quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O HOMEM, A VERDADE E A LIBERDADE: O Caso Português

Está bastante na moda falar-se sobre "falhas de comunicação", principalmente no que concerne à política governamental. A este propósito gostaria de deixar aqui uma pequena reflexão sobre as dificuldades que o acto de comunicar, na sua génese, configuram para os indivíduos e como compreender esse facto obriga a uma série de conclusões sobre a vida comunitária.

Imaginemos uma conversa entre dois amigos onde um deles, o Sr. Dr., profere uma frase; o seu interlocutor,o Sr. Eng.º, escuta-o. Essa frase é composta por palavras que, ao serem proferidas pelo Sr. Dr. são rapidamente entendidas como significando algo para o Sr. Eng.º. A razão pela qual significam alguma coisa é porque cada uma dessas palavras representa um conceito, ou seja, algo que representa um objecto que pode ser pensado apenas pelas suas características gerais. Isto significa que, através da palavra, o Sr. Dr. comunica - transporta - uma ideia que tem no seu próprio pensamento para o pensamento do Sr. Eng.º. O problema com os conceitos é que, precisamente por serem gerais e abstractos, significam coisas diferentes para cada um dos interlocutores numa conversa. A este propósito, Nietzsche, diz-nos que "todo o conceito emerge da igualização do não igual. Tão certo como uma folha nunca [ser] completamente igual a uma outra, assim também o conceito de folha foi formado graças ao abandono dessas diferenças individuais por um esquecimento do elemento diferenciador e suscita então a representação, como se existisse na natureza, fora das folhas, algo que fosse «a folha», algo como uma folha originária, segundo a qual todas as folhas seriam tecidas, desenhadas, recortadas, coloridas, frisadas e pintadas mas por mão desajeitada, de tal maneira que nenhum exemplar tivesse sido executado de modo correcto e fiável como a cópia fiel da forma originária."(1) O que Nietzsche nos diz aqui é que cada conceito humano representa uma abstracção esvaziada de todas as características particulares que fazem cada aplicação prática desse conceito uma realidade; assim sendo, num conceito cabem muitas  - todas, aliás - interpretações particulares possíveis sobre esse mesmo conceito: por "folha" podemos entender uma folha grande ou pequena, amarela ou verde, recordada ou redonda, etc., etc.

Voltando ao nosso exemplo, quando o Sr. Dr. diz a palavra "folha" está, por exemplo, a referir-se a uma folha em particular; já o Sr. Eng.º, quando ouve a palavra "folha" vai aplicar o conceito à sua interpretação própria do que é uma folha. Ou seja, apesar de ambos partirem do pressuposto de que se "entendem perfeitamente", um pode estar a referir-se a folhas verdes e pontiagudas enquanto que o outro imagina folhas quadradas e amarelas. Se no caso das folhas as consequências são despicientes na maioria dos casos, a trama complica-se quando começamos a falar de conceitos que são mais difíceis de transmitir: enquanto que uma folha pode desenhar-se num papel já,  por exemplo, a ideia de "honestidade" é de explicação mais complexa. Como desenhá-la? Não podemos. Assim, quando o Sr. Dr. fala de alguém que é honesto, o Sr. Eng.º tem um conjunto enorme de premissas, mais ou menos coincidentes com as do Sr. Dr. para compreender ao que aquele se refere por "honestidade". Agora, imagine-se uma conversa onde estas discrepâncias vão aumentando, de forma imparável, a cada nova palavra - representando um diferente conceito - que se introduz na conversa. Invariavelmente, ao final de algum tempo, o Sr. Eng.º vira-se e exclama "espere aí que agora não compreendi", ao que o Sr. Dr. tem que afinar o discurso, apurar a conversa com conceito sobre conceito para, uma vez esclarecidas as dúvidas, o Sr. Eng.º o poder acompanhar. Agora, imaginemos, o Sr. Dr. começa a falar de conceitos ainda mais abstractos e que podem significar coisas completamente diferentes para o Sr. Eng.º: falar sobre o "bem", por exemplo; ou a "liberdade"; ou, quiçá, a "justiça". Cada um destes conceitos pode ter interpretações completamente diferentes: para o Sr. Dr. "justiça" pode significar "a cada um o que merece na sua particularidade", por exemplo, enquanto para o Sr. Eng.º, "justiça" pode significar "a mesma pena para todos". O que se tira daqui é que comunicar é uma arte verdadeiramente difícil: e quanto mais complexos os conceitos, mais difícil ela se torna.

Agora imaginemos que a conversa não é apenas entre o Sr. Dr. e o Sr. Eng.º mas é já um debate em que dezenas de pessoas estão envolvidas. Cada um com os seus conceitos. Pior: que é um debate público onde um país inteiro, cada um com a sua sentença e a sua interpretação, anda a tentar perceber o que fazer da sua vida. Imagine-se Portugal, onde uns adeptos da interpretação de "liberdade" e "justiça" como a igualização absoluta da propriedade por todos os cidadãos (como a esquerda radical) andam a "comunicar" com outros que entendem por "justiça" e "liberdade" que cada indivíduo deve ter a possibilidade de fazer o que bem entender da sua vida e dos seus bens. Aqui a comunicação é já uma guerra de surdos onde cada um ouve nas palavras dos outros o ataque às suas próprias convicções. Nesse debate, a interpretação do mundo que cada parte tem é tão diferente da outra que nem conseguem concordar sobre o que é o mundo; sobre o que é real. Sobra uma luta sobre o que cada parte entende que o mundo deve ser.

É forçoso que se compreenda que a nossa interpretação do mundo, do real, assenta, primeiro, sobre os conceitos que formamos por nós próprios através da interpretação particular que lhes atribuímos (decidimos o que significa uma folha ao olhar para elas) e, segundo, através dos outros conceitos mais abstractos cujo valor e significado nos é transmitido por quem nos educa (honestidade, liberdade, etc. são coisas que os valores transmitidos nos ensinam). A nossa interpretação do mundo é, portanto, uma amálgama altamente complexa - e única na sua particularidade - de abstracções humanas, bem como de valores particulares, acerca do é o mundo ou do que ele deveria ser. "Que é então a verdade?", questiona-se Nietzsche para logo responder que configura "um exército móvel de metáforas, de metomínias, de antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que foram poética e retoricamente intensificadas, transpostas e adornadas e que depois de um longo uso parecem a um povo fixas, canónicas e vinculativas: as verdades são ilusões que foram esquecidas enquanto tais, metáforas que foram gastas e que ficaram esvaziadas do seu sentido, moedas que perderam o seu cunho e que agora são consideradas, não já como moedas, mas como metal."(2) Que nos diz o Filósofo aqui? Que a nossa interpretação do mundo se baseia numa interpretação (a nossa) assente num conjunto imemorial de outras interpretações. A probabilidade de nos entendermos de facto é, portanto, muito reduzida.

É preciso ver que toda esta dificuldade nos diz alguma coisa. Diz-nos, por exemplo, que o desígnio da esquerda progressista que insiste num mundo harmónico onde cada indivíduo, através do Estado, encontra as suas necessidades plenamente satisfeitas, é uma impossibilidade. É uma impossibilidade porque os indivíduos nunca vão concordar sequer sobre o significa - ou mais correcto será dizer-se: deverá significar - "Estado", "indivíduo", "necessidades" ou "satisfeitas". É esta simples incompreensão da complexidade humana que a esquerda não consegue ultrapassar: para eles o Homem é plano, a Verdade é óbvia e todos podemos, de alguma forma, descobri-la. Quanto mais não seja à força: és livre de ser tão livre como eu entendo que "ser livre" significa.

O politicamente correcto é uma forma desta imposição: uma rejeição de outras formas de interpretar o mundo que não estão de acordo com a da maioria. Outra bem fácil de analisar, é a histeria que por aí vai a propósito da austeridade imposta pelo governo; por aí apelida-se o Primeiro-Ministro e o Ministro das Finanças de "ladrões" que querem, de sua livre vontade, impor sevícias terríveis à população. Faz-me lembrar aqueles que acusavam os discos de heavy metal dos anos oitenta de terem mensagens escondidas de apelo ao suicídio. Perguntava-se, e bem, o Bill Hicks sobre qual seria a banda de rock que quereria ver os seus fãs (e a sua fonte de rendimento) mortos. O mesmo se poderia perguntar sobre qual o PM que quer perder as próximas eleições apenas por desejar roubar escandalosamente a sua população. Tudo isto apenas demonstra a incapacidade de comunicar entre diferentes visões da sociedade: quando não há capacidade de se encetar um debate racional recorre-se à violência da agressão verbal. E a seguir a esta vem normalmente a física.

Parece-me que é precisamente aqui que a visão conservadora-liberal tem algo para oferecer à sociedade: é preciso compreender que se queremos ter uma sociedade que seja bem sucedida, onde temos que centrar o debate será, em primeira instância, sobre o que vamos assumir como a nossa verdade; ou seja, quais são as nossas interpretações, enquanto país, dos conceitos básicos que presidem a uma comunidade política: o que entendemos por liberdade ? O que entendemos por justiça? Em suma: quais são as interpretações particulares sobre os valores fundamentais que queremos advogar. A isto se dá o nome de ideologia; aquela que os mais ignorantes afirmam ter morrido ou não haver espaço para ela.

O facto é que ter um debate público onde os marxistas-leninistas adversários da propriedade privada andam a discutir economia com os adeptos do mercado-livre e da liberdade individual não serve para nada a não ser para andar a lançar palavras vazias de sentido que configuram uma máscara sobre as ideologias que lhe estão subjacentes. É por isso que o debate ideológico é tão fundamental: apenas depois, entre aqueles que partilham um consenso sobre o que deve ser a sociedade, podemos discutir com profundidade as opções práticas sobre como obter melhor resultados com vista aos nossos objectivos particulares. Desmascarar a extrema-esquerda é pois fundamental: apenas quando, já nos idos de 1975, ela revelou a sua verdadeira face, os Portugueses compreenderam verdadeiramente o que estava em jogo e a rejeitaram. Ela está aí de volta agora mas, sabida e aprendida, esconde-se por detrás da máscara de um discurso não-ideológico populista. Acalentam a esperança de atingir o poder aproveitando-se do triunfo da ideia perigosíssima de que não há ideologias. O debate ideológico revela as intenções de cada grupo político; afirmar que não há ideologias (quando a própria interpretação do real é afectada pela ideologia) é apenas continuar a permitir que o debate político se trave numa arena escondida por detrás de uma opaca cortina de fumo.

O passo seguinte é o de definir o terreno de jogo político: e este é o dos factos. Se é certo que a verdade no seu sentido lato é imperscrutável, não deixa de ser igualmente certo que dois e dois são quatro e que, num sentido restrito, pela experiência e pela ciência, há certos factos que se podem aferir. Ora, como já vimos, cada conceito (logo também cada facto) pode ser interpretado de forma mais ou menos benevolente consoante a interpretação do mundo que lhe está subjacente tal como, não menos importante, o interesse que lhe assiste: cada político interpreta uma tabela de excel de forma diferente puxando a brasa à sua sardinha. É aqui que se exige que haja uma imparcialidade no debate: no oferecer-se ao público, incapaz de interpretar por si próprio os complicadíssimos conceitos que estão a ser debatidos, uma explicação clara sobre qual é a verdade particular que está ser discutida. É este o fundamental papel dos media: estipular as regras do jogo e aferir da plausibilidade de cada versão em debate.

Infelizmente, tudo isto tem falhado em Portugal de forma clamorosa: os media não apuram nada, limitam-se a papaguear slogans que lhe são oferecidos por agências de comunicação quando, pior, não representam as próprias vontades e interesses dos jornalistas ditos "de causas"; os políticos, porque mal preparados e sem uma visão consistente e profunda do mundo, são incapazes de ter uma proposta de futuro para a sociedade precisamente porque caem na falácia superficial de que as ideologias morreram; finalmente, o povo, verdadeiramente entalado entre políticos impreparados e um acesso limitadíssimo à boa informação (aquela que medeia e modera imparcialmente os diversos interesses em jogo expondo-os), vê-se sem capacidade de fielmente interpretar a realidade ao mesmo tempo que não percebe as verdadeiras diferenças entre as diferentes opções que lhe são propostas. No final, é o perfeito resultado de uma comunidade que, tendo rejeitado a última interpretação do mundo que lhe tinha sido imposta (o Deus, Pátria e Família de Salazar) ainda não conseguiu nos últimos quarenta anos preencher esse vácuo: que nem um barco à deriva, num mundo onde apenas os valores partilhados podem oferecer a segurança de uma âncora, está Portugal órfão de uma verdade.


(1) Friedrich Nietzsche, Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral [1873], Relógio d'Água (2010), p. 220
(2) Ibidem, p. 221

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