Pensamento, m. - Acto ou efeito de pensar. Qualquer acto de inteligência. Fantasia. Ideia. Espírito. Uso da razão. Reflexões

quarta-feira, junho 19, 2013

DA ESTUPIDEZ GENERALIZADA

1. O Dr. Seguro veio "surpreender" num qualquer encontro progressista com uma nova proposta: que os governos europeus proíbam a possibilidade de a taxa de desemprego de um determinado país ser superior à média das taxas de desemprego desse mesmo grupo de países. Será caso, não para surpresa mas, pior, para completa estupefacção. Alíás, a estupidez da coisa é tão grande que estupefacção é pouco também. Duas perguntas: o Dr. Seguro, e quem o assessoria, podem explicar-me como querem subjugar um conjunto de taxas de desemprego à média formada por essas mesmas taxas de desemprego? É que nem sequer faz sentido porque, como deveria ser evidente, a média é formada pelas taxas: quanto muito, o surpreendente Dr. Seguro, força a que todas as taxas de desemprego não possam ultrapassar um determinado valor (que não será a média mas um limite). Assim, chega-se à segunda pergunta: se fosse possível proibir o desemprego para lá de um qualquer limite, por que razão não se haveria de proibir totalmente? Erradique-se o desemprego! Será mera estupidez, ignorância, simples impreparação ou um caso de sem vergonha demagogia? Será que o Dr. Seguro acredita agora nalguma forma mais radical de doutrina marxista onde controlando os meios de produção, conseguirá controlar o desemprego como bem lhe aprouver ou, outra possibilidade, será que o Dr. Seguro simplesmente não faz ideia do que diz?

2. Já um senhor chamado Nogueira, um revolucionário comunista que afirma que "apenas abandona o PCP quando o PCP for Governo", pretende, apesar de não pôr um pé numa sala de aula há mais de vinte anos, saber o que é melhor para os alunos, os professores e, claro, para o país. E o que é melhor? Mais dinheiro e menos trabalho: com marxistas destes a URSS não teria durado cinco anos.

3. Entretanto, o CDS propõe o aumento do salário mínimo nacional: deve ser para contrariar o Dr. Seguro e ajudar a aumentar a estatística do desemprego em Portugal.

4. No resto do Governo convocam-se Conselhos de Ministros extraordinários, fala-se de roteiros para reforma do Estado e acenam-se com números de futuros cortes; já uma ideia concreta, um fogacho de uma proposta reformista de fundo ou uma, mesmo que ténue, linha de rumo para o país, isso, já seria pedir de mais. Para quê reformar quando basta dizer-se que se vai reformar?

5. Finalmente, critica-se  por todo o lado no PSD - incluindo por pessoas que respeito - o "neo-liberalismo" do Governo. Já eu, que critico o "socialismo" do Governo, apelo a que se especifique o que significa isso de "neo-liberalismo" e, já agora, onde está "isso" no Governo. Talvez fosse conveniente ir-se um pouco mais longe do que os chavões do costume.

6. Esclareço: há três formas de lidar com a falência: a do Dr. Seguro que passa por fingir que ela não existe e que o dinheiro chove do céu; a do Governo que passa por fingir que corta a eito na despesa quando apenas corta em salários e aumenta impostos; finalmente, a única que poderia - a prazo - trazer algum benefício: cortar onde se deve, reformar, alterar, privatizar, concessionar onde se pode e racionalizar onde se consiga. Isto de acordo com dois princípios simples: menos Estado e mais responsabilidade individual. Deve ser o tal "neo-liberalismo". Uma achega: se não se for pela terceira opção, mais tarde ou mais cedo, a falência será mesmo efectiva: é que já nem a troika nos emprestará dinheiro.

7. Claro está que apelar a menos Estado e mais responsabilidade individual num país onde os seus principais actores políticos se comportam como se descreveu acima é capaz de ser tão idiota (pela esperança infundada) quanto as propostas políticas do Dr. Seguro (que raiam a imbecilidade pura).

8. Merda.

segunda-feira, junho 10, 2013

AUTÁRQUICAS

Ir vendo o desfile de candidaturas, mais ou menos independentes, que pululam por Portugal à cata do voto em Setembro próximo apenas tornou mais fortes duas profundas convicções que tenho: a primeira é que as autarquias esbanjam muito dinheiro; a segunda é que se aplicássemos, mesmo que invertido, o princípio que esteve na origem da revolução americana - no taxation without representation - e tivéssemos a quase totalidade das receitas das autarquias provenientes da taxação directa dos seus munícipes (que proporcionalmente pagariam menos impostos ao Estado central), então teríamos o problema resolvido: autarcas armados em senhores locais (que os há aos pontapés) a esbanjar o erário público não duravam tanto numa câmara municipal. Ao mesmo tempo, gostava de ver se o foguetório, o bailarico ou o concerto pimba continuariam a ser tão populares: quando percebemos que nos sai do bolso - e vemos para onde vai o guito - a coisa é capaz de ser um pouco diferente.

LIFE WITHOUT PHILOSOPHY

                                                                            Daqui.

CICLO VICIOSO

Em Portugal não há verdadeira direita democrática, entenda-se, o cruzamento do conservadorismo antropológico com a consequente intransigente defesa da liberdade individual: há apenas um conjunto alargado de pessoas, normalmente caciques impreparados e ávidos de poder, que, quer à esquerda, quer à suposta direita, com maior ou menor habilidade, tentam à viva força querer enfiar uma ficha quadrada num buraco redondo: pagar ilusões com dinheiro que não se tem (e culpar os outros pelo seu inevitável falhanço).

UMA FALÁCIA

Em Portugal - e cada vez mais no Ocidente inteiro - continua a ser um desafio exasperante desmontar a falácia de que aquilo que distingue a esquerda da direita é a preocupação social da primeira e a protecção dos interesses económicos da segunda. É mentira! Ambas pretendem melhorar as condições de vida da sociedade e, em particular, daqueles que menos têm: apenas discordam na forma como atingir tal objectivo.

CHEIO DE CHIQUE

A julgar pela categoria das estações de metro, o PIB per capita de Chelas deve dar dez a zero ao do centro de Bruxelas.

terça-feira, junho 04, 2013

A BRAVE NEW... MAN


HIPOCRISIA

Roger Scruton, um perigoso conservador, avisa que numa sociedade socialista - onde a solidariedade é uma função do Estado - ninguém se tem que preocupar com o bem-estar dos que menos têm: o Estado que o faça, é para isso que pago impostos. Esse paradoxo do socialismo, onde a apologia do Estado-Social e o desprezo pela "caridadezinha" (Louçã dixit) andam de mãos dadas com o desprezo pelas mãos estendidas no meio da rua, é uma característica que desmascara que o valor da solidariedade não é mais do que um falso argumento que sustenta uma mera estratégia de poder. Entretanto, culpam-se os políticos e vira-se as costas aos problemas do agora: a solução está no futuro radioso pós-revolucionário. Entretanto, para cúmulo, ainda se critica quem, de facto, faz alguma coisa: a Isabel Jonet e o seu Banco Alimentar acabaram de recolher mais de duas mil e quatrocentas toneladas de alimentos para quem mais precisa. Onde estão agora as vozes hipócritas que tantos nomes lhe chamaram por apenas ter dito o evidente (que em casa onde há crise comem-se menos bifes)? E quantos desses, que foram tão lestos a mandar pedras, fizeram alguma coisa por quem mais precisa? E desses hipócritas que tanto desprezam os mais necessitados - apesar de advogarem a revolução em nome deles - quantos têm a capacidade de enaltecer alguém, como a Isabel Jonet, que indubitavelmente faz uma coisa boa? Falar é fácil, fazer é mais difícil. Pior ainda quando não lhes interessa.