Pensamento, m. - Acto ou efeito de pensar. Qualquer acto de inteligência. Fantasia. Ideia. Espírito. Uso da razão. Reflexões

quinta-feira, janeiro 26, 2012

A ESTUPIDEZ VIRTUOSA

"O maior perigo. Se não tivesse havido sempre uma maioria de homens para os quais a disciplinas do seu espírito - «a sua racionalidade» - constitui uma questão de orgulho, uma obrigação, uma virtude, sentindo-se ofendidos ou humilhados por todas as fantasias e divagações do pensamento, na sua qualidade de amigos do «bom senso comum», a humanidade já há muito teria perecido. (...) Continuamente, esta crença, enquanto crença universal, inspira náusea e uma nova cupidez nos espíritos mais subtis; e o ritmo lento que é aqui exigido para todos os processos espirituais, esta imitação de tartaruga que é reconhecida como norma bastaria para transformar artistas e pensadores em apóstatas. É nestes espíritos impacientes que irrompe um verdadeiro prazer na loucura, porque a loucura tem este ritmo alegre! São necessários intelectos virtuosos - oh, quero usar uma palavra que não deixe margem para dúvidas - é necessária a estupidez virtuosa, metrónomos inexoráveis para os espíritos lentos, para que os devotos da fé total permaneçam unidos e prossigam a sua dança: é uma necessidade de primeira linha que tal comanda e exige. Nós, nós somos a excepção e o perigo - temos de andar sempre na defensiva! Bom, há alguma coisa a dizer a favor da excepção, na condição de que ela não queira transformar-se em regra."

Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência (1882)

quarta-feira, janeiro 25, 2012

YOUR SHADOW FELL UPON MY LONELY ROOM

Electric Prunes, I Had Too Much To Dream (Last Night) (1967)

terça-feira, janeiro 24, 2012

A MENINA DA CAPA NEGRA

Talvez para combinar com os seus longos cabelos negros e com os olhos escuros profundos que se entrevêem por debaixo da franja larga, ela veste-se sempre de preto. Com uma espécie de capa larga, onde os braços se confundem com o tronco, assim vai passeando por entre as mesas satisfazendo os pedidos dos lisboetas confortavelmente instalados nas cadeiras daquele salão antigo. Caminha hirta e silenciosa: não percorre o chão de madeira corrida, antes paira suave como uma pena, graciosa e serena, exercendo um domínio tranquilo sobre tudo o que a rodeia. Dou mais um golo na cerveja e, distraído da minha leitura, dou por mim a segui-la com os olhos até ao fundo da sala enquanto carrega, com as duas mãos, um tabuleiro redondo preenchido com uma garrafa de vinho e alguns copos. Chegada à mesa do fundo, calmamente, com a classe que naturalmente emana, pousa o tabuleiro e, pegando no saca-rolhas, principia a desenrolhar a garrafa. Roda para um lado, faz força, volta a rodar mas não é bem sucedida. Tenta de novo e vê-se forçada a mudar de posição. Um assomo de preocupação vislumbro eu na forma como os seus movimentos ganham uma certa rapidez que nela ainda não tinha visto. Deste lado da sala, ao pé das janelas envidraçadas aos quadradinhos, vejo-a, a ela e ao seu vulto negro, de costas para mim, de volta da garrafa maldita. Tenho vontade de levantar-me e ajudá-la. Contenho-me. Ela continua, preocupada, imagino eu, na sua tentativa de desenrolhar a garrafa: mais uma volta para ali, um puxa para aqui até que, finalmente, a rolha salta para fora. Servido o vinho, a graça e a serena tranquilidade que a caracterizam regressam, ri-se com a naturalidade que o carácter nobre lhe oferece e, voltando-se, volta a pairar por cima de todos nós enquanto, sorte a minha, me lança um sorriso que, na sua timidez envergonhada, desvenda um até aí escondido embaraço pela sua pouca destreza com rolhas e garrafas. E foi com esse sorriso que se instalou em mim a grande dúvida: se serão as musas que, afinal, caminham no chão como todos nós ou se, pelo contrário, são elas, as tágides, que nos fazem elevar a pairar juntamente com elas.

segunda-feira, janeiro 23, 2012

SEEMS LEGIT

NO ANDAIME

Moldavos e africanos empoleiram-se em andaimes periclitantes do outro lado da minha rua, a uma altura de mais de quatro andares. Andam sem medo, carregam pesados materiais e trabalham das sete da manhã até às cinco da tarde. Pela hora do almoço metem uma bucha, barata e rápida, enquanto bebem uma cerveja estrangeira empoleirados sem cordas ou protecção num ferro estreito demais. Riem-se e mandam piadas, os camaradas de guerra. São homens que assobiam alegremente enquanto enfrentam a morte gritada por um abismo que não os amedronta.

DA BANALIDADE

Na febre egótica contemporânea a auto-definição é quase obrigatória: "ah, eu sou muito isto ou aquilo" abunda nas revistas, nas televisões e nas conversas de café mais aborrecidas. No entanto, como nem a profundidade de pensamento nem o conhecimento abundam, nesses fogachos de pretenso auto-conhecimento, a banalidade e a superficialidade do triste mundo em que vivemos revela-se em todo o seu esplendor em afirmações como: "é que eu não suporto pessoas falsas". Que original, coitada, deve ser a única.

WIKIPEDIA

quarta-feira, janeiro 18, 2012

UMA PERGUNTA SIMPLES

Quanto ganha Carvalho da Silva?

A MODA DO DIA

O facto de se andar constantemente em 'modas' e em coisas que toda a gente faz, repete e comenta é mais um exemplo da cultura igualitária e superficial que impera por aí: primeiro, para que seja acessível a todos e poder ser uma moda (lucrativa para alguém) tem que ser algo simples, banal e pouco espesso para que seja facilmente compreensível até pelos espíritos mais básicos; segundo, todos experimentam a mesma coisa superficial ficando depois por partilhar alguma experiência profunda: na igualização todos partilham a experiência imediata individualmente por igual porque experimentam a mesma coisa. Ora, para que uma conversa seja minimamente interessante, convém que os interlocutores não saibam as mesmas coisas: para que aprendam uns com os outros os interlocutores têm que ter tido experiências diferentes. Assim, percebe-se, o conhecimento partilhado vem de experiências individuais diferentes entre si e, conclui-se, a igualização generalizada fomenta a ignorância ao impedir a verdadeira partilha de conhecimento: todos experimentam o mesmo, falam do mesmo - um mesmo que é superficial e pouco profundo. No final sobra o aborrecimento de quem, de facto, aprecia algo mais do que apenas o banal.

AR PURO

A grande vantagem de estar-se fora do esquema é, por exemplo, não fazer ideia de que raio de coisa é essa do 'ai se eu te pego' que andam por aí falar e não ter de poluir a cabeça com a moda do dia.

FORA DA REDE

Quando se passam horas a navegar no Youtube por músicas que não passam das cem visualizações percebemos que, de facto, de certa forma, para nossa felicidade, estamos fora da rede.

IS THERE ANYBODY OUT THERE?

Fuchsia, 'Just Anyone', Fuchsia (1971)

terça-feira, janeiro 17, 2012

IMPOSSIBILIDADE

A ideia de que podemos transformar a sociedade numa determinada visão particular de utópica felicidade obriga ao pressuposto de que podemos conhecer o Homem e o seu conceito de felicidade. Ora, tal pressuposto, como qualquer pessoa de bom senso deveria saber, é impossível.

DESCONTROLO

Temos a tendência para esquecer que tudo aquilo que nós somos é a nossa memória e que esta é feita de impressões, imperfeitas e subjectivas, acerca de factos que ocorreram, na sua esmagadora maioria, independentemente da nossa vontade. Daqui retirar a ideia de que a vida e a sociedade é algo que podemos controlar precisa, no mínimo, de muito boa vontade. Para não dizer estupidez.

SYD BARRETT

Volta não volta deparo-me com alguma música ou algum álbum que verdadeiramente me entusiasma e que até aí eu conhecia apenas de nome, muito mal ou, até mesmo, desconhecia por completo. É o caso do excelente The Madcap Laughs de Syd Barrett. Já conhecia a sua música dos tempos de fundador dos Pink Floyd e, de forma genérica, a sua estranha história de vida após a substituição no grupo por David Gilmore, seu antigo colega de escola. Barrett, conhecido pelos seus problemas mentais, acabaria os dias numa pequena vivenda, comunicando apenas com a sua irmã, lendo muito e cultivando uma pequena horta. No entanto, logo após a saída dos Pink Floyd, em 1968, grava este álbum que sai em 1970. Sei muito pouco de música para poder dizer porque é que considero esta rude e tosca compilação de takes, por vezes interrompidos e inacabados, como um grande álbum; posso, no entanto, afirmar a minha firme suspeita de que muito do que ouvi feito nos últimos quarenta anos tem a sua origem aqui. Uma obra prima da viragem dos anos 60 para os 70.

ISSO PASSA


No Sábado tive o privilégio de poder assistir ao lançamento do livro Isso Passa do meu amigo João Miguel Henriques. Para além de ter tido a oportunidade de adquirir a obra com o respectivo autógrafo ainda pude ouvir o João a declamar um poema da sua autoria. Deixo-vos aqui o poema Na Sala.

estão na idade os pais
em que há medo de um certo futuro
comem à mesa e trocam olhares
sabem que os anos virão
mas não o que virá com eles

entretanto
no outro lado da sala
falta-me o tunisino jaziri
para completar a colecção de cromos

in João Miguel Henriques, Isso Passa, Artefacto, 2012

sexta-feira, janeiro 13, 2012

UMA CERTA SATURAÇÃO

A histeria, a ignorância, a tacanhez são tudo características próprias da infantilidade não ultrapassada e, como evidente será, as crianças sabem gritar mas não sabem gerir países.

quinta-feira, janeiro 12, 2012

THE DOORS

The Doors, L.A. Woman (1971)

A (IN)JUSTIÇA (ou: só à chapada)

A incompetência sempre justificada a coberto de uma pequena norma processual ou de determinada obrigação legal ou estatutária é o melhor exemplo de como o excesso legalista é inimigo da justiça. A desresponsabilização decorrente das normas processuais é o melhor exemplo da infantilidade (eu não tenho de decidir por mim só tenho de cumprir o processo), da impunidade (se se safa o criminoso é irrelevante, o importante é que se cumpra o processo) e da incompetência (cumpre-se o processo - o meio -  e falha o objectivo de justiça - o fim) que grassa neste país. Aqui fica o exemplo de uma palhaçada.

quarta-feira, janeiro 11, 2012

WHOPPER

Mais de dezassete anos depois de Pulp Fiction, ontem, pela primeira vez, entrei num Burger King e experimentei um Whopper. Vou repetir (e da próxima vez vou acompanhar com uns anelinhos de cebola que o indivíduo com ar de entendido pediu a seguir a mim).

VELVET UNDERGROUND

The Velvet Underground, The Velvet Underground & Nico (1967)

LIBERDADE INDIVIDUAL (III)

Todo o investimento ou gasto estatal é feito com os nossos impostos. Assim sendo, estes representam a prerrogativa que o Estado tem de nos dizer a nós como devemos gastar o nosso dinheiro limitando, dessa forma, a nossa liberdade individual. Atribuir subsídios a artistas que ninguém vê, fazer doutrina sobre as vidas privadas das pessoas, policiar os costumes dentro de estabelecimentos privados e alimentar infinitas fundações, empresas e institutos com automóveis e salários topo de gama não é a forma como eu quero gastar o meu dinheiro logo entendo esses gastos como um abuso do Estado na esfera da minha liberdade individual.

LIBERDADE INDIVIDUAL (II)

Normalmente assume-se que o Estado deve ser a entidade (superior) que assegura o bem-estar das populações. Esquecem-se, no entanto, que todo o dinheiro que o Estado tem vem das pessoas e que se estas ficarem à espera que o Estado lhes assegure o seu bem-estar vão viver na miséria porque não haverá dinheiro para distribuir. Em última instância, a responsabilidade sobre o bem-estar cabe a cada um.

LIBERDADE INDIVIDUAL

Normalmente a discussão política baseia-se sempre no pressuposto de que o Estado deve proteger as pessoas ficando sempre de fora da equação a forma como se deve proteger as pessoas em relação ao Estado. Isso explica muito como estamos.

terça-feira, janeiro 10, 2012

UM PROCESSO

Jogar o jogo da vida com afinco e perseverança, sempre sem desistir, quando se sabe que a inevitabilidade da morte espera sempre serena e eternamente no final de todo e qualquer caminho que se escolha é, ao mesmo tempo, uma loucura e a salvação: loucura porque inútil - nada sobreviverá sempre, logo, em última instância, perdemos sempre; salvação porque é a única escolha que permite a felicidade - não pode ser feliz aquele que não aceita que está condenado. É preciso, no entanto, uma certa dose de sabedoria para que se entendam estas duas coisas simultaneamente: apenas aceitando a absoluta inutilidade de todo e qualquer esforço se pode compreender que a satisfação reside no jogo e não no resultado final. Assim, a felicidade será, forçosamente, um processo, um caminho e não um fim. Uma escolha, portanto.

segunda-feira, janeiro 09, 2012

PINK FLOYD (V)

Pink Floyd, The Divison Bell (1994)

AINDA A HOLANDA

Como é que a Holanda consegue ser um país fiscalmente mais atractivo do que Portugal e ainda pagar uma licenciatura e um mestrado a todos os holandeses (e fazer preços bonificados para os estrangeiros)  que o desejem, ao mesmo tempo que oferece uma mensalidade para alojamento para os estudantes (desde que tenham um emprego part-time) e fazerem isto tudo e não estarem falidos, muito pelo contrário? Onde estão os nossos impostos? Para que servem?

THE GRASS IS GREENER

Pink Floyd, 'High Hopes', The Division Bell (1994)

P2P

Não consigo aceitar o problema da partilha de ficheiros online para os músicos: fazem publicidade gratuita ao seu trabalho e enchem-lhes os concertos; ao mesmo tempo permite aos novos talentos, utilizando as redes sociais, entrarem no mercado sem o crivo das editoras: é o público (não só a manada que as editoras perseguem mas todos os nichos também) que manda. Não me custa nada aceitar o reverso da medalha: que tenham os artistas que fazer concertos para ganhar a vida. Essa coisa de fazer um disco meia leca, bem publicitado pela canal de televisão da mesma empresa do que a editora do tal disco e ficar a viver à sombra dos adolescentes descerebrados que acorrem às lojas com notas de euros na mão não me parece coisa de grande "justiça social". Claro está que se percebe a resistência: grandes interesses económicos que não se adaptam à inovação tecnológica (nada de inovador, que é feito da Olivetti ou da Kodac?). Ao mesmo tempo ideias assentes nos conceitos de trabalho e liberdade são coisas que fazem muita confusão nos dias de hoje.

BÁSICO

O princípio é simples: quanto mais se taxar mais os contribuintes vão comprar noutro lado; quanto mais se taxar mais os contribuintes vão depositar noutro lado; quanto mais se taxar mais os contribuintes vão para outro lado. Logo: quanto mais se taxar menos há para se taxar, menos há para distribuir, menos riqueza há.

PINK FLOYD (IV)

Pink Floyd, Live At Popeii (1972)



O melhor de todos.

PINK FLOYD (III)

Pink Floyd, The Dark Side Of The Moon (1973)

PINK FLOYD (II)

Pink Floyd, Wish You Were Here (1975)

PINK FLOYD

Pink Floyd, The Wall (1979)

sexta-feira, janeiro 06, 2012

ALL THE VERY BEST OF US STRING OURSELVES UP FOR LOVE

The National, 'Vanderlyle Crybaby Geeks', High Violet (2010)

PROÍBAM-SE OS COENTROS

Posso garantir que, desde que num ambiente citadino, arranjar uma mão cheia de coentros numa hora de aperto antes do jantar é mais complicado do que umas gramas de qualquer substância psicotrópica à escolha do freguês.

HEAVEN

Louis Armstrong & Ella Fitzgerald, 'Cheek to Cheek', Ella & Louis (1956)

A PROPÓSITO DA MAÇONARIA

Os porcos só chafurdam na lama porque há lamaçal. Limpe-se o esterco estatal, ataque-se o bloco central de interesses e bem podem vestir os aventais que quiserem que, quanto muito, fritam um bife.

ABRIR OS OLHOS

Na Holanda, num território com metade do tamanho do português e com mais 50% de população do que a portuguesa, o salário mínimo é quase 3 vezes superior ao nosso ao mesmo tempo que no supermercado os preços dos produtos, a serem mais caros, são-no em pouco mais do que 10% em relação aos nossos. Se calhar serem atractivos para empresas se sediarem em território holandês é capaz de estar relacionado com este sucesso, não? Se não são capazes, os portugueses, de aprender uma lição de vida tão evidente como esta então o boicote não é ao Pingo Doce: é ao país.

AVEC MES SOUVENIRS

Edith Piaf, 'Je Ne Regrette Rien' (1960)

quinta-feira, janeiro 05, 2012

ONTEM, HOJE E AMANHÃ

O passado oferece-nos o conforto daquilo que é enquanto que a insatisfação abraça a utopia do que pode ser. Grave é quando nos esquecemos que sem o que foi seríamos algo diferente daquilo que somos e que aquilo que pode ser é sempre mais, melhor e diferente daquilo que é: sem terra firme não se caminha, afunda-se.

HOME

Josh Ritter, 'See How Man Was Made', So Runs The World Away (2010)

O PESO

A compreensão pura da inevitabilidade do fim condensa num momento único a avassaladora infinitude da angústia humana.