Pensamento, m. - Acto ou efeito de pensar. Qualquer acto de inteligência. Fantasia. Ideia. Espírito. Uso da razão. Reflexões

sexta-feira, novembro 09, 2012

LA HAINE

A propósito da "polémica" que as palavras da Sra. Isabel Jonet causaram vem-me à cabeça uma pequena estória. Aqui há uns anos, estava eu na Universidade de Leiden, na Holanda, e tive que fazer uma apresentação sobre um autor holandês, Arend Lijphart de seu nome. O seu mais famoso trabalho, The Politics of Accommodation: Pluralism and Democracy in the Netherlands, versa sobre as diferentes técnicas (que Lijphart apelida de 'políticas de acomodação') que os Holandeses utilizam por forma a conseguirem uma estabilidade política - já desde 1848 - e uma unidade nacional num território profundamente dividido (os Belgas, por exemplo, tornaram-se independentes). Ao contrário do que possa parecer a Holanda não é homogénea: congrega diferentes modos de vida e, acima de tudo, quatro poderosos pilares: os católicos, os protestantes, os liberais e os socialistas que, profundamente antagónicos entre si, colocaram sempre um enorme desafio à unidade nacional. Lijphart tenta "sistematizar" vários instrumentos e instituições, umas mais outras menos oficiais, que mostram como os quatro blocos conseguiram entender-se e, contra todas as possibilidades, não apenas manter a unidade nacional mas também fazê-lo sem nenhuma alteração ao "normal funcionamento das instituições". Quando comecei a ponderar a minha apresentação sobre o tema, apenas Portugal me vinha à cabeça: todos os factores de divisão que os Holandeses posuíam - para não aborrecer fico-me pela divisão religiosa - nenhum existia em Portugal. No entanto, enquanto os Holandeses seguiam na sua normalidade institucional (e democrática) há mais de cento e cinquenta anos, durante o mesmo tempo, os Portugueses conseguiram fazer quatro revoluções, assassinar um Rei e um Presidente da República e ir três vezes à falência enquanto se pululava da Monarquia para a República e dentro desta entre democracias e ditaduras, a última das quais, que durou mais de quarenta anos, configurou o período mais longo de estabilidade política e social. Na minha apresentação, depois de comparar as Histórias dos dois países, fiz notar que aos Holandeses podiam dividir muitas coisas mas que Lijphart se tinha esquecido de mencionar aquela que os unia: eram todos Holandeses e, olhando para a história, não é difícil de compreender que, apesar de antagónicos, apesar de rivais, os quatro blocos sempre souberam colocar os intereses da Holanda à frente dos seus interesses particulares aprendendo a ser tolerantes uns com os outros e forçando-se a negociar equilíbrios. No fundo, todos perceberam que era do seu interesse comum encontrarem plataformas de entendimento com aqueles que têm visões profundamente diferentes das suas porque, apesar de tudo, estão melhor juntos que separados; e se têm que estar juntos então o melhor é fazerem as coisas funcionarem o melhor possível para todos. A tolerância holandesa é, acima de tudo, uma tolerância prática: a mesma que os leva a ser pioneiros nas liberdade individuais, na assimilação imigratória (aqui vislumbram-se alguns problemas hoje em dia porque as novas comunidades não se querem "acomodar" mas isso é outra estória) e nas políticas fiscais que levam negócios do mundo inteiro para as terras baixas (incluindo o Pingo Doce) e ajudam a fazer da Holanda um país com um dos maiores níveis de vida do mundo e uma das economias mais fortes da Europa. A minha apresentação foi um sucesso pois colocou em evidência a necessidade prévia de partilha de um conjunto de valores culturais, ou seja: foi precisamente essa partilha que permitiu a operacionalidade dos instrumentos sobre os quais Lijphart versou. Nunca mais me esqueci dessa semana de trabalho porque tornou-se profundamente evidente e consciente a noção que os Portugueses são tudo menos tolerantes. Aliás: podem ser tolerantes com muito, com tudo mesmo, menos com uma coisa: consigo próprios. Por alguma razão é um traço cultural nosso a incapacidade de lidar com a diferença de opinião. Talvez os Holandeses tenham na sua "engenharia mental" compreendido que não há verdades absolutas e que o compromisso é a base da paz entre visões sempre incompletas da realidade; mas nós, os Portugueses, somos diferentes: românticos incuráveis procuramos ainda aquela verdade suprema, aquela solução mágica, total e final que, harmonizando todos os problemas da Humanidade, trará a paz perfeita e perpétua ao mundo. Os Holandeses contentam-se com o que têm; os Portugueses querem aquilo que, apenas porque não existe, não poderão nunca vir a ter. Talvez seja essa inconsciente mas constante busca da verdade revelada que faz cada português por esses cafés fora levantar-se e, do alto da ignorância da qual ninguém em lado algum do mundo pode fugir, gritar bem alto enquanto bate ufano com a mão no peito: eu cá fazia assim e resolvia-se o problema. Onde há um portugês, há uma solução. Infelizmente, porque somos apenas humanos, onde há uma solução cabem mais duas ou três. E se vontades, interesses e ideias parcelares sobre o mundo se podem entender, verdades absolutas apenas se podem combater. Onde a verdade é revelada, o orgulho da sua defesa implica antes quebrar que torcer. É através desta profunda intolerância romântica que os práticos oportunistas, os politiqueiros de serviço, se colocam às cavalitas do povo: vendem-lhes ilusões de soluções mágicas; e o povo compra. Compra porque, acima de tudo, quer acreditar; porque os românticos muitas vezes preferem sonhar. Durante os últimos anos, anos de abundância e melhoria das condições de vida, habituaram-se os Portugueses à ideia de que, afinal, haveria a tal solução: apesar dos avisos dos velhos do Restelo, o nível de vida subiu e os Portugueses viveram como nunca antes haviam vivido. Infelizmente, essa melhoria do nível de vida não foi atingida por nenhum progresso social, político ou económico: apenas através da emissão de dívida. Dívida essa que agora nos bate à porta forçando-nos a acordar do sonho em que nos enlevámos. E agora, na dificuldade, lá regressa a frustração da ausência de solução: mais uma vez a revelação mágica se mostra infundada. Afinal a história não acabou e cá temos nós que decidir o caminho. Talvez a mais profunda diferença entre os práticos e os românticos seja essa: os práticos percebem que a boa vida é um caminho; os românticos penam pela solução final, a perfeita. E enquanto não aparece a perfeição discute-se quem tem razão. E o ódio vem ao de cima: quem advoga razões diferentes da minha - porque a minha razão é a certa - está a advogar a derrota de todos, incluindo a minha; e eu odeio quem me sujeita à pobreza, à miséria e ao falhanço por estar a impôr uma solução errada: só pode ser burro! O ódio nasce da luta de absolutos: eu estou certo e o meu adversário está errado. Principalmente quando o adversário que diz coisas erradas é alguém que vive melhor do que eu. Aí, o mundo não faz sentido: como pode ser justo que alguém que está errado esteja melhor do que eu que estou certo? E assim nasce o ódio. O ódio de todos contra todos, porque todos discordam em alguma coisa e todos estão melhor do que alguém em alguma outra coisa. Hoje, na falência económica que apenas revela o falhanço de mais uma solução perfeita - o socialismo - vivem os Portugueses na angústia da sua própria frustração o renascer dos ódios que os dividem, aniquilam e auto-destroiem. A frustração que sentem consigo próprios pela situação que se vive revela-se no ódio que, nascendo do Eu, se dirige a todos aqueles que representam, no imaginário de cada um, as razões da sua própria desgraça. Torna-se este complexo emaranhado evidente com as reacções às declarações da Sra. Isabel Jonet: apenas o ódio - e o ódio apenas - pode explicar que uma opinião - uma mera opinião - por parte de uma pessoa que dedicou a sua vida a um projecto que ajuda aqueles que mais precisam a alimentar-se, apenas esse ódio profundo, o ódio de si mesmos reflectido nos outros, apenas esse ódio pode justificar as reacções que uma coisa tão incipiente quanto irrelevante pôde causar. Talvez no fundo do poço se vislumbrem agora as verdadeiras razões do nosso infortúnio: a profunda desconfiança e rivalidade que grassa no mais íntimo âmago da sociedade portuguesa. E porque da desconfiança e rivalidade ao ódio e à inveja é um passo, cá vamos nós gritando e barafustando com tudo e com nada, com os outros que detestamos e vilipendiamos, quando no fundo apenas gritamos contra nós próprios e a frustração profunda que sentimos por não sermos os melhores do mundo e sermos apenas Portugueses.

1 comentário:

Anónimo disse...

le plus important c'est pas la chute c'est l'atterrissage... Amaral