Pensamento, m. - Acto ou efeito de pensar. Qualquer acto de inteligência. Fantasia. Ideia. Espírito. Uso da razão. Reflexões

sexta-feira, novembro 29, 2013

O ETERNO RETORNO

"Um dia um certo número de indivíduos reúnem-se na praça pública:
Concorre a gente.
E começam a gritar:
A gente apinha-se.
Uma terça-parte garotos e vadios,
Outra, mulheres,
O resto, gente que vem ver - para rir - julgando que serão bêbados.
Ora um destes indivíduos sobe aos ombros dos outros e diz:
- O Povo geme! -
A multidão agita-se.
- A Liberdade é um direito santo!! -
A multidão freme.
- O Povo quer ser livre!!! -
A multidão urra.
- Derrubemos os tiranos!!!! -
A multidão rui.

Ora, outros indivíduos estão reunidos numa grande casa e dizem:
- O povo geme -
Logo, aumentem-se 5 por cento.
- A liberdade é um direito santo -
Logo, venha a censura.
- O povo deve ser livre -
Logo, triplique-se o exército
etc. etc. etc.
Outros aplaudem, e um copia estas falas num grande papel, que se imprime, consta, que para desfeitear a gramática.
Há quem boceje.

Enquanto isto se passa, o rumor dos homens da praça aproxima-se: os da casa, ouvindo-os fecham as portas; os outros bramem fora.
Nisto, outros homens vestidos de furta-cores apresentam-se e marcam passo.
Depois, ao toque dum instrumento de latão, e caindo sobre os outros, disparam vários tiros para o ar.
Alarido e confusão.

Temos aqui dous casos a considerar.

Se os primeiros levam a melhor neste exercício, abraçam-se uns e outros, grita-se muito, consome-se mais vinho; surgem Demóstenes, saqueia-se, arromba-se.
- E diz-se que o Soldado fraternizou com o Povo em nome da liberdade: viva o Povo e o Soldado! -
Há luminárias no Palácio da Câmara Municipal.
Os homens da casa grande evacuam a sala: os da praça tomam-lhes os lugares e começam a entrar na grande via das reformas.
Do seguinte modo.
- O povo gemeu -
Logo, aumentem-se 10 por cento.
- A Liberdade foi um direito santo...-
Logo, venha a censura e a multa.
- O povo deve ser livre -
Logo, tripliquem-se o exército e os cabos da polícia.
Outros copiam e imprimem, para pregar uma peça à gramática e ao senso comum.
Muita gente dorme; alguns ressonam.

Se os segundos (os da casa) levam a melhor, então passam-se as cousas dum modo muito diferente.
Arromba-se, saqueia-se, surgem Demóstenes, consome-se mais vinho, grita-se muito.
Os da casa dizem: «o Governo destruiu as 100 000 cabeças da hidra fatal da anarquia: fez reinar a ordem como convém a um governo forte, amante duma bem entendida liberdade: viva o Povo e o Soldado!» -
Além de tudo isso:
Põe luminárias o Palácio da Câmara Municipal.

Ora, no primeiro caso, os homens da casa grande vão para a praça pública.
E dizem:
- O Povo geme! -
- A liberdade é um direito santo! -
etc. etc. etc.
Apinha-se gente; vêm os furta-cores; tiros no ar; alarido e confusão.
Se são vencidos diz-se: - Reina a ordem em despeito da anarquia: viva o Povo e o Soldado! -
Se o contrário - A Liberdade derrubou ainda mais uma vez a fortaleza da infame tirania: viva o Soldado e o Povo! -
etc. etc. etc. e assim seguidamente.
Ora, a tudo isto se chama Ciência Política, ou arte de administrar os interesses gerais.
Em proveitos dos próprios."

Antero de Quental, O que toda a gente vê ou a política numa lição, 1861

A TÁCTICA DO COSTUME

Aparentemente, o Primeiro-Ministro convidou Rui Rio para liderar o banco de fomento que o Governo pretende criar. Sobre isto três breves notas: primeiro, não é difícil de ver que este convite tinha uma intenção política: a de integrar no sistema um perigo à liderança do PSD. Segundo, assim se vê como os políticos gerem o Estado: com o olho sempre posto no seu interesse particular. Finalmente, não deixa de ser emblemático - e sintomático - que um Passos Coelho na oposição falasse de como seria importante a privatização da Caixa Geral de Depósitos para agora, uma vez no Governo, não só não privatizar Caixa nenhuma como ainda criar um segundo banco público. Deve ser o tal liberalismo de que tanto falam.

MICROMANAGING

quarta-feira, novembro 27, 2013

PARADOXOS

Não deixa de ser curioso que aqueles que mais se  opõem ao suposto capitalismo em que vivemos tendem a ser os mesmos que mais criticam os políticos que temos. Paradoxalmente, a solução desses críticos passa sempre por exigir mais poder para o Estado (mais regulação, mais esta ou aquela lei, gritar contra as privatizações, etc.), ou seja: querem eles dar ainda mais poder a quem tem o negócio de gerir o Estado, precisamente os tais políticos que eles tanto criticam.

sexta-feira, novembro 15, 2013

O QUE VALE PARA O RESPEITO VALE TAMBÉM PARA O ÓDIO


“É verdade que entre nós também alguns há que têm mais do que os outros. Honramos, assim, o chefe de tribo que possui mais esteiras e mais porcos. Mas o respeito que lhe testemunhamos é devido à sua pessoa e não às suas esteiras e aos seus porcos, que nós mesmos, aliás, lhe oferecemos como alofa, a fim de lhe exprimirmos a nossa alegria e louvarmos o seu ânimo valoroso e o seu espírito lúcido. O Papalagui, esse, tem respeito pelo grande número de esteiras e de porcos que o seu irmão possui, e não pelo seu valor e inteligência, que não lhe interessam para nada. Não tem por assim dizer nenhum respeito por um irmão que não possua esteiras nem porcos.”

Discursos de Tuiavii, Chefe da Tribo de Tiavéa, na ilha Upolu, Samoa, 1919 in O Papalagui (1987)