sexta-feira, 21 de março de 2014

CARA E COROA

A partir de agora deixo o pensamentos desblogueados livre para assuntos sérios e passo a fazer o meu comentário político, mais ou menos ocasional, por outras bandas. São estas o blog Cara e Coroa onde me encontro em excelente companhia.

ELOGIO À ROTINA

Ao contrário da ideia modernaça de que as rotinas são "aborrecidas", parece-me que a rotina é parte da salvação para uma vida feliz. A rotina, desde aquela que embala o bebé até aqueloutra que nos ocupa manhãs, tardes e - ou noites, não passa de um processo de repetição que, precisamente por repetir-se, nos oferece a sensação momentânea de um movimento perpétuo. É uma magnífica ilusão, a rotina. É através daquela repetição que podemos experimentar um momento sem fim, porque aparentemente eternamente recorrente: a eternidade, portanto. Da mesma forma, nas traseiras da nossa mente, com a ilusão da perpetuidade, dá-se a decorrente superação, através do momentâneo esquecimento, do conhecimento que todos carregamos da nossa própria mortalidade. A libertação, portanto.

segunda-feira, 17 de março de 2014

UM HOMEM DE VISÃO


DISTINÇÕES

A separação ontológica entre o que é um pacóvio, o que é um estúpido, ou um simples atrasado mental, é fundamental e interessante. Os primeiros, os pacóvios, têm vistas curtas. Não conhecem o mundo, não percebem que há vida para lá da montanha que enxergam da varanda da sala (ou, os tempos são modernos, para lá do prédio da frente) e, por desconhecimento e simples acanhamento mental, fecham-se no que conhecem, repetindo rotinas e hábitos que, mesmo desconhecendo que outras rotinas e hábitos poderiam ter, afirmam como sendo as melhores possíveis. Os segundos, os estúpidos, são pacóvios mas já com a mania que são espertos: eles acham que sabem mais do que aqueles que, não sendo pacóvios, sabem mesmo mais do que eles. Mas como o estúpido acha que domina o pequeno mundo que pacoviamente conhece, e não vendo mais mundo para lá desse, imagina-se então a dominar o mundo inteiro. Os estúpidos, naturalmente, acham-se sempre os maiores. Já os terceiros, os atrasados mentais, são aqueles que são pacóvios, estúpidos e, pior, são aqueles também que, ofendendo-se com a vontade que aqueles que, não sendo estúpidos nem pacóvios, têm de ir mais além e de conhecer e conquistar o mundo que está para lá da ponta do nariz, acabam a minar deliberadamente os esforços dos outros porque os outros não podem ser mais do que eles. Os atrasados mentais, na preguiça, e cobardia, de não se quererem melhorar, impedem o melhoramento dos outros. São os que puxam para baixo. São os que maldizem, à boca pequena e de mão à frente da dita, os sucessos  dos outros, que não suportam, mesmo que inconscientemente, porque esses sucessos apenas os fazem sentir pior sobre a sua própria pacóvia e estúpida pequenez. São os que invejam e conspiram contra os que têm aquilo que eles sonham  ter - e nada mais fazem por isso além de sonhar. São mesquinhos. São pequeninos, muito pequeninos, e condenam também, através da sua constante sabotagem, os alvos da sua ira a uma igual pequenez. É uma maldição, a atrasadice mental. E é, infelizmente, uma maldição que abunda em Portugal.

sexta-feira, 14 de março de 2014

O CREPÚSCULO DO SOCIALISMO

Uma forma muito simples de aferir-se o nível de desvio ideológico na comunicação social portuguesa prende-se com a forma como a comunicação social trata a questão da Venezuela e, pior ainda, a forma como os outrora maiores defensores do regime de Chavez não são confrontados, nem com o que se passa na Venezuela, nem com o seu apoio passado ao regime chavista. Entretanto, na Venezuela, já morreram vinte e oito pessoas , isto num país que agoniza com uma inflação superior a cinquenta por cento e onde, faltando produtos essenciais para higiene e alimentação, apenas pode esperar-se uma escalada rápida de violência para acrescentar mais mortos às estatísticas que já davam a Venezuela como um dos países mais perigosos do mundo. No entanto, ainda há seis anos atrás, Mário Soares (ver vídeo aqui) entrevistava Hugo Chavez tecendo-lhe os maiores elogios, nomeadamente afirmando o humanismo e a luta pelos pobres e oprimidos que aquele configurava. Para a esquerda aqui do portugalório, Chavez sempre foi um exemplo: graças a ele se afirmava que havia uma via para o socialismo democrático que não tinha descambado em violência, opressão e miséria. Pois bem. E agora que a Venezuela se afunda na opressão, na violência e na miséria onde é que estão os socialistas? E onde estão os jornalistas a pedir contas? Entretanto, directo de Marte, o PCP, a propósito da crise na Venezuela afirma que "já vimos este filme em algum lado. Sim, é verdade, em 2002. O mesmo exacto guião de tentativa de golpe de Estado planificada entre a direita mais reaccionárias, os grupos fascistas e as representações diplomáticas do EUA, sim, com os gordos financiamentos dos EUA. (...) Desestabilização, assassinatos indiscriminados – não é por acaso que elementos da oposição e a favor do governo foram assassinados pelas mesmas armas – grupos para-militares, terroristas, destruição e incêndio de infraestruturas… Não é necessário ter muita destreza intelectual para compreender que não é ao governo venezuelano que isto interessa". Já para não correlacionar a violência com a fome gerada pela falência total do sistema socialista venezuelano é preciso muito mais destreza intelectual, certamente. Aliás, destreza intelectual ao PCP é coisa que não falta: tanto quando assiste ao congresso do Partido Comunista da Federação Russa, tanto como quando se associa em Pyongyang às celebrações daquela "democracia popular" que por lá já matou milhões. É, precisamente, de tanta destreza intelectual que se fez a história - que o PCP não renega - de morte e miséria do comunismo e socialismo populares no Século XX. A mesma história repete-se agora na Venezuela tal como, aliás, em todos os países onde - com mais ou menos músculo - se tentou implementar a quimera da igualdade socialista, sempre se repetiu. Dessa igualdade prometida sobra agora, com o crepúsculo de mais um sistema socialista, a miséria do povo venezuelano bem como a riqueza obscena da oligarquia socialista que o governa. Nada de novo, muito pelo contrário. Já aqui em Portugal, pelos vinte e oito mortos não há gritos de indignação, não há manifestações de pesar nem há remorsos pelos apoios passados. Não. Em Portugal, na terra onde nunca alguém é responsabilizado pelo que diz ou faz, apenas se escuta o comprometedor silêncio daqueles portugueses irresponsáveis que, mesmo contra todas as evidências, continuam a vender sonhos (que se transformam sempre em pesadelos) enquanto falam de boca e carteira cheia por esses televisões fora sem que ninguém lhes faça frente. Mário Soares é apenas um deles.

quinta-feira, 6 de março de 2014

É O QUE HÁ

Tenho-me, grosso modo, abstido de fazer grandes comentários sobre a realidade política nacional. As razões são simples: por um lado, continuo a sentir uma enorme frustração para com o nosso Governo que, apesar dos bons resultados que vai apresentando, parece-me que não se atina a fazer as reformas de fundo que de facto nos abrissem as portas de uma futura prosperidade; por outro lado, as alternativas políticas - e partidárias - à actual maioria que nos governa são tão más, tão desvairadas e, pior ainda, capazes de gerar resultados políticos e sociais tão maus, que o que me resta é aceitar que assim é a vida, este é o Governo que temos e não se vislumbram possibilidades de termos no curto prazo um melhor do que este. Foi neste estado de espírito que assisti ao último congresso do PSD. Entrei, portanto, desconfiado. E, para mal dos meus pecados, consegui sair ainda mais desiludido. Primeiro, com a intervenção do Presidente do partido. Alguém ainda me há-de explicar por que razão passou Passos Coelho um boa parte do seu discurso de abertura a discorrer sobre o pivotal papel que o PSD desempenhou nas fundamentais revisões constitucionais para, quando já empolgava aqueles que, como eu, vêem como evidente que o caminho da prosperidade assenta numa revisão constitucional, se atabalhoar num lamento do género "o PS que não se preocupe que eu não venho pedir uma revisão constitucional". Ora, primeiro se não pediu, deveria ter pedido: sem ela não se vai a lado algum, e até era uma bandeira eleitoral do PSD de 2011. Depois, se não era para pedir a dita então para quê aquele discurso todo? Sobra o mistério. A segunda desilusão nem preciso abundar muito nela: só mesmo alguém profundamente obstinado na sua própria teimosia poderia pensar que candidatar o Sr. Relvas ao Conselho Nacional seria uma boa ideia. Palavras para quê? A safar um pouco, ainda deu para ver Marcelo Rebelo de Sousa, o entertainer, bem como Santana Lopes, o humanista benemérito, a mostrarem que os ex-líderes podem ser um bocadinho mais do que aquele fastidioso show de egotismo amargurado de Luís Filipe Menezes para quem, de facto, já não resta muita paciência para aturar. No final, ficou um congresso com momentos engraçados e a sensação de que o PSD verdadeiramente reformista e capaz de rasgar com o status quo ainda não é desta que vai aparecer. Azar da vida, é o que há, e o que há ainda consegue ser bem melhor do que as inconcebíveis tonterias do Tozé Seguro, ou o revolucionário ressentimento da sempre ressabiada extrema-esquerda indígena.