Pensamento, m. - Acto ou efeito de pensar. Qualquer acto de inteligência. Fantasia. Ideia. Espírito. Uso da razão. Reflexões

domingo, junho 29, 2014

OS MAIORES, OS PIORES E OS HERÓIS-VILÕES

Portugal é um país de ódios. E, para mal dos nossos pecados, um ódio que se volta constantemente contra aqueles que tentam fazer alguma coisa de muito bom, ou os outros que se revelam como muito bons a fazer alguma coisa. Um bom exemplo dos últimos dias é o ódio ao Ronaldo: porque não fez isto, porque não fez aquilo, porque não é o melhor do mundo, porque nunca será um mito, porque não passa de um vaidoso, disto ou daquilo. De facto, porque o Ronaldo é indiscutivelmente um grande jogador de futebol, a crítica acaba por ser que "não é o melhor do mundo". Como se ele tivesse a obrigação de ser o melhor do mundo.

Já os portugueses imaginam-se os maiores do mundo mas, veja-se lá a coisa, são injustiçados por uma espécie de conspiração internacional que insiste em assim não os considerar. E depois sobra o complexo de inferioridade (motivado por um megalómano complexo de superioridade): um comentário jocoso de um jornalista estrangeiro logo causa uma comoção nacional, uma reportagem internacional menos feliz logo deriva numa petição contra esses inimigos da pátria ou a derrota num torneio internacional despeja uma torrente de infelicidade no país. Já pelo contrário, tudo em Portugal é o maior e o melhor: desde cada condutor automóvel à melhor comida do mundo, ou ao melhor sol do mundo. Por Portugal igualmente abundam as melhores praias e mares do mundo, e agora: os melhores hotéis do mundo, as melhores cidades do mundo para turismo, a melhor, e maior, onda do mundo, e claro: o melhor jogador de futebol do mundo, o melhor treinador do mundo, etc. Com tanta coisa boa só admira que o povo que habita tremendo paraíso se entretenha a destruí-lo com betão, cimento e uma desorganização aterradora, essa seguramente das maiores do mundo.

Da mesma forma, especialmente na bola, qualquer talento ou colosso mundial logo é importado para mostrarmos que temos colossos ou talentos igualmente talentosos e colossais: o "Jardel" de Coimbra, o "Cruyft" da Reboleira ou o "Bekham" de Braga. Mas não só na bola: Aveiro, por exemplo, é a "Veneza" portuguesa, tal como o Estoril era a igualmente nacional "Riviera". Disso nem a, lá está, "primeira-dama" portuguesa, apenas por ser negra, se safou: Passos Coelho está casado, naturalmente, com a "Michele Obama" portuguesa. Já o desenrascado Joaquim de Almeida, que lá conseguiu aparecer em dois ou três filmes americanos de qualidade mais do que duvidosa mas de grande projecção, foi logo apelidado do "Banderas" português. Enfim, com tanto colosso apenas admira que somente os portugueses tenham ouvido falar de tais sumidades.

A isto já aludia um Eça Queiroz, esse autenticamente grande, e igualmente autenticamente português, ao dizer que em Portugal a civilização importa-se do estrangeiro mas que, infelizmente, por ser importada, fica-nos curta nas mangas: na verdade nem o Jardel de Coimbra marcou tantos golos como o original, nem Aveiro rivaliza no panorama internacional com a cidade de Marco Polo.

E depois vem o reverso da medalha: da ânsia irrealista de querer ser o melhor do mundo, quando embatemos na realidade de que não somos os campeões do mundo, então, logo nos transformamos nos piores do mundo. Se não podemos ser os melhores, somos os piores. E, sucumbindo ao ego invertido, por nos sentirmos os piores, ao vermos aqueles que, apesar de serem portugueses como nós, se evidenciam por aí fora, que se mostram como dos melhores do mundo, logo os tratamos como uma espécie de heróis caídos: se não nos levas à glória então não serves o propósito da redenção e, por essa razão, odiamos aquilo que de melhor temos, que nos frustra ainda mais, por não ser bom o suficiente. E vilipendia-se. E chama-se nomes. E desvaloriza-se. E o que era o melhor passa a ser o pior. E, tal como a turba que escolheu o ladrão Barrabás e vilipendiou Jesus, também os portugueses vilipendiam o que têm de melhor. Portugueses os quais, aliás, têm uma igual tendência para escolher por entre aclamações grandes ladrões, esses, também, dos maiores do mundo.

É uma espécie de tragédia esta glorificação irrealista, e idealista, consequentemente transformada em crucificação igualmente desmedida. Se é verdade que temos muita coisa boa não quer dizer que esta tenha que ser a melhor do mundo. Aliás, a necessidade de nos afirmarmos como os maiores tem muito de uma paroquial afirmação complexada em relação a algo (o mundo) que, por desconhecermos, imaginamos como extraordinário e que não queremos assumir como melhor do que o pouco que vamos conhecendo que, ao ser exagerado na sua dimensão e qualidade, amplia o pequeno mundo onde nos sentimos confinados.

No fim, como os complexados neuróticos que pululam por essas redes sociais fora, sobra a importância desmedida que damos ao que pensamos que os outros pensam de nós. E talvez, paradoxalmente, quando percebermos que o mundo, mesmo sendo nós os melhores disto e daquilo, continua a não querer saber de nós para nada, talvez então, livres do peso dos nossos próprios complexos, nos libertemos para viver uma vida que, não sendo a melhor de todas, seja  pelo menos agradável, responsável, auto-suficiente e capaz de apreciar as coisas boas que vamos tendo. E, já agora, com menos indignada gritaria.

2 comentários:

∴ ACASO (ૐ) disse...

Volta e meia lá surge um texto destes em que encontro portugueses que felizmente estão fora dos grupelhos que infelizmente: são a larga maioria.

Nada de novo, o facto de seres um destes, que como eu, estão de fora.

Continuemos a fazer jus aos nossos antepassados, que não temiam nada nem ninguém e partiam à descoberta sem medo.

Nem tudo correu bem, nem tudo foi bem feito. Mas esse espírito aventureiro, audaz, firme e apaixonado, faz-nos falta enquanto povo, no seu conjunto. Façamos a diferença onde quer que estejamos.

Abraço

Nuno Lebreiro disse...

Estar de fora é uma bênção! Grande abraço Armando ;)