sexta-feira, 6 de junho de 2014

TRADIÇÃO E COMUNIDADE VERSUS ESTADO E UTOPIA

"Pondo a questão de outra maneira, a tradição... condensa em si mesma os frutos de uma longa história de experiência humana: fornece saber que não pode conter-se numa fórmula nem estar confinado a uma única cabeça humana, mas que é disperso ao longo dos tempos pela experiência histórica da comunidade envolvente. Tal como os preços do mercado condensam em si mesmos informação que de outro modo fica dispersa na sociedade contemporânea, também as leis condensam informação que está dispersa pelo passado de uma sociedade...: o saber de que precisamos em circunstância imprevisíveis da vida humana nem deriva da experiência de uma única pessoa, nem se contém nela, nem pode ser deduzido a priori de leis universais. Esse saber é-nos legado pelos costumes, pelas instituições e pelos hábitos de pensamento que foram moldados eles próprios ao  longo de gerações, através de tentativas e erros de pessoas, muitas das quais pereceram enquanto o adquiriam. (...) Se essas coisas boas se desintegrarem, não há maneira... de a legislação as substituir. Porque ou surgem de forma espontânea ou não surgem, pura e simplesmente, e a imposição de instrumentos legislativos para a «boa sociedade» destrói o que resta do saber acumulado que torna possível essa sociedade. Não surpreende, por isso, que os pensadores conservadores britânicos - nomeadamente Hume, Smith, Burke e Oakeshot - tenham tido tendência para não ver tensão entre uma defesa do mercado livre e uma visão tradicionalista da ordem social. É que tinham fé nos limites espontâneos colocados ao mercado pelo consenso moral da comunidade. Talvez esse consenso esteja actualmente a ceder. Mas essa cedência é em parte resultado da interferência do Estado e é certamente improvável que seja curada por ele. foi precisamente o êxito da falácia do planeamento [central] na criação de enormes máquinas de poder e influência, a galopar descontroladas para o futuro, que levou à erosão do consenso que coloca um «nós» genuíno no centro da política".

Roger Scruton, As Vantagens do Pessimismo (2011), pp. 124-6

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