sexta-feira, 9 de maio de 2014

SAFEM-SE OS CARACÓIS

Vou a Portugal para a semana durante mais ou menos quinze dias. Não me apetece. Não tenho vontade. É uma tristeza, mas é verdade. Sinto-me como se, mal ponha o pé no chão do aeroporto, vá dar imediatamente de caras com os lunáticos da extrema-esquerda que gritam, gritam, gritam sem parar, que querem tudo e mais umas botas mas desde que seja de borla, sem pagar, ou os outros, "os ricos", esses cabrões, que paguem. Depois desses, aparecem-me os aldrabões socialistas, aqueles que levaram o país à bancarrota e que agora assobiam para o ar. Pior, insistem eles, os socialistas, aos gritos, naturalmente, que as políticas que nos levaram à bancarrota estavam certas e que, pasme-se, serão aquelas que nos vão salvar agora (da bancarrota que essas mesmas políticas causaram). Aldrabões sem vergonha. A sério: que bando de salafrários. Depois, vem o governo assaltar-me de pistola em punho. Se lhes perguntar pela reforma do Estado, qual reforma do Estado pergunta o Passos Coelho?, e eu respondo: aquela que diziam que faziam e que, passados três anos, nem um vislumbre, ah, essa?, pergunta o Portas, essa é a seguir à eleições. O melhor é estar calado, penso eu, enquanto fujo desagradado pelos apalpões dos guardas fronteiriços, está calado Nuno, baixa a cabeça, passa despercebido, e dá graças a Deus por ainda te deixarem comer umas bifanas sem pagar taxa de gordura. A seguir, aparecem-me os senhores das repartições, cheios de carimbos e agrafadores, a exigir as taxas e os impostos que eu estou farto, fartinho de pagar (onde é que eu estava com a cabeça ao querer investir em Portugal?) e a explicarem-me tintim por tintim por que razão é que eu é que sou louco ao achar que três anos são mais do suficientes para se aprovar um projecto de investimento económico numa zona desfavorecida do país. A seguir a esses, aparecem os fiscais, os sub-fiscais e os para-fiscais das câmaras a demonstrar como tudo está mal feito, como assim não pode ser aprovado, onde é que já se viu tal coisa, nem pensar, pague lá  taxa, a sub-taxa, a para-taxa, a da câmara, a da direcção regional, a da rede natura, a do parque natural, a do instituto de conservação da natureza, esta é a dobrar porque tem casa e tem anexo, e a seguir, calma lá, não pode pôr o anexo, diz o da câmara, mas o do instituto diz que o anexo pode ser, a casa é que não, pelo menos não ali. E aí, desesperado, eu, de rastos, ali no aeroporto, grito que se altera o projecto, só não me obriguem a voltar ao início do procedimento, o procedimento são mais dois anos, porra isso é que não, entretanto, passo ali no multibanco, saca da carteira, paga ao arquitecto, paga ao engenheiro, paga o certificado energético (e aquele bando de parasitas que vivem à conta da invenção estatal da obrigatoriedade do certificado energético), paga o certificado telefónico (mesmo que não tenha rede telefónica), paga o certificado de ruído (mesmo que não haja vizinhos), e depois, toma lá, agora espera mais seis meses pela resposta à tua última carta. E depois de todos esses, lá vêm os senhores do sindicato, e os senhores da função pública atrás, todos com bandeiras vermelhas e boinas do Ché Guevara, a explicar - aos gritos, claro - por que excelsa razão todos estes serviços, sub-serviços e para-serviços, mais os seus coordenadores, sub-coordenadores e para-coordenadores, devidamente acompanhados das taxas, das sub-taxas e das para-taxas, são absolutamente fundamentais para salvação da pátria, para a solidariedade, fraternidade e felicidade de todos, incluindo a minha. Finalmente, após três ataques de fúria e um de ansiedade, mais uma depressão e uma desesperada fuga à realidade rumo à esperança que no "futuro isto mude" (nunca vai mudar), talvez consiga aguentar até ao café mais próximo, mesmo que a roer as unhas e a falar sozinho porque já me sinto tão maluquinho quanto aqueles que para aí andam a falar nas televisões e a escrever nos jornais, mas dizia, talvez aguente até ao café mais próximo para comer uns caracóis e ver o Benfica. Talvez. Talvez. Pois. É como vos dizia: não me apetece. Mesmo nada. Acho que é uma espécie de alergia.

2 comentários:

Luis Roquette Valdez disse...

Infelizmente sinto o mesmo... A incapacidade desta gente ver o que está directamente à frente dos seus olhos é verdadeiramente indescritível. Só pode ser descrito como loucura...

Nuno Lebreiro disse...

É uma espécie de loucura, sim, mas muita infantilidade em não compreender o mundo. Acredita-se no que se gostava que fosse verdade em vez de acordar para aquilo que é de facto real. Sonhadores, portanto.