Pensamento, m. - Acto ou efeito de pensar. Qualquer acto de inteligência. Fantasia. Ideia. Espírito. Uso da razão. Reflexões

quinta-feira, dezembro 19, 2013

O SÍNDROME DE LAMPEDUSA

Leio hoje que o Paulo Rangel está a preparar um relatório onde propõe, entre outras coisas, a eleição directa do Presidente da Comissão Europeia no âmbito de uma reforma do sistema político da UE. Ao contrário do que aqueles com memória mais curta possam pensar, esta ideia já é velha (Durão Barroso defendeu-a publicamente no discurso do estado da união do ano passado) e dá corpo ao velho sonho dos "Estados Unidos da Europa". Sobre este assunto gostaria de tecer alguns comentários, até porque me parece que é uma questão paradigmática do modus operandi do burocrata da eurolândia, uma espécie de síndrome de Lampedusa*: primeiro reconhece-se que há um problema com o qual toda a gente concorda e depois, como a solução é incompatível com a burocracia centralizadora de Bruxelas, ou com os interesses de alguns do Estados mais poderosos, arranja-se uma solução de tal modo revolucionária que acaba por não se fazer nada. É verdade que há um divórcio entre a cidadania europeia e o seus representantes políticos? Sim, é verdade. É verdade que falta legitimidade democrática a quem, a partir de Bruxelas, tanto comanda nas nossas vidas? Também é. Agora tenhamos tino: alguém no seu perfeito juízo acha que é fazível neste momento ter os cidadãos a eleger um Presidente da Comissão sem fazer dessa eleição uma espécie de embate de nacionalidades? Claro que não. Imaginar alemães a votar num português é tão descabido quento imaginar os portugueses a votar num alemão. E precisamente porque é descabida uma eleição directa do Presidente da Comissão acabamos por, apesar dos grandes desígnios, nada fazermos de efectivo para minorar o chamado défice democrático. Quem ganha com isto? Nem mais: o burocrata de Bruxelas que continua a mandar e desmandar a seu belo prazer. Ora, e para dar mais força ao meu argumento, aqui deixo uma proposta simples, de fácil implementação e que contribuiria em muito para a solução do problema: que passem a ser os partidos europeus a ir a votos nas eleições europeias. Vejamos: hoje em dia os eurodeputados estão organizados em função de partidos europeus que nunca foram sufragados: ninguém vota, ou sequer conhece, o programa eleitoral do PPE (Partido Popular Europeu) ou do S&D (Socialistas e Democratas - e, sim, o partido socialista europeu chama-se S&D). Do mesmo modo, também - porque são os partidos nacionais que vão a votos - vemos as eleições europeias ficarem reféns, por um lado dos interesses partidários nacionais e, por outro lado, do facto de os eleitores estarem mais preocupados em penalizarem ou avalizarem os governos nacionais ao invés de votarem programas de acção política europeia. Pior ainda, mesmo os eleitores preocupados com o processo político europeu são forçados, primeiro, a votar nos partidos europeus que têm partidos nacionais filiados (por exemplo, em Portugal, nem os Conservadores nem os Liberais, ou sequer os Verdes**, estão neste momento representados) e, segundo, a sufragar programas mais preocupados em como o país vai ser representado na UE ao invés de como a UE deve ser gerida. Tudo isto contribui de forma evidente para o divórcio entre os cidadãos e os seus representantes e, por consequência, para que o vazio seja preenchido pela figura abstracta do burocrata de Bruxelas. Se, como aqui proponho, os cidadãos votassem nos partidos europeus que, através de delegações nacionais, se apresentassem a eleições, garantir-se-ia que haveriam programas de acção europeia que  fossem verdadeiramente e directamente sufragados pelos cidadãos, coisa que não acontece agora, e, ainda, que os cidadãos europeus pudessem escolher entre todas as possibilidades europeias (mesmo aqueles que vão para o PE para defender outra UE, ou mesmo o fim dela), coisa que também não acontece agora. Como se vê, seria esta proposta muito mais simples tal como, principalmente, de muito mais fácil implementação do que estas propostas mirabolantes que, de tão irrealistas, apenas contribuem para que o verdadeiro decisor político continue a ser o burocrata centralista que ninguém elegeu.

*Era Tomasi de Lampedusa que, no seu imortal Il Gatopardo, dizia que era preciso mudar tudo para que tudo ficasse como dantes.
** Imagino que o Partido Livre de Rui Tavares (que está individualmente inscrito nos grupo europeu dos Verdes) se vá filiar aí.

quarta-feira, dezembro 11, 2013

O MANDELA DA LINHA

Hoje ofereci-me a mim mesmo o tempo para ter um prazer que já há algum tempo não experimentava: ler um artigo do Carlos Carreiras no Jornal i. Começa o "autor" por explicar que, para ele - o arauto dos simplismos e das soluções milagreiras -, o mundo divide-se em "sebastianistas" e em "mandelas". O que é um "sebastianista"? Carreiras explica: "gente que espera e desespera por um eleito que, saído de uma manhã de nevoeiro, faz o que ninguém faz, resolve o que ninguém resolveu e cumpre o que ninguém cumpriu". Já "mandelas" são aqueles que se guiam pelos princípios de Mandela, ou seja, de acordo com Carreiras, pelo "poder das ideias e a crença na acção, no potencial do homem e na mudança contra a situação". Carreiras no texto lamenta que olhe à volta e só veja "sebastianistas". Já ele, naturalmente, será um mandela. E onde vê o visionário Carreiras tanto sebastianismo? É fácil: na elite política portuguesa que, diz ele, sobrevalorizada e crente na sua infalibilidade, apenas passa a vida a inventar mitos inúteis que prometem tudo resolver para depois minarem o trabalho daqueles que verdadeiramente fazem. Imagino que Carreiras se refira àqueles que andam a lançar o nome de Rui Rio para uma futura candidatura à presidência do PSD. Mas, naturalmente, o mandela da linha não o assume: fica-se por umas pseudo-acusações que têm tanto de qualidade argumentativa como de interesse público: nenhum. O discurso de Carreiras é sempre o mesmo: o Governo é o maior, a acção comanda a vida, se acreditarmos vamos safarmo-nos e quem critica, quem ousa lançar uma alternativa, é logo rotulado de pseudo-intelectual ou pseudo-elite e descartado como o não-crente que urge combater. Porque estão o Governo e Carreiras certos e os outros errados? Já isso o mandela da linha não explica. Enfim, o costume. Continua o "autor" depois a citar umas considerações de crítica social sobre quem foi e quem não foi ao funeral de Nelson Mandela. Cita ainda umas coisas de Obama (apesar de assumir modestamente que ele próprio, Carreiras, também já tinha pensado sobre precisamente aquilo que Obama falou - naturalmente) e lembra o exemplo de Mandela - outra vez - para expressar o desejo de que o "espírito de Madiba [já só faltava a referência a "Madiba" para o cliché ficar completo] toque cada uma destas almas que nos governam": ao melhor nível do Maduro venezuelano que vê Chavez nos passarinhos que voam à sua volta, também Carreiras vem elevar Mandela à santidade de quem virá iluminar o caminho certo para os políticos mundiais. Digamos que, para Carreiras, Mandela é agora uma espécie de santo-padroeiro do político. E, Mandela nos livre, para quem vê em Mandela a solução, consegue Carreiras fazer o inacreditável: começar por dividir o mundo em "sebastianistas" e "mandelas" apenas para transformar Mandela numa espécie de D. Sebastião sobrenatural: um feito! Mas, vá lá, ao menos do arrazoado todo de palavras do mandela da linha há uma coisa que fica muito clara: não é Carreiras um sebastianista, tal como não será também, certamente, apesar das pretensões em causa própria, nenhum mandela, ou sequer um Obama: é apenas mauzinho. Azar o nosso, é o que temos.

terça-feira, dezembro 10, 2013

A VERGONHA DO ELÉCTRICO 28

Não há manual, roteiro ou livro sobre Lisboa que não refira o eléctrico 28. Entre fotografias da vista ao longo do percurso, ou do próprio eléctrico, o 28 representa, sem margem para dúvidas, um dos ex libris da cidade e um importante cartão de visita para os turistas que nos visitam. Há duas semanas eu, a minha namorada (que está grávida), o meu irmão e a minha cunhada resolvemos ir à Feira da Ladra. Ora, que melhor forma de lá chegar, num Sábado soalheiro e agradável, do que ir no eléctrico 28? Pois, foi o que pensámos. Apanhámo-lo aqui no final da Rua do Ferragial e lá seguimos nós, apinhados entre estrangeiros sorridentes e de máquina fotográfica na mão. Repentinamente, ali na Baixa, entram no eléctrico um grupo de indivíduos que se foram posicionar mesmo na entrada do corredor do eléctrico. Na paragem seguinte, entre pessoas a entrar e outras a querer sair, graças àqueles indivíduos ninguém se conseguia mexer. Um estrangeiro, mais velho, pessoa dos seus setenta anos, para passar por eles teve que se esmifrar de uma forma absolutamente atroz. Eu, que estava de pé defronte da primeira janela do eléctrico, achei muito estranha a atitude daqueles indivíduos e, vendo que estavam propositadamente a emperrar o eléctrico inteiro, desconfiei que estivessem a preparar alguma coisa. Meu dito, ou melhor: meu pensado, meu feito. Qual não é o meu espanto quando vejo um dos indivíduos que esborrachava o pobre do estrangeiro septuagenário a literalmente arrancar-lhe a carteira do bolso do sobretudo. Nesse momento em que vi tal coisa comecei a gritar que estava ali um ladrão e agarrei o braço do meliante para tentar impedir o furto. Gerou-se grande confusão com os indivíduos a virarem-se contra mim enquanto o estrangeiro, depois de esvaído no aperto, gritava em inglês que lhe tinham roubado a carteira. Depois encontrou-a nas escadinhas que dão subida para o eléctrico, apenas para gritar outra vez que lhe tinham tirado o dinheiro. Entretanto, os meliantes viravam-se contra mim para tirar satisfações sobre eu ter tentado impedir o furto. A minha preocupação era já apenas proteger a minha namorada grávida dos empurrões que os criminosos davam. Gritei-lhes na cara e eles acabaram por sair pela porta dos fundos. Enquanto tudo isto se passava, o condutor punha a cabeça para baixo e dizia: "não quero confusões". Lá fora, o turista assaltado e a sua mulher gritavam pela polícia. Lá dentro, assistia-se aos criminosos a acercarem-se dos turistas assaltados fingindo preocuparem-se com eles, mesmo com a mulher a acusá-los de terem sido eles a roubarem a carteira do marido. Entretanto, os criminosos faziam gestos ameaçadores na minha direcção a gesticularem que eu estava "lixado". Os acontecimentos que aqui se relatam tiveram lugar às duas da tarde na paragem da Sé.

Três notas: primeiro, que a impunidade e o descaramento foi total: os ladrões não são o "artista carteirista" que retira uma carteira sem ninguém reparar. Não. Estamos a falar de criminosos que assaltam à força, com violência, e que nem sequer têm que fugir depois do assalto realizado porque não há ninguém que faça impor a lei e a ordem. Não há polícia, nem no eléctrico nem nas paragens (em nenhuma do percurso!), o condutor finge que não vê nada com medo de represálias e os passageiros ou são turistas incautos ou passageiros frequentes que já os conhecem mas que não se atravessam no caminho dos criminosos por terem medo. Segundo, é impossível que o poder político não saiba do que se passa (aparentemente pelo que me dizem toda a gente sabe do que se passa ali) e não faça nada. Será assim tão difícil pôr uns quantos polícias a patrulhar o eléctrico e outros nas paragens? Bastava isso para aqueles criminosos terem que ter mais cuidado. O eléctrico 28, sendo um ex libris do turismo lisboeta merece mais e melhor: é a imagem de Lisboa que está em causa, é a segurança das pessoas que nos visitam (porque aquela gente é perigosa) e representa neste momento, tal como está, um triste retrato da realidade portuguesa: um fartar vilanagem e a total impunidade.

À volta da Feira da Ladra apanhámos um taxi para casa: considerando que um bilhete individual de eléctrico custa 2,8€, e éramos quatro pessoas, a vinda de táxi custou a cada um sensivelmente metade do que a ida de eléctrico. Ou seja: as pessoas são roubadas para serem assaltadas. Haja vergonha.

sexta-feira, dezembro 06, 2013

DO LUTO CIBERNÉTICO

Se eu penso que o Nelson Mandela era um grande homem? Penso. Se eu penso que a necessidade que milhares de pessoas sentem de ir para as redes sociais postar citações de Mandela - que na sua esmagadora maioria nunca leram -, apenas movidas por um ligeiro frémito de exaltação momentânea, para logo a seguir regressar à banalidade da vida comum sem mais um pensamento sobre a figura, ou o significado para o mundo dessa figura, como se uma citação lida na diagonal e rapidamente copiada de um qualquer sítio cibernético já fizesse a obrigação, consiste num exercício de triste superficialidade, demagogia social e hipocrisia? Sim, penso. Agora linchem-me.

terça-feira, dezembro 03, 2013

DEZ

Bem lembrado pelo meu amigo João, cumpre-me anunciar ao mundo cibernético que este blog fez em Outubro dez anos de existência. É qualquer coisa, sim senhor.  Fica um obrigado àqueles que o vão seguindo e um compromisso: enquanto houver estrada para andar, enquanto houver ventos e mares, a gente cá vai continuar. Fica a esperança que por muitos mais anos ainda.

FAMILY NAME


MUNDOS DIFERENTES, MUNDOS IGUAIS

Ele, pela cozinha, anda de volta do medronho, da aguardente e do açúcar, atarefado com um funil improvisado e um garrafão de cinco litros, tudo isto para fazer um licor. Ela entra na cozinha e exclama mal impressionada: "xiii, que cheiro a bagaço!". Mais tarde, ela, pela sala, ao som da rádio, anda de volta dos dedos dos pés, do verniz e da acetona. Ele entra na sala e exclama desagradado: "epá, que cheiro a acetona!" E isto é o tão igual quanto o que é diferente poderá algum dia ser igual.

segunda-feira, dezembro 02, 2013

UM BÓLIDE ESPECIAL

Tenho um carro novo: descapotável, encarnado, ultra ecológico e, considerando as primeiras impressões, fácil de conduzir. Estou desejoso de levá-lo para dar uma volta e, como se comprova na fotografia, vou certamente fazer sucesso por essa estrada fora.


sexta-feira, novembro 29, 2013

O ETERNO RETORNO

"Um dia um certo número de indivíduos reúnem-se na praça pública:
Concorre a gente.
E começam a gritar:
A gente apinha-se.
Uma terça-parte garotos e vadios,
Outra, mulheres,
O resto, gente que vem ver - para rir - julgando que serão bêbados.
Ora um destes indivíduos sobe aos ombros dos outros e diz:
- O Povo geme! -
A multidão agita-se.
- A Liberdade é um direito santo!! -
A multidão freme.
- O Povo quer ser livre!!! -
A multidão urra.
- Derrubemos os tiranos!!!! -
A multidão rui.

Ora, outros indivíduos estão reunidos numa grande casa e dizem:
- O povo geme -
Logo, aumentem-se 5 por cento.
- A liberdade é um direito santo -
Logo, venha a censura.
- O povo deve ser livre -
Logo, triplique-se o exército
etc. etc. etc.
Outros aplaudem, e um copia estas falas num grande papel, que se imprime, consta, que para desfeitear a gramática.
Há quem boceje.

Enquanto isto se passa, o rumor dos homens da praça aproxima-se: os da casa, ouvindo-os fecham as portas; os outros bramem fora.
Nisto, outros homens vestidos de furta-cores apresentam-se e marcam passo.
Depois, ao toque dum instrumento de latão, e caindo sobre os outros, disparam vários tiros para o ar.
Alarido e confusão.

Temos aqui dous casos a considerar.

Se os primeiros levam a melhor neste exercício, abraçam-se uns e outros, grita-se muito, consome-se mais vinho; surgem Demóstenes, saqueia-se, arromba-se.
- E diz-se que o Soldado fraternizou com o Povo em nome da liberdade: viva o Povo e o Soldado! -
Há luminárias no Palácio da Câmara Municipal.
Os homens da casa grande evacuam a sala: os da praça tomam-lhes os lugares e começam a entrar na grande via das reformas.
Do seguinte modo.
- O povo gemeu -
Logo, aumentem-se 10 por cento.
- A Liberdade foi um direito santo...-
Logo, venha a censura e a multa.
- O povo deve ser livre -
Logo, tripliquem-se o exército e os cabos da polícia.
Outros copiam e imprimem, para pregar uma peça à gramática e ao senso comum.
Muita gente dorme; alguns ressonam.

Se os segundos (os da casa) levam a melhor, então passam-se as cousas dum modo muito diferente.
Arromba-se, saqueia-se, surgem Demóstenes, consome-se mais vinho, grita-se muito.
Os da casa dizem: «o Governo destruiu as 100 000 cabeças da hidra fatal da anarquia: fez reinar a ordem como convém a um governo forte, amante duma bem entendida liberdade: viva o Povo e o Soldado!» -
Além de tudo isso:
Põe luminárias o Palácio da Câmara Municipal.

Ora, no primeiro caso, os homens da casa grande vão para a praça pública.
E dizem:
- O Povo geme! -
- A liberdade é um direito santo! -
etc. etc. etc.
Apinha-se gente; vêm os furta-cores; tiros no ar; alarido e confusão.
Se são vencidos diz-se: - Reina a ordem em despeito da anarquia: viva o Povo e o Soldado! -
Se o contrário - A Liberdade derrubou ainda mais uma vez a fortaleza da infame tirania: viva o Soldado e o Povo! -
etc. etc. etc. e assim seguidamente.
Ora, a tudo isto se chama Ciência Política, ou arte de administrar os interesses gerais.
Em proveitos dos próprios."

Antero de Quental, O que toda a gente vê ou a política numa lição, 1861

A TÁCTICA DO COSTUME

Aparentemente, o Primeiro-Ministro convidou Rui Rio para liderar o banco de fomento que o Governo pretende criar. Sobre isto três breves notas: primeiro, não é difícil de ver que este convite tinha uma intenção política: a de integrar no sistema um perigo à liderança do PSD. Segundo, assim se vê como os políticos gerem o Estado: com o olho sempre posto no seu interesse particular. Finalmente, não deixa de ser emblemático - e sintomático - que um Passos Coelho na oposição falasse de como seria importante a privatização da Caixa Geral de Depósitos para agora, uma vez no Governo, não só não privatizar Caixa nenhuma como ainda criar um segundo banco público. Deve ser o tal liberalismo de que tanto falam.

MICROMANAGING

quarta-feira, novembro 27, 2013

PARADOXOS

Não deixa de ser curioso que aqueles que mais se  opõem ao suposto capitalismo em que vivemos tendem a ser os mesmos que mais criticam os políticos que temos. Paradoxalmente, a solução desses críticos passa sempre por exigir mais poder para o Estado (mais regulação, mais esta ou aquela lei, gritar contra as privatizações, etc.), ou seja: querem eles dar ainda mais poder a quem tem o negócio de gerir o Estado, precisamente os tais políticos que eles tanto criticam.

sexta-feira, novembro 15, 2013

O QUE VALE PARA O RESPEITO VALE TAMBÉM PARA O ÓDIO


“É verdade que entre nós também alguns há que têm mais do que os outros. Honramos, assim, o chefe de tribo que possui mais esteiras e mais porcos. Mas o respeito que lhe testemunhamos é devido à sua pessoa e não às suas esteiras e aos seus porcos, que nós mesmos, aliás, lhe oferecemos como alofa, a fim de lhe exprimirmos a nossa alegria e louvarmos o seu ânimo valoroso e o seu espírito lúcido. O Papalagui, esse, tem respeito pelo grande número de esteiras e de porcos que o seu irmão possui, e não pelo seu valor e inteligência, que não lhe interessam para nada. Não tem por assim dizer nenhum respeito por um irmão que não possua esteiras nem porcos.”

Discursos de Tuiavii, Chefe da Tribo de Tiavéa, na ilha Upolu, Samoa, 1919 in O Papalagui (1987)

sexta-feira, outubro 25, 2013

POBRES HÁ MUITOS MAS HÁ UNS QUE SÃO MAIS POBRES DO QUE OUTROS

Uma das vantagens de se viver aqui por estas bandas é de facto estar-se perto da acção: em três fins de semana, de carro, andámos por Antuérpia, Maastricht, Aachen, Bona, Colónia e Paris. Com a excepção parisiense, uma coisa é estranhamente comum a todos esses locais: os preços dos transportes, dos supermercados ou dos bares e restaurantes de baixo custo são apenas ligeiramente mais elevados do que os portugueses. No entanto, os salários daqui , principalmente os médio-baixos, duplicam, quando não triplicam, os que são praticados em Portugals. É aí que está a qualidade de vida. O ponto aqui é que, ou os portugueses ganham muito mais do que se diz, ou são explorados por um mercado que, controlado por forças obscuras, perverte o preço óptimo que as pessoas deveriam pagar, ou uma mistura de ambas. No final a conclusão é que ser pobre em Portugal é muito mais complicado do que no norte da Europa.

A DISPUTA ATEIA

Deixo aqui um pequeno artigo que escrevi e que procura resumir o essencial da disputa ateia alemã (1798-1800). Nas ideias de Fichte, Jacobi e Reinhold discutem-se os conceitos de ordem e - principalmente - de substância, numa fascinante procura de resposta para uma pergunta que sempre perseguiu, e persegue, a humanidade: no que consiste Deus? No Folia do Caos.

quarta-feira, outubro 23, 2013

EM CHATELAIN

Hoje, Quarta-Feira, é dia de mercado em Chatelain, Bruxelas.Para além das normais bancadas de bugigangas, roupas, etc., aquilo que distingue o típico mercado flamengo são as iguarias: todo o tipo de queijos, patês, enchidos, tapenades, frutos ou vegetais, tudo o que se possa imaginar. Ao mesmo tempo a apresentação das montras é sempre charmosa e cuidada. Espalhadas pelo mercado estão também bancadas com provas de vinhos e comida pronta-a-comer. Um chique. Entretanto, hoje - graças ao que apanhámos no mercado - para jantar, após o Benfica, vamos ter: saladinha de polvo, azeitonas com basílico e alho, um chévre au lait cru, isto para as entradas, e uns tortelini au fromage trufée como prato principal. Não me parece mal. Para comprovar que afinal os bárbaros do Norte até se sabem tratar bem no que que concerne à culinária aqui fica a reportagem fotográfica da nossa ida ao mercado hoje.
     
                                    































segunda-feira, outubro 14, 2013

INFALLIBLE PLAN


CIVILIZAÇÃO

Fui roubar aqui ao João esta preciosidade:

"Tu, qu'inventaste as Sciencias e as Philosophias,
as Politicas, as Artes e as Leis,
e outros quebra-cabeças de sala
e outros dramas de grande espectaculo...
Tu, que aperfeiçoas a arte de matar...
Tu que descobriste o cabo da Boa-Esperança
e o Caminho-Maritimo da India
e as duas Grandes Américas.
e que levaste a chatice a estas terras.
e que trouxeste de lá mais Chatos pr'aqui
e qu'inda por cima cantaste estes Feitos...
Tu, qu'inventaste a chatice e o balão,
e que farto de te chateares no chão
te foste chatear no ar,
e qu'inda foste inventar submarinos
pr'a te chateares também por debaixo d'agua...
Tu, que tens a mania das Invenções e das Descobertas
e que nunca descobriste que eras bruto,
e que nunca inventaste a maneira de o não seres...
Tu consegues ser cada vez mais bêsta
e a este progresso chamas Civilização!"

José de Almada-Negreiros, A Scena do Odio (1915)

quinta-feira, outubro 03, 2013

A VERDADEIRA OPÇÃO

Sobre a questão dos estatutos do PSD e as candidaturas independentes deixo aqui já um breve, e rápido, apontamento sendo certo que voltarei com mais profundidade a esta questão quando tiver tempo nos próximos dias. No Folia do Caos escrevi eu que:

"O triunfo da norma geral e abstracta deriva no legalismo quando se defende a ideia de que a lei tudo consegue definir. Sendo aquela soberana e fundamental, o momento em que tudo na vida das pessoas passa a ser regulado por ela não traz apenas benefícios: pelo contrário, também faz com que se escondam os piores comportamentos por detrás da capa da legalidade. Ao mesmo tempo, num mundo onde tudo se regula, passando o bom e o mau a serem identificados com o que está de acordo ou contra a norma, assume-se que se a lei não proíbe determinado comportamento então, independentemente de ser bom ou mau, aquele é aceitável. Da mesma forma, se o comportamento é considerado ilegal, então ele é mau. (...) A consequência é que, passando o ónus da soberania meramente para a lei, sendo esta aquilo que verdadeiramente nos rege, deprecia-se o instrumento que é o discernimento humano ético e moral: eu não tenho que pensar se o comportamento A ou B é certo ou errado, apenas me interessa se ele é legal ou não. Ou seja: o legalismo positivista excessivo tenderá a gerar uma sociedade amoral que se preocupa com comportar-se de acordo com as leis e não em seguir uma conduta ética e moral que entenda como boa".

Guarde-se a ideia e, considerando que o Presidente da Distrital de Lisboa do PSD (detentor de um curriculum ético e moral tudo menos recomendável) depois de ter rebentado com o poder autárquico do PSD no distrito de Lisboa, anda aí de espada na mão e exigir expulsões,  a questão que os militantes do PSD se deverão colocar será precisamente sobre quem mais respeita a ética e os valores verdadeiramente matriciais do PSD. Assim, serão os independentes que inclusive granjearam fielmente interpretar o sentimento do povo, chegando mesmo a ser por este positivamente sufragado onde enfrentaram o partido, que são uns malandros? Ou serão os caciques de algibeira que de tacho em tacho tanto percebem da alma social-democrata que viram as suas opções derrotadas pelo mesmo povo em toda a linha? Quem será que faz pior ao PSD? Aqueles que apesar do PSD continuam a lutar por um povo que neles se reconhece? Ou aqueles que com o seu caciquismo amoral pervertem o PSD guiando-o à derrota? Escolha o PSD a segunda opção e acabarão sozinhos os caciques a terem votações de 13% a nível nacional como o tiveram em Sintra.

terça-feira, outubro 01, 2013

FUTUROLOGIA


                                        Como em 1925 se imaginava uma cidade em 1950.

segunda-feira, setembro 30, 2013

RESPONSABILIDADES

Os senhores da distrital de Lisboa do PSD já se demitiram?

A POSTERIORI

Alguns apontamentos sobre os resultados eleitorais de ontem:

1. Em Oeiras, um ex-inspector da Polícia Judiciária foi encavado por um indivíduo que foi festejar para a prisão da Carregueira. Esta contada aqui na Flandres e ninguém acredita.

2. No Porto, ganharam as boas contas contra o despesismo populista que vinha do outro lado do Rio. Esta contada aqui há uns dias atrás e também ninguém acreditava.

3. Em Sintra, o PSD de Lisboa e nacional fartaram-se de gerir a câmara e resolveram deitá-la fora.

4. Em Gaia, o PSD achou melhor, já que perdia o Porto, deitar fora a câmara também. Resultado: o independente que candidatou ficou taco a taco com o social-democrata independente... no segundo e terceiro lugar.

5. Entretanto, em Loures, prepara-se a ditadura do proletariado.

6. No Alentejo, é a CDU quem mais ordena.

7. Em Lisboa, a máquina do PSD levou uma tareia monumental: valeram mesmo a pena todos os processos legais contra a lei de limitação de mandatos para impor uma candidatura que teve 22% dos votos? Se há inabilidade e amadorismo evidente em política este é um exemplo evidente.

8. Em Faro, o povo não ficou assim tão zangado com o partido do Macário e não deu a vitória ao PS.

9. Em Braga, o outro Rio finalmente ganhou.

10. Na Madeira, não se ouviu João Jardim.

NOITE ELEITORAL

Ontem, do exílio belga, fui comentando a noite das estrelas autárquicas no Facebook. Aqui ficam as bocas e os apontamentos:

21h00 (hora belga) - Este Luís Delgado, na SIC Notícias, é de rir: no Porto, com a direita dividida entre duas candidaturas fortes, diz-nos este "comentador independente" que Seguro se perder por poucos tem um grande resultado. Já Menezes imagino que ganhar (dividindo o seu tradicional eleitorado) seria uma obrigação. E se, muito possível, ganhar Moreira será uma derrota catastrófica do Governo. Uma análise independente, claro.

21h15 -  No Porto parece-me que o povo escolheu sabiamente; já em Lisboa, a verdadeira dimensão de um descalabro (que se anunciava) deixa-me absolutamente boqueaberto.

21h41 -  O Telmo Correia, onde se mete, dá sempre asneira.

21h42 -  A Judite de Sousa já abriu o espumante?

21h57 -  Com este resultado, se o Fernando Seara queria ir para o Parlamento Europeu, já só vai como assessor. Vá, pronto, chefe de gabinete.

22h06 -  O ambiente no Altis, na candidatura do António Costa, é de profunda partilha com os lisboetas.

22h09 - E na candidatura de Seara já devem estar todos em Cascais, onde trabalham.

22h15 -  O Marques Mendes, na SIC, faz muito bem o seu papel de não parecer nada feliz com a derrota de Menezes no Porto.

22h20 -  A CDU ganhou Cuba.

22h41 -  Naturalmente, o PS, no Porto, face a uma candidatura onde o presidente não se recandidata e o seu eleitorado se divide em dois, naturalmente, repito, o PS - e Seguro - não sofrem aí nenhuma derrota. Entretanto, Manuel Alegre discursa em directo a falar da vitória do PS nas autárquicas e como futura alternativa de governo do país. Naturalmente.

22h49 -  Ah, este Pizarro, coitadinho. E o PS não teve uma derrota na câmara do Porto?

23h20 -  Aquele desgraçadinho que falava como porta-voz do PS deu uma bela imagem de alternativa governativa.

23h28 -  É o Louçã Jr. que fala pelo bloco de esquerda?

23h33 -  Em Oeiras ganha a candidatura que tentou apresentar um presidiário condenado - e a cumprir pena - a candidato à Assembleia Municipal. Está bem entregue, o município.

23h34 -  Quem quiser vistos para a Coreia do Norte dirija-se ao gabinete do novo Presidente da Câmara Municipal de Loures sff.

23h44 -  Insatisfeito com a cobertura da SIC mudámos para a TVI e depara-mo-nos com a Teresa Guilherme aos gritos. A TVI já não cobre actos eleitorais. Sim senhor, apesar de a qualidade não ser muito diferente de alguns candidatos autárquicos, a escolha não deixa de ser deplorável (mas bem indicativa). Execrável.

23h48 -  E na SIC passa a passar uns tristes aos saltos. Confere.

23h50 -  Resta-me registar que, para aqueles que não têm cabo, não há "direito" a noite eleitoral. Eram a SIC e a TVI que diziam que não queriam os canais de notícias na TDT?

00h05 -  Portanto - e não é influenciado certamente pela Beatriz Soares Carneiro -, o CDS, que aumentou em 500% os seus presidentes de câmara e apoiou o Rui Moreira no Porto, safou-se muito bem. Ele há estratégias que, mesmo estando no Governo, dão resultados positivos afinal.

00h13 -  Quantos eleitores socialistas estarão agora, enquanto ouvem o discurso - e os resultados - de António Costa em Lisboa, a pensar que preferiam ver António Costa à frente do PS em vez do Tozé dos devaneios inseguros.

00h16 -  Já eu, como militante do PSD do distrito de Lisboa, estou muito impressionado com o trabalho estratégico da máquina aparelhística social-democrata. Mesmo. Pior era difícil.

00h44 -  Porto just got dunphied.



















00h45 - O Seguro acabou de ler um poema de Manuel Alegre?

00h56 - Amanhã, em Loures.



01h27 -  Em Sintra, o desvario do PSD Lisboa (e nacional) dá uma abébia ao socrático-ex-centrista-novo-socialista Basílio Horta ao candidatar o desaparecido-em-combate Pedro Pinto contra ao sintrense Marco Almeida e oferece emoção à noite eleitoral. Certo mesmo, apenas a passagem do PSD a terceira força mais votada.

01h30 -  O Bloco de Esquerda hoje perdeu 100% das câmaras municipais que detinha. Vá lá, menos mau.

01h34 -  O Bloco de Esquerda (que perdeu 100% das câmaras municipais que detinha) reclama por não ter tido cobertura televisiva. Ou seja, o BE sem televisões não é nada.

01h43 -  Na Madeira estão 18º. Deve ser a Primavera (outonal) a chegar.

01h57 -  Sintra é que é!

02h05 -  Entretanto, na SIC notícias entram em acção os palhacinhos de serviço. Isto de acompanhar os resultados eleitorais só pela net mesmo.

02h16 -  O sucessor do presidiário de Oeiras é um portento de oratória.

02h31 -  O Basílio Horta, como bom socialista, vai "estudar" como proteger a costa de Sintra. Depois fala dos amigos. Confere. Faltou gritar PS com os seus amigos.

02h45 -  E pronto: em Bruxelas são 2h45. Roger and out.

sexta-feira, setembro 27, 2013

TAXAÇÃO E REPRESENTAÇÃO

Depois destas autárquicas, como sempre plenas de promessas e festanças (o campeão da festa deve ser Carreiras em Cascais e o chefe da promessa Menezes no Porto), faz-me estar cada vez mais certo de que o simples princípio que levou à revolução americana, a saber, no taxation without representation, deveria ser aplicado também na sua forma invertida: isto é, se os americanos reclamavam que não queriam ser taxados por Londres sem terem direito a representação no parlamento, também nós deveríamos exigir que nenhum dos nossos representantes fosse financiado de outra forma que não a taxação directa. Ou seja, acabe-se com o financiamento das câmaras municipais por via do orçamento geral do Estado e obrigue-se os senhores autarcas a financiarem-se exclusivamente por impostos directos sobre as empresas e os seus munícipes. Assim fosse e seria ver o pagode, depois de pagar os seus impostos, a ir lampeiro para a festa e para o foguete. Ou talvez não: é que a melhor forma de acabar com o despesismo é garantir que os profissionais da cacicagem são obrigados a assumir perante quem os financia - ou seja, perante os contribuintes - que lhes estão a ir ao bolso. Também seria agradável garantir que os desvarios dos Menezes desta vida fossem pagos pelas populações que tiveram a falta de tino de os eleger: por que razão teremos todos nós que não vivemos em Gaia de pagar a dívida que aquele lá deixou? Mais: com esta reforma, autarca que mais gastasse mais teria que taxar os seus munícipes correndo, por essa razão, o risco de perder eleitores: é que a malta não gosta de pagar impostos. E assim seria mais popular baixar impostos (e poupar dinheiro público) em vez do imoral esbanjamento no foguetório, na festa ou no concerto a que todos vamos assistindo. Claro está que tamanha reforma nunca será posta em prática porque vai directamente contra duas coisas absolutamente basilares do regime socialista em que vivemos: por um lado o centralismo burocrático que nos governa e que muitos enriquece; depois porque as autarquias configuram a principal porta de entrada do financiamento partidário e, fruto desse poder, nunca veremos os senhores autarcas a querem ser alvos de tanto escrutínio e a perderem a mais absoluta impunidade em que agora alegremente vão vivendo.

DA CACICAGEM

Acho muita piada a ver as declarações solenes de apoio político ao candidato A ou B por parte de pessoas que devem o seu salário mensal, ou a sua colocação actual, ao candidato A ou B.

SIM, ISTO

(especialmente aqueles iluminados que não sabem quando utilizar um "à" ou um "há" e que destilam comentários no Facebook cheios de certezas opinativas)

quarta-feira, setembro 25, 2013

NO EXÍLIO

Longe das trombas dos caciques locais que precisam, pedem, suplicam ou, pior, exigem os nossos votos, vou até Bailly para ler o meu livro em paz, enquanto bebo uma (ou duas) tripel karmeliet. É uma estranha - e triste - sensação de alívio, esta que me assalta ao ver-me longe da claustrofóbica mediocridade política, mediática e burocrática tuga.

quarta-feira, setembro 04, 2013

TWARFLE TO MY FLUCKR


A CIDADE E OS CAMPOS

De regresso à metrópole apetece-me comentar: na cidade, essa bolha que nos separa do mundo de predadores e caçados, tudo gira a uma enorme velocidade. Aí, na cidade, a única constante das nossas vidas somos de facto nós próprios: tudo o resto muda num constante fluxo de eterna (ilusória, é certo) mudança. Mas no campo, imersos no mundo verdadeiro, aí, a estória é outra: parados, debaixo de um chaparro ou em cima de um monte, deparamo-nos com um cenário que não muda, um cenário que é constante. E aí, na presença do imutável mundo que nos engole compreendemos que quem varia, que quem representa o movimento e a mudança, somos afinal nós. O contraste não poderia ser maior: na cidade, sendo nós a constante, agarramo-nos ao certo, ou seja a nós próprios: daí o individualismo, o egoísmo, a obsessão para que o corpo não mude, que não envelheça, etc. Já no campo, compreendendo que o fluxo imemorial que manda no mundo somos também, e principalmente, nós, então, sendo outra a constante, mergulhamos nela - no mundo - em busca da certeza que, na cidade estando em nós próprios, no campo é forçosamente exterior (e muito maior!) do que nós, é uma certeza que está nos outros e no mundo. É, por esta razão, outro mundo em que se vive: a comunidade ganha um peso que no egoísticamente individualizado mundo das mecânicas cidades nunca poderia ter. A ligação ao mundo, aos ciclos das noites e dos dias, das Primaveras e dos Verões, ganha uma força que nos transcende e nos inspira. Enquanto isso, na cidade, dentro de um centro comercial, nem se sabe se faz sol ou lua. Aí, as luzes eléctricas escondem a via láctea e as estrelas às quais pertencemos. No campo, vive-se e morre-se ao ritmo do mundo; na cidade, as crianças mimadas irritam-se por haver falta de morangos no Inverno.

THE HANGOVER

"A large constituent of a hangover, after all, is a sense of guilt which does not seem to be guilt for anything in particular."

Herbert Mccabe, On Aquinas (2008)

segunda-feira, agosto 05, 2013

O MEU AMIGO ANTÓNIO GRANJO

Morreu-me um amigo. Não é coisa pouca. Ao Tó, levou-o um cabrão de um cancro aos trinta e oito anos de vida. Uma filha da putice, portanto. Encontrei-me com o Tó, já há muitos anos, pelos meandros do PSD e da JSD de Cascais. No início, e durante muito tempo, sempre tivemos o condão de estar em lados opostos. Não apenas por isso, creio eu que muito mais por termos feitios firmes que chocavam, irritámo-nos várias vezes um com o outro mas, ressalve-se, sem que alguma vez nos faltássemos ao respeito. O tempo passou e acabámos por ter a oportunidade de privar no mesmo grupo, que muito mais do que de politiquices, era um grupo de amigos. Conheço, portanto, o Tó há menos anos do que aqueles em que eu já o conhecia. E aí, finalmente, com o atraso que as boas coisas da vida sempre têm, conheci um bom amigo: frontal, de voz firme e com quem se podia contar. Uma vez, num aperto, sem gasolina, foi o Tó que às quatro da madrugada saiu de casa e se meteu no seu carro para, meio a dormir, ir à bomba e depois vir entregar-me uma garrafa de litro e meio de água cheia de gasolina 98. Fiquei a dever-lhe uma. Infelizmente, o tempo não me deixou que a devolvesse. O Tó gostava de dar murros na mesa: quando a conversa entrava num impasse lá vinha ele, muitas vezes com voz de trovão, resolver o que apenas dois ou três gritos poderiam resolver. Isso e uns goles de vinho ou de cerveja. O Tó era do Benfica. Foram muitos os jogos que vimos e, sorte a nossa, foram tantas as coincidências entre os jogos que víamos e as vitórias que o Benfica tinha que nos convencemos que, de alguma misteriosa forma, se nos juntássemos os dois para ver a bola era garantia de que o Benfica lá iria ganhar. E assim foi até ao dia em que perdemos. E nesse dia, desconsolados, vingámo-nos num belo pica-pau e numas quantas cervejas. O Tó era transmontano de coração. Mirandela, terra de Granjos, encerrava para ele o mito dos fortes, dos corajosos e dos casmurros e era nessa forma de ser que o Tó se sentia em casa. O Tó tinha um belo dedo para a cozinha. Lembro-me, em particular, de uma vez em que me convidou para ir almoçar umas favas com chouriço. Ó Tó, disse-lhe, olha que eu não sou grande fã de favas. Respondeu-me que as dele eu tinha que experimentar. Porra, e se não foram as melhores favas com chouriço que eu alguma vez experimentei! E não estou a exagerar: repetimos várias vezes, tantas que após o repasto nada mais consegui fazer além de apenas deitar-me à sombra, saciado, perfeito, feliz, apreciando a brisa leve de um Verão que eu não imaginava que fosse o último do Tó. Gritava ele lá de cima: ó Leeeeeeeeebres, estás vivo? Respondia eu lá de baixo, do jardim, que sim, que estava vivo e que tinha tido as melhores favas da minha vida. O Tó era gordo. Grande. E isso fazia-o perfeito porque ninguém que cozinhasse aquelas favas com chouriço poderia ser magro e escanzelado. Os magros e escanzelados cozinham pratos gourmet, armam-se em finos e dão nomes estrangeiros às suas mistelas. O Tó não. O Tó gostava do que era nosso porque o que era nosso era o melhor. Não podia estar mais de acordo com o Tó: chique, chique a valer, apenas a cozinha tradicional portuguesa. O Tó também se safava bem com as miúdas. Mas não era daqueles que quando arranjava uma miúda desaparecia ou deixava de atender o telefone. Pelo contrário. Lembro-me de uma vez em que, a meio de um processo eleitoral qualquer, me atendeu o telefone ofegante. Eu, a pensar que ele estava a subir escadas, lá lhe perguntei o que queria e ele, vendo da não urgência da situação, lá me disse: epá, já te ligo que agora estou aqui a meio de uma coisa. Mais tarde lá me confessou que "a coisa" era uma moça engraçada com quem ele andava de caso. O Tó era dedicado. Podia-se contar com ele. Sempre. O Tó tinha muitos amigos. E eu tenho a honra de me considerar um deles. O Tó faz falta. A muita gente. No outro dia, enquanto com esforço os homens da funerária carregavam o caixão, é que me bateu bem que nunca mais iria ver o Tó. E depois, naquele momento pior que é o som cortante das pás que enterram os nossos, ao meu lado, um amigo dizia-me desconsolado: cabrão do gordo, resolveu ir-se embora e deixou-nos cá. E foi isso. Deixou-nos cá. E a vida fica bem mais pobre sem o Tó. Mas também é verdade que a vida é mais rica porque tivemos o Tó: ele foi mas deixou muita coisa. A morte já se cruzou comigo antes, quando me levou o meu Pai. E eu penso agora, acerca do Tó, o mesmo que, naquela semana em que o meu Pai me morria, eu me repetia centenas de vezes para mim próprio: vamos todos para o mesmo sítio e, num universo com biliões e biliões de anos, umas míseras décadas que separam a partida de uns da partida dos outros não faz diferença absolutamente nenhuma a não ser aquelas migalhas de tempo que sobram para aqueles que ainda vivem. É uma merda, a condição do homem. É uma puta, a morte. Mas é daqueles que a enfrentam também que podemos dar mais força à vida. Aproveitemos, portanto. Celebremos, então. E, enquanto por aqui andarmos, que a partida precoce do Tó nos ajude a viver melhor, a aproveitar mais, a dar mais força, sentido e paixão às nossas vidas. E que a amizade que ele nos deixou nos faça sorrir de gratidão pela sorte de nesta fugaz viagem nos termos cruzado com ele. Talvez nos voltemos a encontrar. Eu gostaria disso.

MARCELO, O CACIQUE

O Prof. Marcelo e o seu enorme ego continuam a idealizada caminhada rumo a uma hipotética candidatura presidencial e, por essa razão - e unicamente por causa dela -, vive o nosso professor obcecado com o agradar à estrutura do PSD, faça esta o que fizer, diga esta o que disser, custe o que custar ser uma figura consensual - que agrade a todos. Onde houver um cacique local a desbaratar o dinheiro dos contribuintes para tentar a eleição, lá está o professor a apoiar. Onde  houver um mau candidato de quem (em off) diz cobras e lagartos mas que o aparelho do PSD compungidamente indicou, lá estará o professor a apoiar. Isto vai tão longe que agora até vale uma desavergonhada mentira: diz o professor que "Rui Rio exige a demissão da Ministra das Finanças". É falso. Quem vir a entrevista de Rio, tal como eu vi, pode muito bem ouvir Rio a dizer que a dita senhora foi uma má escolha, que não tem qualidades para o cargo, que isto e aquilo mas, atenção, agora que lá está, "Deus nos livre" que se exigisse uma demissão porque apenas agravaria o problema. Ora, isto não é diferente do que o que o próprio Marcelo disse acerca da senhora. Deve ter ouvido mal, pobre Prof. Marcelo. No final, o interesse dos portugueses e uma análise profunda sobre os méritos e os deméritos dos candidatos (nomeadamente, neste caso, uma comparação entre o trabalho de Rio no Porto e o de Menezes em Gaia para que se perceba o que os verdadeiramente divide) que era o que um suposto analista profundo e verdadeiramente preocupado com o país deveria fazer, isso já é coisa que o professor não faz ou, talvez melhor, porque não daria jeito, não quer fazer. Prefere ser uma espécie de Carlos Castro do comentário da política nacional. Ora, desses comentadores eu dispenso: principalmente para a Presidência da República.

terça-feira, julho 09, 2013

O MITO DA CONDENAÇÃO

Sísifo foi condenado, para sempre, a empurrar a pedra até ao cimo da montanha apenas para a ver rebolar de novo encosta abaixo. Foi condenado, atente-se. No entanto, eu permito-me duvidar desta condenação: se não fosse o acto de empurrar a pedra o que restaria a Sísifo que fosse capaz de o entreter? Por outras palavras: o que justificaria a sua existência? Podemos ver a pedra como uma condenação mas também podemos vê-la como a limitação que nos confere a existência: cada um tem a sua.

O PREÇO

Heraclito explicava que a nossa existência se separava da harmonia universal pela tensão entre opostos, uma espécie de limitação subjectiva em relação ao todo. É uma ideia importante: se estamos vivos, então estamos contidos - limitados - numa tensão permanente, numa espécie de conflito permanente entre antagonismos. Esta é a primeira grande aprendizagem do verdadeiro conservador: não pode haver uma verdadeira solução que traga a paz e a harmonia - a perfeição - pois a nossa condição humana não o permite: a harmonia é no plano do todo: o divino, portanto. A nossa limitação comprova-se com facilidade: a vida tem valor porque morremos; e o preço que pagamos por viver é a angústia da morte. Da mesma forma, a insatisfação permanente é o preço que pagamos por termos coisas com que nos satisfazemos. Não há almoços grátis.

sexta-feira, julho 05, 2013

NÃO PASSA NADA

Quem vir o telejornal da tarde da SIC fica com a ideia que, tirando uns incêndios, em Portugal, não se passa nada. Muito menos uma crise política.

quinta-feira, julho 04, 2013

A RATOEIRA E UMA SAÍDA: Uma Visão (Minimamente) Optimista

Sem uma profundíssima reforma do Estado que seja capaz de, ao mesmo tempo, reduzir a despesa pública de forma muito significativa e, também, não comprometer a natureza fundamental dos serviços públicos básicos sociais que garantam uma igualdade de oportunidades indispensável (bem como um conjunto de bens sociais imprescindíveis a uma sociedade próspera e desenvolvida) não conseguimos sair do buraco em que o partido socialista nos deixou. Este é o primeiro passo para compreendermos onde estamos, senão vejamos: i) sem essa reforma do Estado não se baixa a despesa pública; ii) sem baixar a despesa pública, não se controla o défice; iii) sem se controlar o défice (e arranjar folga orçamental) não se conseguem baixar os impostos; iv) sem baixar os impostos não há retoma económica através da saudável, porque espontânea, actividade empresarial privada (a alternativa é uma retoma económica baseada em investimento público que apenas agrava a dívida - que é o nosso problema desde o início - porque todo o dinheiro público provém de impostos - que não se podem aumentar mais - ou da emissão de dívida pública). Conclusão: sem a reforma do Estado não nos livramos do défice, tal como não criamos condições para um saudável crescimento económico, nem saímos do pântano que nos afunda neste empobrecimento irreversível (e já muito longo). Ou seja: o nosso problema é excesso de dívida e apenas reformando o Estado para baixar as nossas despesas criamos condições para que a economia cresça e, por força desse crescimento, gerar futuros superávites que permitam ir abatendo a dívida, ter perspectivas de futuro e reganhar a nossa prosperidade e independência financeira produzindo mais do que consumimos sem que o rácio seja feito à custa de consumirmos muito pouco (que é o caminho que vamos seguindo: o do empobrecimento generalizado). Até aqui este raciocínio deveria ser evidente, factual e indiscutível. Assim, a verdadeira questão deverá ser: como reformar o Estado? Onde, e como, cortar? Onde, e como, alterar? Ora, considerando que tudo isto assenta na reforma do Estado, natural seria então que andássemos todos a debater como reformar o Estado. Mas não. Nem o governo apresenta uma proposta, nem os desentendimentos governamentais últimos se fazem a propósito dessa essencial reforma mas (imagine-se!) apenas devido a nomeações políticas, pesos políticos e estratégias político-partidárias. Enquanto isso o país desespera por um esboço de reforma do Estado que simplesmente, ao fim de dois anos!, ainda não apareceu. Este é o verdadeiro falhanço deste governo que se vai revelando nos indicadores económicos que, mais ou menos graves, não nos dão sinais de que se possa inverter o rumo em que nos encontramos: na melhor das hipóteses vamos adiando o inevitável. Considerando que reformar o Estado - e todos os seus interesses - é uma tarefa impossível para o partido socialista que protege - e vive de - todos esses interesses, chegamos a uma triste conclusão: se a direita não reforma o Estado, ninguém o fará; e se a inversão da situação em que nos encontramos depende dessa reforma (e ela não se faz) a nova questão é: que caminho resta para Portugal? Considerando que eleições antecipadas terão consequências gravíssimas para o país, mas que essas consequências serão as mesmas, a médio prazo, do que ter um governo que não faz as reformas que já deveria ter feito (e portanto não será agora, partido, desfeito, desunido e descredibilizado que as fará), a conclusão é que estamos verdadeiramente encurralados: por um lado um governo que não reforma, por outro lado temos uma alternativa democrática que é contra a reforma. A única solução será, portanto, que, dentro do PSD saia um movimento alternativo à actual liderança capaz de apresentar um programa de governo com uma verdadeira reforma do Estado, primeiro ao partido e depois ao país, para que, aquando das próximas eleições legislativas - sejam elas amanhã ou daqui a dois anos - os portugueses tenham a possibilidade de escolher entre o caminho do socialismo e do estatismo do bloco central de interesses (e da dívida, do défice e da manutenção do status quo) e uma alternativa democrática que permita antever uma solução para a ratoeira em que nos encontramos encurralados. Aí, como sempre em democracia, o Povo será soberano e o único responsável pelo seu destino.

VIRA O DISCO...

Se o resultado prático deste tango todo for apenas o Paulo Portas como ministro da economia e, de novo, encarregue da famigerada reforma do Estado, fico muito mais tranquilo: até porque sabemos todos que o homem se dá bem com a ministra das finanças. Será um governo de futuro, cheio de força e pejado de ideias - e união - que inspirará a esperança no coração de todos os portugueses. Uma maravilha, portanto.

quarta-feira, julho 03, 2013

A CULPA É DA AUSTERIDADE

A oposição de esquerda no Parlamento vai, naturalmente, continuar a culpar os males da pátria na malfadada austeridade que, por malícia, o malandro do Gaspar nos impunha. Já explicarem onde, com novas eleições, sem financiamento externo, vão esses iluminados buscar dinheiro para pagar as contas, já isso é zero. Entre as birras da posição e o desatino da oposição, a conclusão é muito simples: estamos nas mãos de lunáticos.

ULTIMO TANGO EM LISBOA

Graças ao tango dançado nos últimos dias por Passos e Portas, somando-se-lhe a exigência de Seguro em eleições antecipadas, chegámos a um beco com duas saídas: uma, é sermos governados por uma qualquer solução governativa que, sem legitimidade política, não conseguirá fazer absolutamente nada a não ser navegar o caminho inexorável de um segundo resgate e uma falência mais profunda; outra, é termos um processo eleitoral violentíssimo que, graças aos nossos prazos, nos arrastará para um prolongado momento de intranquilidade e indecisão que resultará igualmente num segundo resgate e uma falência muito mais profunda, apenas que acelerados. Agarrem-se bem que isto vai ser a rasgar.

terça-feira, julho 02, 2013

RESUMO

Um bando de garotos a brincar aos políticos enquanto o país se afunda. É o que é.

OS NOTÁVEIS

Na SIC Notícias um ex-ministro do bloco central, o advogado de josé sócrates e um militante do PCP discutem o futuro do país. Confere.

PERGUNTAS QUE BONS JORNALISTAS DEVERIAM COLOCAR

Ao Dr. Paulo Portas: "Por que razão se demitiu do governo sem clarificar o país sobre se a sua demissão implica, ou não, a saída do partido (ao qual preside) da coligação governamental?"

Ao Dr. Paulo Portas: "Por que razão se demitiu apresentando uma razão da qual já tinha conhecimento aquando da reunião do Conselho Nacional do seu partido no dia 1 de Julho, reunião na qual não propôs, revelou, ou sequer anunciou a sua intenção de se demitir?"

Ao Dr. Paulo Portas: "Se decidiu demitir-se após saber quem iria ser ministra das finanças, por que razão um secretário de estado indicado pelo CDS tomou posse hoje (dia 2 de Julho)?"

Ao Dr. Paulo Portas: "Quando foi informado da escolha do PM para a pasta das finanças comunicou, sim ou não, a sua intenção firme de se demitir se tal escolha fosse levada a efeito?"

 Ao Dr. Paulo Portas: "Confirma, portanto, que não foi consultado acerca da escolha para a pasta das finanças e apenas foi informado de uma escolha na qual não participou de nenhuma forma?"

Ao Dr. Paulo Portas: "Onde está a proposta de reforma do Estado?"

Ao Dr. Passos Coelho: "Como pode afirmar que «vai averiguar acerca das condições de continuidade, etc., etc,» do CDS no governo quando teve o dia inteiro para telefonar ao seu ministro demissionário Paulo Portas (que lidera o CDS), tal como falou com todos os seus outros ministros (incluindo do CDS), e averiguar o que teria a obrigação de averiguar antes de tomar a decisão de se demitir ou não?"

Ao Dr. Passos Coelho: "Informou o Dr. Paulo Portas da escolha para o ministério das finanças?"

Ao Dr. Passo Coelho: "Se sim, ele manifestou a sua intenção de se demitir se o PM levasse a cabo a sua intenção - escolha - para o mistério das finanças?"

Ao Dr. Passos Coelho: "Além de informar, negociou ou permitiu que o Dr. Paulo Portas, ou alguém por ele mandatado, tomasse parte do processo de decisão sobre o novo titular da pasta das finanças?"

Ao Dr. Passos Coelho: "Onde está a proposta de reforma do Estado?"

ALTA CATEGORIA

Lê-se o comunicado de Paulo Portas e não está lá, preto no branco, que não sabia, que não foi consultado, ou que disse que saía no caso de Passos insistir naquele nome. Ouve-se Pedro Passos Coelho e não está lá, preto no branco, que disse, que o outro sabia, ou que não fazia ideia da possível demissão. Sobre "clareza política", tanto de um como do outro, estamos, portanto, conversados. Já o Tozé Seguro, craque das soluções, da coesão e da solução, conseguiu gritar eloquentemente sobre eleições antecipadas e como está disposto a governar sem que tenha a capacidade de dizer que apresenta uma indispensável moção de censura. Sobre coragem, e coerência, ficamos, também, conversados. Como óbvio será não é com esta malta que vamos lá.

PORTA(S) DE OPORTUNIDADE (II)

O que vale é que o Paulo Portas tem uma reforma do Estado espectacular para apresentar... ao congresso do CDS.

SOMOS UM RIO?


E AGORA PSD?

O PSD não é (apenas) isto, o PSD não pode ser isto.

A QUEDA

O governo morreu e da pior forma possível: com o desfazer do único factor de estabilidade legislativa que tinha, ou seja, uma coligação com maioria absoluta no Parlamento. Caindo a coligação tornam-se, portanto, inevitáveis as eleições. Naturalmente, é obrigatório que os militantes do PSD se possam pronunciar sobre o candidato a primeiro-ministro que pretendem apresentar ao país, candidato esse que, como óbvio deverá ser, não poderá ser nem Passos Coelho nem nenhum nome proveniente da oligarquia caciquista que liderou o PSD nos últimos três anos rumo ao maior fracasso governativo da sua história.

GENTE DE CATEGORIA

Vamos lá ver se eu entendo: no meio de um resgate internacional, numa altura de grande dificuldade nacional, Passos Coelho e Paulo Portas desentendem-se a propósito de uma nomeação política?

segunda-feira, julho 01, 2013

PORTA(S) DE OPORTUNIDADE

Mas os mais pessimistas que não se preocupem: o Paulo Portas, agora promovido a número dois do governo, tem aí uma reforma do Estado espectacular e prontinha para sair. Deve ser uma maravilha, um prodígio de "neo-liberalismo-democrada-cristão-social-democrata-e-socialista-que-pisque-o-olho-à-esquerda-que-não-quero-perder-votos-agora-que-o-governo-está-quase-a-cair", assim a modos que à imagem da ideologia recta e frontal que Paulo Portas sempre demonstrou ter.

À DERIVA (e a meter água)

Vou explicar por que razão este governo não dura até ao final do ano: para se equilibrar as contas públicas é preciso, como deveria ser evidente para todos, aumentar as receitas e diminuir a despesa. O ministro das finanças tem a capacidade de aumentar as receitas (o Gaspar assim fez) mas apenas consegue diminuir a despesa em duas circunstâncias: ou há uma reforma de fundo do Estado levada a cabo por um governo onde, cada ministro, na sua área, seja capaz de efectivamente baixar a despesa nos diferentes sectores (principalmente nos fundamentais como a educação, saúde e segurança social onde oitenta por cento da despesa pública se encontra concentrada) ou, então, como alternativa, à Salazar, o ministro das finanças teria poder de veto sobre as despesas desses ministérios. Como Gaspar não tinha nem uma nem outra possibilidade limitou-se a perder anos de vida e a fazer o que podia: subir impostos. Podem crucificar o homem à vontade mas quem verdadeiramente falha aqui é, por um lado, o governo por inteiro, principalmente os ministros das pastas mais importantes e que não reformaram um pevide e, por outro, evidentemente, um primeiro ministro que, após dois anos, nada tem para apresentar ao país. É por isto que que o governo não durará: não tem política, não tem ideias e não tem reformas para apresentar. Ora, sem política, sem ideias e sem reformas os resultados serão, obviamente, zero. No final, fica, como sempre, tudo na mesma: a malta cada vez mais à rasca e o barco cada vez mais afundado.

O BECO

O Gaspar foi um bom ministro das finanças? Não. Este governo tem governado bem? Não. Mas não se enganem: a alternativa é muito, muito, muito pior. E a falta de dinheiro para financiar o buraco das contas públicas é exactamente a mesma: bem pode o Seguro mandar pagar o que quiser que vai ter que ir buscar o dinheiro exactamente ao mesmo sítio onde estes iam buscar. Adivinham onde? Pois: aos nossos - cada vez mais vazios e furados - bolsos.

INEVITÁVEL

Após dois anos onde não foi capaz de apresentar uma reforma do Estado digna desse nome, com a troika a criticar - e bem - as tais (não) reformas, sem Gaspar, e com um peso pluma nas finanças ido buscar aos confins da cave, este governo está obviamente condenado. Regozijem-se os portugueses: vêm aí os socialistas (ainda mais do que estes) a prometer mundos e fundos, a apregoar o paraíso e a solução, apenas para confirmar uma velha máxima: que os portugueses nem se governam nem se deixam governar. Lá virão mais e novos impostos para pagar o sempre incontrolável déficit; lá virão os fiéis guardiões do Estado e da sua despesa pública explicar-nos como teremos nós, os contribuintes, que pagar os desvarios do bloco central de interesses que nos governa. Achavam que não aguentavam o Gaspar? Ai aguentavam, aguentavam.

quarta-feira, junho 19, 2013

DA ESTUPIDEZ GENERALIZADA

1. O Dr. Seguro veio "surpreender" num qualquer encontro progressista com uma nova proposta: que os governos europeus proíbam a possibilidade de a taxa de desemprego de um determinado país ser superior à média das taxas de desemprego desse mesmo grupo de países. Será caso, não para surpresa mas, pior, para completa estupefacção. Alíás, a estupidez da coisa é tão grande que estupefacção é pouco também. Duas perguntas: o Dr. Seguro, e quem o assessoria, podem explicar-me como querem subjugar um conjunto de taxas de desemprego à média formada por essas mesmas taxas de desemprego? É que nem sequer faz sentido porque, como deveria ser evidente, a média é formada pelas taxas: quanto muito, o surpreendente Dr. Seguro, força a que todas as taxas de desemprego não possam ultrapassar um determinado valor (que não será a média mas um limite). Assim, chega-se à segunda pergunta: se fosse possível proibir o desemprego para lá de um qualquer limite, por que razão não se haveria de proibir totalmente? Erradique-se o desemprego! Será mera estupidez, ignorância, simples impreparação ou um caso de sem vergonha demagogia? Será que o Dr. Seguro acredita agora nalguma forma mais radical de doutrina marxista onde controlando os meios de produção, conseguirá controlar o desemprego como bem lhe aprouver ou, outra possibilidade, será que o Dr. Seguro simplesmente não faz ideia do que diz?

2. Já um senhor chamado Nogueira, um revolucionário comunista que afirma que "apenas abandona o PCP quando o PCP for Governo", pretende, apesar de não pôr um pé numa sala de aula há mais de vinte anos, saber o que é melhor para os alunos, os professores e, claro, para o país. E o que é melhor? Mais dinheiro e menos trabalho: com marxistas destes a URSS não teria durado cinco anos.

3. Entretanto, o CDS propõe o aumento do salário mínimo nacional: deve ser para contrariar o Dr. Seguro e ajudar a aumentar a estatística do desemprego em Portugal.

4. No resto do Governo convocam-se Conselhos de Ministros extraordinários, fala-se de roteiros para reforma do Estado e acenam-se com números de futuros cortes; já uma ideia concreta, um fogacho de uma proposta reformista de fundo ou uma, mesmo que ténue, linha de rumo para o país, isso, já seria pedir de mais. Para quê reformar quando basta dizer-se que se vai reformar?

5. Finalmente, critica-se  por todo o lado no PSD - incluindo por pessoas que respeito - o "neo-liberalismo" do Governo. Já eu, que critico o "socialismo" do Governo, apelo a que se especifique o que significa isso de "neo-liberalismo" e, já agora, onde está "isso" no Governo. Talvez fosse conveniente ir-se um pouco mais longe do que os chavões do costume.

6. Esclareço: há três formas de lidar com a falência: a do Dr. Seguro que passa por fingir que ela não existe e que o dinheiro chove do céu; a do Governo que passa por fingir que corta a eito na despesa quando apenas corta em salários e aumenta impostos; finalmente, a única que poderia - a prazo - trazer algum benefício: cortar onde se deve, reformar, alterar, privatizar, concessionar onde se pode e racionalizar onde se consiga. Isto de acordo com dois princípios simples: menos Estado e mais responsabilidade individual. Deve ser o tal "neo-liberalismo". Uma achega: se não se for pela terceira opção, mais tarde ou mais cedo, a falência será mesmo efectiva: é que já nem a troika nos emprestará dinheiro.

7. Claro está que apelar a menos Estado e mais responsabilidade individual num país onde os seus principais actores políticos se comportam como se descreveu acima é capaz de ser tão idiota (pela esperança infundada) quanto as propostas políticas do Dr. Seguro (que raiam a imbecilidade pura).

8. Merda.

segunda-feira, junho 10, 2013

AUTÁRQUICAS

Ir vendo o desfile de candidaturas, mais ou menos independentes, que pululam por Portugal à cata do voto em Setembro próximo apenas tornou mais fortes duas profundas convicções que tenho: a primeira é que as autarquias esbanjam muito dinheiro; a segunda é que se aplicássemos, mesmo que invertido, o princípio que esteve na origem da revolução americana - no taxation without representation - e tivéssemos a quase totalidade das receitas das autarquias provenientes da taxação directa dos seus munícipes (que proporcionalmente pagariam menos impostos ao Estado central), então teríamos o problema resolvido: autarcas armados em senhores locais (que os há aos pontapés) a esbanjar o erário público não duravam tanto numa câmara municipal. Ao mesmo tempo, gostava de ver se o foguetório, o bailarico ou o concerto pimba continuariam a ser tão populares: quando percebemos que nos sai do bolso - e vemos para onde vai o guito - a coisa é capaz de ser um pouco diferente.

LIFE WITHOUT PHILOSOPHY

                                                                            Daqui.

CICLO VICIOSO

Em Portugal não há verdadeira direita democrática, entenda-se, o cruzamento do conservadorismo antropológico com a consequente intransigente defesa da liberdade individual: há apenas um conjunto alargado de pessoas, normalmente caciques impreparados e ávidos de poder, que, quer à esquerda, quer à suposta direita, com maior ou menor habilidade, tentam à viva força querer enfiar uma ficha quadrada num buraco redondo: pagar ilusões com dinheiro que não se tem (e culpar os outros pelo seu inevitável falhanço).

UMA FALÁCIA

Em Portugal - e cada vez mais no Ocidente inteiro - continua a ser um desafio exasperante desmontar a falácia de que aquilo que distingue a esquerda da direita é a preocupação social da primeira e a protecção dos interesses económicos da segunda. É mentira! Ambas pretendem melhorar as condições de vida da sociedade e, em particular, daqueles que menos têm: apenas discordam na forma como atingir tal objectivo.

CHEIO DE CHIQUE

A julgar pela categoria das estações de metro, o PIB per capita de Chelas deve dar dez a zero ao do centro de Bruxelas.

terça-feira, junho 04, 2013

A BRAVE NEW... MAN


HIPOCRISIA

Roger Scruton, um perigoso conservador, avisa que numa sociedade socialista - onde a solidariedade é uma função do Estado - ninguém se tem que preocupar com o bem-estar dos que menos têm: o Estado que o faça, é para isso que pago impostos. Esse paradoxo do socialismo, onde a apologia do Estado-Social e o desprezo pela "caridadezinha" (Louçã dixit) andam de mãos dadas com o desprezo pelas mãos estendidas no meio da rua, é uma característica que desmascara que o valor da solidariedade não é mais do que um falso argumento que sustenta uma mera estratégia de poder. Entretanto, culpam-se os políticos e vira-se as costas aos problemas do agora: a solução está no futuro radioso pós-revolucionário. Entretanto, para cúmulo, ainda se critica quem, de facto, faz alguma coisa: a Isabel Jonet e o seu Banco Alimentar acabaram de recolher mais de duas mil e quatrocentas toneladas de alimentos para quem mais precisa. Onde estão agora as vozes hipócritas que tantos nomes lhe chamaram por apenas ter dito o evidente (que em casa onde há crise comem-se menos bifes)? E quantos desses, que foram tão lestos a mandar pedras, fizeram alguma coisa por quem mais precisa? E desses hipócritas que tanto desprezam os mais necessitados - apesar de advogarem a revolução em nome deles - quantos têm a capacidade de enaltecer alguém, como a Isabel Jonet, que indubitavelmente faz uma coisa boa? Falar é fácil, fazer é mais difícil. Pior ainda quando não lhes interessa.

sábado, maio 25, 2013

DO OPTIMISMO

Se se quer ter uma boa demonstração do intrínseco optimismo decorrente de uma quase inabalável crença no progresso tecnológico como algo inevitável e rápido basta pensar-se que a Odisseia de Kubrick passa-se em 2001 e a acção de Blade Runner em 2019. Até mesmo o cúmulo do pessimismo - a catástrofe distópica do fim da civilização - de Terminator previa que os computadores acordassem em 1997. Entretanto, em 2013, o vai-e-vem espacial foi descontinuado, o Concorde abatido, os carros não voam, as pessoas ainda comem e bebem (cada vez mais), a CDU continua com 10% dos votos e, imagine-se!, uma revolucionária alternativa ao papel higiénico ainda não apareceu. Futuro? Qual futuro?

NOTAS CONSERVADORAS E LIBERAIS

Algumas notas conservadoras e liberais (já antigas e agora compiladas) sobre as motivações e as consequências do excesso de legislação que publiquei no Folia do Caos: A Questão do Legalismo.

quinta-feira, maio 09, 2013

SHITTING LOVE


BUROCRACIA SAFA TOUROS

Esta notícia sobre dois touros que andam à solta nos montes de Viana enche-me as medidas: entre a bravura dos touros que lutam pela vida, o recorrer ao artifício manhoso do belo sexo (taurino) ou as burocracias das quinhentas entidades que têm que "supervisionar" o processo (e que impediram a sua resolução), nem sei o que mais gozo me dá à leitura. O Sr. Farinhoto, criador de gado há 50 anos decidiu reformar-se e, aos 66 anos de idade, estes foram estes os últimos touros que criou e vendeu. Diz-nos o DN que "esta tarde, depois da longa espera pela recaptura frustrada, acusava cansaço e desagrado pelo o complicado processo, previsto para este tipo de situação, que, já ontem, tinha admitido envolver muita 'burocracia'. 'Se forem avistados tenho que chamar a GNR e depois é preciso contactar várias entidades. Para coordenar tudo isso é difícil e os touros não vão esperar', adiantou." Não vão, pois não. Boa sorte aos touros, possam eles resisitir às tentações daquelas vacas com o cio que a burocracia estatista talvez seja o suficiente para que se safem.

quarta-feira, maio 08, 2013

REVISING IDEALS


“The whole conception of man already endowed with a mind capable of conceiving civilization setting out to create it is fundamentally false. Man did not simply impose upon the world a pattern created by his mind. His mind is itself a system that constantly changes as a result of his endeavor to adapt himself to his surroundings. It would be an error to believe that, to achieve a higher civilization, we have merely to put into effect the ideas now guiding us. If we are to advance, we must leave room for a continuous revision of our present conceptions and ideals which will be necessitated by further experience. We are as little able to conceive what civilization will be, or can be, five hundred or even fifty years hence as our medieval forefathers or even our grandparents were able to foresee our manner of life today”.

F. A. Hayek, The Constitution of Liberty, 1960