segunda-feira, 21 de abril de 2014

ELOGIO À GRANDEZA

                                                                             Daqui

A enorme grandeza do Sport Lisboa e Benfica, apesar de não cessar de me surpreender, representa duas coisas: primeiro, um facto incontestável; segundo, uma inevitabilidade histórica. Quanto a ser um facto incontestável é algo que enche qualquer Benfiquista de orgulho e, naturalmente, os nossos adversários de uma miscelânea de sentimentos, nenhum deles particularmente agradável.

É factual e incontestável porque é empiricamente demonstrável: a cada jogo do Benfica, as bancadas enchem-se. Em Portugal, o Benfica lidera as assistências em casa, enche os estádios adversários e, na vitória, move e comove milhões espalhados, não apenas pelo país mas, também, por esse mundo fora como nenhum outro clube o consegue fazer. Na diáspora, a festa é tão intensa como em Lisboa, no Porto, em Coimbra ou pelos Algarves. África, Ásia, Europa e América, por todo o lado, num domínio onde o sol nunca se põe, portugueses e estrangeiros, todos Benfiquistas e, por isso, também portugueses, unem-se num momento de comunhão mundial de um júbilo intenso, expansivo e, naturalmente, único.

Em Paris, ou em Bruxelas, fecham-se estradas e rotundas. Em Londres ouve-se fogo de artifício. Em África saem à rua milhões. E em Portugal atingem-se os píncaros da loucura, por vezes a insanidade pura, de quem sai para a rua a gritar e a saltar, mais ou menos vestido, com mais ou menos adereços (Jorge Jesus parece também nesse campeonato liderar em número de peças de vestuário Benfica), porque não consegue conter a alegria imensa de ver o Benfica campeão.

No entanto, entre o lunático que sobe às estátuas ou aos postes de electricidade para "ver melhor os campeões" e o adepto sereno que se contenta com umas postadas mais afoitas no Facebook, entre esses e todos os outros, uma coisa há em comum: um sentimento de amor a algo que os transcende. E, não entrando no campo da metafísica, não poderia deixar de ser transcendente a cada um pela simples razão de que é comum a milhões.

A grandeza do Benfica está, pois, nessa transcendência. No escape ao racional e no deixar-se cavalgar o fulgor das emoções, algo que não se faz, ou não se deve fazer, no trabalho, na família, no supermercado ou na igreja. É a transcendência face à vida comum. Face às obrigações. Face à realidade. E é o abraçar do sonho, da glória, da perfeição, lá está, o abraçar imenso da felicidade.

E é também a transcendência da condição humana: desde o existencialista deprimido com o facto de não conseguir lidar com a evidência inultrapassável de que um dia irá morrer até ao inválido que se encontra confinado a uma cadeira de rodas, no momento da comunhão benfiquista, ambos se transcendem, o primeiro porque sabe que morrerá mas o seu Benfica é eterno, e o Benfica é ele também, e por isso a eternidade o abraça a ele igualmente; e o segundo, porque naquele mesmo partilhado momento se sente inundado com a força invencível dos campeões, uma força que afugenta, pelo menos do seu espírito, as suas debilidades, elevando-o ao sentimento que apenas aqueles que se sentem campeões podem sentir - independentemente de cadeiras de rodas ou não. É o sentimento da invencibilidade. Da superioridade a todas as adversidades.

Finalmente, é ainda a transcendência da condição social: desde o snob pretencioso (que também os há) até ao humilde operário, ou desde o bem sucedido empresário até ao remediado funcionário público, todos eles, naquele momento são absolutamente iguais porque, naquele instante particular, naquele momento concreto, todos se definem pela mesma bitola, pelo mesmo sentimento, um sentimento que experimentam por igual: eles são campeões, eles são Benfica, eles são iguais. É a igualdade que utópicos como Rousseau ou More tanto sonharam e que, mesmo que por uns instantes fugazes, apenas se alcança em pleno no campo da transcendência benfiquista.

E aqui chegamos ao segundo ponto, o da inevitabilidade histórica. Era inevitável a grandeza do Benfica precisamente porque apenas o Benfica é capaz de fazer transcender. E apenas o Benfica tem essa capacidade devido às circunstâncias particulares que estiveram na sua génese. Nascido na humildade do povo português, apenas um clube que fosse genuinamente popular poderia almejar a grandeza que o Benfica tem. Ao contrário do FC Porto que se afirma como um clube de bairro contra o centralismo de Lisboa, ou seja, define-se pela negativa, ou do Sporting que, com o seu nome adequadamente estrangeiro, se afirma, e define, como o clube da elite, da nobreza ou dos ricos, o Benfica rejeita a negação, ou a limitação auto-imposta de uma pretensa elite, e afirma-se pela positiva, por si mesmo, pela sua identidade que sendo a do povo, em concreto a do povo português, não poderia deixar de ser Portugal. Para o Benfica, todos podem ser - e no fundo, no seu íntimo, todos são - benfiquistas porque é o único clube que se abre, sem pejos, limites ou vergonhas, a Portugal.

Como poderiam tais clubes como o Porto e o Sporting gerar a transcendência que aqui se referiu quando eles próprios rejeitam franjas importantes de portugueses, uns porque vivem mais a sul, outros porque não seriam da sua ilusória condição? Já o Benfica é verdadeiramente de todos e, por isso, todos podem ser também verdadeiramente Benfica. E, por esta inevitabilidade que lhe advém da génese, o Benfica não apenas é capaz de coisas únicas, como de uma adesão popular ímpar e, acima de tudo, de gerar uma relação de amor com os seus apoiantes que há-de permanecer um mistério para aqueles que, por infortúnio da vida, não tiveram a Graça de ser Benfiquistas.

O Benfica tornou-se campeão ontem, no entanto, na realidade, como todos os benfiquistas bem o sabem, o Benfica nunca é outra coisa além do que campeão. Daí, aliás, o fabuloso hino O Campeão Voltou que resume esse sentimento na perfeição. O Benfica é sempre campeão. Ontem apenas viu os seus adversários reconhecerem-lhe o título que, com naturalidade, os Benfiquistas sabem sempre ser seu por direito.

3 comentários:

Eagle disse...

Parabéns. Este é um texto muito bem conseguido. Fico à espera de outras reflexões quando conseguirmos os restantes títulos ainda em disputa.

Nuno Frazão disse...

Muito bem escrito, como sempre e cheio de inspiração, como o momento pedia e pede.

Revejo-me completamente em todas as palavras, mas gostaria de sublinhar duas ideias:

1. A "transcendência da condição humana" do Benfiquismo. Como dizes e bem, a pessoa pode morrer, mas o seu Benfica e o seu Benfiquismo, não morrem! Por isso ainda ontem comentei com outro grande Benfiquista que não somos 14 milhões... somos muito mais! Podemos ser os 14 milhões que actualmente vivem na Terra, mas fizeram e farão sempre parte do Benfica o meu Pai, o teu Pai, os meus avôs, o Eusébio, o Coluna, o Costa Pereira, o Torres, o Bento, o Fehér e tantos, tantos outros.

2. O fantástico cântico "o Campeão voltou". Não querendo ser desmancha-prazeres, esse cântico nasceu no Brasil quando, em 2009 o Flamengo foi campeão, depois de estar sem ganhar desde 1992. Sei-o, pois estive no Brasil nessa altura e aí o aprendi. No entanto, quando nessa época fomos campeões (na primeira época de JJ), foi com enorme satisfação que escutei as nossas hostes a cantarem-no nas comemorações. E não tem mal que tenha sido um cântico "emprestado" por um outro clube (aliás, quase um "clube-irmão", pois o Mengão é o clube mais popular e com mais adeptos no Brasil, assim como nós em Portugal), porque é perfeito para o Benfica! É perfeito para nós! Como dizes e muito bem, o Benfica é o Campeão. Às vezes pode não ganhar o campeonato, mas o Benfica é sempre "o Campeão". E por isso, quando ganha, o Campeão volta!

Mais do que internet, satélites, smartphones, blogs (sorry), skypes, etc... o Benfica é capaz de ligar verdadeiramente as pessoas, sejam os milhões nas ruas de Portugal, ou os outros tantos que referiste em todo o mundo.

Ainda ontem nos ligou mais uma vez aos dois, eu na minha sala em Cascais, tu no Café Portugal em Bruxelas.

E naquele apito final, naquela explosão de alegria, quantas imagens, quantas memórias...

As idas de comboio para Lisboa (ainda a ater de ir a pé até ao Rossio, para apanhar o metro) para os jogos na Luz; eu, tu, o Rui, o Ricardo, o Brandão, o Vítor, o Pedro Luís...

Aparecer na Eurosport, numa filmagem de bancada do Benfica-Boavista, em 1993/1994.

A vitória nesse campeonato assistida na tua casa, em Cascais.

Os 6-3 vistos na casa do Ricardo.

A espera pelo fim de um treino na velhinha catedral, campo nº 3, para sacar uns autógrafos.

As cervejas e o snooker na Sala de Convívio dos sócios antes da Assembleia Geral que decidiu o novo estádio.

A ida ao primeiro treino no novo estádio.

As cervejas nas roulotes (antes e depois dos jogos).

O regresso do Rui Costa!

O jogo contra a pobreza.

As horas e horas no estádio e por toda a Lisboa na vitória do campeonato de 2005.

E muitas vitórias que comemoraremos por certo no futuro.

Quem sabe se já no futuro próximo... a dobradinha, com a Taça de Portugal e/ou a Liga Europa!

Belo ano para ter nascido a Maria Francica!

Nuno Lebreiro disse...

Eagle, muito obrigado, cá estaremos para os festejar com a serena noção, que de uma forma ou de outra, a grandeza do Benfica não será afectada.

Nuno, sem dúvida, pá! É engraçado ver como conseguimos ir fazendo uma linha o longo das nossas vidas, tão cheias de tanta coisa, mas também, sempre, com o Benfica. E quando encontrámos o Eusébio e tu, humuldemente, referindo-te a ele como 'Sua Magestade', e dejoelho no chão!, lhe pediste o autógrafo. Temos uma foto com ele (não sei quem a terá). São grandes momentos e ontem também foi. A magia da transcendência é essa: é superior a tempo e espaço. Tu aí, eu aqui e os outros, os nossos, lá. Mas juntos. Um abraço, pá. Daqueles.