quarta-feira, 26 de setembro de 2012

CONDICIONAMENTO DAS MASSAS

Aquilo que para os primeiros marxistas passava pelo controlo e organização do proletariado passou para os seus herdeiros, na ausência do proletariado que está hoje acomodado às benesses da vida burguesa, capitalista e tecnológica, por uma tentativa de condicionamento das massas que, sendo as massas mais ricas da História, carecem de um discurso diferente do original "opressão do proletariado através da usurpação da mais valia". Há, neste caso, uma aparente normalização democrática na tentativa de angariar apoios: os lobos vestem a pele de cordeiros, portanto. Enquanto no Século XIX um marxista era um revolucionário que pugnava pela luta armada e a instauração da ditadura do proletariado que iria libertar os oprimidos trabalhadores, hoje um radical de esquerda tem que ter mais cuidado: os trabalhadores já têm o suficiente para não gostar da ideia da igual distribuição da riqueza... através do Estado. Assim, sendo uma minoria, arranjam os radicais os mais variados estratagemas para se fazerem parecer mais do que são: desde ao aproveitamento da rua até à dissimulação da sua verdadeira agenda revolucionária. Um bom exemplo disto é a manifestação "contra a Troika": apesar do resultado da ausência da troika ser a saída do euro, a ausência de financiamento para sustentar as funções mais básicas do Estado e o consequente processo de miséria e caos que daí adviria, a manifestação foi organizada precisamente sob o desígnio de se seguir uma alternativa à austeridade ("queremos as nossas vidas") que seja melhor. Ora, que alternativa é essa que passa por recusar o financiamento? Nenhuma. Pelo menos nenhuma que a maioria dos Portugueses que se manifestavam verdadeiramente quisesse assumir. No entanto, a extrema-esquerda sabe bem que a recusa da troika passa por um processo de isolamento internacional português onde o Estado, sem possibilidades de se financiar no estrangeiro, teria de recorrer aos recursos económicos domésticos. Daí às nacionalizações, ao congelamento dos depósitos bancários e à integração da economia no Estado seria um pulo. A ditadura da esquerda, pois claro. Essa é a verdadeira agenda da extrema-esquerda. No entanto, como não pode ser assumida - porque seria rejeitada pela população - vai sendo posta em prática a coberto da dissimulação e da demagogia política: tentarem enxovalhar ao máximo os governantes, acusar o sistema como culpado da situação, exigir bens públicos (que custam dinheiro público) ao mesmo tempo que clamam pela "expulsão" da troika (que efectivamente garante o financiamento dos bens públicos que temos). Esta paradoxo desmascara a aldrabice demagógica que a extrema-esquerda (e o sedento de poder estatal PS aproveita a onda) representa na vida democrática portuguesa. Querem - e exigem - o sol na eira e a chuva no nabal; e dessa forma desonesta pretendem que tanto os partidários do sol na eira como os da chuva no nabal os sigam. Mas quem organizou a manifestação? E quão "independentes" são de facto? No final fica a demagogia de quem exige o que não é possível de ser exigido: que se gaste o que não se tem ao mesmo tempo que se exige que quem empresta para que se gaste deixe de emprestar. Esta tentativa de condicionamento da acção política através da rua já foi feita antes: também após o 25 de Abril, o PREC e o "verão quente" de 75, a extrema-esquerda das ocupações e das manifestações intentava o estabelecimento de uma "democracia popular" em Portugal. Curiosamente quando chegaram as eleições de 1976 para a Assembleia da República o PCP não chegou aos 15% e a restante extrema-esquerda toda junta não lhe acrescentava nem sequer 3%. Foi aí que perceberam que isto pelo voto popular não vai lá a não ser... que se engane as pessoas. É por isto que ganha todo o significado a notícia de que os organizadores da manifestação anti-troika querem juntar-se à manifestação da CGTP. Não é mais do que tentar cavalgar o descontentamento popular (legítimo) para causas particulares que, nalguns casos até podendo ser legítimas, não são aquelas causas que acomodam os problemas que levaram as pessoas a manifestar-se a 15 de Setembro. Claro que as pessoas têm todo o direito a manifestar-se; convinha é que soubessem ao que vão. E que as alternativas que lhes vendem não são mais do que o engodo de um projecto de poder que, na sua génese, na sua ideologia e no seu processo, é profundamente anti-democrático.

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