Pensamento, m. - Acto ou efeito de pensar. Qualquer acto de inteligência. Fantasia. Ideia. Espírito. Uso da razão. Reflexões

quinta-feira, abril 17, 2014

O OUTRO LADO DA IGUALDADE

O mito da igualdade é o grande motor do socialismo e, consequentemente, o grande valor que norteia a sociedade contemporânea. Porque a igualdade é o valor fundamental, a diferença é desprezada ou, pelo menos, regulada, minorada, igualizada. E isto ocorre no campo económico, cultural e social. Nesse aspecto, a igualdade, como valor basilar de um sistema de organização política e social é avassalador e totalizante: se o que é diferente é mau (porque contrário ao valor máximo da igualdade) então a dinâmica tende a restringir a diferença onde quer que apareça.

Em primeiro lugar, como num sistema de redistribuição de riqueza não poderia deixar de ser, a primeira desigualdade que é inimigada é a desigualdade económica. Pode, por exemplo, um país - como é o caso português - ver as suas classes mais baixas terem o seu nível de vida aumentado de forma significativa que esse incrível feito é imediatamente desvalorizado porque "os ricos estão cada vez mais ricos". Porque o valor fundamental é a igualdade, onde há pobres, não podem haver ricos. Mesmo que, apesar dos ricos estarem cada vez mais ricos, os pobres estarem, também eles, cada vez menos pobres. A quantificação sobre a diminuição, efectiva e factual, da pobreza torna-se irrelevante face ao aumento da riqueza generalizada. Ou seja, o que interessa não é que existam menos pobres ou que, pelo menos, os pobres sejam menos pobres - ambos os casos são verdadeiros em Portugal. O que interessa é que independentemente do número de pobres, ou do seu nível de pobreza, todos tenham situações económicas mais iguais. Não é difícil de compreender que, tendo as prioridades trocadas, os resultados, mesmo que mais igualitários, sejam menos satisfatórios no geral.

Mas há mais. Porque a igualdade é um valor totalizante, toda a sociedade se orienta para ela, desde a indistinção entre o casal gay e o casal heterossexual, desde as quotas que garantem, a prazo, a igualdade de género nos cargos públicos (e mais não fazem do que eleger, ou impedir de ser eleitos, indivíduos única e exclusivamente em função do seu género), até à decisão do que consiste na norma de saúde e que escolhe para todos quais os produtos que podem, devem, ou não podem, e não devem, ser consumidos. Neste último exemplo, cá temos o sempre prestável Estado agora a decidir o que cada um deve comer, sendo que o mau alimento, pouco ou nada saudável, leva com taxa enquanto que o bom fica sem taxa. E daqui virá, a ser levada a legislação a sério, o policiamento do sal nas feiras, ou nas roulotes ao pé do campo da bola ou, quiçá, mesmo a proibição desses espaços de compra e venda precisamente porque não podem ser devidamente controlados. E tudo isto, desde a comissão que estuda o assunto até ao polícia que passa a multa, passando pelo laboratório que fiscaliza o nível de sal ou açúcar, tudo, tudo isso, pago com o dinheiro dos nossos impostos. Sim, porque eu não posso decidir que de quinze em quinze dias me apetece comer uma entremeada gordurosa e beber uma imperial antes de ir ver o Benfica sem pagar a pressurosa taxa e verificar o certificado da ASAE. E qual a justificação moral para tal coisa? Que há uma vida saudável, uma norma de comportamento, neste caso alimentar, que o Estado deliberou ser a melhor e que os indivíduos devem seguir sob pena de terem que pagar mais e mais impostos.

Mas nós ainda vamos atrasados. Neste campeonato, já os EUA vão muito à frente. A norma de vida saudável, a tal norma comportamental que, sendo a norma, por isso maioritária, não significa mais nada além do triunfo do igualitarismo através do esbatimento da diferença, nos EUA, mais de seis milhões de crianças foram diagnosticados como hiperactivos e são medicados para que se comportem "normalmente". E o contrário também se discute: se uma criança é mais apática, intervém menos do que o normal ou é mais introspectiva então pode muito bem ser um dos dois milhões de miúdos que eventualmente "padecem" de "sluggish cognitive tempo". Naturalmente, pressurosa, a industria farmaceutica não tardará a garantir que tamanha doença será irradicada com tal e tal medicamento.

E o que justifica a ânsia pela normalidade senão o imenso culto da igualdade? Isto, porque não ser normal não é mais nada além do que ser diferente. É a vitória do igualitarismo a toda a linha: a moldar carácteres e comportamentos por uma bitola arbitrariamente decidida por alguém. E quem é esse alguém? Pois. É que o Estado não é uma entidade abstracta, neutra, infalível e livre de interesses próprios ou, sequer, garantidamente ausente de desonestas influências. Pelo contrário: o Estado é um conjunto de cidadãos dirigidos por um conjunto de políticos que precisam de dinheiro para ser eleitos e terem o seu trabalho garantido. Quanto valerá à indústria farmacêutica esta nova "doença"?

É esse o outro lado da igualdade: o da supressão, ou limitação, da liberdade de ser diferente. E toda essa supressão e limitação representam um excelente negócio para os amigos, ou aliados, daqueles que decidem o que deve ser, ou não, limitado ou suprimido. Qual a vantagem competitiva do fabricante de pão sem sal e, consequentemente, sem taxa, face ao fabricante artesanal de pão? Qual o valor de mercado de todos esses novos medicamentos, ou bens, que em nome da igualidade, agora transcrita numa forma de estandardização comportamental, se vendem aos magotes consoante o medo, a moda ou a mania do momento?

Nunca em nenhum momento da História esteve a liberdade humana no seu expoente máximo e, ao mesmo tempo, a viver o momento em que se encontra em maior perigo. Isto porque, hoje em dia, o grande inimigo da nossa liberdade é precisamente a interiorização do ideal da igualdade. É a ânsia interior de sermos todos iguais: iguais aos heróis da novela, aos modelos da revista, ou aos idiotas das feiras de celebridades. Tudo se copia, tudo se compra, mesmo operações plásticas, para que as diferenças se esbatam. Mesmo as diferenças de género se esbatem com elas a agir como eles e eles como elas, a igualdade ou, pelo menos, o mito da igualdade, triunfa na quantidade infinita de possibilidades aparentes que, na essência, representam sempre o mesmo: como os telejornais que sendo feitos por jornalistas diferentes, transmitidos por diferentes canais detidos por empresas diferentes conseguem, não apenas transmitir as mesmas notícias, mas também os mesmos alinhamentos e, com honrosas excepções, as mesmas opiniões.

Um mundo em liberdade vive da riqueza das diferentes interpretações daqueles que o observam. Esse mundo - e essa liberdade - desaparece a cada dia que passa transformando-se num mundo plano, igual para todos, levando, e chamando, cada um a interpretá-lo da mesma - única - forma. E é assim que a verdadeira liberdade está em risco porque, pela primeira vez na História, a abdicação da individualidade face ao colectivo parte do indivíduo para fora, dos seus anseios e das suas vontades, ao invés da colectivização ser imposta ao indivíduo, ou seja de fora para dentro.E, passo a passo, assim se vai centralizando, por vontade dos indivíduos, o poder político no Estado e o poder social na imensa máquina mediática cujos detentores não são muito diferentes dos financiadores de toda e qualquer campanha eleitoral. O Estatismo triunfa e a população aplaude. Mesmo quando reclama dos maus políticos que vê como corruptos ou incompetentes, mesmo aí, ao invés de lhes retirar poder cortando-lhes no orçamento, mesmo aí a população reclama mais departamentos, mais fiscalização e mais Estado, ou seja, mais corruptos e mais incompetentes e, desta feita, com mais recursos. E não há solução para este ciclo vicioso. Não há solução porque o valor que norteia a comunidade política, os costumes sociais ou as vontades individuais é o da igualdade em vez de ser o da liberdade.

Vem, pois, em pontas dos pés e com um sorriso amigo o maior inimigo da liberdade. Vem com promessas de felicidade para todos e, melhor ainda, para todos por igual. Mas aquilo que se promete com uma mão é infinitamente menos valioso do que aquilo que nos tira com a outra, a que está escondida e fora do alcance da nossa vista. Por enquanto, a originalidade e a verdadeira liberdade são ainda possíveis de viver-se, mesmo que não potenciadas, aliás, mesmo que vivendo-se numa civilização que as procura restringir. Infelizmente, no entanto, vivendo-se numa democracia - mesmo que num simulacro - tem-se a grande desvantagem de poder degenerar numa ditadura da maioria. Uma ditadura que, tal como muitas das suas antecessoras, a maioria deseja e aplaude. Porque cada regulamento, cada taxa, cada directiva é para o nosso bem.

E assim será até que o Estado, então regulador máximo da vida de cada um, revele finalmente como evidente a conclusão máxima de que não pode haver igualdade sem restrição de liberdade. Talvez aí, aqueles que agora aplaudem incautamente o centralismo estatista que a cada dia que passa, para o nosso bem, se afirma cada vez mais, talvez aí os igualitários aprendam que o preço que se paga ao deixar a decisão sobre o que é bom para cada um de nós nas mãos de outras pessoas é, mais cedo do que tarde, perceber que essas pessoas, que são tão falíveis e pervertíveis como qualquer um, são capazes, imagine-se lá o impensável, de decidir o que é bom para nós em função do que lhes dá jeito a eles. E, em boa verdade, aquilo que interessa a um grupo mais ou menos numeroso de obscuros burocratas, ou políticos caciqueiros, dificilmente será o que me interessa a mim.

Sem comentários: