do João, fala da mulher de César. E quem não percebe isto não deveria exercer cargos públicos.

quinta-feira, novembro 12, 2009

SOMOS DOIS

"Tenho de dizer que não gosto nem da forma nem da substância da actividade governativa do primeiro-ministro, basicamente porque não lhe reconheço um projecto digno desse nome para o País e porque a arrogância me incomoda. Aliás, sempre entendi a arrogância como uma espécie de fraqueza.
Mas gosto ainda menos de ver uma das mais altas individualidades do Estado envolta em suspeitas e dúvidas (justas ou injustas), corrosivas da confiança dos Cidadãos na Democracia e demolidora para as Instituições. As desgraças dos adversários políticos não me contentam nem um pouco. E ainda se fossemos um País com um tecido social forte, sempre a sociedade teria respostas independentes e lá estaria, por si. Agora, um País habituado a depender dos Poderes Públicos, estando parte das estruturas e agentes políticos, ao mais alto nível, sob suspeita, é insustentável. Há clarificações que a transparência exige. Mesmo que o Governo apareça agora aparentemente tão dócil, tão dialogante, nada apaga esta situação dramática".

Paula Teixeira da Cruz, in CM

PAÍS A SAQUE

A história está toda aqui.

JÁ ERA TEMPO DE ALGUÉM O DEMONSTRAR

Há pouco jornalismo em Portugal que caiba no conceito de jornalismo de investigação.
“Quase nada o que é feito em Portugal cabe no jornalismo de investigação porque se baseia em fontes não identificadas e não garante que as coisas tenham uma verdade. O que sai do jornalismo de investigação tem de ser uma verdade que resiste ao tempo”, defendeu em declarações à Lusa o autor da tese cuja dissertação, orientada pela historiadora Magda Avelar Pinheiro, mereceu 19 valores.(...)
Segundo o trabalho, um jornalismo de investigação foge à agenda institucional ou, quando eventualmente a acompanha, fá-lo com propósitos de denúncia ou de revelação de situações não desejadas pelas entidades que a estabeleceram e selecciona os seus temas entre aqueles cuja relevância pode eventualmente mudar um juízo de valor dominante.(...)
Outro dos pontos da grelha refere que o jornalismo de investigação não é equívoco nem insinua - é afirmativo e factual, fornecendo os elementos necessários para que o público faça livremente o seu juízo de valor ponderado e autónomo."

quarta-feira, novembro 11, 2009

PORTUGAL É O PAÍS QUE MAIS ENVELHECE NA UE

"Desde 1990 houve 28 milhões de abortos na União Europeia. Tantos como a população de Malta, Luxemburgo, Chipre, Estónia, Eslovénia, Letónia, Lituânia, Irlanda, Finlândia e Eslováquia"
Dá que pensar, no mínimo. A questão do aborto vai também para além dos argumentos de quando começa a vida ou de quando pode - deve haver liberdade de escolha. Há um imperativo categórico simples: Se toda a gente abortasse não nascia ninguém e era o fim da Humanidade. O mesmo imperativo categórico vale para o suicídio. Podem dizer-me que ninguém pode impedir-me de me suicidar mas não me digam que se todos o fizéssemos seria uma coisa 'boa'. Não seria. O problema da nossa sociedade dita 'moderna' é que cada vez mais a ponderação entre o 'bom' e o 'mau' têm menos peso face ao interesse pessoal. E isso para mim é 'mau'. Faz-me , no mínimo, muita confusão ver tantos a defender o direito à escolha, outros a defender o direito à vida quando, sejam os abortos legais ou ilegais, a questão deveria ser sempre como permitir que possibilidades de vida abortadas se transformem em vidas efectivas. E se o argumento de isto ser a 'boa' coisa a fazer de uma perspectiva moral não chega, que sirva o do interesse geral: Precisamos dessas vidas para rejuvenescer a nossa sociedade, para perpetuar a nossa cultura e os nossos valores, para continuar a nossa sociedade, para viabilizar a nossa espécie e, se mais nada serve, para pagar a nossa reforma. No final a diferença será sempre entre o interesse geral e os interesses particulares imediatos. Estes últimos tendem a ser egoístas (e pouco inteligentes pois tendem a ser contrários ao interesse particular a longo prazo, se estivermos todos pior então eu também estarei pior) e, interessante curiosidade, o interesse geral tende a ser 'bom' porque trata do bem de todos. É tão simples e, no entanto, como sempre, o debate fica pela superfície ideológica e dogmática. Ou pelo menos em Portugal, no que ao aborto diz respeito, assim foi. Legalizou-se e mais nada se fez. Típico da solução do menor esforço. A factura segue depois.

terça-feira, novembro 10, 2009

DA ESTUPIDEZ DO INTERESSE AVALORATIVO

Um pequeno exemplo como a acção em nome de interesses particulares mas sem valores éticos e morais (que são universais) se transforma numa acção contrária aos superiores interesses de todos nós.


segunda-feira, novembro 09, 2009

HOLANDA VS PORTUGAL (XXII)


Num restaurante em Portugal, no final de uma refeição, somos questionados "se estava bom". Na Holanda perguntam-nos: "did you enjoy?". A diferença é, talvez, subtil mas parece-me que também profunda. Perguntar se estava bom é colocar em questão a qualidade do produto. Se respondermos "não" estamos a dizer que a refeição não era boa. É uma qualificação em relação à refeição. Já no caso holandês pergunta-se se apreciámos, logo a qualificação é em relação à nossa opinião sobre a refeição. Por outras palavras, os holandeses não questionam a qualidade do que servem; já os portugueses fazem (aparentemente) depender a qualidade da refeição que servem da opinião daqueles que a desfrutam. Podemos interpretar esta dicotomia como sendo falta de confiança dos portugueses mas isso não me parece o suficiente porque a comida portuguesa (estou convicto disto) é a melhor do mundo. A questão é outra: Os portugueses perguntam se estava bom porque querem o reconhecimento da qualidade que sabem que têm. E isso é o temperamento de um artista. Os holandeses, por outro lado, seguem uma receita que sabem dar bons resultados. É o traço da organização e do método. O cozinheiro português é um artista romântico. O cozinheiro holandês é um engenheiro eficiente. Sendo que as generalizações são sempre imprecisas, perigosamente vagas e, por vezes, até enganadoras, este traço dicotómico parece-me abrangente à cultura dos dois povos. Um mais romântico e sonhador, outro mais metódico e organizado. Os holandeses são o produto do trabalho árduo de querer sobreviver graças às vantagens da racionalidade humana. Já os portugueses são o sonho improvável de uma terra única e, por isso, um sonho irrepetível. São a corporização da emoção sentimental da luta por uma identidade. São Portugal. Os holandeses querem ser competentes, bem sucedidos e racionais. Já os portugueses querem ser os melhores do mundo e esse sonho romântico é o que faz de nós portugueses. Não tenho dúvidas que falta método e organização em Portugal. Mas isso arranja-se. Já aos holandeses falta-lhes, simplesmente, serem mais portugueses. E isso já não se arranja tão facilmente. Sorte a nossa, azar o deles.

CASCAIS, PORTUGAL