segunda-feira, 15 de setembro de 2014

DOIS PESOS, DUAS ALEGRIAS

O Sr. "poeta" Alegre nos anos setenta exortou aos microfones de uma rádio em Argel à deserção dos soldados portugueses em África e, pugnando pela derrota militar do seu país face aos movimentos de libertação africanos, não se cansou de ajudar os guerrilheiros contra as forças militares do seu país. Este singelo facto histórico que o Sr. Alegre justifica pelo seu imenso amor à liberdade, uma liberdade que a ditadura de Salazar lhe negava, é do conhecimento público e, como tal, amplamente comentado e referido. Naturalmente, nem toda a gente concorda com o Sr. Alegre e muitos entendem, no seu julgamento pessoal, que ajudar guerrilheiros contra o seu próprio país é ser conivente com a morte de compatriotas, quer se concorde com os motivos da intervenção militar quer não. Expressou o Tenente-coronel João José Brandão Ferreira em diversos blogues a opinião de que tais comportamentos, factuais repita-se, do Sr. Alegre configuravam uma "traição à pátria" e, vai daí, o Sr. Alegre processa o Tenente-Coronel Brandão Ferreira por difamação. O Tribunal, naturalmente, rejeitou tamanho ensejo e absolveu o arguido. À saída do tribunal, após a leitura do veredicto, o Sr. Alegre comenta que "a liberdade de expressão não permite tudo" e, como tal, o veredicto deveria ter sido outro. Ou seja, para o Sr. Alegre, a liberdade de expressão deve incluir a ajuda a guerrilheiros contra o exército do seu país, no entanto, apelidar tal "liberdade" de traição à pátria é algo que, naturalmente, a liberdade de expressão não poderia aceitar. É um conceito de liberdade muito peculiar, o do Sr. Alegre. Duas coisas, bem evidentes nas diabruras do Sr. Alegre, saem como bons exemplos do atavismo nacional: a primeira, é a capacidade intrínseca dos portugueses prejudicarem os interesses pátrios em nome dos seus interesses pessoais; a segunda é a forma como os Srs. Alegres da vida mascaram os seus interesses, ou devaneios, pessoais de grandiosos princípios éticos e republicanos que eles, naturalmente, humildemente servem. Servisse o Sr. Alegre, de facto, o princípio da liberdade de expressão como diz que serve e seria ele o primeiro a respeitar quem pensa de maneira diferente da dele porque entenderia que a defesa intransigente da liberdade de expressão é maior do que o desagrado que as criticas que lhe são dirigidas lhe causam. Mas não. Para o Sr. Alegre a liberdade de expressão só serve quando é para ele dizer, e fazer, o que bem lhe apetece. No final, uma conclusão positiva: considerando que o que o Sr. Alegre fez envergonha qualquer português decente e que o que ele diz, normalmente, atenta contra o bom senso e o bem estar intelectual, não apenas da pátria mas de cada um de nós, o facto de o Sr. Alegre continuar por aí a pulular a declamar os devaneios mais idiotas apenas atesta que a Portugal faltam muitas coisas mas que liberdade de expressão não será uma delas. Mesmo apesar dos Srs. Alegres - e que os há tantos! -  desta vida.

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