quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O SÍNDROME DE LAMPEDUSA

Leio hoje que o Paulo Rangel está a preparar um relatório onde propõe, entre outras coisas, a eleição directa do Presidente da Comissão Europeia no âmbito de uma reforma do sistema político da UE. Ao contrário do que aqueles com memória mais curta possam pensar, esta ideia já é velha (Durão Barroso defendeu-a publicamente no discurso do estado da união do ano passado) e dá corpo ao velho sonho dos "Estados Unidos da Europa". Sobre este assunto gostaria de tecer alguns comentários, até porque me parece que é uma questão paradigmática do modus operandi do burocrata da eurolândia, uma espécie de síndrome de Lampedusa*: primeiro reconhece-se que há um problema com o qual toda a gente concorda e depois, como a solução é incompatível com a burocracia centralizadora de Bruxelas, ou com os interesses de alguns do Estados mais poderosos, arranja-se uma solução de tal modo revolucionária que acaba por não se fazer nada. É verdade que há um divórcio entre a cidadania europeia e o seus representantes políticos? Sim, é verdade. É verdade que falta legitimidade democrática a quem, a partir de Bruxelas, tanto comanda nas nossas vidas? Também é. Agora tenhamos tino: alguém no seu perfeito juízo acha que é fazível neste momento ter os cidadãos a eleger um Presidente da Comissão sem fazer dessa eleição uma espécie de embate de nacionalidades? Claro que não. Imaginar alemães a votar num português é tão descabido quento imaginar os portugueses a votar num alemão. E precisamente porque é descabida uma eleição directa do Presidente da Comissão acabamos por, apesar dos grandes desígnios, nada fazermos de efectivo para minorar o chamado défice democrático. Quem ganha com isto? Nem mais: o burocrata de Bruxelas que continua a mandar e desmandar a seu belo prazer. Ora, e para dar mais força ao meu argumento, aqui deixo uma proposta simples, de fácil implementação e que contribuiria em muito para a solução do problema: que passem a ser os partidos europeus a ir a votos nas eleições europeias. Vejamos: hoje em dia os eurodeputados estão organizados em função de partidos europeus que nunca foram sufragados: ninguém vota, ou sequer conhece, o programa eleitoral do PPE (Partido Popular Europeu) ou do S&D (Socialistas e Democratas - e, sim, o partido socialista europeu chama-se S&D). Do mesmo modo, também - porque são os partidos nacionais que vão a votos - vemos as eleições europeias ficarem reféns, por um lado dos interesses partidários nacionais e, por outro lado, do facto de os eleitores estarem mais preocupados em penalizarem ou avalizarem os governos nacionais ao invés de votarem programas de acção política europeia. Pior ainda, mesmo os eleitores preocupados com o processo político europeu são forçados, primeiro, a votar nos partidos europeus que têm partidos nacionais filiados (por exemplo, em Portugal, nem os Conservadores nem os Liberais, ou sequer os Verdes**, estão neste momento representados) e, segundo, a sufragar programas mais preocupados em como o país vai ser representado na UE ao invés de como a UE deve ser gerida. Tudo isto contribui de forma evidente para o divórcio entre os cidadãos e os seus representantes e, por consequência, para que o vazio seja preenchido pela figura abstracta do burocrata de Bruxelas. Se, como aqui proponho, os cidadãos votassem nos partidos europeus que, através de delegações nacionais, se apresentassem a eleições, garantir-se-ia que haveriam programas de acção europeia que  fossem verdadeiramente e directamente sufragados pelos cidadãos, coisa que não acontece agora, e, ainda, que os cidadãos europeus pudessem escolher entre todas as possibilidades europeias (mesmo aqueles que vão para o PE para defender outra UE, ou mesmo o fim dela), coisa que também não acontece agora. Como se vê, seria esta proposta muito mais simples tal como, principalmente, de muito mais fácil implementação do que estas propostas mirabolantes que, de tão irrealistas, apenas contribuem para que o verdadeiro decisor político continue a ser o burocrata centralista que ninguém elegeu.

*Era Tomasi de Lampedusa que, no seu imortal Il Gatopardo, dizia que era preciso mudar tudo para que tudo ficasse como dantes.
** Imagino que o Partido Livre de Rui Tavares (que está individualmente inscrito nos grupo europeu dos Verdes) se vá filiar aí.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O MANDELA DA LINHA

Hoje ofereci-me a mim mesmo o tempo para ter um prazer que já há algum tempo não experimentava: ler um artigo do Carlos Carreiras no Jornal i. Começa o "autor" por explicar que, para ele - o arauto dos simplismos e das soluções milagreiras -, o mundo divide-se em "sebastianistas" e em "mandelas". O que é um "sebastianista"? Carreiras explica: "gente que espera e desespera por um eleito que, saído de uma manhã de nevoeiro, faz o que ninguém faz, resolve o que ninguém resolveu e cumpre o que ninguém cumpriu". Já "mandelas" são aqueles que se guiam pelos princípios de Mandela, ou seja, de acordo com Carreiras, pelo "poder das ideias e a crença na acção, no potencial do homem e na mudança contra a situação". Carreiras no texto lamenta que olhe à volta e só veja "sebastianistas". Já ele, naturalmente, será um mandela. E onde vê o visionário Carreiras tanto sebastianismo? É fácil: na elite política portuguesa que, diz ele, sobrevalorizada e crente na sua infalibilidade, apenas passa a vida a inventar mitos inúteis que prometem tudo resolver para depois minarem o trabalho daqueles que verdadeiramente fazem. Imagino que Carreiras se refira àqueles que andam a lançar o nome de Rui Rio para uma futura candidatura à presidência do PSD. Mas, naturalmente, o mandela da linha não o assume: fica-se por umas pseudo-acusações que têm tanto de qualidade argumentativa como de interesse público: nenhum. O discurso de Carreiras é sempre o mesmo: o Governo é o maior, a acção comanda a vida, se acreditarmos vamos safarmo-nos e quem critica, quem ousa lançar uma alternativa, é logo rotulado de pseudo-intelectual ou pseudo-elite e descartado como o não-crente que urge combater. Porque estão o Governo e Carreiras certos e os outros errados? Já isso o mandela da linha não explica. Enfim, o costume. Continua o "autor" depois a citar umas considerações de crítica social sobre quem foi e quem não foi ao funeral de Nelson Mandela. Cita ainda umas coisas de Obama (apesar de assumir modestamente que ele próprio, Carreiras, também já tinha pensado sobre precisamente aquilo que Obama falou - naturalmente) e lembra o exemplo de Mandela - outra vez - para expressar o desejo de que o "espírito de Madiba [já só faltava a referência a "Madiba" para o cliché ficar completo] toque cada uma destas almas que nos governam": ao melhor nível do Maduro venezuelano que vê Chavez nos passarinhos que voam à sua volta, também Carreiras vem elevar Mandela à santidade de quem virá iluminar o caminho certo para os políticos mundiais. Digamos que, para Carreiras, Mandela é agora uma espécie de santo-padroeiro do político. E, Mandela nos livre, para quem vê em Mandela a solução, consegue Carreiras fazer o inacreditável: começar por dividir o mundo em "sebastianistas" e "mandelas" apenas para transformar Mandela numa espécie de D. Sebastião sobrenatural: um feito! Mas, vá lá, ao menos do arrazoado todo de palavras do mandela da linha há uma coisa que fica muito clara: não é Carreiras um sebastianista, tal como não será também, certamente, apesar das pretensões em causa própria, nenhum mandela, ou sequer um Obama: é apenas mauzinho. Azar o nosso, é o que temos.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A VERGONHA DO ELÉCTRICO 28

Não há manual, roteiro ou livro sobre Lisboa que não refira o eléctrico 28. Entre fotografias da vista ao longo do percurso, ou do próprio eléctrico, o 28 representa, sem margem para dúvidas, um dos ex libris da cidade e um importante cartão de visita para os turistas que nos visitam. Há duas semanas eu, a minha namorada (que está grávida), o meu irmão e a minha cunhada resolvemos ir à Feira da Ladra. Ora, que melhor forma de lá chegar, num Sábado soalheiro e agradável, do que ir no eléctrico 28? Pois, foi o que pensámos. Apanhámo-lo aqui no final da Rua do Ferragial e lá seguimos nós, apinhados entre estrangeiros sorridentes e de máquina fotográfica na mão. Repentinamente, ali na Baixa, entram no eléctrico um grupo de indivíduos que se foram posicionar mesmo na entrada do corredor do eléctrico. Na paragem seguinte, entre pessoas a entrar e outras a querer sair, graças àqueles indivíduos ninguém se conseguia mexer. Um estrangeiro, mais velho, pessoa dos seus setenta anos, para passar por eles teve que se esmifrar de uma forma absolutamente atroz. Eu, que estava de pé defronte da primeira janela do eléctrico, achei muito estranha a atitude daqueles indivíduos e, vendo que estavam propositadamente a emperrar o eléctrico inteiro, desconfiei que estivessem a preparar alguma coisa. Meu dito, ou melhor: meu pensado, meu feito. Qual não é o meu espanto quando vejo um dos indivíduos que esborrachava o pobre do estrangeiro septuagenário a literalmente arrancar-lhe a carteira do bolso do sobretudo. Nesse momento em que vi tal coisa comecei a gritar que estava ali um ladrão e agarrei o braço do meliante para tentar impedir o furto. Gerou-se grande confusão com os indivíduos a virarem-se contra mim enquanto o estrangeiro, depois de esvaído no aperto, gritava em inglês que lhe tinham roubado a carteira. Depois encontrou-a nas escadinhas que dão subida para o eléctrico, apenas para gritar outra vez que lhe tinham tirado o dinheiro. Entretanto, os meliantes viravam-se contra mim para tirar satisfações sobre eu ter tentado impedir o furto. A minha preocupação era já apenas proteger a minha namorada grávida dos empurrões que os criminosos davam. Gritei-lhes na cara e eles acabaram por sair pela porta dos fundos. Enquanto tudo isto se passava, o condutor punha a cabeça para baixo e dizia: "não quero confusões". Lá fora, o turista assaltado e a sua mulher gritavam pela polícia. Lá dentro, assistia-se aos criminosos a acercarem-se dos turistas assaltados fingindo preocuparem-se com eles, mesmo com a mulher a acusá-los de terem sido eles a roubarem a carteira do marido. Entretanto, os criminosos faziam gestos ameaçadores na minha direcção a gesticularem que eu estava "lixado". Os acontecimentos que aqui se relatam tiveram lugar às duas da tarde na paragem da Sé.

Três notas: primeiro, que a impunidade e o descaramento foi total: os ladrões não são o "artista carteirista" que retira uma carteira sem ninguém reparar. Não. Estamos a falar de criminosos que assaltam à força, com violência, e que nem sequer têm que fugir depois do assalto realizado porque não há ninguém que faça impor a lei e a ordem. Não há polícia, nem no eléctrico nem nas paragens (em nenhuma do percurso!), o condutor finge que não vê nada com medo de represálias e os passageiros ou são turistas incautos ou passageiros frequentes que já os conhecem mas que não se atravessam no caminho dos criminosos por terem medo. Segundo, é impossível que o poder político não saiba do que se passa (aparentemente pelo que me dizem toda a gente sabe do que se passa ali) e não faça nada. Será assim tão difícil pôr uns quantos polícias a patrulhar o eléctrico e outros nas paragens? Bastava isso para aqueles criminosos terem que ter mais cuidado. O eléctrico 28, sendo um ex libris do turismo lisboeta merece mais e melhor: é a imagem de Lisboa que está em causa, é a segurança das pessoas que nos visitam (porque aquela gente é perigosa) e representa neste momento, tal como está, um triste retrato da realidade portuguesa: um fartar vilanagem e a total impunidade.

À volta da Feira da Ladra apanhámos um taxi para casa: considerando que um bilhete individual de eléctrico custa 2,8€, e éramos quatro pessoas, a vinda de táxi custou a cada um sensivelmente metade do que a ida de eléctrico. Ou seja: as pessoas são roubadas para serem assaltadas. Haja vergonha.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

DO LUTO CIBERNÉTICO

Se eu penso que o Nelson Mandela era um grande homem? Penso. Se eu penso que a necessidade que milhares de pessoas sentem de ir para as redes sociais postar citações de Mandela - que na sua esmagadora maioria nunca leram -, apenas movidas por um ligeiro frémito de exaltação momentânea, para logo a seguir regressar à banalidade da vida comum sem mais um pensamento sobre a figura, ou o significado para o mundo dessa figura, como se uma citação lida na diagonal e rapidamente copiada de um qualquer sítio cibernético já fizesse a obrigação, consiste num exercício de triste superficialidade, demagogia social e hipocrisia? Sim, penso. Agora linchem-me.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

DEZ

Bem lembrado pelo meu amigo João, cumpre-me anunciar ao mundo cibernético que este blog fez em Outubro dez anos de existência. É qualquer coisa, sim senhor.  Fica um obrigado àqueles que o vão seguindo e um compromisso: enquanto houver estrada para andar, enquanto houver ventos e mares, a gente cá vai continuar. Fica a esperança que por muitos mais anos ainda.

FAMILY NAME


MUNDOS DIFERENTES, MUNDOS IGUAIS

Ele, pela cozinha, anda de volta do medronho, da aguardente e do açúcar, atarefado com um funil improvisado e um garrafão de cinco litros, tudo isto para fazer um licor. Ela entra na cozinha e exclama mal impressionada: "xiii, que cheiro a bagaço!". Mais tarde, ela, pela sala, ao som da rádio, anda de volta dos dedos dos pés, do verniz e da acetona. Ele entra na sala e exclama desagradado: "epá, que cheiro a acetona!" E isto é o tão igual quanto o que é diferente poderá algum dia ser igual.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

UM BÓLIDE ESPECIAL

Tenho um carro novo: descapotável, encarnado, ultra ecológico e, considerando as primeiras impressões, fácil de conduzir. Estou desejoso de levá-lo para dar uma volta e, como se comprova na fotografia, vou certamente fazer sucesso por essa estrada fora.