terça-feira, 9 de julho de 2013

O MITO DA CONDENAÇÃO

Sísifo foi condenado, para sempre, a empurrar a pedra até ao cimo da montanha apenas para a ver rebolar de novo encosta abaixo. Foi condenado, atente-se. No entanto, eu permito-me duvidar desta condenação: se não fosse o acto de empurrar a pedra o que restaria a Sísifo que fosse capaz de o entreter? Por outras palavras: o que justificaria a sua existência? Podemos ver a pedra como uma condenação mas também podemos vê-la como a limitação que nos confere a existência: cada um tem a sua.

O PREÇO

Heraclito explicava que a nossa existência se separava da harmonia universal pela tensão entre opostos, uma espécie de limitação subjectiva em relação ao todo. É uma ideia importante: se estamos vivos, então estamos contidos - limitados - numa tensão permanente, numa espécie de conflito permanente entre antagonismos. Esta é a primeira grande aprendizagem do verdadeiro conservador: não pode haver uma verdadeira solução que traga a paz e a harmonia - a perfeição - pois a nossa condição humana não o permite: a harmonia é no plano do todo: o divino, portanto. A nossa limitação comprova-se com facilidade: a vida tem valor porque morremos; e o preço que pagamos por viver é a angústia da morte. Da mesma forma, a insatisfação permanente é o preço que pagamos por termos coisas com que nos satisfazemos. Não há almoços grátis.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

NÃO PASSA NADA

Quem vir o telejornal da tarde da SIC fica com a ideia que, tirando uns incêndios, em Portugal, não se passa nada. Muito menos uma crise política.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

A RATOEIRA E UMA SAÍDA: Uma Visão (Minimamente) Optimista

Sem uma profundíssima reforma do Estado que seja capaz de, ao mesmo tempo, reduzir a despesa pública de forma muito significativa e, também, não comprometer a natureza fundamental dos serviços públicos básicos sociais que garantam uma igualdade de oportunidades indispensável (bem como um conjunto de bens sociais imprescindíveis a uma sociedade próspera e desenvolvida) não conseguimos sair do buraco em que o partido socialista nos deixou. Este é o primeiro passo para compreendermos onde estamos, senão vejamos: i) sem essa reforma do Estado não se baixa a despesa pública; ii) sem baixar a despesa pública, não se controla o défice; iii) sem se controlar o défice (e arranjar folga orçamental) não se conseguem baixar os impostos; iv) sem baixar os impostos não há retoma económica através da saudável, porque espontânea, actividade empresarial privada (a alternativa é uma retoma económica baseada em investimento público que apenas agrava a dívida - que é o nosso problema desde o início - porque todo o dinheiro público provém de impostos - que não se podem aumentar mais - ou da emissão de dívida pública). Conclusão: sem a reforma do Estado não nos livramos do défice, tal como não criamos condições para um saudável crescimento económico, nem saímos do pântano que nos afunda neste empobrecimento irreversível (e já muito longo). Ou seja: o nosso problema é excesso de dívida e apenas reformando o Estado para baixar as nossas despesas criamos condições para que a economia cresça e, por força desse crescimento, gerar futuros superávites que permitam ir abatendo a dívida, ter perspectivas de futuro e reganhar a nossa prosperidade e independência financeira produzindo mais do que consumimos sem que o rácio seja feito à custa de consumirmos muito pouco (que é o caminho que vamos seguindo: o do empobrecimento generalizado). Até aqui este raciocínio deveria ser evidente, factual e indiscutível. Assim, a verdadeira questão deverá ser: como reformar o Estado? Onde, e como, cortar? Onde, e como, alterar? Ora, considerando que tudo isto assenta na reforma do Estado, natural seria então que andássemos todos a debater como reformar o Estado. Mas não. Nem o governo apresenta uma proposta, nem os desentendimentos governamentais últimos se fazem a propósito dessa essencial reforma mas (imagine-se!) apenas devido a nomeações políticas, pesos políticos e estratégias político-partidárias. Enquanto isso o país desespera por um esboço de reforma do Estado que simplesmente, ao fim de dois anos!, ainda não apareceu. Este é o verdadeiro falhanço deste governo que se vai revelando nos indicadores económicos que, mais ou menos graves, não nos dão sinais de que se possa inverter o rumo em que nos encontramos: na melhor das hipóteses vamos adiando o inevitável. Considerando que reformar o Estado - e todos os seus interesses - é uma tarefa impossível para o partido socialista que protege - e vive de - todos esses interesses, chegamos a uma triste conclusão: se a direita não reforma o Estado, ninguém o fará; e se a inversão da situação em que nos encontramos depende dessa reforma (e ela não se faz) a nova questão é: que caminho resta para Portugal? Considerando que eleições antecipadas terão consequências gravíssimas para o país, mas que essas consequências serão as mesmas, a médio prazo, do que ter um governo que não faz as reformas que já deveria ter feito (e portanto não será agora, partido, desfeito, desunido e descredibilizado que as fará), a conclusão é que estamos verdadeiramente encurralados: por um lado um governo que não reforma, por outro lado temos uma alternativa democrática que é contra a reforma. A única solução será, portanto, que, dentro do PSD saia um movimento alternativo à actual liderança capaz de apresentar um programa de governo com uma verdadeira reforma do Estado, primeiro ao partido e depois ao país, para que, aquando das próximas eleições legislativas - sejam elas amanhã ou daqui a dois anos - os portugueses tenham a possibilidade de escolher entre o caminho do socialismo e do estatismo do bloco central de interesses (e da dívida, do défice e da manutenção do status quo) e uma alternativa democrática que permita antever uma solução para a ratoeira em que nos encontramos encurralados. Aí, como sempre em democracia, o Povo será soberano e o único responsável pelo seu destino.

VIRA O DISCO...

Se o resultado prático deste tango todo for apenas o Paulo Portas como ministro da economia e, de novo, encarregue da famigerada reforma do Estado, fico muito mais tranquilo: até porque sabemos todos que o homem se dá bem com a ministra das finanças. Será um governo de futuro, cheio de força e pejado de ideias - e união - que inspirará a esperança no coração de todos os portugueses. Uma maravilha, portanto.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A CULPA É DA AUSTERIDADE

A oposição de esquerda no Parlamento vai, naturalmente, continuar a culpar os males da pátria na malfadada austeridade que, por malícia, o malandro do Gaspar nos impunha. Já explicarem onde, com novas eleições, sem financiamento externo, vão esses iluminados buscar dinheiro para pagar as contas, já isso é zero. Entre as birras da posição e o desatino da oposição, a conclusão é muito simples: estamos nas mãos de lunáticos.

ULTIMO TANGO EM LISBOA

Graças ao tango dançado nos últimos dias por Passos e Portas, somando-se-lhe a exigência de Seguro em eleições antecipadas, chegámos a um beco com duas saídas: uma, é sermos governados por uma qualquer solução governativa que, sem legitimidade política, não conseguirá fazer absolutamente nada a não ser navegar o caminho inexorável de um segundo resgate e uma falência mais profunda; outra, é termos um processo eleitoral violentíssimo que, graças aos nossos prazos, nos arrastará para um prolongado momento de intranquilidade e indecisão que resultará igualmente num segundo resgate e uma falência muito mais profunda, apenas que acelerados. Agarrem-se bem que isto vai ser a rasgar.

RESUMO

Um bando de garotos a brincar aos políticos enquanto o país se afunda. É o que é.

OS NOTÁVEIS

Na SIC Notícias um ex-ministro do bloco central, o advogado de josé sócrates e um militante do PCP discutem o futuro do país. Confere.

PERGUNTAS QUE BONS JORNALISTAS DEVERIAM COLOCAR

Ao Dr. Paulo Portas: "Por que razão se demitiu do governo sem clarificar o país sobre se a sua demissão implica, ou não, a saída do partido (ao qual preside) da coligação governamental?"

Ao Dr. Paulo Portas: "Por que razão se demitiu apresentando uma razão da qual já tinha conhecimento aquando da reunião do Conselho Nacional do seu partido no dia 1 de Julho, reunião na qual não propôs, revelou, ou sequer anunciou a sua intenção de se demitir?"

Ao Dr. Paulo Portas: "Se decidiu demitir-se após saber quem iria ser ministra das finanças, por que razão um secretário de estado indicado pelo CDS tomou posse hoje (dia 2 de Julho)?"

Ao Dr. Paulo Portas: "Quando foi informado da escolha do PM para a pasta das finanças comunicou, sim ou não, a sua intenção firme de se demitir se tal escolha fosse levada a efeito?"

 Ao Dr. Paulo Portas: "Confirma, portanto, que não foi consultado acerca da escolha para a pasta das finanças e apenas foi informado de uma escolha na qual não participou de nenhuma forma?"

Ao Dr. Paulo Portas: "Onde está a proposta de reforma do Estado?"

Ao Dr. Passos Coelho: "Como pode afirmar que «vai averiguar acerca das condições de continuidade, etc., etc,» do CDS no governo quando teve o dia inteiro para telefonar ao seu ministro demissionário Paulo Portas (que lidera o CDS), tal como falou com todos os seus outros ministros (incluindo do CDS), e averiguar o que teria a obrigação de averiguar antes de tomar a decisão de se demitir ou não?"

Ao Dr. Passos Coelho: "Informou o Dr. Paulo Portas da escolha para o ministério das finanças?"

Ao Dr. Passo Coelho: "Se sim, ele manifestou a sua intenção de se demitir se o PM levasse a cabo a sua intenção - escolha - para o mistério das finanças?"

Ao Dr. Passos Coelho: "Além de informar, negociou ou permitiu que o Dr. Paulo Portas, ou alguém por ele mandatado, tomasse parte do processo de decisão sobre o novo titular da pasta das finanças?"

Ao Dr. Passos Coelho: "Onde está a proposta de reforma do Estado?"

terça-feira, 2 de julho de 2013

ALTA CATEGORIA

Lê-se o comunicado de Paulo Portas e não está lá, preto no branco, que não sabia, que não foi consultado, ou que disse que saía no caso de Passos insistir naquele nome. Ouve-se Pedro Passos Coelho e não está lá, preto no branco, que disse, que o outro sabia, ou que não fazia ideia da possível demissão. Sobre "clareza política", tanto de um como do outro, estamos, portanto, conversados. Já o Tozé Seguro, craque das soluções, da coesão e da solução, conseguiu gritar eloquentemente sobre eleições antecipadas e como está disposto a governar sem que tenha a capacidade de dizer que apresenta uma indispensável moção de censura. Sobre coragem, e coerência, ficamos, também, conversados. Como óbvio será não é com esta malta que vamos lá.

PORTA(S) DE OPORTUNIDADE (II)

O que vale é que o Paulo Portas tem uma reforma do Estado espectacular para apresentar... ao congresso do CDS.

SOMOS UM RIO?


E AGORA PSD?

O PSD não é (apenas) isto, o PSD não pode ser isto.

A QUEDA

O governo morreu e da pior forma possível: com o desfazer do único factor de estabilidade legislativa que tinha, ou seja, uma coligação com maioria absoluta no Parlamento. Caindo a coligação tornam-se, portanto, inevitáveis as eleições. Naturalmente, é obrigatório que os militantes do PSD se possam pronunciar sobre o candidato a primeiro-ministro que pretendem apresentar ao país, candidato esse que, como óbvio deverá ser, não poderá ser nem Passos Coelho nem nenhum nome proveniente da oligarquia caciquista que liderou o PSD nos últimos três anos rumo ao maior fracasso governativo da sua história.

GENTE DE CATEGORIA

Vamos lá ver se eu entendo: no meio de um resgate internacional, numa altura de grande dificuldade nacional, Passos Coelho e Paulo Portas desentendem-se a propósito de uma nomeação política?

segunda-feira, 1 de julho de 2013

PORTA(S) DE OPORTUNIDADE

Mas os mais pessimistas que não se preocupem: o Paulo Portas, agora promovido a número dois do governo, tem aí uma reforma do Estado espectacular e prontinha para sair. Deve ser uma maravilha, um prodígio de "neo-liberalismo-democrada-cristão-social-democrata-e-socialista-que-pisque-o-olho-à-esquerda-que-não-quero-perder-votos-agora-que-o-governo-está-quase-a-cair", assim a modos que à imagem da ideologia recta e frontal que Paulo Portas sempre demonstrou ter.

À DERIVA (e a meter água)

Vou explicar por que razão este governo não dura até ao final do ano: para se equilibrar as contas públicas é preciso, como deveria ser evidente para todos, aumentar as receitas e diminuir a despesa. O ministro das finanças tem a capacidade de aumentar as receitas (o Gaspar assim fez) mas apenas consegue diminuir a despesa em duas circunstâncias: ou há uma reforma de fundo do Estado levada a cabo por um governo onde, cada ministro, na sua área, seja capaz de efectivamente baixar a despesa nos diferentes sectores (principalmente nos fundamentais como a educação, saúde e segurança social onde oitenta por cento da despesa pública se encontra concentrada) ou, então, como alternativa, à Salazar, o ministro das finanças teria poder de veto sobre as despesas desses ministérios. Como Gaspar não tinha nem uma nem outra possibilidade limitou-se a perder anos de vida e a fazer o que podia: subir impostos. Podem crucificar o homem à vontade mas quem verdadeiramente falha aqui é, por um lado, o governo por inteiro, principalmente os ministros das pastas mais importantes e que não reformaram um pevide e, por outro, evidentemente, um primeiro ministro que, após dois anos, nada tem para apresentar ao país. É por isto que que o governo não durará: não tem política, não tem ideias e não tem reformas para apresentar. Ora, sem política, sem ideias e sem reformas os resultados serão, obviamente, zero. No final, fica, como sempre, tudo na mesma: a malta cada vez mais à rasca e o barco cada vez mais afundado.

O BECO

O Gaspar foi um bom ministro das finanças? Não. Este governo tem governado bem? Não. Mas não se enganem: a alternativa é muito, muito, muito pior. E a falta de dinheiro para financiar o buraco das contas públicas é exactamente a mesma: bem pode o Seguro mandar pagar o que quiser que vai ter que ir buscar o dinheiro exactamente ao mesmo sítio onde estes iam buscar. Adivinham onde? Pois: aos nossos - cada vez mais vazios e furados - bolsos.

INEVITÁVEL

Após dois anos onde não foi capaz de apresentar uma reforma do Estado digna desse nome, com a troika a criticar - e bem - as tais (não) reformas, sem Gaspar, e com um peso pluma nas finanças ido buscar aos confins da cave, este governo está obviamente condenado. Regozijem-se os portugueses: vêm aí os socialistas (ainda mais do que estes) a prometer mundos e fundos, a apregoar o paraíso e a solução, apenas para confirmar uma velha máxima: que os portugueses nem se governam nem se deixam governar. Lá virão mais e novos impostos para pagar o sempre incontrolável déficit; lá virão os fiéis guardiões do Estado e da sua despesa pública explicar-nos como teremos nós, os contribuintes, que pagar os desvarios do bloco central de interesses que nos governa. Achavam que não aguentavam o Gaspar? Ai aguentavam, aguentavam.