segunda-feira, 9 de novembro de 2009

HOLANDA VS PORTUGAL (XXII)


Num restaurante em Portugal, no final de uma refeição, somos questionados "se estava bom". Na Holanda perguntam-nos: "did you enjoy?". A diferença é, talvez, subtil mas parece-me que também profunda. Perguntar se estava bom é colocar em questão a qualidade do produto. Se respondermos "não" estamos a dizer que a refeição não era boa. É uma qualificação em relação à refeição. Já no caso holandês pergunta-se se apreciámos, logo a qualificação é em relação à nossa opinião sobre a refeição. Por outras palavras, os holandeses não questionam a qualidade do que servem; já os portugueses fazem (aparentemente) depender a qualidade da refeição que servem da opinião daqueles que a desfrutam. Podemos interpretar esta dicotomia como sendo falta de confiança dos portugueses mas isso não me parece o suficiente porque a comida portuguesa (estou convicto disto) é a melhor do mundo. A questão é outra: Os portugueses perguntam se estava bom porque querem o reconhecimento da qualidade que sabem que têm. E isso é o temperamento de um artista. Os holandeses, por outro lado, seguem uma receita que sabem dar bons resultados. É o traço da organização e do método. O cozinheiro português é um artista romântico. O cozinheiro holandês é um engenheiro eficiente. Sendo que as generalizações são sempre imprecisas, perigosamente vagas e, por vezes, até enganadoras, este traço dicotómico parece-me abrangente à cultura dos dois povos. Um mais romântico e sonhador, outro mais metódico e organizado. Os holandeses são o produto do trabalho árduo de querer sobreviver graças às vantagens da racionalidade humana. Já os portugueses são o sonho improvável de uma terra única e, por isso, um sonho irrepetível. São a corporização da emoção sentimental da luta por uma identidade. São Portugal. Os holandeses querem ser competentes, bem sucedidos e racionais. Já os portugueses querem ser os melhores do mundo e esse sonho romântico é o que faz de nós portugueses. Não tenho dúvidas que falta método e organização em Portugal. Mas isso arranja-se. Já aos holandeses falta-lhes, simplesmente, serem mais portugueses. E isso já não se arranja tão facilmente. Sorte a nossa, azar o deles.

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