sábado, 23 de janeiro de 2010

DA EMPATIA (II)

Pressupõe a leitura disto.

Ao contrário do que o "hino à criança" que tanto ecoa por aí poderia fazer parecer, as crianças revelam muita dificuldade em compreender o mundo de uma perspectiva diferente da sua porque não desenvolveram ainda a capacidade para a empatia. Não é fácil desenvolvê-la. É preciso arriscar e perder o medo. É preciso viver: no fundo, é preciso sofrer. No que me é dado a compreender, a marca da maturidade será mesmo essa capacidade de criar empatia, de criar condições de partilha e desejos de altruísmo egoísta baseados na compreensão de que a nossa própria realização depende do outro. E essa é a tragédia da sociedade dita moderna: não atingindo a marca da maturidade, permanece num estado de infantilidade; não processando a empatia acaba por não partilhar o verdadeiro conteúdo emocional apesar de partilhar quase tudo o resto. Ficam pela espuma, pela superfície como crianças a brincar aos pais e às mães, imitam comportamentos de empatia sem verdadeiramente a compreender. E, também, como as crianças que querem sempre o próximo brinquedo, obcecam os infantis adultos com os seus pequenos mundos e (sub)objectivos pessoais. Pior: perdendo a capacidade de se colocar no papel do outro, sem empatia, são capazes das mais horríveis crueldades. Não é por serem maus; são simplesmente crianças sozinhas e infelizes à procura de algo que na (e devido à) sua perspectiva única e egoísta nunca irão encontrar. São seres sem empatia. Querem ser felizes e fazem tudo o que lhes dizem que dá felicidade esquecendo que, sendo a felicidade algo que se atinge na partilha - empatia, na sua solidão ávida de materialista felicidade apenas a frustração os acompanhará. E dessa infantil e mimada frustração nasce um apetite voraz que, a pouco e pouco, nos faz correr sem ninguém saber muito bem para onde se vai. Anseia-se o novo, o moderno, o diferente na busca de algo que não se compreendeu que depende apenas de nós. No nosso infantil egoísmo afundamos-nos num mar de solidão.

1 comentário:

Afonso Vaz Pinto disse...

comentando os teus posts
desse ponto de ávida vontadae por tudo o que é novo
tudo o que luz
centramos a nossa ilusão na satisfação auto-criada
deixando irremediávelmente de pretender conquistar o que nos torna feliz
da miopia...
à cegueira
pk nada do que luz... é ouro
nada
ehhh
quase nada, prontos