sábado, 8 de dezembro de 2012

À ESPERA DE SEBASTIÃO

aqui abordei a temática do romantismo português e como esse idealismo perfeccionista conduz a uma profunda intolerância na sociedade portuguesa. Há, no entanto, mais a referir a propósito deste ideal romântico que parece pairar, que nem uma nuvem, sobre a psique portuguesa: se por um lado é certo que a busca (ou melhor dizendo: a crença) numa solução perfeita dificulta o compromisso e a tolerância porque estes pressupõem a aceitação dos caminhos do meio, não será menos verdadeira a noção de que o perfeccionismo também impossibilita a acção: na ânsia do perfeito, porque este não chega, acaba por não se fazer nada. Compreender que o óptimo é inimigo do bom é uma boa base para se reformar: devagar, com calma, alterando aqui e ali, lá se vai andando rumo a uma melhoria que, apesar de nunca ser perfeita, gradualmente vai melhorando a vida das pessoas. Já os Portugueses, sempre na ânsia da grande refundação, manifestam permanentemente propósitos grandiosos, objectivos espectaculares e finalidades nobres e celestiais que, invariavelmente, terminam na nomeação de uma nova comissão que, de tanta importância e relevância que a nova reforma tem, é absolutamente necessária para os hercúleos trabalhos reformadores que se terão de enfrentar. Infelizmente, com não menos frequência, os heróis da reforma apesar de se prepararem esmeradamente em terra nunca chegam a levantar voo; já as respeitosas, fundamentais e veneráveis comissões, essas, perduram no tempo atestando simultaneamente a sua importância e a sua inoperância pois que fizessem elas o que seria suposto fazerem e ao fim de mês e meio a sua existência deixaria de ser justificada. A busca da grande reforma, da solução perfeita, é bastante evidente no progresso das reformas políticas ao longo dos últimos duzentos anos. Primeiro, o liberalismo era a solução que se impunha pois viria iluminar o irracional nacional com o radiante Aufklarung: as luzes do Iluminismo compunham a solução que, sendo antes mágica, era agora inevitável por ser racional. Newton e Descartes haviam antes procurado a prova divina e aberto o caminho à revolução tecnológica industrializante enquanto que em Coimbra se Comentava respeitosamente Aritóteles. Talvez por vir com tanto atraso, foi pois com deslumbre que Rousseau, Kant e Marx chegaram a Portugal para indicar o caminho da marcha triunfal da Humanidade face à sua felicidade; uma felicidade que tardava em chegar a um Portugal atolado num rotativismo caciqueiro que mais não fazia do que perpetuar os negócios daqueles que bem sabiam influenciar o débil "liberalismo" nacional. Talvez o trágico destino da mais revolucionária e original geração de 70, fruto da frustração indigente, seja o mais perfeito exemplo do romantismo lusitano: o suicídio. Frustradas as esperanças liberais na falência e na vergonha do Ultimatum, para onde se vira o ímpeto reformista-perfeccionista? Para a República, pois claro. Seria a República a salvação. Com ela Portugal resgataria o seu destino grandioso, manteria o Império e, porque não, faria nascer o Quinto Império, o global, onde a nação lusa - já o Padre António Vieira o afirmava! - restabeleceria o reino de Deus na Terra. Infelizmente para os propósitos Cristãos, os Republicanos eram pouco dados a Cristo e a secularização forçada bem como a perseguição religiosa, grandes avanços civilizacionais nas palavras dos grandes reformadores republicanos, mais não deram do que, falência após a falência, num estrondoso abrir de portas para a Ditadura que se lhe seguiria. E seria essa agora a solução: o salvador da pátria, Oliveira Salazar, punha as contas em ordem - tal como a moral - e assumia que Deus, Pátria e Família eram a solução que salvaria Portugal dos perigos da modernidade. Sobre as palavras sábias da Encíclica de Leão XIII, da acção nacionalista de Maurras e com a benesse de Cerejeira, sobre a máscara do progresso autoritário, o mais profundo conservadorismo vinha salvar Portugal. Quatro décadas mais tarde a salvadora já seria outra: seria a liberdade. A ditadura, afinal, era uma vergonha e a liberalizante abertura de Abril seria a solução. Lá vieram mais uma vez as grandes reformas: as nacionalizações, a descolonização (tão apressada quanto irresponsável, foram milhões os que lá perderam a vida nas décadas que se seguiram) e a marcha triunfante da liberdade que, em 1975, se confundia com o comunismo. Curiosamente, os sábios democratas de visão aquilina e acutilante tanto viram e tanto reformaram que em menos de dez anos lá foi o país à falência de novo... duas vezes. Mas logo apareceu nova solução: queríamos ser Europeus agora. A salvação final, enfim! A normalidade democrática e transformarmo-nos no bom aluno trariam a vida que agora víamos entrar-nos em casa pela televisão. E de fora vieram os milhões e milhões e com eles as directrizes de como ser europeu e moderno. E chegámos finalmente aqui: de tanto nos salvarmos tantas vezes sempre com a grande solução, aqui estamos novamente falidos a carecer de salvação nacional. Claro que lá vêm de novo as musas das soluções perfeitas gritar que a culpa é da Toika e desses malandros dos mercados, o que é preciso é rasgar os acordos, é a independência nacional (como em 1890) e o que é fundamental é uma revolução. Mais uma. Rumo a uma solução. Rumo à solução. Entretanto, do outro lado, lá vem o Governo mais reformista de sempre, supostos liberais, implementar o maior aumento de impostos de sempre e nomear umas comissões sobre como diminuir a burocracia das comissões. Cá continuamos na mesma: à espera da solução como quem espera por D. Sebastião. Numa noite de nevoeiro ele há-de regressar e com ele a solução perfeita, aquela que resgatará Portugal rumo ao destino que merece. Entretanto, os parasitas sociais, aqueles que vendem mundos e fundos, aqueles que vendem sonhos irrealizáveis servindo-os em receitas apuradíssimas que carecem de avental culinário e tudo, lá continuam a mandar no país e calmamente a fazer os seus negócios, sempre sobre o beneplácito dos seus amigos que, seja com robalos, seja com alheiras, lá estão no Estado, de mão estendida, a vender o interesse pátrio por meia dúzia de tostões. Mas não nos enganemos: a responsabilidade é nossa. É este sonho por cumprir que nos leva a acreditar nas promessas tão grandiosas quanto vãs de que algo vai mudar. Diz Vasco Pulido Valente que os "chefes do «liberalismo» inauguravam o seu reino com a fraude e o arbítrio para se enriquecer a si mesmos". Como é triste ver que em duzentos anos nada mudou. E a razão porque nada muda é porque continuamos sempre à espera das grandes soluções em vez de começarmos a tratar daquilo é preciso ser tratado. Pior: porque queremos tudo não nos contentamos com analisar, caso a caso, como podemos melhorar a nossa vida aqui e ali. Ficamos pelos jargões; pelos inultrapassáveis princípios e éticas republicanas que terminam invariavelmente nos testemunhos abonatórios da honra e da seriedade de quem roubou descaradamente. E depois vem o miserabilismo: lá fora é que é. E esperamos que a solução venha de fora: onde antes foi a pimenta da Índia, depois o ouro do Brasil, as riquezas africanas ou, finalmente, os milhões europeus, cá continuam os Portugueses à espera da civilização que, por ser artificialmente importada, nas palavras do Eça, nos fica sempre curta nas mangas. Em última análise o problema não é apenas a espera da solução perfeita: é que esta, por ser inatingível, se transforma na mais perfeita desculpa para não se ter que fazer nada. E enquanto não compreendermos que os princípios somos nós que os inventamos, que a ética é a do esforço e do trabalho e que não há liberdade sem a responsabilidade árdua de a manter bem podemos penar por D. Sebastião ou, já agora, vai dar ao mesmo, porque não pelo Godot ou pelo Salazar. Nas palavras de Jorge Palma, enquanto houver ventos e mar a gente vai continuar; mas palavras mais portuguesas talvez pudessem ser o cá se vai andando. Para onde é que eu já não sei.

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