terça-feira, 16 de dezembro de 2014

LÁ VAI MAIS UM... ARGUIDO

Num país decente, o quem é quem faz-se nas cerimónias de Estado, no mediatismo dos sucessos individuais, talvez nos prémios anuais que se distribuem. Em Portugal, faz-se no livro de visitas de uma cadeia.

DOS HÁBITOS

Temos sempre a capacidade de nos adaptar a novas realidades, mas devagarinho. Os portugueses, por exemplo, já se habituaram a um país onde é normal que um ex-primeiro-ministro, porque suspeito de corrupção, esteja preso preventivamente. Também já se habituaram a terem poderosos membros da oligarquia estatista que os governa a serem constituídos arguidos por falcatruas diversas - refira-se, a título de exemplo, o caso dos vistos gold. Da mesma forma, também já se habituaram os portugueses a verem um banco, que tendo estado metido em todos os casos mais complicados de promiscuidade entre poder político e económico, quedar-se prostrado na derrota da falência enquanto os seus antigos líderes, os intitulados donos disto tudo, se digladiam na praça pública que nem comadres caídas em desgraça rebolando pela lama da praça pública. A tudo isto, sem lhe dar o devido valor, já se habituaram os portugueses. Mas foi tudo muito rápido. Antes, também viviam como habitualmente num mundo onde o primeiro-ministro de então organizava por todos os meios intentonas contra os meios de comunicação, bancos ou pessoas que ousassem estar contra ele. Também se habituaram os portugueses a ver esbanjar o seu dinheiro, quer o recolhido por impostos, quer o desbaratado em emissão de dívida (que serão impostos futuros), a todo esse forró se habituaram os portugueses. Aliás, os portugueses tendem a habituar-se a tudo: entre mil novecentos e vinte e oito e mil novecentos e setenta e quatro também viveram como habitualmente sem liberdade política. São lixados, os hábitos antigos. Demoram a morrer. São como vícios: quando se acha que se mudou de vida lá vem a recaída e torna-se ao mesmo. E, infelizmente, talvez seja essa a razão pela qual o actual vislumbre de liberdade que assoma Portugal abalando de frente a oligarquia corrupta que tem governado o país não seja o suficiente para derrubar essa oligarquia de vez. Não, habituados a ela lá vão os portugueses eleger em dois mil e quinze quem vai tratar de pôr tudo como antes. Para, depois, como de costume, continuarem a passar a vida a reclamar com as falências, corrupções e desgraças diversas que os assolam -  e sem culpados, prisões ou justiça. Como habitualmente. E como se não tivessem nada a ver com isso.

AS NUVENS

A Rússia tem uma economia típica de terceiro mundo que alimenta uma oligarquia poderosa - parte dela ocupada a gerir clubes de futebol em Inglaterra - através da exploração de recursos naturais abundantes. Com a queda do preço do petróleo, aliada às sanções ocidentais causadas pela crise ucraniana, a economia russa está a ceder. Com taxas de juro a 17%, e a não estancarem o problema, a bancarrota estará ao virar da esquina. Algumas questões se colocam: primeiro, o que fará um déspota como Putin face ao descalabro económico? Imagino que faça o óbvio: que nem sócrates, o pequeno, culpará os "mercados" e o Ocidente pela situação, colocando-se no papel da vítima que, com abnegação, continua a defender o interesse dos russos oprimidos pela ganância capitalista da Europa e dos Estados Unidos. Depois, tal como o animal feroz aprisionado em Évora, passará ao ataque. A diferença é que Putin tem ao seu dispor, ao invés de dois submarinos comprados por Paulo Portas, um exército capaz de fazer muito mais, e muito pior, como forma de retaliação. Os países bálticos, a Ucrânia e demais antigas repúblicas soviéticas têm muito por onde temer. Outra questão que se coloca é como vai o Ocidente responder à subida de agressividade do discurso russo: será que vai recuar ou vai continuar firme "que nem uma barra de ferro" a encurralar o déspota russo ao canto onde se enfiou? E a opinião pública europeia? Saberá ela conviver com a ameaça à paz? Ou, vai continuar a clamar contra "os mercados" e, por consequência, dar razão a Putin? Finalmente, terão os líderes europeus a capacidade de agir com um bloco ou, como de costume, teremos cada um a tratar de si, e das suas eleições, ao invés de termos uma política europeia segura, estruturada e bem implementada? Como dizem os cascalenses, há nuvens na Serra de Sintra. Vamos ver no que isto dá.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

PHILOSOPHY IN CANDYLAND

                                                                    Daqui.

domingo, 30 de novembro de 2014

ORA, PERMITAM-ME QUE PERGUNTE

Se fosse no congresso do PSD, durante o discurso de Passos Coelho, que se começasse a nomear mulheres mortas por violência doméstica também era "preocupação social" e um momento de "sublime faro político" ou já seria um caso vergonhoso de apropriação, sem autorização, da desgraça alheia em busca de benefícios populistas e eleitorais?

AS MOSCAS

Apenas para relembrar os mais distraídos: este Luís Patrão que aparece agora na direcção política do Dr. Costa é o mesmo Luís Patrão que era sócio do Sr. Armando Vara naquele esquema fantástico que era a Fundação para a Prevenção e Segurança que andou a financiar-se à grande no tempo dos governos do Eng.º Guterres. Aliás, só fica bem ao Dr. Costa: renovação, renovação é largar os arguidos dos governos socretinos para ir buscar os arguidos dos governos guterristas! Um chique.

MUDE-SE A DATA

A pouco e pouco fui vendo que o habitual BC (Before Christ) e AD (Anno Domini) como formas de designar, respectivamente, os anos anteriores e posteriores ao nascimento de Jesus Cristo têm vindo a ser substituídas pelas siglas 'BCE' e CE'. O 'CE' significa 'common era' e visa acomodar o incómodo que académicos mais seculares têm com a utilização da figura de Cristo como forma de marcar o nascimento da nossa Era. Ora,está bem de se ver que, na realidade, substituir a sigla não muda nada, a não ser a sigla. O que significa que não faltará muito para que esteja encontrado mais um cavalo de batalha dos suspeitos, ou revisores, do(s) costume(s). Há que modernizar a data, dirão uns. Há que limpar a cronologia de referências que discriminam quem não as aceita, dirão outros. E, depois, daqui por uns anos, quando se concordar que a data é para mudar, discutir-se-á se havemos de armar-nos em futuristas e saltarmos para o ano seis mil e tal, convencionando-se como ano zero o momento em que inventámos a roda, por exemplo, ou, por oposição, se queremos saltar para o passado, apagar de facto a pré-história e comemoramos, todos unidos, em alegre igualdade e fraternidade, o nascimento da Nova Era. Nova discussão aparecerá então, afinal, a partir de que ano haveremos nós de comemorar o nascimento do novo-homem? Talvez, fica a humilde sugestão, se possa convencionar o ano de mil novecentos e cinquenta e cinco como ano zero, o que nos transportaria para o ano cinquenta e nove Depois de Jobs. Seria apropriado. E aí, todos juntos, agarraríamos a maçã para partilharmos em camaradagem uma única dentada, afinal, lembre-se, foi  precisamente uma dentada numa maçã que num passado de sonho nos expulsou do paraíso e, por essa mesma razão, seria apenas justo que essa mesma maçã, num sonho do mesmo calibre, nos devolvesse o paraíso. Para trás, nos anos antes de Jobs (AJ), ficariam os omnívoros, os homens não-metrossexuais, todas as maiorias opressivas e todos os malandros que um dia mandaram um piropo a uma mulher. Desses não rezaria a História! E para um futuro de novos paraísos, plenos de novas felicidades e novos homens, para esse futuro só basta querer. Vá, vá: façam lá a associação. Mudar a data é a solução.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

TUDO BONS RAPAZES

A propósito da detenção do Sr. sócrates, a TSF pôs no ar um programa com dois comentadores isentíssimos para analisar a situação. E quem são os comentadores? O ex-advogado de sócrates, Proença de Carvalho, e a ex-ministra de sócrates, Maria de Lurdes Rodrigues. Deve ser a tão propalada independência editorial. Mas a coisa melhora: Maria de Lurdes Rodrigues, relembremos, também anda a contas com a justiça, aliás, está mesmo a senhora com pena suspensa por ter sido condenada por crimes de prevaricação. E que prevaricação foi essa? Foi ter andado a financiar indevidamente o Dr. João Pedroso, também ele condenado, e sim, o apelido não é coincidência, trata-se mesmo do irmão do ex-ministro socialista Paulo Pedroso. A coisa fica ainda mais gira quando nos lembramos que, aquando do caso Casa-Pia, era precisamente a este João Pedroso que aludia então o Dr. António Costa, actual Secretário-Geral do PS, afirmando ao então deputado Paulo Pedroso - num telefonema que o Ministério-Público considerou como uma tentativa de influenciar o inquérito  - que quem ele deveria contactar para evitar a detenção era o próprio irmão porque "a coisa já ia no juiz". No mesmo dia, o Eng.º Ferro Rodrigues, actual porta-voz e presidente do grupo parlamentar do PS, dizia, com a elegância que lhe é reconhecida, que se estava "cagando para o segredo de justiça", isto ao mesmo tempo que lamentava que o almoço do exímio Dr. Jorge Sampaio, então Presidente da República, com o Procurador-Geral da República Souto Moura "não servisse para nada". Tudo isso pode ser visto, e lido, aqui. Sinceramente não sei o que é mais curioso: se a aptidão indescritível que o actual Secretário-Geral do PS, António Costa, e o actual presidente do grupo parlamentar do PS, Ferro Rodrigues, mostraram para infringir o segredo de justiça e tentar influenciar processos de investigação para beneficiar companheiros de partido, se o facto de serem estes os líderes do partido que parece andar agora muito preocupado, e a clamar indignado mesmo, contra as fugas de informação e a quebra do segredo de justiça no caso sócrates. Já aqui disse e repito: sócrates não é nenhum demónio, pelo contrário, é o produto de um país, e de um povo. É esse o país onde é normal o ex-advogado e a ex-ministra condenada irem comentar, com a independência que se lhes reconhece, a detenção do ex-Primeiro-Ministro para quem ambos trabalhavam. É o país dos sem vergonha e dos inimputáveis. E é esse país das cunhas, dos esquemas e dos que "se estão a cagar" para isto e aquilo que se reflete que nem num espelho neste Partido Socialista que, segundo dizem, mesmo depois de levar-nos a todos à bancarrota, se prepara para regressar ao governo de Portugal. Entretanto, ironicamente, como um augúrio, Lisboa afoga-se imersa em inundações que, de acordo com o competente Dr. Costa, não têm solução. Mas, para mim, de facto, o que não parece ter solução é um país que consiga imaginar nesta pandilha medíocre um vislumbre de solução.

VAMOS A VER

Via o FNV, sou recordado desta preciosidade. Se um craque da construção civil oferece quarenta mil euros a um vereador por serviços extra-camarários, o dito vereador grava a conversa e a coisa vai para tribunal, seria de esperar que o tal craque acabasse atrás das grades, não? Ora, o Sr. Névoa ainda teve direito a ser indemnizado  em dez mil euros por lhe terem chamado "corruptor". Cuidado com o que chamam ao Sr. sócrates, é o que vos digo. O país não mudou porque um ex-Primeiro-Ministro com currículo académico fajuto, responsável por levar um país à bancarrota e que vive muito acima das suas possibilidades foi atirado para cadeia em prisão preventiva. Não, o país não mudou. E vinte milhões pagam muitos Proenças de Carvalho.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

FUGIR PARA ONDE SE ME FAZEM VISCONDE

A prisão preventiva de sócrates, o pequeno, junta com a queda do BES, o caso dos vistos gold, termos o Sr. Vara, alheiras & companhia na cadeia, tudo isso dá esperança de que em Portugal a impunidade diminua e que, a seu tempo e com vagar, se vá tornando o país numa sociedade mais saudável e, acima de tudo, mais respeitável? Sim, acho que sim, pelo menos - e já é alguma coisa - a ilusão disso. Agora, que a javardice comentarista, a bárbara ignorância alcoviteira e a pior boçalidade continuam a imperar por aí, isso também é verdade. Aliás, nunca foi tão evidente como hoje que sócrates, o pequeno, não é um demónio: pelo contrário, é apenas um pobre coitado deslumbrado com o dinheiro e o poder e a quem, para mal dos nossos pecados, um discurso manipulador de vendedor de automóveis de terceira categoria serviu para arregimentar grupos de votos cada vez maiores e ser Primeiro-Ministro de Portugal. Isso, infelizmente, diz muito mais de nós portugueses do que dele. E nada como este patético insurgimento contra os poderes conspirativos (dos quais sócrates usou e abusou quando tinha poder) para mostrar que, mais do que qualquer coisa, sócrates, o preso de curso fajuto que um dia foi Primeiro-Ministo, não é mais do que um subproduto de um país, e de um povo. É por isso que sócrates não morreu ainda politicamente. É que, para muitos, sócrates, o pequeno, representa o verdadeiro sonho português: enriquecer e mandar sem estudar nem trabalhar. E os sonhos não se prendem.

sábado, 22 de novembro de 2014

DAS ROLHAS

Desde que emigrei tenho tentado contribuir activamente para as exportações portuguesas. Por exemplo, por norma, tento sempre comprar vinho português. Aliás, gosto mesmo de pensar que, entre convidados para jantar cá em casa, oferendas quando sou convidado ou pelo mero passa-palavra, tenho, de forma modesta, ajudado a divulgar os produtos portugueses, em particular o vinho. No entanto, tenho vindo a verificar que os produtores de vinho branco, pelo menos aqueles que vendem aqui na Bélgica, estão todos aderir à cápsula de rosca e a abandonar a nossa rolha de cortiça. Ora, como eu já estou farto de aqui divulgar, a exportação de cortiça, em particular a sua utilização nas garrafas de vinho, é, para além de um importante recurso económico português, a razão pela qual o sobreiro é economicamente viável e, por isso mesmo, a forma como o montado alentejano vai conseguindo resistir aos ímpetos destrutivos dos caciques de serviço. É por isso que me recuso a comprar vinho que não seja enrolhado com cortiça. Muito menos português! Da mesma forma como, numa prova de vinhos de grande relevo nacional, já deixei um patetinha da Quinta do Côto de garrafa estendida (um grande escolha ainda por cima) por me recusar a provar tamanha zurrapa enquanto acusava a empresa de traição à pátria, não tenham dúvidas que deixar de comprar os míseros vinhos brancos portugas que por aqui aparecem é coisa fácil. Brancos novo mundo, aliás, tendem a ter muita qualidade e baixos preços, um argumento simpático para quem simpatiza com o mercado como eu. Já estes enólogos inimigos da pátria e armados em modernaços (era o que o idiota marquetista da Quinta do Côto balbuciava: que era mais moderno, melhor, novo, mais fácil, etc.) da cápsula de rosca, esses podem ir à merda. Eles e mais as suas garrafinhas pervertidas por insuportáveis cápsulas de plástico.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

ESPELHO MEU, ESPELHO MEU


É hoje um lugar comum afirmar-se que as redes sociais são uma forma de devassa da vida privada. Neste âmbito, uma pergunta se coloca: o que leva alguém a publicitar a sua vida privada a todos os seus amigos? Por que razão, num restaurante, perante um prato mais requintado se ocupa o marido, ou a mulher, a tirar uma fotografia ao dito para publicar no Facebook, e logo se ocupa o cônjuge de fazer um like, tudo isto ainda antes de qualquer um deles ter apreciado a iguaria?


A resposta politicamente correcta, e que eu já ouvi e li,  é que o objectivo consiste em partilhar a minha felicidade com os meus amigos. Naturalmente a resposta politicamente correcta deixa muito a desejar. Primeiro, os amigos das redes sociais são muito mais distantes, e em muito maior número, do que os amigos da vida real. Ou seja, na realidade, a tal felicidade que se partilha não é bem com os amigos, é muito mais com um conjunto aleatório de pessoas, muitas das quais nem se conhece ou já não se vê há anos. A conclusão aqui é um enorme paradoxo: acaba-se a partilhar muito mais com estranhos, ou quase-estranhos, do que se partilha com os amigos de verdade. Desde as fotos das refeições, às imagens de férias em bikini, ou às fotografias dos filhos, tudo se esparrama pelas redes sociais fora, numa devassidão de vida privada a que nunca forçaríamos um amigo que convidássemos para jantar: por isso, a noção de que o acto de partilha é com os meus amigos é uma noção que dificilmente se pode aceitar como verdadeira.

Em segundo lugar, a presunção de que a partilha de felicidade gera felicidade nos outros é igualmente disputável. A maior parte das pessoas partilha os seus bons momentos, no entanto, como todos sabemos, a vida não é sempre assim. Pelo contrário, os receptores das fotografias dos grandes jantares ou das grandes férias são normalmente pessoas, em especial os mais solitários e remediados, que por ventura aquilo que mais desejariam ter, e não têm, são as tais refeições a dois, ou as férias em paraísos distantes, caros e, por isso mesmo, inacessíveis. Ou seja, muito mais do que partilhar felicidade, o que toda essa partilha acaba por fazer é causar inveja e, porque da inveja não vem nada de bom, uma garantida boa dose de infelicidade. Sobre este assunto, aliás, já existe um sem número de estudos (como este da Universidade do Michigan, 2013) que chegam à conclusão que uma utilização excessiva do Facebook causa depressão e baixa auto-estima ou que, pelo menos, diminui os níveis globais de bem-estar e satisfação com a vida.

No entanto, há um pormenor que vale a pena salientar: as pessoas que andam a sofrer por essas redes sociais fora são as mesmas que andam voluntariamente a partilhar as suas vidas. O que as levará, então, à partilha desmesurada das suas vidas privadas e à insistência, cada vez maior, numa actividade que, aparentemente, além dos óbvios riscos que em si mesma acarreta a devassa da vida privada, ainda por cima nem sequer causa bem-estar duradouro e, a longo prazo, está mesmo relacionada com a depressão? Numa palavra? Vaidade.

A vaidade e a obsessão com a imagem que se projecta para os outros dificilmente poderá ser uma coisa nova. Aliás, de nova não tem nada: desde o guerreiro que quer inspirar medo para sobreviver até à opulência do bem sucedido que se quer demarcar face aos restantes e inspirar respeito para mandar ou, mais básico ainda, o homem que quer seduzir a mulher, ou vice-versa, de tudo isso se faz a história do Homem e, em geral, as nossas vidas. A novidade consiste é no contexto social em que a obsessão com a imagem se propaga: enquanto antes esse natural vício humano se revelava na roupa que se vestia, nas histórias que se contavam em ocasiões sociais, nos meios de transporte e habitações que se cobiçava, já hoje em dia, com o triunfo hegemónico das redes sociais, a obsessão com a imagem transpõe-se para todo um quotidiano que se pode expor no Facebook: desde fotografar o pequeno almoço até à simples declaração "X está aqui ou acolá", tudo serve para mostrar aos outros o quão fantástica é a vida que se tem.

Mas a coisa piora. Não apenas, desde o brioche do pequeno almoço até às unhas dos pés recentemente pintadas, temos muito mais pelo que ser vaidosos, como os meios por onde a vaidade se espalha estão presentes em permanência. Com os smartphones e a internet sempre ligada, dá a ideia de que as interacções sociais transmigraram para o ciberespaço: desde o grupo de amigos que numa mesa de café olha mais para os ecrãs dos seus telefones do que para os outros convivas, até à nova moda feminina de andar com a mala no cotovelo e o telemóvel irritantemente espetado e em constante exibição na mão, ou até mesmo àqueles casais que postam, comentam e likam, as suas publicações sem saírem da sala ou do quarto enquanto falam via Facebook entre si - e para toda a gente.

A nossa realidade hoje em dia é que estamos sempre ligados, ligações as quais substituem cada vez mais as anteriores formas de interacção social. Como consequência, subitamente, as coisas mais triviais, e privadas, são assunto do foro comunitário: pelo Facebook, até arrufos entre namorados são públicos para centenas de pessoas: ou porque mudaram o estatuto relacional, ou porque fazem publicações irreflectidas que mostram o quão chateados estão com o outro, ou ainda através de inflamadas declarações amorosas pela parte rejeitada, de tudo isso se faz um mundo novo onde, na solidão de um quarto ou de uma sala, com a ilusão securitária que essa solidão imprime, se espalha pelo mundo inteiro aquilo que antes, no tempo do cara-a-cara, se teria vergonha de mostrar a alguém.

Ao mesmo tempo, aquilo que se transmite pelas redes sociais, porque é de ligações cibernéticas que falamos, é forçosamente muito superficial. Nos pixeis de um ecrã, o outro é uma imagem e, por essa razão, é tratada como tal: na vida real, por exemplo, amigos discutem, não se desamigam. Já no Facebook, basta um clique e aquela pessoa desaparece da vista: sem trabalho, sem chatice e sem problemas. Da mesma forma, como são imagens dos outros que recebemos também são apenas imagens nossas que transmitimos. E aí é que a obsessão com a imagem ganha ainda mais peso porque, sendo superficial, é muito mais fácil de controlar e manipular. Desde o compulsivo que publica tudo e nada da sua vida, até ao impostor que nada tendo para publicar inventa fotografias e acontecimentos, de toda essa gente se compõe o grupo dos nossos amigos, amigos dos quais apenas conhecemos as imagens que eles quiseram que nós conhecêssemos. E esse é o principal paradoxo da vida nova das redes sociais: quanto mais elas se enchem de partilhas, menos nós conhecemos de facto as personagens que compõem a nossa vida.

Mas ainda há um outro aspecto que é importante referir. De tanto se obcecar com aquilo que se quer mostrar aos outros, tal como aquilo que se quer descobrir nos outros, de repente, passam as pessoas a vida agarradas a uma torrente sem fim de trivialidades pela qual se avaliam: alguém que publica uma fotografia e recebe quatro ou cinco likes (ou nenhum) pode muito bem entrar em depressão porque ninguém gosta dela. Já aquela antiga colega da escola que publicou uma fotografia na praia e teve cento e quarenta likes e noventa comentários que oscilavam entre o "estás muita gira :) :) :)" e  o "quando vamos tomar um café" dum garanhão cibernético mais afoito, já essa malandra vai ser o alvo da cobiça e da inveja. E, repentinamente, lá estão as pessoas em busca de likes, likes os quais - como um espelho - nos dizem se somos bonitos ou feios, inteligentes ou burros, bem sucedidos ou uns desgraçados do pior.

No fundo é profunda a ironia: sofre aquele que se mede pelas redes sociais de uma profunda menorização do 'eu', porque passa a ter a profundidade de um pixel, e tudo em nome da glorificação desse mesmo 'eu', que se quer como granjeador do respeito, admiração (e inveja) dos outros. A tragédia é que estes poderosíssimos instrumentos de partilhas acabam por paradoxalmente gerar uma profunda exclusão do indivíduo face à comunidade a que julga pertencer: isto porque a dinâmica da interacção pelas redes sociais reduz os afectos a likes que, por um lado não dão trabalho nenhum a dar (e por isso nada oferecem a não ser uma ilusória auto-estima) mas que, por outro, são a única forma pública de ligação, e valorização, do indivíduo face ao colectivo: entre o vazio que configuram e a importância completamente desproporcional que se lhes atribui, nessa diferença se faz aquilo que todos ficamos a perder com a substituição do convívio social pelo convívio cibernético: a complexidade, o valor e a empatia que apenas o contacto real permite transmitir.

Assim, no vazio de uma auto-promoção vaidosa cuja recompensa consiste em vácuas demonstrações de aceitação social, não admira que o Facebook, e outros como tal, estejam ligados a fenómenos depressivos: isolados, os humanos, perdem o gosto pela vida. E na monotonia de uma constante repetição de modas, com todos a irem para os mesmos sítios jantar, almoçar ou de férias, naturalmente, a sensação de que algo fica por cumprir será uma consequência natural para quem viva agarrado às redes sociais. E se é verdade que para muitos dos que cresceram na era pré-internet a coisa é capaz de começar a fartar ao fim de um bocado, para muitos outros o vício das redes sociais tornou-se uma realidade, e ainda por cima uma realidade que separa, deprime a longo prazo e privilegia a superficial vaidade a expensas das mais fundamentais experiências humanas. A questão que então se coloca - e a para a qual não há resposta - é como será com os nossos filhos, esses sim já desde a maternidade esparramados em fotografias por essas redes sociais fora. Que consequências esta desmesurada exposição ao mundo - e a um mundo que não está lá - poderão ter nas capacidades de sociabilização dos nossos filhos? Nos seus valores? Na forma como veem, e sentem, os outros, e as empatias que conseguem, ou não, formar com os outros seres humanos? No fundo, que filhos serão esses que vamos criar se todas as famílias vivem agarradas, cada um por si, aos seus perfis virtuais?

Na ausência de resposta para estas importantes questões, talvez esteja na hora de começarmos a perceber que, se por um lado é verdade que as redes sociais são um instrumento fabuloso de partilha de ideias e acontecimentos, quer da nossa vida quer da vida comunitária, também não podemos esquecer que, tal como os espelhos, se dermos demasiada importância às imagens que lá vemos reflectidas acabaremos obcecados com ilusões, sejam elas de grandeza ou de tristeza, e incapazes de gozar a vida tal como ela é. Até porque esta é capaz de nos dar muito mais alegrias, e fazer muito mais felizes, do que uns likes no Facebook.

PRESUNÇÃO

Anda muita gente a gozar com a tomada de posição pública do Prof. Carrilho. Ora, eu que não gosto nada do homem tenho toda a legitimidade para o defender. Mas afinal não estão os dois, ele e a ex-mulher, em tribunal com acusações mútuas de violência doméstica? Não existe presunção de inocência até prova em contrário? A conferência não é organizada pela Secretaria de Estado? Não está subentendido que a Sra. Guimarães foi vítima de violência doméstica na origem do convite que lhe foi endereçado para participar na conferência? E, finalmente, não é também verdade que nenhum tribunal declarou um dois dois culpados e, por essa razão, ele tem tanto direito a arrogar-se de ser uma "vítima" quanto ela? Acrescento que eu não faço ideia sobre quem é que bateu em quem, não segui o caso sequer com atenção e, sinceramente, tanto me dá como me deu se o Prof. Carrilho for considerado culpado ou inocente, e vice-versa para a Sra. Guimarães. Agora, só porque um é homem e a contraparte é mulher (e bonita e famosa) presumir-se logo que ele é culpado e ela é vítima, isso é que não. Muito menos pela parte de uma Secretaria de Estado.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

MEMÓRIA

Hoje, aqui na Bélgica, é feriado e comemora-se o Dia do Armistício de onze de Novembro de mil novecentos e dezoito. Nesse dia terminou a Primeira Guerra Mundial, uma guerra onde ninguém queria que Portugal participasse mas na qual, mesmo assim, um regime republicano recentemente imposto, para se legitimar, não se coibiu de se intrometer e mandar cerca de dez mil portugueses para a morte. É nesse regime que socialistas como o Dr. Costa e companhia não se cansam de dizer que assenta a sua famosa ética republicana. Diz tudo.

LÓGICA DO COSTA (III)

O Governo aumenta os impostos, é uma austeridade irresponsável; o Costa aumenta os impostos, é um aumento da justiça social e o criar condições para o enriquecimento futuro.

LÓGICA DO COSTA (II)

Se aumentarmos os impostos não é precisa mais austeridade.

LÓGICA DO COSTA

Se eu taxar os turistas que vêm a Portugal então eu posso construir um TGV para todos aqueles turistas que não vêm a Portugal.

O ESTRAGA

Os socialistas nunca descansam enquanto não estragam aquilo que já tinha sucesso antes que eles mexessem: como o turismo de Lisboa está a explodir toca de taxar os incautos que ali aparecem, inclusive os desgraçados que vivem na periferia e, por azar do destino, têm que ir para Lisboa. Imagino, aliás, já o negócio florescente de vender residências na capital, vai acabar por compensar - e à grande. Depois, vai ser ver o Costa a dizer que foi graças à política de (taxação) turística que o turismo melhorou em Lisboa. Um visionário, o Costa. O que vale é que a cidade é bonita, barata, está na moda e, apesar destes visionários parasitários do imposto, lá vai continuar a atrair turistas que de bom grado aí vão ser assaltados, quer por carteiristas no eléctrico 28, quer por presidentes da câmara incompetentes. Quanto ao resto, como em tudo, agora é um euro, daqui a cinco anos são dez: só param quando não houver mais euros para sacar.

PROGRESSO


O FILME DO COSTUME

A agenda para a década é uma maravilha, as taxas e taxinhas vão equilibrar as contas, as chuvas são coisas da vida e o crescimento económico vai permitir o investimento público que vai gerar o crescimento económico. O Costa é que é, os socialistas faliram o país mas agora vai ser diferente.

A DESGRAÇA

Aqui há uns anos, quando ainda acreditava, fui de propósito passar o fim de semana da Holanda a Portugal para num Domingo votar numas eleições. Saído do aeroporto, no centro de Lisboa, saudoso por uma Sagres, entrei num café e, satisfeito por ter a oportunidade de falar português, pus-me à conversa com o empregado. Fiquei a saber que o homem achava que a vida estava terrível, que o país estava de rastos, que era tudo uma desgraça. Mais: achava que o sócrates era um ladrão, que era corrupto mas que ia votar nele na mesma porque, ao menos, fazia coisas. Perguntei-lhe se ele não achava contraditório votar em quem considerava ser corrupto. Respondeu-me o esclarecido eleitor que todos roubam e que aquele era o que havia. E eu perguntei-lhe se não achava que votar em corruptos e incompetentes incentivava a continuarmos a ser geridos por corruptos e incompetentes. Olhou para mim como se eu fosse um alienígena. E a verdade é essa mesmo: eu é que sou o maluquinho por achar que é uma loucura votar-se em quem se acredita que rouba ou corrompe. E em Portugal sou: o comportamento normal é o do empregado. E agora, passados cinco anos, imagino eu que, se não tiver perdido o emprego, ainda lá estará o senhor a bradar contra a vida sem sequer imaginar que a vida que tem é a desgraça que ele, e os outros como ele, nos impingiram a todos nós - mesmo aos maluquinhos como eu.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

BREATHLESS AND ALL

Mazzy Star, 'Into Dust', So Tonight That I Might See (1993)


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A ESPECIALIZAÇÃO FILOSÓFICA

O filósofo modernaço obceca com ser um especialista. O especialista é aquele que leu tudo sobre um determinado autor, ou um período, ou uma escola, ou um debate ou, pelo menos, algo que justifique uma bolsa de investigação de uma fundação qualquer. Naturalmente, à medida que o tempo passa e mais humanos cheiram que isto de passar a vida a especializar-se é uma vida boa, com excelentes horários e benefícios, então o número de especialistas tende a multiplicar-se. E depois de todos os autores, escolas, e debates, estarem sob a alçada de inúmeros especialistas, que sobra então além de inventar novos campos, e pretensos argumentos, para continuar a acomodar a crescente tendência de especialização (e o dinheiro que vem com ela)? E então deparamo-nos com uma academia cheia de doutores, todos eles muito enfadados a partir do momento em que dão umas aulas na sua especialidade, todos muito cheios de si e todos muito especialistas. Claro está que quanto mais focam o seu enfoque especializado menos o especialista sabe do mundo, o que é como quem diz quanto mais especialista é o especialista menos filósofo é o pretenso filósofo. E não é apenas na Filosofia, está a academia cheia desta gente: tão pedantes como ignorantes. Nunca custou tanto dinheiro ao erário público gerar um número tão grande de idiotas.

NOÇÕES PANTEÍSTAS (XIII)

"But there is no such thing as a start and a finish of the whole circumference of a circle: for every point one can think of is a beginning and an end".

Heraclitus, in: G. S. Kirk, Heraclitus: The Cosmic Fragments, Cambridge University Press, 2010, p. 113

DA INFANTILIDADE MODERNAÇA

Uma lei não escrita da civilização é que esta é tão mais bem sucedida quanto menos infantil ela for. Ou seja, quanto mais adulta uma sociedade for mais tendência ela terá para ser bem sucedida. Porquê? Porque adultos lidam com o real enquanto que as crianças atascam-se em sonhos e birras. Três bons exemplos da infantilidade contemporânea: primeiro, a obsessão com a juventude e a completa incapacidade de lidar com os ciclos naturais da vida e da morte. Vivem as cidades em bolhas eternas e pejadas de humanos que iludem-se ao pensar que parecer (e agir como) novo equivale a ser novo. O sonho, lá está. Depois, em segundo lugar, o egocentrismo individualista. Só quem não cresce não apreende que há mundo para lá do 'eu', aliás, há todo um mundo que não quer saber do nosso pequenito 'eu' para nada. Porquê? Porque somos irrelevantes. Mas isso é algo que uma criança que enche todo o seu pequeno mundo com o seu - proporcionalmente - grande ego não consegue compreender. Finalmente, em terceiro lugar, a constante desresponsabilização. A culpa é sempre do outro. Que nem as crianças lambuzadas de açúcar a dizerem que não foram eles que foram ao pote também os ditos modernaços assobiam para o lado. Um bom exemplo? Os críticos do sistema. A culpa da pobreza? É do sistema. A culpa da desigualdade? É do sistema. A culpa da infelicidade social? É do sistema. O único que nunca é culpado de nada é, curiosamente, aquele de quem todo e qualquer sistema depende, desde a sua invenção, planificação, implementação e reformulação: a natureza humana. Quando chamados à razão, os culpados serão sempre os outros, os maus, o bicho papão que escraviza os inocentes. Já olhar bem para dentro de nós e ter a humildade de reconhecer as nossas limitações? Isso é coisa que as crianças não conseguem. Sejam elas directores de jornais, comentadores televisivos ou militantes políticos dessa fabulosa birra em que se transformou a nossa brilhante esquerda modernaça. No fim, são todos maus menos eles.

ENNUI


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

DER STREBER

"The arrivist is a person who incessantly tries to 'arrive' at the top, outdoing his fellow persons at any cost. This person-type comes close to certain 'overachievers' today. He is unable to love, to give and forgive, to sacrifice, to admit defeat with his head up, to make friends, to be content with his own self. He is impotent to enjoy the value and quality of his life. He is good at smirking rather than smiling in friendship. Impervious and sometimes stiff as his personality is, his motivation to do extra work and to crave for perfection is not motivated by realizing a common good like that of a corporation, a company, a nation, or church. Rather, his impotency to fill the deep gaps in his hollow personality generates the constant urge to do better than, and win over others in public and to fish for social esteem and respect. Marks for excellence acquired in school, business, or elsewhere, cover up the personal dearth which makes him a social loner rather than a friend, sharing and feeling compassion".

Manfred Frings, 'Introduction', in: Max Scheler, Ressentiment, Marquette University Press, 2010, pp. 15-6

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

RESPONSABILITY

"There is no moral gesture so trivial that does not radiate, like the splashing stone, an infinity of ripples - circles soon lost to the naked eye. But if a physicist can pursue the tremor beyond this natural barrier - how much further can God the omniscient pursue the moral repercussion! If no impediments intervene, A's love of B not only awakens B's reciprocal love of A but stirs a natural growth of general, life-warming love in B's responding heart; hence B's love of C and D; and so the flood rolls on within the moral universe, from C and D to E and F ad infinitum. But the same is true of hatred, injustice, unchastity and all kinds of sin. Each one of us has been a partner in an immensity of actions good and bad, things of which he has - and can have - no inkling, but for which he nevertheless stands co-responsible before God".

Max Scheler, On the Eternal in Man, Transaction, 2010, p. 377 [1917]

O SÍNDROMA DE ALEXANDRE

E o homem que subiu arduamente a montanha, quando chegou ao topo, sentou-se e chorou. Porque não há vida sem propósito, e a contemplação do infinito não tem outro destino último que não seja chorar sobre o abismo do vazio.

ORIGINALITY



HAPPINESS AND EQUALITY

"Happiness... is to be found by virtue in all conditions, in which consists the true moral equality of mankind, and not in that monstrous fiction, which, by inspiring false ideas and expectations into men destined to travel in the obscure walk of laborious life, serves only to aggravate an imbitter that real inequality, which it can never remove; and which the order of civil life establishes as much for benefit of those whom it must leave in an humble state, as those whom it is able to exalt to a condition more splendid, but not more happy".

Edmund Burke, Reflections on the French Revolution, Penguin Classics, 2004, p. 124 [1790]

sábado, 18 de outubro de 2014

UM BALANÇO, A RATOEIRA E A TERCEIRA VIA

A propósito do Orçamento de Estado que vem aí, vale a pena fazer um pequeno ponto da situação: vemo-nos agora a entrar no último ano da governação - com maioria absoluta - da actual coligação PSD|CDS e, por essa razão, um balanço exige-se.

Primeiro, os positivos. Com maior ou menor atrito, os partidos da coligação foram bem sucedidos a manter a estabilidade governativa. Com a honrosa excepção do episódio da irrevogabilidade portista, os dois partidos lá foram conseguindo resolver os pequenos atritos que, naturalmente, uma coligação de partidos diferentes sempre gera. Especialmente positiva, e por isso esbatendo o ridículo do episódio da irrevogabilidade, é a estabilidade ter sido garantida num momento de grande atribulação económica e política e onde a demagógica tentativa de capitalização eleitoralista poderia ter ditado um destino diferente. Particularmente bem na fotografia ficou o Primeiro-Ministro que, no tal momento histérico de Paulo Portas, quando o fim do Governo já se vaticinava (incluindo aqui neste mesmo blogue), soube ter o sangue frio de resolver a situação da melhor forma possível. Se há um momento onde Passos Coelho ganhou a minha consideração foi esse.

Outro ponto positivo foi a capacidade de gerir o processo de intervenção económica da troika, conseguir ultrapassar a Bancarrota sócrates e, apesar da histeria colectiva, ter sido o Governo bem sucedido em devolver o país a uma quase-normalidade. Bom também foi apresentar alguns resultados económicos francamente positivos como sendo, a título de exemplo, e após os 5% que a taxa de desemprego galopou nos dois anos subsequentes à Bancarrota sócrates, começar agora a diminuí-la de forma sustentável e significativa (2% face ao pico de 2013).

Especialmente positivo também, foi a mudança de atmosfera democrática. É certo que nem tudo foi perfeito - longe disso -, no entanto, relembrar a governação anterior com os freeports, faces ocultas e os enriquecimentos súbitos de um número considerável de governantes, ou bons comparsas deles - alguns deles agora condenados ou sob investigação - torna evidente uma grande diferença, a começar pelo Primeiro-Ministro. Também, admitamos, sócrates deixou um legado de suspeição, corrupção e de nepotismo tais que dificilmente alguém conseguiria bater esses níveis sem ser perseguido e queimado na praça pública. Mesmo assim, é uma diferença com a qual, qualquer que seja a ideologia, todos nos devemos satisfazer.

Mas a cereja no topo do bolo, para mim, foi o caso BES. Comparar o assalto que o governo PS de sócrates fez ao BCP (com o nosso dinheiro e através de Vara, agora condenado por outras falcatruas), as tentativas de controle da comunicação social, o caso BPN e o igualmente vergonhoso BPP (que juntos custaram mais de dois mil e duzentos milhões de Euros aos contribuintes), comparar todo esse historial de intervenção e controle dos actores económicos nacionais com a forma como, mesmo que com riscos, o actual Governo escolheu deixar cair o BES é um abismo de diferenciação, e uma diferença para muito melhor. Ainda para mais, e à medida que o tempo passar mais se irá saber, se levarmos em linha de conta que muito do tráfico de influências e do controle por parte da oligarquia económica e política que sequestrou o Estado em Portugal passou sempre pelo BES, e pelo dono disto tudo, vemos que perdemos um agente económico-político que não fará falta nenhuma a Portugal. Quando Ricardo Salgado andou por aí de mão estendida a tentar safar os seus esquemas, termos um Governo que o deixou à sua sorte e, esperemos, sob uma alçada judicial futura, foi o melhor que um governante isento alguma vez poderia fazer. Só por isso já lhe fico eternamente grato.

E quanto aos pontos negativos da governação? Bem, esses, infelizmente, também não são poucos. O primeiro de todos é o, chamemos-lhe assim, Caso Relvas. Uma vergonha, especialmente quando o país ainda recuperava da falta de credibilidade socretina: termos um Primeiro-Ministro que manteve até ao limite das suas forças um ministro que, obviamente, não reunia as condições políticas para continuar no Governo foi um monumental tiro no pé. No final, nem sequer deu o Sr. Relvas a possibilidade ao Primeiro-Ministro de o demitir e, por essa forma, talvez redimir-se perante os eleitores, mas não, pelo contrário, saiu o douto Relvas porque quis deixando atrás de si apenas um enorme rombo na credibilidade, e legitimidade, governamental. E, para piorar a coisa, já este ano, no Congresso do PSD, Passos Coelho ainda o convidou para liderar uma lista ao Conselho Nacional. Se no caso BES agradeço a Passos Coelho, já no que diz respeito ao Sr. Relvas não lhe perdoo.

E o que dizer do legado económico do Governo? Será o facto de ter de forma bem sucedida superado o "ajustamento" da troika um feito suficiente? Parece-me que não, aliás muito pelo contrário. Apesar de alguns bons resultado, a verdade é que o Governo falhou redondamente na missão de reformar o Estado. Por um lado, as medidas que o Governo tomou para reduzir a despesa do Estado e, consequentemente, controlar o défice, foram na sua grande maioria medidas transitórias. Naturalmente, como deveria ser evidente, isso significa que, uma vez passada a transitoriedade, a despesa, e o consequente défice, irão regressar, a menos que o país desate a crescer exponencialmente o seu PIB, coisa que manifestamente ainda não aconteceu e, pior, sem a tal reforma do Estado dificilmente acontecerá.

Aliás, o processo político da reforma do Estado, todo ele, é praticamente do nível do anedótico: desde o guião desaparecido, até às palavras soltas escritas a letra dezasseis por Paulo Portas, tudo resulta num imenso nada. Infelizmente, a reforma do Estado limita-se aos cortes nas pensões e nos salários da função pública, coisa que apesar de transitoriamente necessária, apenas se admitiria se algo fosse feito de forma a que, uma vez terminada essa transitoriedade, houvesse condições para - cumprindo a palavra! - ser possível repor os cortes sem agravar o défice e a dívida. Como nada foi feito, das duas uma: ou o transitório passa a definitivo e se infringe a palavra dada, ou os cortes são repostos e terão que ser compensados com aumentos de impostos.

E aqui chegamos ao maior ponto negativo deste balanço: a carga fiscal. Passos Coelho foi eleito Primeiro-Ministro apoiado na premissa de que o Estado tinha que ser reformado para permitir um alívio da carga fiscal, alívio o qual traria maior desafogo económico às famílias portuguesas (pelo alívio do IRS), bem como maior capacidade de angariação de investimento estrangeiro (pela diminuição do IRC) capaz de gerar novos postos de trabalho e, por isso mesmo, maior riqueza. Pelo caminho deveria estimular-se a economia baixando o IVA, permitindo dessa forma maior capacidade às empresas de aumentar as suas receitas, os seus lucros e, por isso, os seus trabalhadores. Esse caminho estava correcto em dois mil e onze e continua a estar correcto em dois mil e catorze. Infelizmente, as reformas que permitam tal coisa estão igualmente no mesmo sítio: na gaveta.

A um ano das próximas eleições já não há margem para dúvidas: o Governo vai conseguir chegar ao final do seu mandato sem cumprir os seus principais compromissos eleitorais. A questão aqui é que a reforma do Estado, e o consequente alívio fiscal, são importantes, não para "nos vermos livres da troika" mas, fundamentalmente, para que Portugal mude de facto de vida, consiga começar a crescer sustentadamente e, além de não ter que ser intervencionado de novo no futuro, permitir uma vida mais rica e produtiva para os portugueses. E aqui reside o principal falhanço do Governo: a procrastinação reformista. Se nos anos oitenta e noventa, com Cavaco, Portugal foi o bom aluno e depois, com sócrates, o mau aluno, já com Passos Coelho somos o aluno que passa à rasca e a copiar: não mudemos de vida e voltaremos a correr o risco de chumbar.

Para sermos justos para com o Governo, admita-se, a probabilidade de uma efectiva e séria reforma do Estado passar no Tribunal Constitucional é bastante diminuta. Mas uma coisa é apresentar medidas que batem no portão dos guardiões máximos da falência portuguesa, outra coisa completamente diferente é não ter verdadeiramente reforma nenhuma para apresentar. Um bom exemplo é a Educação: não tanto pelo falhanço que foi a colocação de professores mas muito mais pelo falhanço reformista que não permitiu que se acabe de vez com aquilo que é um dos principais cancros do Estatismo português. A descentralização administrativa, a autonomia de gestão da escola pública, um financiamento ao aluno em vez da escola e outras medidas simples, por sinal já plenamente testadas noutros países com resultados muito satisfatórios, e que poderiam resolver muitos dos problemas da Educação pela base, tudo isso ficou em águas de bacalhau. Assim, enquanto se ocupa o ministro a tentar resolver problemas dentro de um sistema que é ele próprio a base do problema, fica o país em suspenso e todos atolados num pântano de interesses corporativos que, não permitindo que se saia do paradigma centralista, desgraçadamente, lá vão dando cabo do orçamento para a Educação, para gáudio dos Mários Nogueiras desta vida.

Com honrosas excepções - como a Lei das Rendas, por exemplo -, o Governo finalizará o seu mandato com um país mais ou menos na mesma forma como estava antes da crise de dois mil e oito: fortemente endividado, com um défice artificialmente reduzido e impostos que, mesmo que estejam já muito mais altos, com tendência para subir ainda mais. E isso não chega, muito pelo contrário.

Mas e o que dizer da alternativa? Seria de esperar que a esperança residisse na alternativa democrática ao falhanço reformista do Governo. No entanto, para mal dos nossos pecados, a alternativa não se pauta por afirmar que reformaria de forma diferente e melhor mas, muito pelo contrário, por afirmar que o que é preciso fazer é não reformar. Portugal tem um Partido Socialista que continua a afirmar as políticas de investimento público, elevados défices e consequente emissão de dívida, que nos trouxeram a bancarrota, apenas agora variando sobre a - imaginada - origem do dinheiro que pagará todos esses "investimentos" e prestações sociais: onde antes se sonhava com um crescimento económico alavancado por políticas públicas, agora, com a evidente falência que esse modelo socialista nos trouxe, sobra pugnar-se pela solidariedade europeia que, naturalmente, tem o dever de pagar o direito que nós temos a viver acima daquilo que somos capazes de pagar. Este é o verdadeiro europeísmo socialista: não é ser a Europa um espaço de livre troca de mercadorias e serviços que permitam aos portugueses competirem, e vencerem, junto com os melhores; pelo contrário, trata-se é de uma desculpa para receber transferências e vantagens financeiras que nos permitam viver como eles, os europeus, apesar de produzirmos metade do que eles produzem. A mim, como português, esta postura deixa-me muito envergonhado.

E aqui se revela a verdadeira ratoeira em que Portugal se vê enfiado: por um lado, temos um Partido Socialista que não acredita que se deve reformar o Estado, apenas quer arranjar formas de financiamento para o nosso défice crónico que não sejam penosas para os portugueses (e eleitoralmente desagradáveis para o PS) à espera que um dia a riqueza nos caia no colo; por outro lado, temos um Governo que percebe que não se pode viver eternamente de mão estendida para a Europa - até porque os outros países europeus não estão para isso - mas que, porque não consegue reformar o Estado, acaba a viver de mão estendida (ou em riste) para aqueles a quem pode exigir tudo e mais um par de botas: os contribuintes.

A conclusão é que precisamos urgentemente de uma terceira via: uma via que, reconhecendo os méritos do equilíbrio orçamental, recuse as más formas que os agentes políticos portugueses têm para pagar as despesas: o utópico e vergonhoso apelo à solidariedade europeia do PS e o, igualmente vergonhoso, assalto fiscal ao bolso dos portugueses por parte da coligação governamental. A via que sobra é aquela que o sensacional António Costa já identificou: a do crescimento económico. O problema é que o crescimento económico não aparece nem com a dívida que a proposta socialista implica, nem com a carga fiscal que o Governo aplica. O crescimento aparece, como acima já se explicou, precisamente pelo oposto do que ambas as opções governativas que temos advogam.  E aqui se fecha a pescadinha de rabo na boca do nosso descontentamento.

Em conclusão, Portugal conhece um impasse entre duas não-soluções. E, acreditando que os portugueses não darão uma maioria absoluta a um Governo que desilude nem a uma alternativa que nos trouxe a bancarrota há meros três anos atrás, a próxima governação terá que traduzir um entendimento ou, pelo menos, uma permanente negociação, entre o PS e a actual maioria o que apenas significa, porque dois errados não fazem um certo, que serão mais uns quantos anos a procrastinar as reformas penosas e impopulares que temos pela nossa frente. E é esse procrastinar que atesta a minha afirmação de que, qualquer que seja o Governo eleito em dois mil e quinze, com um elevadíssimo grau de probabilidade, Portugal a breve trecho não irá conseguir financiar-se de novo nos mercados internacionais e cá teremos a troika outra vez. Talvez aí acordemos e se criem as condições para o aparecimento dessa terceira via.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

LAST KISS

Desde o início dos anos 90 e a crescente popularização do movimento grunge que me interessei bastante pela música que vinha de Seatle, em particular os Soundgarden, os Nirvana e, naturalmente, os Pearl Jam. O álbum Ten (1991) que marcou a estreia da banda de Eddie Vedder figurará, certamente, como um marco da história musical dos anos 90, bem como uma obra-prima musical do final do Século XX que foi capaz de catapultar o rock alternativo de Seatle para o palco mundial. Músicas como Alive, Even Flow ou Jeremy ainda hoje passam abundantemente na rádio e são recorrentemente revisitadas, quer por aqueles que como eu ultrapassaram a sua adolescência ouvindo-as, quer por uma inesgotável legião de novos fãs.

O segundo álbum Vs. (1993) não lhe ficou atrás: apresentando músicas como Daughter ou Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town, com um som mais alternativo ao mesmo tempo que batia recordes de vendas (durante cinco anos Vs. foi o álbum que até aí mais vendera no dia de estreia), os Pearl Jam assumiram-se em definitivo como uma das bandas mais marcantes do seu tempo.

Desde aí, os Pearl Jam editaram mais oito álbuns de estúdio, álbuns os quais, com maior ou menor sucesso, amiúde nos foram oferecendo algumas preciosidades como o mais recente Nothing as It Seems (Binaural, 2000) ou o popularíssimo Better Man (Vitalogy, 1994). No entanto, a música que viria a bater todos os recordes seria uma música que não foi lançada em qualquer um destes álbuns de estúdio: Last Kiss.



Durante a digressão mundial de 1998, os Pearl Jam começaram a tocar a música durante os concertos tendo obtido uma resposta por parte dos fãs muito assinalável. Assim, em Dezembro de 1998, a banda resolve editar Last Kiss como um single de Natal.




A música foi um imediato sucesso e por demanda popular acabou por ser reeditada duas vezes, ambas no contexto da ajuda internacional ao conflito no Kosovo: primeiro como um single cujas receitas revertiam para os refugiados do conflito e depois em 1999 no álbum de beneficência No Boundaries: A Benefit for the Kososvar Refugees, entre contributos de outras bandas como Rage against the Machine, Jamiroquai ou Oasis e artistas consagrados como Neil Young ou Alanis Morissete. No total, Last Kiss ajudou a contribuir com cerca de dez milhões de euros para ajuda humanitária.

Last Kiss chegou então a n.º2  no Bilboard Hot 100, a mais alta posição alguma vez atingida pelos Pearl Jam, tal como seria a música mais bem sucedida da banda no Canadá, Austrália e Reino Unido. No entanto, e aqui é a coisa fica mais interessante, aquilo que a maior parte dos fãs da música, incluindo aqueles que, como eu, até sabem trautear pelo menos o refrão, é que Last Kiss tem tanto de original dos Pearl Jam como o Pierce Brosnan a fazer de Thomas Crown, ou seja: nada.

Escrita por James Lafayette Tarver em 1960 após a morte da sua filha num acidente de auotmóvel, Last Kiss foi primeiro editada em 1961 por Wayne Chochran e foi tanto, ou tão pouco, ouvida que teve que ser reeditada em 1963 por uma outra editora.





Apesar de uma ou outra boa crítica, Wayne Cochran não conseguiu o sucesso que almejava e, provavelmente, para a posteridade ficará apenas como o autor oficial da canção. Já o seu verdadeiro autor, James Tarver, que havia perdido o controlo sobre a letra após ter andado a tentar vendê-la a diferentes editoras, também ficou igualmente a ver navios. Quem haveria de verdadeiramente capitalizar com Last Kiss seria a banda J. Frank Wilson and The Cavaliers que, após o seu manager, de seu nome Sonley Roush, considerar que a estória trágica que Last Kiss conta se inseria bem dentro de um conjunto bem sucedido de tragédias adolescentes que na altura estava em voga, insistiu para que a banda a editasse como um cover capaz de entrar no ouvido do público.

E foi assim que em 1964 J. Frank Wilson and The Cavaliers finalmente conseguiram o seu primeiro sucesso comercial chegando também, mas originalmente, ao n.º 2 no Bilboard Hot 100. Infelizmente, o sucesso comercial não veio somente pelos méritos da música: foi apenas após um acidente de automóvel que, durante uma digressão, roubou a vida a Sonley Roush, precisamente o homem responsável pela sua edição, que a música se popularizou.




De todas as cópias vendidas nos anos 60 e 70, eventualmente uma delas faria o seu caminho até que Eddie Vedder a encontrasse a ganhar pó numa pequena loja de um velho centro comercial em Seatle. E o resto é história.





domingo, 5 de outubro de 2014

A PROPÓSITO DO ANIVERSÁRIO DA REPÚBLICA


DO ESQUECIMENTO


Com mais mito ou menos mito, desde há muito que se convencionou que o acontecimento que de forma inequívoca marca o nascimento de Portugal foi o Tratado de Zamora, por sinal assinado a cinco de Outubro de mil cento e quarenta e três (e a primeira bandeira a da fotografia acima). Este singelo facto atesta que hoje, cinco de Outubro de dois mil e catorze, celebram-se oitocentos e setenta e um (871!!!) anos desde o nascimento de Portugal como nação independente. No entanto, e como todos os anos lá vou alertando neste blogue, a maior parte da população portuguesa encontra-se completamente alheada de que nesta data, muito mais do que uma revolução política cometida por meia dúzia de activistas citadinos nos idos de mil novecentos e dez, comemora-se, ou deveria comemorar-se, efectivamente, o nascimento de Portugal.

Algumas coisas muito simples saem daqui: primeiro, o carácter intrinsecamente autoritário da república de mil novecentos e dez que, através da propaganda, foi incansável na sua tentativa (bem sucedida) de afirmar-se como a única solução política para Portugal. Com esse intuito, e apenas dois anos após o bárbaro assassinato político do Rei D. Carlos - que chocou o mundo civilizado -, não se fizeram os republicanos rogados em substituir a bandeira nacional (tal como Hitler faria vinte e dois anos depois na Alemanha) pelas cores do partido político vencedor (o Partido Republicano Português) e da organização maçónica Carbonária (na fotografia abaixo).


Da mesma forma, não tiveram problemas em enviar milhares de portugueses para a morte nos campos da Flandres para ganharem o direito de sentarem-se à mesma mesa que os vitoriosos exércitos da Primeira Guerra Mundial, isto apenas para se afirmarem politicamente e perderem o estatuto de sanguinários assassinos que tinham morto um Rei legítimo. Tudo isto e muito mais, desde a polícia política da "formiga branca" até às maiores atrocidades eleitorais, bem como ao caos económico que lançaram com falência após falência que a libertinagem desmedida que quarenta cinco governos e nove Presidentes da República em apenas dezasseis anos permitiram, de tudo isto se fez um dos períodos mais tristes da história portuguesa, bem como se afirmou um regime que - nunca tendo sido sufragado! - de democrático apenas tem os dentes podres de quem nele se legitima para falar de democracia, um conceito que, obviamente, não compreendem ou, pior ainda, porque não dá jeito, não querem compreender.

Naturalmente, perante tamanho oportunismo político, para afirmar a legitimidade de quem não a tinha, a começar por aquela bandeira vergonhosa à qual hoje já nos habituámos, a negação do passado foi tarefa fundamental. E essa é a grande diferença de Portugal para a maior parte dos outros países civilizados ocidentais: as conveniências políticas do momento prevalecem sempre sobre os interesses pátrios de longo prazo. Também Oliveira Salazar, a quem o regresso da Monarquia nunca interessou verdadeiramente, não se deu ao trabalho de, como gritava o pateta Alegre aqui há uns tempos, "tocar no cinco de Outubro" porque, lá está, um rei é um rei e este teria sempre mais legitimidade política do que ele podendo colocar em causa o engenhoso equilíbrio político salazarista.

Como não poderia deixar de ser, também a democracia de forma em que vivemos vai buscar a sua legitimidade (cada vez menor) à ilusão mentirosa das virtudes da I República: desde a já nojenta "ética republicana" que serve para legitimar os piores comportamentos desde que não sejam ilegais, até às patéticas paradas e discursos do cinco de Outubro, tudo lá vai servindo para os decrépitos oportunistas políticos do momento lá se irem aguentando na cadeira do poder. Na prática, o grande feito da República parece ser o facto de, hoje de forma directa, elegermos o nosso Chefe de Estado. Se, primeiro, considerarmos que há países substancialmente muito mais democráticos do que nós que não elegem Chefe de Estado algum e estão muito satisfeitos com a Monarquia, tal como, segundo, se nos lembrarmos que nessa democrática eleição, na última ocasião, nem sequer metade dos eleitores inscritos se deram ao trabalho de participar, então, não colocando em causa os méritos do republicanismo, podemos, no mínimo, questionar-nos se tamanho poço de virtudes é suficiente para dar assim tanta legitimidade ao ponto de comemorar-se o facto de podermos ter essa eleição a expensas de comemorarmos, e esquecermos, o nascimento do país. Parece-me que não.

Outra questão que este esquecimento oportunista revela é a dependência pobrezinha do cidadão português face ao Estado, e a quem o governa. Fôssemos nós um país saudável, com uma sociedade civil forte e independente, capazes de pensar pela nossa própria cabeça, e talvez não precisássemos de decretos legislativos para decidir o que comemorar, ou o que esquecer. Mas em Portugal nada se faz fora do Estado: desde o foguetório autárquico que vai garantindo eleições, até à incapacidade (e preguiçosa falta de vontade) de organização social nem que seja para comemorar alguma data importante, lá nos vamos acomodando, em tudo como no resto, ao que nos dão, sendo que na maior parte dos casos nem nos perguntamos se aquilo que nos dão será mesmo aquilo que queríamos ou se, talvez, mais não será do que aquilo que dá jeito aos caciques do momento. É pobre, muito pobre.

Finalmente, e relembrando os anos da troika, da falência e do socialismo da terceira via, afundados num pântano de dívida e agarrados a um monstro estatal que ninguém parece conseguir controlar, parece-me bastante pertinente apontar que o Estado só é forte porque a sociedade é fraca. E a fraqueza da sociedade faz-se muito desta falta de memória que nos rouba a responsabilidade de honrar os oitocentos e setenta e um anos de história que temos, que nos leva os heróis do passado, as nossas tradições e os nossos orgulhos deixando-nos este deserto de memória pátria meramente assente nos feitos (e falhanços) do futebol indígena. A sério: que outra coisa além do que a falência seria de esperar de um país que não comemora o seu nascimento (porque já nem sequer o sabe)? Quem não honra a sua história não tem futuro e, no meio do vendaval que nos assola, a nossa brilhante história que, com a indiferença dos ignorantes, lá vamos renegando por entre patéticos encolheres de ombros, quanto mais longe vai desaparecendo mais nos sobra a boçalidade dos caciques de serviço que, pressurosos, lá vão convencendo os incautos de que eles são o melhor que alguma vez tivemos.

Pior: a quem se habituou a esquecer não custa, por exemplo, eleger de novo quem muito mal nos fez. Apenas no tal país da fraca memória o número dois do primeiro-ministro que, por entre escândalos de corrupção, levou o país à falência, três anos volvidos é já visto como o salvador da pátria. Mas, enfim, a quem se deixa roubar do seu passado não custa a acreditar que escolha sucessivamente esses mesmos ladrões para tratarem do seu futuro. E, lá está, como a história nos ensina, uma nação que não se dá ao respeito talvez não mereça melhor sorte.



quinta-feira, 2 de outubro de 2014

SOCIALIST PRANKS


A FOGUEIRA

Todo este espectáculo tolinho das eleições primárias do PS é capaz de deprimir o mais entusiasta dos optimistas e levar qualquer guru da vida feliz à beira do suicídio. Primeiro, os candidatos: às turras, ocupados a chamarem nomes um ao outro, sempre entretidos com as mais tristes banalidades e incapazes de apresentarem uma ideia com princípio, meio e fim. Depois, as estratégias: desde o oportunismo disfarçado de messianismo do Dr. Costa à inabilidade do Dr. Seguro (que pensava que controlava o aparelho e afinal nem isso), tudo foi muito, mas mesmo muito fraquinho. A seguir, a cobertura jornalística e comentadeira: nunca uma pergunta tão simples como "como vai implementar (que é como quem diz: onde vai financiar) esses desígnios fantásticos que tem para Portugal" foi feita, apenas atestando que, enquanto os Antónios se entretinham a inventar soluções mágicas para o país, não havia um jornalista com três neurónios capaz de chamar os demagogos à realidade. Aliás, realidade é uma coisa com a qual os portugueses lidam muito mal: para muitos mais vale irem agora eleger quem os levou à bancarrota apenas porque, mais uma vez, mentindo com quantos dentes têm, lhes continuam a vender meia dúzia de frases feitas. Resta saber quantos vão na cantiga do bandido. Finalmente, a fotografia da vitória: ver o pateta poeta Alegre, o chavista Soares, o Almeida "é-melhor-construir-uma-terceira-ponte-sobre-o-Tejo-que-um-túnel-pode-ser-alvo-de-terroristas Santos, todos a acompanhar o antigo número dois de Sócrates (sim, o António Costa),  e todos de punho bem levantado já a fazerem as contas a quantos dias faltam para irem para o poleiro que consideram deles, tudo isso foi tão mau que ia vomitando o pequeno almoço. É essa gente que querem de volta? Que país, irra, falido está, falido há-de continuar. Depois reclamem.

DAS TAXAS

Andei às compras na Amazon e, admito, foi por pouco que não mandei vir um novíssimo e gigantíssimo disco rígido cheio de terabytes para guardar ficheiros de música. Porquê? Apenas para demostrar o quão fácil é evitar a estúpida taxita que os socialistas de serviço agora inventaram para sustentar uma cambada de "artistas" sofríveis que vendem tanto ou tão pouco que precisam de um decreto legislativo para "sobreviver". Às nossas custas, pois claro.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

DOIS PESOS, DUAS ALEGRIAS

O Sr. "poeta" Alegre nos anos setenta exortou aos microfones de uma rádio em Argel à deserção dos soldados portugueses em África e, pugnando pela derrota militar do seu país face aos movimentos de libertação africanos, não se cansou de ajudar os guerrilheiros contra as forças militares do seu país. Este singelo facto histórico que o Sr. Alegre justifica pelo seu imenso amor à liberdade, uma liberdade que a ditadura de Salazar lhe negava, é do conhecimento público e, como tal, amplamente comentado e referido. Naturalmente, nem toda a gente concorda com o Sr. Alegre e muitos entendem, no seu julgamento pessoal, que ajudar guerrilheiros contra o seu próprio país é ser conivente com a morte de compatriotas, quer se concorde com os motivos da intervenção militar quer não. Expressou o Tenente-coronel João José Brandão Ferreira em diversos blogues a opinião de que tais comportamentos, factuais repita-se, do Sr. Alegre configuravam uma "traição à pátria" e, vai daí, o Sr. Alegre processa o Tenente-Coronel Brandão Ferreira por difamação. O Tribunal, naturalmente, rejeitou tamanho ensejo e absolveu o arguido. À saída do tribunal, após a leitura do veredicto, o Sr. Alegre comenta que "a liberdade de expressão não permite tudo" e, como tal, o veredicto deveria ter sido outro. Ou seja, para o Sr. Alegre, a liberdade de expressão deve incluir a ajuda a guerrilheiros contra o exército do seu país, no entanto, apelidar tal "liberdade" de traição à pátria é algo que, naturalmente, a liberdade de expressão não poderia aceitar. É um conceito de liberdade muito peculiar, o do Sr. Alegre. Duas coisas, bem evidentes nas diabruras do Sr. Alegre, saem como bons exemplos do atavismo nacional: a primeira, é a capacidade intrínseca dos portugueses prejudicarem os interesses pátrios em nome dos seus interesses pessoais; a segunda é a forma como os Srs. Alegres da vida mascaram os seus interesses, ou devaneios, pessoais de grandiosos princípios éticos e republicanos que eles, naturalmente, humildemente servem. Servisse o Sr. Alegre, de facto, o princípio da liberdade de expressão como diz que serve e seria ele o primeiro a respeitar quem pensa de maneira diferente da dele porque entenderia que a defesa intransigente da liberdade de expressão é maior do que o desagrado que as criticas que lhe são dirigidas lhe causam. Mas não. Para o Sr. Alegre a liberdade de expressão só serve quando é para ele dizer, e fazer, o que bem lhe apetece. No final, uma conclusão positiva: considerando que o que o Sr. Alegre fez envergonha qualquer português decente e que o que ele diz, normalmente, atenta contra o bom senso e o bem estar intelectual, não apenas da pátria mas de cada um de nós, o facto de o Sr. Alegre continuar por aí a pulular a declamar os devaneios mais idiotas apenas atesta que a Portugal faltam muitas coisas mas que liberdade de expressão não será uma delas. Mesmo apesar dos Srs. Alegres - e que os há tantos! -  desta vida.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

OPPOSITI

O novo ergue-se sempre das cinzas do velho. Dessa oposição decorre ainda uma outra: que o amor à novidade que se conquista é sempre devidamente acompanhado do luto pelo velho que se perde. A única, e verdadeira, constante do processo que é a vida será, portanto, a sua perpétua contenção pelos opostos que, a cada momento, a vão limitando.

CHAMEM OS ANTÓNIOS

Hoje atingi um patamar importante de maturidade e crescimento pessoal: contive todos os impulsos naturais do meu corpo e consegui, sem me impacientar, apesar de umas quantas gargalhadas, assistir ao debate dos Antónios socialistas do princípio ao fim. Não sei muito bem do que estava à espera, talvez apenas tenha sentido a necessidade de conhecer antes de criticar, mas - admito - até acabei por sair surpreendido: habituado que estou a julgar os líderes socialistas pelo que propõem ao país, algo entre o descalabro apocalíptico e a pura e simples demagogia mentirosa, fui apanhado de surpresa ao constatar que, de uma perspectiva meramente partidária, o António José Seguro é muito, mas mesmo muito, melhor do que o António Costa.

Então vejamos:

Primeiro, na pose. Enquanto o Dr. Seguro fala com aquele ar compungido, numa espécie de Conselheiro Acácio dos tempos modernaços, sempre na mesma pose séria de quem se imagina como um Estadista, um homem de Ideias e Princípios, tudo com letra grande, alguém de quem se espera que qualquer tirada proferida com solenidade terá que ser algo entre o genial e a mais pura das virtudes, enquanto de um lado está, portanto, a sapiência pura das convicções fortes e inabaláveis, já do outro lado, e talvez por estar pouco habituado a calcorrear os penosos caminhos do caciquismo aparelhista nacional, um subitamente emagrecido Dr. Costa titubeava algumas considerações que, nem na capacidade de resposta aos fortes ataques do adversário, nem na forma como se pretendia pôr acima do não carismático Dr. Seguro, em nada disso foi eficaz. À acusação de porquê não ter avançado há três anos atrás quando era o número dois de sócrates, o pequeno, e o PS andava nas ruas da amargura eleitoral, António Costa engasgou-se e não foi bem capaz de responder. Aliás, foi o Dr. Seguro, com o seu bem interiorizado ar de coitadinho, a quem parece sempre que lhe dói a barriga, que, vindo do nada, em duas penadas e com metade do tempo do adversário, conseguiu mostrar como a candidatura do Dr. Costa tresanda a oportunismo político e, pior ainda, representa um regresso mais ou menos disfarçado ao socretinismo, essa coisa peçonhenta que nos levou à falência. Um a zero.

Depois, na estratégia partidária. Se há uma coisa que sai evidente do debate é que discurso partidário ao Dr. Seguro não falta: desde evocar os mais variados e excelsos princípios políticos, todos eles obviamente quebrados, estilhaçados e atraiçoados pelo Dr. Costa, até aos argumentos comparativos dos resultados das sondagens e eleições, quer com o passado, quer com o presente europeu, em tudo isso o Dr. Seguro foi exímio. Ao Dr. Costa, como justificação para tamanhos crimes lesa-partido, sobrou-lhe o seu imperativo de consciência, um imperativo que visa salvar o país, e o partido, mas que, aparentemente, a dita salvação é apenas da liderança do Dr. Seguro e em nome de mais uns quantos pontos percentuais nas eleições europeias. Pior ainda, foi acusado de dizer uma coisa em público e outra no partido (algo que não desmentiu), bem como de ziguezagues, lá está, mais uma vez oportunistas, onde diz hoje o contrário do que disse no passado. A sua justificação soube a um cachorro sem salsicha e com muito pouca mostarda, pior ainda, na questão do Orçamento de Estado de 2012 passou mesmo por mentiroso. Dois a zero.

Finalmente, no que concerne às propostas para o país, aí temos uma diferença de estilos e uma coincidência em termos substanciais. Quanto ao estilo, por apresentar um discurso mais coerente, aparentemente mais organizado e bem preparado, o Dr. Seguro leva de novo vantagem sobre o conjunto de lugares-comum mais líricos e colados com cuspo do Dr. Costa. A vantagem de Seguro? No realismo da necessidade de colocar a economia a crescer e, mais importante, a urgente separação da política dos negócios, separação a qual, na prática, é aquela que ele, Seguro, pretende fazer em relação ao socretinismo. A desvantagem de Costa? Cabe a quem desafia o líder apresentar o que faria de diferente, algo que o Dr. Costa, talvez a pensar que a sua magnânime presença seria o suficiente, se esqueceu de fazer.

No final, na substância, seja o Dr. Costa ou o Dr. Seguro a liderarem o PS, para os portugueses não faz grande diferença: ambos querem o Eng.º Guterres na Presidência da República, ambos se preocupam muito com o emprego, o Dr. Costa acrescenta a cultura, a modernização da administração pública e mais igualdade, o Dr. Seguro pugna contra a privatização da TAP, da Caixa Geral de Depósitos e do estado-social em geral, ou seja: ambos querem manter, e ainda aumentar, a despesa do Estado ao mesmo tempo que, claro está, juram não querer aumentar a dívida ou os impostos, o que, houvesse uma moderação de jeito, apenas exigiria que se fizesse, a ambos, a mesma pergunta: onde contam eles encontrar dinheiro para essas despesas todas. Ficou, portanto, por esclarecer como pretende o Dr. Costa apostar nos recursos e no território, signifique o que isso significar, tal como por saber ficou como vai o Dr. Seguro reindustrializar o país. Ou seja, sumo, propostas sérias, profundas, algo mais do que reduzir o IVA na restauração e mais umas intenções vácuas e tristemente superficiais? Zero, nadica de nada.

Em conclusão, um debate que, apesar do cliché da imperiosa necessidade "de resolver os problemas concretos dos portugueses" ser aquilo que tem que nortear a conduta da acção política ter sido proferido logo aos trinta segundos (o Dr. Seguro leva a taça), contribuiu em zero para, precisamente, resolver os problemas concretos dos portugueses. Aliás, não acrescenta mesmo nada a não ser na perspectiva da politiquice partidária onde, sem o conforto da cadeira da Quadratura do Círculo, António Costa se saiu muito pior do que o actual Secretário-Geral socialista. Já o país, esse pode tirar uma conclusão: a de que dali não vem nada de novo, nem um caminho nem uma alternativa estratégica, pelo contrário, dali, venha quem vier, apenas virá mais do mesmo: desígnios vãos, palavras ocas e estratégias vazias de conteúdo. Entre o compungido Dr. Seguro e o já-não-tão-bonacheirão-nem-risonho Dr. Costa, bem podem os socialistas chamar pelos Antónios que o país, creio eu, não os ouvirá: de tretas já basta e, mal por mal, mais vale ficarem os que já lá estão. Quanto a quem vai ganhar as eleições, eu aposto no Dr. Seguro: um político, ainda para mais socialista, capaz de afirmar que se demite se se vir forçado a aumentar os impostos, só pelo que me fez rir, não merece castigo.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A ESCOLHA

Ao homem culto e verdadeiramente civilizado que compreende a completa inutilidade finalística da acção humana sobram duas hipóteses: a primeira é a da contemplação onde, de fora, enquanto espectador, se maravilha com a beleza e magnificência da obra universal; a segunda é a da acção onde se assume que o mundo é um lago de experiência onde, apesar da sua ilusória condição, vale a pena mergulhar. A serenidade da contemplação exige a pena da solidão; a partilha da condição humana exige a angústia da perenidade. A verdadeira chave da felicidade terrena talvez passe pela capacidade de conciliar dois caminhos tão distintos.

TEMPITE

Não há nada que o tempo não cure além do próprio tempo. Que é como quem diz: o tempo tudo cura menos a doença que com ele sempre vem. A consequência é a angústia humana pingada naquela gadanha sempre bem segura pela peçonha que, vestida de preto e escondida no escuro, paira sempre à espreita ali no fundo do corredor.

domingo, 29 de junho de 2014

OS MAIORES, OS PIORES E OS HERÓIS-VILÕES

Portugal é um país de ódios. E, para mal dos nossos pecados, um ódio que se volta constantemente contra aqueles que tentam fazer alguma coisa de muito bom, ou os outros que se revelam como muito bons a fazer alguma coisa. Um bom exemplo dos últimos dias é o ódio ao Ronaldo: porque não fez isto, porque não fez aquilo, porque não é o melhor do mundo, porque nunca será um mito, porque não passa de um vaidoso, disto ou daquilo. De facto, porque o Ronaldo é indiscutivelmente um grande jogador de futebol, a crítica acaba por ser que "não é o melhor do mundo". Como se ele tivesse a obrigação de ser o melhor do mundo.

Já os portugueses imaginam-se os maiores do mundo mas, veja-se lá a coisa, são injustiçados por uma espécie de conspiração internacional que insiste em assim não os considerar. E depois sobra o complexo de inferioridade (motivado por um megalómano complexo de superioridade): um comentário jocoso de um jornalista estrangeiro logo causa uma comoção nacional, uma reportagem internacional menos feliz logo deriva numa petição contra esses inimigos da pátria ou a derrota num torneio internacional despeja uma torrente de infelicidade no país. Já pelo contrário, tudo em Portugal é o maior e o melhor: desde cada condutor automóvel à melhor comida do mundo, ou ao melhor sol do mundo. Por Portugal igualmente abundam as melhores praias e mares do mundo, e agora: os melhores hotéis do mundo, as melhores cidades do mundo para turismo, a melhor, e maior, onda do mundo, e claro: o melhor jogador de futebol do mundo, o melhor treinador do mundo, etc. Com tanta coisa boa só admira que o povo que habita tremendo paraíso se entretenha a destruí-lo com betão, cimento e uma desorganização aterradora, essa seguramente das maiores do mundo.

Da mesma forma, especialmente na bola, qualquer talento ou colosso mundial logo é importado para mostrarmos que temos colossos ou talentos igualmente talentosos e colossais: o "Jardel" de Coimbra, o "Cruyft" da Reboleira ou o "Bekham" de Braga. Mas não só na bola: Aveiro, por exemplo, é a "Veneza" portuguesa, tal como o Estoril era a igualmente nacional "Riviera". Disso nem a, lá está, "primeira-dama" portuguesa, apenas por ser negra, se safou: Passos Coelho está casado, naturalmente, com a "Michele Obama" portuguesa. Já o desenrascado Joaquim de Almeida, que lá conseguiu aparecer em dois ou três filmes americanos de qualidade mais do que duvidosa mas de grande projecção, foi logo apelidado do "Banderas" português. Enfim, com tanto colosso apenas admira que somente os portugueses tenham ouvido falar de tais sumidades.

A isto já aludia um Eça Queiroz, esse autenticamente grande, e igualmente autenticamente português, ao dizer que em Portugal a civilização importa-se do estrangeiro mas que, infelizmente, por ser importada, fica-nos curta nas mangas: na verdade nem o Jardel de Coimbra marcou tantos golos como o original, nem Aveiro rivaliza no panorama internacional com a cidade de Marco Polo.

E depois vem o reverso da medalha: da ânsia irrealista de querer ser o melhor do mundo, quando embatemos na realidade de que não somos os campeões do mundo, então, logo nos transformamos nos piores do mundo. Se não podemos ser os melhores, somos os piores. E, sucumbindo ao ego invertido, por nos sentirmos os piores, ao vermos aqueles que, apesar de serem portugueses como nós, se evidenciam por aí fora, que se mostram como dos melhores do mundo, logo os tratamos como uma espécie de heróis caídos: se não nos levas à glória então não serves o propósito da redenção e, por essa razão, odiamos aquilo que de melhor temos, que nos frustra ainda mais, por não ser bom o suficiente. E vilipendia-se. E chama-se nomes. E desvaloriza-se. E o que era o melhor passa a ser o pior. E, tal como a turba que escolheu o ladrão Barrabás e vilipendiou Jesus, também os portugueses vilipendiam o que têm de melhor. Portugueses os quais, aliás, têm uma igual tendência para escolher por entre aclamações grandes ladrões, esses, também, dos maiores do mundo.

É uma espécie de tragédia esta glorificação irrealista, e idealista, consequentemente transformada em crucificação igualmente desmedida. Se é verdade que temos muita coisa boa não quer dizer que esta tenha que ser a melhor do mundo. Aliás, a necessidade de nos afirmarmos como os maiores tem muito de uma paroquial afirmação complexada em relação a algo (o mundo) que, por desconhecermos, imaginamos como extraordinário e que não queremos assumir como melhor do que o pouco que vamos conhecendo que, ao ser exagerado na sua dimensão e qualidade, amplia o pequeno mundo onde nos sentimos confinados.

No fim, como os complexados neuróticos que pululam por essas redes sociais fora, sobra a importância desmedida que damos ao que pensamos que os outros pensam de nós. E talvez, paradoxalmente, quando percebermos que o mundo, mesmo sendo nós os melhores disto e daquilo, continua a não querer saber de nós para nada, talvez então, livres do peso dos nossos próprios complexos, nos libertemos para viver uma vida que, não sendo a melhor de todas, seja  pelo menos agradável, responsável, auto-suficiente e capaz de apreciar as coisas boas que vamos tendo. E, já agora, com menos indignada gritaria.

sábado, 7 de junho de 2014

DAMN RIGHT


NA LIXEIRA

Tenho-me abstido, por puro decoro, de fazer grandes comentários sobre a triste vida política nacional e, principalmente, sobre a indigente ignorância do espaço público indígena. No entanto, há comentários que não se contêm nas guelas e passam mesmo para o papel - mesmo que virtual: então o Dr. Costa, o salvador, vem pugnar pela salvação do país (que o seu partido arruinou) a apelar ao espírito reformista do anterior salvador sócrates, o pequeno, precisamente aquele que nos empenhou o futuro num desvario de corrupção e incompetência? A julgar pelos relatos que me chegam das ruas de Lisboa, Costa gosta mesmo de chafurdar no lixo mas, atenção, há limites. Sobra, no entanto, uma vantagem: em ganhando os senhores da dívida, quando daqui por dois ou três anos tivermos cá o programa de ajustamento versão 2.0, ninguém pode dizer que não foi avisado. Nos entretantos, é tentar ficar à distância porque, ao que parece tal como Lisboa, o fedor que já exala dessas supostas primárias, e sempre com tendência a piorar, é verdadeiramente insuportável.

Addendum: Uma breve nota para quem ainda não percebeu o filme: a razão pela qual não há eleições para Secretário-Geral do PS e há apenas "primárias", mesmo assumindo Seguro que se demite se as perder, é para que os "simpatizantes" amigos dos caciques que controlam o aparelho possam todos ir votar e, sem sequer ter que pagar quotas (os tempos fora do Governo são mais difíceis), espetar uma vitória estrondosa no Costa. Senão, se Seguro admite demitir-se se perder as "primárias", por que não convocar logo eleições para Secretário-Geral? Porque acha que haveriam eleições antecipadas? Alguma vez Cavaco convocaria eleições a meio de um processo eleitoral no maior partido da oposição? Nunca na vida, e Seguro sabe isso muito bem. Então, naturalmente, a única diferença prática são os ditos "simpatizantes". Vai ser de arromba.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

A VALUABLE LESSON


ILUSÕES

Poucas coisas me causam maior perplexidade do que ver por aí tantos e tantos a criticar os corruptos dos políticos e dos governantes, sempre a berrarem de punho cerrado o quão incompetentes e ladrões os políticos e governantes são para depois, como solução, apenas continuamente proporem mais e mais leis, mais e mais meios e organismos do e para o Estado, ou seja, querem combater a corrupção e a incompetência governativa através de dar mais poder, força e meios - leia-se dinheiro - aos tais incompetentes, ladrões e corruptos dos políticos governantes que tanto criticam. É uma coisa esperta, de facto.

TRADIÇÃO E COMUNIDADE VERSUS ESTADO E UTOPIA

"Pondo a questão de outra maneira, a tradição... condensa em si mesma os frutos de uma longa história de experiência humana: fornece saber que não pode conter-se numa fórmula nem estar confinado a uma única cabeça humana, mas que é disperso ao longo dos tempos pela experiência histórica da comunidade envolvente. Tal como os preços do mercado condensam em si mesmos informação que de outro modo fica dispersa na sociedade contemporânea, também as leis condensam informação que está dispersa pelo passado de uma sociedade...: o saber de que precisamos em circunstância imprevisíveis da vida humana nem deriva da experiência de uma única pessoa, nem se contém nela, nem pode ser deduzido a priori de leis universais. Esse saber é-nos legado pelos costumes, pelas instituições e pelos hábitos de pensamento que foram moldados eles próprios ao  longo de gerações, através de tentativas e erros de pessoas, muitas das quais pereceram enquanto o adquiriam. (...) Se essas coisas boas se desintegrarem, não há maneira... de a legislação as substituir. Porque ou surgem de forma espontânea ou não surgem, pura e simplesmente, e a imposição de instrumentos legislativos para a «boa sociedade» destrói o que resta do saber acumulado que torna possível essa sociedade. Não surpreende, por isso, que os pensadores conservadores britânicos - nomeadamente Hume, Smith, Burke e Oakeshot - tenham tido tendência para não ver tensão entre uma defesa do mercado livre e uma visão tradicionalista da ordem social. É que tinham fé nos limites espontâneos colocados ao mercado pelo consenso moral da comunidade. Talvez esse consenso esteja actualmente a ceder. Mas essa cedência é em parte resultado da interferência do Estado e é certamente improvável que seja curada por ele. foi precisamente o êxito da falácia do planeamento [central] na criação de enormes máquinas de poder e influência, a galopar descontroladas para o futuro, que levou à erosão do consenso que coloca um «nós» genuíno no centro da política".

Roger Scruton, As Vantagens do Pessimismo (2011), pp. 124-6

quarta-feira, 4 de junho de 2014

DAS PENAS E SACRIFÍCIOS

Duma coisa em que ando a trabalhar (outra vez) mas que está dentro do tópico dos últimos posts:

"... Mas não é esse o nosso caminho, não apenas porque a velocidade é inimiga da qualidade mas também porque andar a contar as coisas a correr prejudica, ou impede mesmo, a profundidade do relato. Afinal, depressa e bem, não há quem. Além disso, dirão ainda outros, o mais importante da vida é aceitar que é a viagem que vale as penas e os sacrifícios, e não o destino, ou o fim. Senão, fossem os resultados apenas aquilo que interessa, fossem os fins, e não os permeios, aquilo que contasse, e todos os leitores se voltariam logo para as páginas finais dos livros, afinal de contas, para quê perder tempo com tretas quando podemos ficar logo a conhecer o final da estória? Se dúvidas houvesse de que é no aproveitar o caminho, mesmo com as pedras onde vamos tropeçando, ou melhor, principalmente com as pedras que se nos vão atravessando pela frente, é na viagem, nos durantes, nos entretantos, na perseverança e na subsistência, em suma, na existência, para não dizer mesmo: na vivência, que se faz a vida e não, como os marquetistas tanto nos fazem acreditar, que é sempre com a próxima página, no capítulo seguinte, a correr, depressa, vamos lá, é sempre ali, no momento seguinte àquele em que estamos agora, que residirá a felicidade da vida ou, no que concerne a presente metáfora, o gozo de um relato literário. Assim fosse e, em última instância, para os pobres humanos, a felicidade residiria apenas na campa, talvez naqueles dizeres gravados na pedra que fazem companhia aos cadáveres em decomposição. Aí, no verdadeiro e triste fim, parece-nos a nós que a haver felicidade apenas esta existirá nos ecos recordadores dos entretantos que àqueles, agora ali finados, em dias passados lhes aconteceram. Por isso, lembremo-nos nós dos que já foram, guardêmo-los em mente, para que possamos, nem que seja por respeito à sua memória, aproveitarmos nós o luxo da existência, mesmo quando a malandra teima em não nos fazer as vontades todas".