terça-feira, 29 de abril de 2014

CRÓNICAS DO ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

Uma das características fundamentais do progressismo é uma crença inabalável na infinita bondade humana aliada a uma profunda crítica ao sistema político-social que impede essa mesma bondade de naturalmente triunfar. O mito do bom selvagem, portanto: mude-se o sistema que as pessoas, libertas, serão melhores.

E pergunta o verdadeiro conservador: como queres tu, progressista, fazer um sistema novo se não tens mais com que trabalhar além das mesmas velhas pessoas?

E é por esta razão que os progressistas acabam sempre a chicotear aqueles ignorantes que não querem ser livres. Hoje em dia, ficam-se pelos insultos mas, tenham calma, a crise ainda não acabou e ainda há muito imposto para aumentar.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

DESVIO E NORMA

Dizia o Frank Zappa, e bem, que sem desvio da norma o progresso não é possível. Utilizada para explicar a rebeldia, mesmo aquela sem causa, esta frase bem tem servido como o hino dos progressistas supostamente contra os conservadores. Eu não vejo a coisa assim. O verdadeiro conservadorismo não reside em impedir o desvio contra a norma mas, muito mais importante, em compreender que sem norma não há nada do qual alguém se possa desviar. Ou seja, sem norma não há igualmente progresso, apenas sobra o caos.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

DO ATAVISMO

A capacidade indígena de nos destruirmos uns aos outros em nome daquilo que se acredita ser uma qualquer razão que nos assiste é a principal causa para que este país não deixe de ser um país de terceira categoria. Agora são os Srs. polícias a alertar os turistas nos aeroportos para o facto de estes estarem inseguros devido aos cortes nos seus salários. Força nisso, vamos lá afugentar os pobres incautos que vêm cá largar umas coroas! Avante camaradas! Como diria alguém, no futuro deitaremos fogo a tudo, não é?

terça-feira, 22 de abril de 2014

DA SÉRIE: HÁ GAJOS QUE SABEM O QUE DIZEM

Pedro Picoito, no Nada os dispõe à acção:

"[Deixa-me] perplexo que a Associação 25 de Abril, autoproclamada herdeira do MFA, queira comemorar no inevitável Largo do Carmo os quarenta anos da revolução em festejos paralelos aos oficiais, a decorrer no Parlamento. Já sei que o motivo é que não os deixam discursar em S. Bento e que os militares de Abril, depositários da pureza da revolução, entendem não só ter mais legitimidade do que os partidos para falar em S. Bento como não terem os partidos do Governo legitimidade nenhuma para falar seja onde for. Mas isto, se me permitem, é um entendimento muito pouco democrático da democracia. Pode criticar-se o Governo por muitas razões, e eu próprio já o fiz, mas não se pode criticar os partidos do Governo por não terem legitimidade democrática. Ganharam as eleições, são apoiados por uma maioria parlamentar, estão a governar respeitando a Constituição e, se não estão, os checks and balances do regime funcionam. Ora, os supostos intérpretes do "espírito de Abril" dizem, no fundo, que a legitimidade democrática de quem fez a revolução pelas armas é maior do que a legitimidade democrática de quem ocupa o poder pelo voto. O que é uma contradição nos termos porque o 25 de Abril se fez exactamente para eleger quem está no poder". Aqui.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

ELOGIO À GRANDEZA

                                                                             Daqui

A enorme grandeza do Sport Lisboa e Benfica, apesar de não cessar de me surpreender, representa duas coisas: primeiro, um facto incontestável; segundo, uma inevitabilidade histórica. Quanto a ser um facto incontestável é algo que enche qualquer Benfiquista de orgulho e, naturalmente, os nossos adversários de uma miscelânea de sentimentos, nenhum deles particularmente agradável.

É factual e incontestável porque é empiricamente demonstrável: a cada jogo do Benfica, as bancadas enchem-se. Em Portugal, o Benfica lidera as assistências em casa, enche os estádios adversários e, na vitória, move e comove milhões espalhados, não apenas pelo país mas, também, por esse mundo fora como nenhum outro clube o consegue fazer. Na diáspora, a festa é tão intensa como em Lisboa, no Porto, em Coimbra ou pelos Algarves. África, Ásia, Europa e América, por todo o lado, num domínio onde o sol nunca se põe, portugueses e estrangeiros, todos Benfiquistas e, por isso, também portugueses, unem-se num momento de comunhão mundial de um júbilo intenso, expansivo e, naturalmente, único.

Em Paris, ou em Bruxelas, fecham-se estradas e rotundas. Em Londres ouve-se fogo de artifício. Em África saem à rua milhões. E em Portugal atingem-se os píncaros da loucura, por vezes a insanidade pura, de quem sai para a rua a gritar e a saltar, mais ou menos vestido, com mais ou menos adereços (Jorge Jesus parece também nesse campeonato liderar em número de peças de vestuário Benfica), porque não consegue conter a alegria imensa de ver o Benfica campeão.

No entanto, entre o lunático que sobe às estátuas ou aos postes de electricidade para "ver melhor os campeões" e o adepto sereno que se contenta com umas postadas mais afoitas no Facebook, entre esses e todos os outros, uma coisa há em comum: um sentimento de amor a algo que os transcende. E, não entrando no campo da metafísica, não poderia deixar de ser transcendente a cada um pela simples razão de que é comum a milhões.

A grandeza do Benfica está, pois, nessa transcendência. No escape ao racional e no deixar-se cavalgar o fulgor das emoções, algo que não se faz, ou não se deve fazer, no trabalho, na família, no supermercado ou na igreja. É a transcendência face à vida comum. Face às obrigações. Face à realidade. E é o abraçar do sonho, da glória, da perfeição, lá está, o abraçar imenso da felicidade.

E é também a transcendência da condição humana: desde o existencialista deprimido com o facto de não conseguir lidar com a evidência inultrapassável de que um dia irá morrer até ao inválido que se encontra confinado a uma cadeira de rodas, no momento da comunhão benfiquista, ambos se transcendem, o primeiro porque sabe que morrerá mas o seu Benfica é eterno, e o Benfica é ele também, e por isso a eternidade o abraça a ele igualmente; e o segundo, porque naquele mesmo partilhado momento se sente inundado com a força invencível dos campeões, uma força que afugenta, pelo menos do seu espírito, as suas debilidades, elevando-o ao sentimento que apenas aqueles que se sentem campeões podem sentir - independentemente de cadeiras de rodas ou não. É o sentimento da invencibilidade. Da superioridade a todas as adversidades.

Finalmente, é ainda a transcendência da condição social: desde o snob pretencioso (que também os há) até ao humilde operário, ou desde o bem sucedido empresário até ao remediado funcionário público, todos eles, naquele momento são absolutamente iguais porque, naquele instante particular, naquele momento concreto, todos se definem pela mesma bitola, pelo mesmo sentimento, um sentimento que experimentam por igual: eles são campeões, eles são Benfica, eles são iguais. É a igualdade que utópicos como Rousseau ou More tanto sonharam e que, mesmo que por uns instantes fugazes, apenas se alcança em pleno no campo da transcendência benfiquista.

E aqui chegamos ao segundo ponto, o da inevitabilidade histórica. Era inevitável a grandeza do Benfica precisamente porque apenas o Benfica é capaz de fazer transcender. E apenas o Benfica tem essa capacidade devido às circunstâncias particulares que estiveram na sua génese. Nascido na humildade do povo português, apenas um clube que fosse genuinamente popular poderia almejar a grandeza que o Benfica tem. Ao contrário do FC Porto que se afirma como um clube de bairro contra o centralismo de Lisboa, ou seja, define-se pela negativa, ou do Sporting que, com o seu nome adequadamente estrangeiro, se afirma, e define, como o clube da elite, da nobreza ou dos ricos, o Benfica rejeita a negação, ou a limitação auto-imposta de uma pretensa elite, e afirma-se pela positiva, por si mesmo, pela sua identidade que sendo a do povo, em concreto a do povo português, não poderia deixar de ser Portugal. Para o Benfica, todos podem ser - e no fundo, no seu íntimo, todos são - benfiquistas porque é o único clube que se abre, sem pejos, limites ou vergonhas, a Portugal.

Como poderiam tais clubes como o Porto e o Sporting gerar a transcendência que aqui se referiu quando eles próprios rejeitam franjas importantes de portugueses, uns porque vivem mais a sul, outros porque não seriam da sua ilusória condição? Já o Benfica é verdadeiramente de todos e, por isso, todos podem ser também verdadeiramente Benfica. E, por esta inevitabilidade que lhe advém da génese, o Benfica não apenas é capaz de coisas únicas, como de uma adesão popular ímpar e, acima de tudo, de gerar uma relação de amor com os seus apoiantes que há-de permanecer um mistério para aqueles que, por infortúnio da vida, não tiveram a Graça de ser Benfiquistas.

O Benfica tornou-se campeão ontem, no entanto, na realidade, como todos os benfiquistas bem o sabem, o Benfica nunca é outra coisa além do que campeão. Daí, aliás, o fabuloso hino O Campeão Voltou que resume esse sentimento na perfeição. O Benfica é sempre campeão. Ontem apenas viu os seus adversários reconhecerem-lhe o título que, com naturalidade, os Benfiquistas sabem sempre ser seu por direito.

domingo, 20 de abril de 2014

SANTOS & SALVADORES

O Dr. Assis afirma numa entrevista ao Público que as eleições europeias são uma boa "possibilidade de manifestarem não apenas a sua desconfiança, a sua oposição, a esta maioria, mas também de contribuírem para a afirmação de uma alternativa política em Portugal". Assim, além de vender a ideia de que com uma maioria de esquerda no Parlamento Europeu "vamos ter grandes mudanças políticas na Europa", não deixa de tentar cativar o votinho contra o Governo. Ambas as coisas são desonestas e só não apelido o Dr. Assis de aldrabão porque a última vez que andou por Bruxelas passou lá tão pouco tempo que deve perceber do assunto tanto como a Lili Caneças.

Em primeiro lugar, é profundamente irresponsável, e contribui claramente para o déficit democrático na UE, fazer de eleições - que decidem o rumo político da UE por cinco anos - um, plebiscito aos Governos nacionais. É democraticamente imaturo e um bom exemplo de confundir alhos com bogalhos, pior, de promover a confusão no eleitorado. Aliás, quando dos referendos que deitaram abaixo o projecto de constituição europeia era precisamente essa a ideia que se criticava.

Em segundo lugar, já que Hollande, para os socialistas, o anterior salvador da Europa, anda a fazer os inevitáveis cortes na despesa pública e a apregoar o contrário do que os senhores do PS apregoam, viram-se agora os socialistas para outros salvadores. Quem? A futura Comissão Europeia saída da tal "maioria de esquerda", ou seja, para aqueles que nos emprestaram o dinheiro que a dita austeridade anda a tentar pagar de volta. Está bom de ver que se for Martin Schulz o sucessor de Barroso, a Comissão vai deixar de querer orçamentos nacionais em ordem e equilibrados. É que é isso mesmo, então, ainda por cima, sendo Schulz alemão e de um partido que está coligado no Governo nacional - adivinhem com quem? -  com a Chanceler Merckel, pois claro.

Mas a aldrabice do Dr. Assis não se fica por aqui. Às acusações de despesismo dos anteriores governos PS apelida-as de demogógicas como se, imagine-se lá, não tivessem sido precisamente esses governos a levar Portugal à bancarrota por haver um excesso de despesa pública face à receita. Demagógico é quem assume os seus erros ou quem transforma, pela retórica, erros em supostas virtudes? Está bem abelha, nesta já só cai quem quer.

Para finalizar, o Dr. Assis assume ainda, com satisfação, que o Sr. sócrates vai participar na sua campanha e anuncia a sua vontade para que, após as próximas eleições legislativas, haja um novo ciclo político que passe obrigatoriamente pelo PS. Quanto a isto nada de novo, é o PS do costume e de sempre. Agora, espremido, esprimidinho, o que sobra então do discurso do Dr. Assis? O PS merece ganhar porque nunca fez nada de mal nem tem qualquer tipo de responsabilidade no facto de ter governado um país até à bancarrota, a austeridade (termo que significa a incapacidade para não se gastar mais do que aquilo que se tem) é uma loucura da direita "radical" - faltou acrescentar do Hollande também - e o PS, esse bando de santos milagreiros, é que deve governar Portugal porque conhece a receita exacta para a "competitividade" (viu-se). Entretanto, na campanha lá teremos sócrates a perorar contra o governo e a afirmar descaradamente o contrário de tudo aquilo que dizia em 2011. A sério, esta gente não tem vergonha na cara?

*Também publicado aqui.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

O QUE DEVERIA DE SER DE SENSO COMUM (MAS NÃO É)

                                                                         (Daqui)

O OUTRO LADO DA IGUALDADE

O mito da igualdade é o grande motor do socialismo e, consequentemente, o grande valor que norteia a sociedade contemporânea. Porque a igualdade é o valor fundamental, a diferença é desprezada ou, pelo menos, regulada, minorada, igualizada. E isto ocorre no campo económico, cultural e social. Nesse aspecto, a igualdade, como valor basilar de um sistema de organização política e social é avassalador e totalizante: se o que é diferente é mau (porque contrário ao valor máximo da igualdade) então a dinâmica tende a restringir a diferença onde quer que apareça.

Em primeiro lugar, como num sistema de redistribuição de riqueza não poderia deixar de ser, a primeira desigualdade que é inimigada é a desigualdade económica. Pode, por exemplo, um país - como é o caso português - ver as suas classes mais baixas terem o seu nível de vida aumentado de forma significativa que esse incrível feito é imediatamente desvalorizado porque "os ricos estão cada vez mais ricos". Porque o valor fundamental é a igualdade, onde há pobres, não podem haver ricos. Mesmo que, apesar dos ricos estarem cada vez mais ricos, os pobres estarem, também eles, cada vez menos pobres. A quantificação sobre a diminuição, efectiva e factual, da pobreza torna-se irrelevante face ao aumento da riqueza generalizada. Ou seja, o que interessa não é que existam menos pobres ou que, pelo menos, os pobres sejam menos pobres - ambos os casos são verdadeiros em Portugal. O que interessa é que independentemente do número de pobres, ou do seu nível de pobreza, todos tenham situações económicas mais iguais. Não é difícil de compreender que, tendo as prioridades trocadas, os resultados, mesmo que mais igualitários, sejam menos satisfatórios no geral.

Mas há mais. Porque a igualdade é um valor totalizante, toda a sociedade se orienta para ela, desde a indistinção entre o casal gay e o casal heterossexual, desde as quotas que garantem, a prazo, a igualdade de género nos cargos públicos (e mais não fazem do que eleger, ou impedir de ser eleitos, indivíduos única e exclusivamente em função do seu género), até à decisão do que consiste na norma de saúde e que escolhe para todos quais os produtos que podem, devem, ou não podem, e não devem, ser consumidos. Neste último exemplo, cá temos o sempre prestável Estado agora a decidir o que cada um deve comer, sendo que o mau alimento, pouco ou nada saudável, leva com taxa enquanto que o bom fica sem taxa. E daqui virá, a ser levada a legislação a sério, o policiamento do sal nas feiras, ou nas roulotes ao pé do campo da bola ou, quiçá, mesmo a proibição desses espaços de compra e venda precisamente porque não podem ser devidamente controlados. E tudo isto, desde a comissão que estuda o assunto até ao polícia que passa a multa, passando pelo laboratório que fiscaliza o nível de sal ou açúcar, tudo, tudo isso, pago com o dinheiro dos nossos impostos. Sim, porque eu não posso decidir que de quinze em quinze dias me apetece comer uma entremeada gordurosa e beber uma imperial antes de ir ver o Benfica sem pagar a pressurosa taxa e verificar o certificado da ASAE. E qual a justificação moral para tal coisa? Que há uma vida saudável, uma norma de comportamento, neste caso alimentar, que o Estado deliberou ser a melhor e que os indivíduos devem seguir sob pena de terem que pagar mais e mais impostos.

Mas nós ainda vamos atrasados. Neste campeonato, já os EUA vão muito à frente. A norma de vida saudável, a tal norma comportamental que, sendo a norma, por isso maioritária, não significa mais nada além do triunfo do igualitarismo através do esbatimento da diferença, nos EUA, mais de seis milhões de crianças foram diagnosticados como hiperactivos e são medicados para que se comportem "normalmente". E o contrário também se discute: se uma criança é mais apática, intervém menos do que o normal ou é mais introspectiva então pode muito bem ser um dos dois milhões de miúdos que eventualmente "padecem" de "sluggish cognitive tempo". Naturalmente, pressurosa, a industria farmaceutica não tardará a garantir que tamanha doença será irradicada com tal e tal medicamento.

E o que justifica a ânsia pela normalidade senão o imenso culto da igualdade? Isto, porque não ser normal não é mais nada além do que ser diferente. É a vitória do igualitarismo a toda a linha: a moldar carácteres e comportamentos por uma bitola arbitrariamente decidida por alguém. E quem é esse alguém? Pois. É que o Estado não é uma entidade abstracta, neutra, infalível e livre de interesses próprios ou, sequer, garantidamente ausente de desonestas influências. Pelo contrário: o Estado é um conjunto de cidadãos dirigidos por um conjunto de políticos que precisam de dinheiro para ser eleitos e terem o seu trabalho garantido. Quanto valerá à indústria farmacêutica esta nova "doença"?

É esse o outro lado da igualdade: o da supressão, ou limitação, da liberdade de ser diferente. E toda essa supressão e limitação representam um excelente negócio para os amigos, ou aliados, daqueles que decidem o que deve ser, ou não, limitado ou suprimido. Qual a vantagem competitiva do fabricante de pão sem sal e, consequentemente, sem taxa, face ao fabricante artesanal de pão? Qual o valor de mercado de todos esses novos medicamentos, ou bens, que em nome da igualidade, agora transcrita numa forma de estandardização comportamental, se vendem aos magotes consoante o medo, a moda ou a mania do momento?

Nunca em nenhum momento da História esteve a liberdade humana no seu expoente máximo e, ao mesmo tempo, a viver o momento em que se encontra em maior perigo. Isto porque, hoje em dia, o grande inimigo da nossa liberdade é precisamente a interiorização do ideal da igualdade. É a ânsia interior de sermos todos iguais: iguais aos heróis da novela, aos modelos da revista, ou aos idiotas das feiras de celebridades. Tudo se copia, tudo se compra, mesmo operações plásticas, para que as diferenças se esbatam. Mesmo as diferenças de género se esbatem com elas a agir como eles e eles como elas, a igualdade ou, pelo menos, o mito da igualdade, triunfa na quantidade infinita de possibilidades aparentes que, na essência, representam sempre o mesmo: como os telejornais que sendo feitos por jornalistas diferentes, transmitidos por diferentes canais detidos por empresas diferentes conseguem, não apenas transmitir as mesmas notícias, mas também os mesmos alinhamentos e, com honrosas excepções, as mesmas opiniões.

Um mundo em liberdade vive da riqueza das diferentes interpretações daqueles que o observam. Esse mundo - e essa liberdade - desaparece a cada dia que passa transformando-se num mundo plano, igual para todos, levando, e chamando, cada um a interpretá-lo da mesma - única - forma. E é assim que a verdadeira liberdade está em risco porque, pela primeira vez na História, a abdicação da individualidade face ao colectivo parte do indivíduo para fora, dos seus anseios e das suas vontades, ao invés da colectivização ser imposta ao indivíduo, ou seja de fora para dentro.E, passo a passo, assim se vai centralizando, por vontade dos indivíduos, o poder político no Estado e o poder social na imensa máquina mediática cujos detentores não são muito diferentes dos financiadores de toda e qualquer campanha eleitoral. O Estatismo triunfa e a população aplaude. Mesmo quando reclama dos maus políticos que vê como corruptos ou incompetentes, mesmo aí, ao invés de lhes retirar poder cortando-lhes no orçamento, mesmo aí a população reclama mais departamentos, mais fiscalização e mais Estado, ou seja, mais corruptos e mais incompetentes e, desta feita, com mais recursos. E não há solução para este ciclo vicioso. Não há solução porque o valor que norteia a comunidade política, os costumes sociais ou as vontades individuais é o da igualdade em vez de ser o da liberdade.

Vem, pois, em pontas dos pés e com um sorriso amigo o maior inimigo da liberdade. Vem com promessas de felicidade para todos e, melhor ainda, para todos por igual. Mas aquilo que se promete com uma mão é infinitamente menos valioso do que aquilo que nos tira com a outra, a que está escondida e fora do alcance da nossa vista. Por enquanto, a originalidade e a verdadeira liberdade são ainda possíveis de viver-se, mesmo que não potenciadas, aliás, mesmo que vivendo-se numa civilização que as procura restringir. Infelizmente, no entanto, vivendo-se numa democracia - mesmo que num simulacro - tem-se a grande desvantagem de poder degenerar numa ditadura da maioria. Uma ditadura que, tal como muitas das suas antecessoras, a maioria deseja e aplaude. Porque cada regulamento, cada taxa, cada directiva é para o nosso bem.

E assim será até que o Estado, então regulador máximo da vida de cada um, revele finalmente como evidente a conclusão máxima de que não pode haver igualdade sem restrição de liberdade. Talvez aí, aqueles que agora aplaudem incautamente o centralismo estatista que a cada dia que passa, para o nosso bem, se afirma cada vez mais, talvez aí os igualitários aprendam que o preço que se paga ao deixar a decisão sobre o que é bom para cada um de nós nas mãos de outras pessoas é, mais cedo do que tarde, perceber que essas pessoas, que são tão falíveis e pervertíveis como qualquer um, são capazes, imagine-se lá o impensável, de decidir o que é bom para nós em função do que lhes dá jeito a eles. E, em boa verdade, aquilo que interessa a um grupo mais ou menos numeroso de obscuros burocratas, ou políticos caciqueiros, dificilmente será o que me interessa a mim.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

OS IDIOTAS ÚTEIS

Um relato em primeiro mão acerca da democracia do Sr. Bernardino:

"I had to be careful of my thoughts because I believed Kim Jong-il could read my mind. Every couple of days someone would disappear. A classmate's mother was punished in a public execution that I was made to attend. I had no choice – there were spies in the neighbourhood. (...) I realised that everything I thought was a lie. I had not been a real person – I was created for the regime to work for them. If they ordered us to die, I would've died for them. I wasn't a human – I was something else. I certainly wasn't treated like one. I knew nothing of freedom".

 É por estas e por outras que eu não olho para o PCP, e os demais extremo-esquerdistas, com a complacência paternalista assente na noção de que as oposições, quando em democracia, são todas saudáveis. Não são. Pelo contrário, o peso da estrema-esquerda em Portugal apenas atesta a triste realidade de um país em que um quinto dos votantes insiste em votar em partidos que legitimam, desculpam e defendem regimes como o de Pyongyang. E isso é triste, perigoso e algo que a mim, particularmente, me causa vergonha. Pior: com alternativas tão inaceitáveis acaba por sobrar suficiente espaço de manobra para no chamado arco da governação ser-se tão incompetente a governar e, mesmo assim, conseguir escapar-se impunemente por não haver outra opção aceitável. Aquilo que os idiotas úteis que votam nos lunáticos da extrema-esquerda não compreendem é que da sua imaginada revoluçãozinha de IPhone na mão apenas sobra a inimputabilidade dos verdadeiros donos do regime. É, mais uma vez, o síndrome de Lampedusa: ao quererem que tudo mude, apenas garantem que tudo fique na mesma.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

A VERDADEIRA REVOLUÇÃO

Isto mais isto ajuda a explicar isto.

SENTENCE


IDIOTOLOGIA

A crença no comunismo, hoje em dia, é de uma imbecilidade sem nome, tal como a crença no socialismo estatista oscila entre a ingenuidade dos bem intencionados e a pura estupidez dos revolucionários, porque todas estas ideologias falham na capacidade de apreender o único conhecimento que está verdadeiramente disponível para o Homem: a compreensão, ou aceitação, da natureza humana.