terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A VERGONHA DO ELÉCTRICO 28

Não há manual, roteiro ou livro sobre Lisboa que não refira o eléctrico 28. Entre fotografias da vista ao longo do percurso, ou do próprio eléctrico, o 28 representa, sem margem para dúvidas, um dos ex libris da cidade e um importante cartão de visita para os turistas que nos visitam. Há duas semanas eu, a minha namorada (que está grávida), o meu irmão e a minha cunhada resolvemos ir à Feira da Ladra. Ora, que melhor forma de lá chegar, num Sábado soalheiro e agradável, do que ir no eléctrico 28? Pois, foi o que pensámos. Apanhámo-lo aqui no final da Rua do Ferragial e lá seguimos nós, apinhados entre estrangeiros sorridentes e de máquina fotográfica na mão. Repentinamente, ali na Baixa, entram no eléctrico um grupo de indivíduos que se foram posicionar mesmo na entrada do corredor do eléctrico. Na paragem seguinte, entre pessoas a entrar e outras a querer sair, graças àqueles indivíduos ninguém se conseguia mexer. Um estrangeiro, mais velho, pessoa dos seus setenta anos, para passar por eles teve que se esmifrar de uma forma absolutamente atroz. Eu, que estava de pé defronte da primeira janela do eléctrico, achei muito estranha a atitude daqueles indivíduos e, vendo que estavam propositadamente a emperrar o eléctrico inteiro, desconfiei que estivessem a preparar alguma coisa. Meu dito, ou melhor: meu pensado, meu feito. Qual não é o meu espanto quando vejo um dos indivíduos que esborrachava o pobre do estrangeiro septuagenário a literalmente arrancar-lhe a carteira do bolso do sobretudo. Nesse momento em que vi tal coisa comecei a gritar que estava ali um ladrão e agarrei o braço do meliante para tentar impedir o furto. Gerou-se grande confusão com os indivíduos a virarem-se contra mim enquanto o estrangeiro, depois de esvaído no aperto, gritava em inglês que lhe tinham roubado a carteira. Depois encontrou-a nas escadinhas que dão subida para o eléctrico, apenas para gritar outra vez que lhe tinham tirado o dinheiro. Entretanto, os meliantes viravam-se contra mim para tirar satisfações sobre eu ter tentado impedir o furto. A minha preocupação era já apenas proteger a minha namorada grávida dos empurrões que os criminosos davam. Gritei-lhes na cara e eles acabaram por sair pela porta dos fundos. Enquanto tudo isto se passava, o condutor punha a cabeça para baixo e dizia: "não quero confusões". Lá fora, o turista assaltado e a sua mulher gritavam pela polícia. Lá dentro, assistia-se aos criminosos a acercarem-se dos turistas assaltados fingindo preocuparem-se com eles, mesmo com a mulher a acusá-los de terem sido eles a roubarem a carteira do marido. Entretanto, os criminosos faziam gestos ameaçadores na minha direcção a gesticularem que eu estava "lixado". Os acontecimentos que aqui se relatam tiveram lugar às duas da tarde na paragem da Sé.

Três notas: primeiro, que a impunidade e o descaramento foi total: os ladrões não são o "artista carteirista" que retira uma carteira sem ninguém reparar. Não. Estamos a falar de criminosos que assaltam à força, com violência, e que nem sequer têm que fugir depois do assalto realizado porque não há ninguém que faça impor a lei e a ordem. Não há polícia, nem no eléctrico nem nas paragens (em nenhuma do percurso!), o condutor finge que não vê nada com medo de represálias e os passageiros ou são turistas incautos ou passageiros frequentes que já os conhecem mas que não se atravessam no caminho dos criminosos por terem medo. Segundo, é impossível que o poder político não saiba do que se passa (aparentemente pelo que me dizem toda a gente sabe do que se passa ali) e não faça nada. Será assim tão difícil pôr uns quantos polícias a patrulhar o eléctrico e outros nas paragens? Bastava isso para aqueles criminosos terem que ter mais cuidado. O eléctrico 28, sendo um ex libris do turismo lisboeta merece mais e melhor: é a imagem de Lisboa que está em causa, é a segurança das pessoas que nos visitam (porque aquela gente é perigosa) e representa neste momento, tal como está, um triste retrato da realidade portuguesa: um fartar vilanagem e a total impunidade.

À volta da Feira da Ladra apanhámos um taxi para casa: considerando que um bilhete individual de eléctrico custa 2,8€, e éramos quatro pessoas, a vinda de táxi custou a cada um sensivelmente metade do que a ida de eléctrico. Ou seja: as pessoas são roubadas para serem assaltadas. Haja vergonha.

4 comentários:

Anónimo disse...

É melhor não ires ao mundial de futebol no Rio de Janeiro, senão ainda te arriscas a levar com um balázio se fizeres frente a um bandido. É vergonhoso mas é o que acontece com frequência em países em que a injustiça social é elevada.
S.

Nuno Lebreiro disse...

Não percebo a ligação (a realidade brasileira está a anos luz da portuguesa) e não concordo com a justificação: aqueles criminosos não podem ter a sua conduta justificada por uma "injustiça social" elevada quando falamos de um país que é dos 30 mais ricos do mundo. Há que manter as coisas em perspectiva.

Anónimo disse...

1. Por ser diferente do Brasil, aviso: Não fazer frente a um bandido brasileiro no ato de delito. Esta comparação foi também para ilustrar que os passageiros do eléctrico 28 nem estão assim tão mal. Os assaltantes devem ser putos delinquentes que não tiveram as mesmas oportunidades que nós. A tua revolta pontual não deve ser maior que a revolta crónica deles.
2. http://observatorio-das-desigualdades.cies.iscte.pt/index.jsp?page=indicators&id=218 e depois vem dizer q não existe injustiça social em Portugal, deves viver numa redoma, deves.
Isto dava pano para manga, fico-me por aqui.
S.

Nuno Lebreiro disse...

Coitadinhos dos bandidos, devem preferir ir para África, ou qualquer outro dos 200 países abaixo de nós no IDH. Perspectiva, é o que se precisa: ninguém disse aqui que não havia desigualdades sociais, quer aqui quer em qualquer outro lado. Quanto a redomas, cada um tem a sua.