domingo, 7 de fevereiro de 2010

UM HOMEM



"Vive sem água nem luz numa casa só acessível através de um caminho sinuoso, perto da aldeia de Babe. Longe de tudo e de todos, Sidónio Tomeno, a completar 75 anos, trocou o conforto de uma habitação pela companhia dos animais In DN
Trocar o conforto de uma habitação no meio de uma povoação por uma casa inacabada, sem água canalizada nem electricidade, no meio do mato, é opção que muitos não tomariam. Mas perto da aldeia de Babe, em Bragança, há quem esteja nessas circunstâncias por gosto.
Sidónio Tomeno tem quase 75 anos e vive completamente isolado, numa casa de tijolo construída há duas décadas, longe de tudo e de todos, só acessível através de um caminho agrícola sinuoso.
Na aldeia tem duas habitações, mas não gosta de lá estar. "Estou aqui sossegado, não me meto com ninguém" refere. "Tenho duas casas, mas não estou lá porque tenho família na França", explica, acrescentando que "se estivesse em Babe tinha de estar sozinho como estou aqui e lá não podia ter os animais". São três burros, um cão e um gato que lhe fazem companhia todos os dias. Entretém-se nas lides agrícolas, sobretudo a tratar das cerca de 400 oliveiras. "Não falta aqui o que fazer."
A casa não tem água nem luz. "Às vezes uso velas, outras vezes um gasómetro e a água vou buscá--la perto" conta. As refeições são à lareira. "Tenho lume de Verão e de Inverno, aqui no monte há muita lenha".
Sidónio Tomeno vai à povoação uma vez por mês para receber a reforma e comprar alimentos. "A cada 20 dias vou a Bragança num táxi e trago as coisas no cofre do carro" afirma. "Compro peixe, polvo e bacalhau, frango, arroz, massa, queijo e tudo o que faz falta, mas carne fresca não posso ter muito tempo porque se estraga", dado que não tem frigorífico.
Os familiares directos, dois sobrinhos, estão ausentes. A pouca sorte nunca quis que casasse, mas no coração ainda guarda a Alicinha, a quem, há 35 anos, falou em namoro a cantar. "Ia casar-me com ela, mas morreu. O pai encontrou-a tombada atrás de uma porta quando chegou a casa, tínhamos as alianças e tudo" recorda. "Fiquei aborrecido e não voltei a querer mais nenhuma mulher."
A sua única preocupação é a saúde, que com o avançar da idade começa a ficar debilitada. "A idade não me permite estar aqui muito tempo, uma pessoa morre num instante", diz, citando um ditado popular: "Hoje figura, amanhã sepultura." Talvez por isso admita vir a mudar-se novamente para a aldeia. "Se me acontecer alguma coisa aí fico, morrem os burros fechados na loja e tudo." Por isso, "prò ano a minha irmã que está na França deve vir de vez, vou para o pé dela e já cuida de mim."

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