quarta-feira, 4 de junho de 2014

OS VENDEDORES DE SONHOS


Curiosamente, facto estranho e que merece a mais atenta e precisa investigação, é precisamente de imposições sobre o que havemos e devemos de fazer que se fazem as nossas vidas. É de conselhos sobre o bom, e perfeito, que tudo pode ser se fizermos, acreditarmos, seguirmos, concretizarmos ou comprarmos o que quer que seja que nos estão a vender. E vendem mesmo. Talvez a grande característica dos nossos tempos, vidas de suposta e desejada liberdade, seja a grande quantidade de pessoas que se dedicam à venda, ao lucro, ao marqueting, pessoas tão altruístas que baseiam a sua existência no satisfazer as necessidades dos clientes, dos consumidores, sim, somos nós esses, mais do que pessoas, o paradigma do século vinte e um é que somos clientes e consumidores, números num balancete comercial, pessoas é só às vezes, cidadão é termo que não interessa, não, não interessa a ninguém, claro que não, não é uma necessidade dos clientes consumidores essa estranha coisa de querer ser-se cidadão. E tanto mais estranhos são estes tempos em que vivemos que são uns poucos, uns quantos, um número mínimo de pessoas que andam a dizer aos outros, a todos, à maioria, quais são as coisas de que precisam. É assim mesmo: alguns idealizam, uns poucos constroem e uns quantos marquetizam, criam necessidades e dizem-nos a todos como devemos ser felizes. Estranho mundo este onde uns poucos nos dizem o que necessitamos. Talvez fizesse mais sentido ao contrário, talvez o mundo se devesse virar de pernas para o ar, e os rios nasciam no mar, indiferente, o que quer que seja, talvez devêssemos nós achar que somos todos inteligentes o suficiente para sermos capazes de saber quais são as nossas próprias necessidades, talvez os marquetistas devessem andar a falar com as pessoas e a ouvir aquilo que lhes faz falta, talvez devessem andar esses marquetistas a tentar convencer os poucos que constroem sobre aquilo que os muitos querem, em vez de andar a convencer os muitos sobre o que os poucos decidiram querer vender. Mas enfim, são estes mundos ideais coisas da imaginação e do devaneio, não é assim que as coisas funcionam, nem poderiam funcionar, claro que não, onde estávamos nós com a cabeça. Ficam os sonhos para o mundo dos sonhos, voltemos nós aos nossos pesadelos, talvez seja isso mesmo, talvez o nosso maior pesadelo seja esse de nem sequer sabermos que necessidades temos. E logo vêm os vendedores de sonhos. Logo vêm eles com um sorriso na cara mostrarmo-nos como é tão fácil sermos mais felizes se tivermos aquela nova coisa inventada pelos melhores e maiores especialistas que nos vai satisfazer aquela necessidade que nós nem sequer sabíamos que tínhamos. Como era possível viver sem tal coisa, perguntamo-nos nós, estamos aqui para o servir, diz o vendedor de sonhos, não se preocupe, é só assinar aqui, passar aqui o cartão, endossar aqui o cheque, pode ser a débito, crédito, prestações, endivide-se, gaste, faça como quiser, não se preocupe com mais nada, agora goze o produto e seja feliz. E depois a novidade passa, a felicidade não apareceu, afinal tenho todos aqueles problemas para resolver, o miúdo que não estuda, o dinheiro que afinal fazia falta, o Amor, a Confiança que não existem, pois é, maleitas do espírito, e para essas os vendedores de sonhos não têm solução. Aliás, talvez seja precisamente por isso que a felicidade tarda em aparecer, talvez esta se faça com as coisas do espírito e do coração, coisas de difícil e árduo caminho, e não tanto com as coisas que com uma assinatura e um cheque passamos a ter. Talvez a felicidade se faça mais de ser e menos de ter. Mas isso os marquetistas não dizem. Não podem. Porque coisas do ser não se vendem. Enfim. Ficam as dores de quem escreve, os lamentos de quem vê, tantos e tantos e tantos a comprarem tanto e tanto e tanto e depois, falta qualquer coisa, pois, é isso, falta qualquer coisa e lá vão eles comprar mais tantos e tantos e tantos, esquecendo-se que se não foi à primeira que resultou porque diabo haveria de resultar agora. E é assim. É mesmo de vendedores de sonhos que se fazem os dias da nossa infelicidade. E a malta comprou esses sonhos. E um dia há-de perceber que se há uma coisa de que a felicidade não se faz de certeza é dos sonhos dos outros.

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