domingo, 20 de abril de 2014

SANTOS & SALVADORES

O Dr. Assis afirma numa entrevista ao Público que as eleições europeias são uma boa "possibilidade de manifestarem não apenas a sua desconfiança, a sua oposição, a esta maioria, mas também de contribuírem para a afirmação de uma alternativa política em Portugal". Assim, além de vender a ideia de que com uma maioria de esquerda no Parlamento Europeu "vamos ter grandes mudanças políticas na Europa", não deixa de tentar cativar o votinho contra o Governo. Ambas as coisas são desonestas e só não apelido o Dr. Assis de aldrabão porque a última vez que andou por Bruxelas passou lá tão pouco tempo que deve perceber do assunto tanto como a Lili Caneças.

Em primeiro lugar, é profundamente irresponsável, e contribui claramente para o déficit democrático na UE, fazer de eleições - que decidem o rumo político da UE por cinco anos - um, plebiscito aos Governos nacionais. É democraticamente imaturo e um bom exemplo de confundir alhos com bogalhos, pior, de promover a confusão no eleitorado. Aliás, quando dos referendos que deitaram abaixo o projecto de constituição europeia era precisamente essa a ideia que se criticava.

Em segundo lugar, já que Hollande, para os socialistas, o anterior salvador da Europa, anda a fazer os inevitáveis cortes na despesa pública e a apregoar o contrário do que os senhores do PS apregoam, viram-se agora os socialistas para outros salvadores. Quem? A futura Comissão Europeia saída da tal "maioria de esquerda", ou seja, para aqueles que nos emprestaram o dinheiro que a dita austeridade anda a tentar pagar de volta. Está bom de ver que se for Martin Schulz o sucessor de Barroso, a Comissão vai deixar de querer orçamentos nacionais em ordem e equilibrados. É que é isso mesmo, então, ainda por cima, sendo Schulz alemão e de um partido que está coligado no Governo nacional - adivinhem com quem? -  com a Chanceler Merckel, pois claro.

Mas a aldrabice do Dr. Assis não se fica por aqui. Às acusações de despesismo dos anteriores governos PS apelida-as de demogógicas como se, imagine-se lá, não tivessem sido precisamente esses governos a levar Portugal à bancarrota por haver um excesso de despesa pública face à receita. Demagógico é quem assume os seus erros ou quem transforma, pela retórica, erros em supostas virtudes? Está bem abelha, nesta já só cai quem quer.

Para finalizar, o Dr. Assis assume ainda, com satisfação, que o Sr. sócrates vai participar na sua campanha e anuncia a sua vontade para que, após as próximas eleições legislativas, haja um novo ciclo político que passe obrigatoriamente pelo PS. Quanto a isto nada de novo, é o PS do costume e de sempre. Agora, espremido, esprimidinho, o que sobra então do discurso do Dr. Assis? O PS merece ganhar porque nunca fez nada de mal nem tem qualquer tipo de responsabilidade no facto de ter governado um país até à bancarrota, a austeridade (termo que significa a incapacidade para não se gastar mais do que aquilo que se tem) é uma loucura da direita "radical" - faltou acrescentar do Hollande também - e o PS, esse bando de santos milagreiros, é que deve governar Portugal porque conhece a receita exacta para a "competitividade" (viu-se). Entretanto, na campanha lá teremos sócrates a perorar contra o governo e a afirmar descaradamente o contrário de tudo aquilo que dizia em 2011. A sério, esta gente não tem vergonha na cara?

*Também publicado aqui.

Sem comentários: