quinta-feira, 29 de maio de 2014

UM PROCESSO

Jogar o jogo da vida, com afinco e perseverança, sempre sem desistir, quando se sabe que a inevitabilidade da morte espera, sempre serena e eternamente, no final de todo e qualquer caminho que se escolha é, ao mesmo tempo, uma loucura e a salvação. Loucura, porque todo e qualquer esforço encontrará sempre o mesmo resultado: considerando a inevitabilidade da morte a que a condição humana nos condena, nada, em última instância, sobreviverá. A única garantia será, então, que, no final, perdemos sempre e que todos os esforços de uma vida resultarão, ingloriamente, na inutilidade da irrelevância e do esquecimento. Salvação, porque é a única escolha que permite a felicidade: não pode ser feliz aquele que não aceita a sua condição. É preciso, no entanto, uma certa dose de sabedoria para que se entendam estas duas coisas simultaneamente: apenas aceitando a absoluta inutilidade objectiva de todo e qualquer esforço pode compreender-se que, se o resultado final é a morte, então a satisfação subjectiva terá que residir durante o jogo e nunca nesse resultado final. Assim, a felicidade será, forçosamente, um processo, um caminho e não um fim. Uma escolha do momento em que se vive, portanto, e não um objectivo sempre atirado para um futuro, que por ser futuro, e um pretenso resultado final, estará sempre longe demais, isto até ao dia em que simplesmente deixará de estar. Assim, atingir esse momento feliz não poderá nunca passar por um plano de vida, um cardápio de bens materiais ou uma receita de químicos receitados (ou não). Pelo contrário, o momento feliz é uma escolha que, aceitando, e assumindo, a loucura da vida, a própria irrelevância e libertando-se de todas essas receitas, cardápios ou planos, se realiza no imediato. E é ao gozar o momento feliz que todos os esforços, tal como a vida, apesar de inúteis, irrelevantes ou mesmo cómicos de tão estúpidos que são, passam a fazer sentido, e a serem motivo de satisfação, mesmo que em última instância seja um sentido para lado nenhum. O sentido encontrado, ou a felicidade experimentada, estão então numa satisfação presente e não num futuro inexistente, se bem que antecipado. No final, o único esforço verdadeiramente inútil será precisamente aquele que é efectuado em busca da felicidade: para ser-se feliz, basta viver-se com vontade. Ou seja, feliz está aquele a quem não lhe ocorre perguntar-se se é feliz.

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