Pensamento, m. - Acto ou efeito de pensar. Qualquer acto de inteligência. Fantasia. Ideia. Espírito. Uso da razão. Reflexões

quarta-feira, outubro 29, 2014

DER STREBER

"The arrivist is a person who incessantly tries to 'arrive' at the top, outdoing his fellow persons at any cost. This person-type comes close to certain 'overachievers' today. He is unable to love, to give and forgive, to sacrifice, to admit defeat with his head up, to make friends, to be content with his own self. He is impotent to enjoy the value and quality of his life. He is good at smirking rather than smiling in friendship. Impervious and sometimes stiff as his personality is, his motivation to do extra work and to crave for perfection is not motivated by realizing a common good like that of a corporation, a company, a nation, or church. Rather, his impotency to fill the deep gaps in his hollow personality generates the constant urge to do better than, and win over others in public and to fish for social esteem and respect. Marks for excellence acquired in school, business, or elsewhere, cover up the personal dearth which makes him a social loner rather than a friend, sharing and feeling compassion".

Manfred Frings, 'Introduction', in: Max Scheler, Ressentiment, Marquette University Press, 2010, pp. 15-6

quinta-feira, outubro 23, 2014

RESPONSABILITY

"There is no moral gesture so trivial that does not radiate, like the splashing stone, an infinity of ripples - circles soon lost to the naked eye. But if a physicist can pursue the tremor beyond this natural barrier - how much further can God the omniscient pursue the moral repercussion! If no impediments intervene, A's love of B not only awakens B's reciprocal love of A but stirs a natural growth of general, life-warming love in B's responding heart; hence B's love of C and D; and so the flood rolls on within the moral universe, from C and D to E and F ad infinitum. But the same is true of hatred, injustice, unchastity and all kinds of sin. Each one of us has been a partner in an immensity of actions good and bad, things of which he has - and can have - no inkling, but for which he nevertheless stands co-responsible before God".

Max Scheler, On the Eternal in Man, Transaction, 2010, p. 377 [1917]

O SÍNDROMA DE ALEXANDRE

E o homem que subiu arduamente a montanha, quando chegou ao topo, sentou-se e chorou. Porque não há vida sem propósito, e a contemplação do infinito não tem outro destino último que não seja chorar sobre o abismo do vazio.

ORIGINALITY



HAPPINESS AND EQUALITY

"Happiness... is to be found by virtue in all conditions, in which consists the true moral equality of mankind, and not in that monstrous fiction, which, by inspiring false ideas and expectations into men destined to travel in the obscure walk of laborious life, serves only to aggravate an imbitter that real inequality, which it can never remove; and which the order of civil life establishes as much for benefit of those whom it must leave in an humble state, as those whom it is able to exalt to a condition more splendid, but not more happy".

Edmund Burke, Reflections on the French Revolution, Penguin Classics, 2004, p. 124 [1790]

sábado, outubro 18, 2014

UM BALANÇO, A RATOEIRA E A TERCEIRA VIA

A propósito do Orçamento de Estado que vem aí, vale a pena fazer um pequeno ponto da situação: vemo-nos agora a entrar no último ano da governação - com maioria absoluta - da actual coligação PSD|CDS e, por essa razão, um balanço exige-se.

Primeiro, os positivos. Com maior ou menor atrito, os partidos da coligação foram bem sucedidos a manter a estabilidade governativa. Com a honrosa excepção do episódio da irrevogabilidade portista, os dois partidos lá foram conseguindo resolver os pequenos atritos que, naturalmente, uma coligação de partidos diferentes sempre gera. Especialmente positiva, e por isso esbatendo o ridículo do episódio da irrevogabilidade, é a estabilidade ter sido garantida num momento de grande atribulação económica e política e onde a demagógica tentativa de capitalização eleitoralista poderia ter ditado um destino diferente. Particularmente bem na fotografia ficou o Primeiro-Ministro que, no tal momento histérico de Paulo Portas, quando o fim do Governo já se vaticinava (incluindo aqui neste mesmo blogue), soube ter o sangue frio de resolver a situação da melhor forma possível. Se há um momento onde Passos Coelho ganhou a minha consideração foi esse.

Outro ponto positivo foi a capacidade de gerir o processo de intervenção económica da troika, conseguir ultrapassar a Bancarrota sócrates e, apesar da histeria colectiva, ter sido o Governo bem sucedido em devolver o país a uma quase-normalidade. Bom também foi apresentar alguns resultados económicos francamente positivos como sendo, a título de exemplo, e após os 5% que a taxa de desemprego galopou nos dois anos subsequentes à Bancarrota sócrates, começar agora a diminuí-la de forma sustentável e significativa (2% face ao pico de 2013).

Especialmente positivo também, foi a mudança de atmosfera democrática. É certo que nem tudo foi perfeito - longe disso -, no entanto, relembrar a governação anterior com os freeports, faces ocultas e os enriquecimentos súbitos de um número considerável de governantes, ou bons comparsas deles - alguns deles agora condenados ou sob investigação - torna evidente uma grande diferença, a começar pelo Primeiro-Ministro. Também, admitamos, sócrates deixou um legado de suspeição, corrupção e de nepotismo tais que dificilmente alguém conseguiria bater esses níveis sem ser perseguido e queimado na praça pública. Mesmo assim, é uma diferença com a qual, qualquer que seja a ideologia, todos nos devemos satisfazer.

Mas a cereja no topo do bolo, para mim, foi o caso BES. Comparar o assalto que o governo PS de sócrates fez ao BCP (com o nosso dinheiro e através de Vara, agora condenado por outras falcatruas), as tentativas de controle da comunicação social, o caso BPN e o igualmente vergonhoso BPP (que juntos custaram mais de dois mil e duzentos milhões de Euros aos contribuintes), comparar todo esse historial de intervenção e controle dos actores económicos nacionais com a forma como, mesmo que com riscos, o actual Governo escolheu deixar cair o BES é um abismo de diferenciação, e uma diferença para muito melhor. Ainda para mais, e à medida que o tempo passar mais se irá saber, se levarmos em linha de conta que muito do tráfico de influências e do controle por parte da oligarquia económica e política que sequestrou o Estado em Portugal passou sempre pelo BES, e pelo dono disto tudo, vemos que perdemos um agente económico-político que não fará falta nenhuma a Portugal. Quando Ricardo Salgado andou por aí de mão estendida a tentar safar os seus esquemas, termos um Governo que o deixou à sua sorte e, esperemos, sob uma alçada judicial futura, foi o melhor que um governante isento alguma vez poderia fazer. Só por isso já lhe fico eternamente grato.

E quanto aos pontos negativos da governação? Bem, esses, infelizmente, também não são poucos. O primeiro de todos é o, chamemos-lhe assim, Caso Relvas. Uma vergonha, especialmente quando o país ainda recuperava da falta de credibilidade socretina: termos um Primeiro-Ministro que manteve até ao limite das suas forças um ministro que, obviamente, não reunia as condições políticas para continuar no Governo foi um monumental tiro no pé. No final, nem sequer deu o Sr. Relvas a possibilidade ao Primeiro-Ministro de o demitir e, por essa forma, talvez redimir-se perante os eleitores, mas não, pelo contrário, saiu o douto Relvas porque quis deixando atrás de si apenas um enorme rombo na credibilidade, e legitimidade, governamental. E, para piorar a coisa, já este ano, no Congresso do PSD, Passos Coelho ainda o convidou para liderar uma lista ao Conselho Nacional. Se no caso BES agradeço a Passos Coelho, já no que diz respeito ao Sr. Relvas não lhe perdoo.

E o que dizer do legado económico do Governo? Será o facto de ter de forma bem sucedida superado o "ajustamento" da troika um feito suficiente? Parece-me que não, aliás muito pelo contrário. Apesar de alguns bons resultado, a verdade é que o Governo falhou redondamente na missão de reformar o Estado. Por um lado, as medidas que o Governo tomou para reduzir a despesa do Estado e, consequentemente, controlar o défice, foram na sua grande maioria medidas transitórias. Naturalmente, como deveria ser evidente, isso significa que, uma vez passada a transitoriedade, a despesa, e o consequente défice, irão regressar, a menos que o país desate a crescer exponencialmente o seu PIB, coisa que manifestamente ainda não aconteceu e, pior, sem a tal reforma do Estado dificilmente acontecerá.

Aliás, o processo político da reforma do Estado, todo ele, é praticamente do nível do anedótico: desde o guião desaparecido, até às palavras soltas escritas a letra dezasseis por Paulo Portas, tudo resulta num imenso nada. Infelizmente, a reforma do Estado limita-se aos cortes nas pensões e nos salários da função pública, coisa que apesar de transitoriamente necessária, apenas se admitiria se algo fosse feito de forma a que, uma vez terminada essa transitoriedade, houvesse condições para - cumprindo a palavra! - ser possível repor os cortes sem agravar o défice e a dívida. Como nada foi feito, das duas uma: ou o transitório passa a definitivo e se infringe a palavra dada, ou os cortes são repostos e terão que ser compensados com aumentos de impostos.

E aqui chegamos ao maior ponto negativo deste balanço: a carga fiscal. Passos Coelho foi eleito Primeiro-Ministro apoiado na premissa de que o Estado tinha que ser reformado para permitir um alívio da carga fiscal, alívio o qual traria maior desafogo económico às famílias portuguesas (pelo alívio do IRS), bem como maior capacidade de angariação de investimento estrangeiro (pela diminuição do IRC) capaz de gerar novos postos de trabalho e, por isso mesmo, maior riqueza. Pelo caminho deveria estimular-se a economia baixando o IVA, permitindo dessa forma maior capacidade às empresas de aumentar as suas receitas, os seus lucros e, por isso, os seus trabalhadores. Esse caminho estava correcto em dois mil e onze e continua a estar correcto em dois mil e catorze. Infelizmente, as reformas que permitam tal coisa estão igualmente no mesmo sítio: na gaveta.

A um ano das próximas eleições já não há margem para dúvidas: o Governo vai conseguir chegar ao final do seu mandato sem cumprir os seus principais compromissos eleitorais. A questão aqui é que a reforma do Estado, e o consequente alívio fiscal, são importantes, não para "nos vermos livres da troika" mas, fundamentalmente, para que Portugal mude de facto de vida, consiga começar a crescer sustentadamente e, além de não ter que ser intervencionado de novo no futuro, permitir uma vida mais rica e produtiva para os portugueses. E aqui reside o principal falhanço do Governo: a procrastinação reformista. Se nos anos oitenta e noventa, com Cavaco, Portugal foi o bom aluno e depois, com sócrates, o mau aluno, já com Passos Coelho somos o aluno que passa à rasca e a copiar: não mudemos de vida e voltaremos a correr o risco de chumbar.

Para sermos justos para com o Governo, admita-se, a probabilidade de uma efectiva e séria reforma do Estado passar no Tribunal Constitucional é bastante diminuta. Mas uma coisa é apresentar medidas que batem no portão dos guardiões máximos da falência portuguesa, outra coisa completamente diferente é não ter verdadeiramente reforma nenhuma para apresentar. Um bom exemplo é a Educação: não tanto pelo falhanço que foi a colocação de professores mas muito mais pelo falhanço reformista que não permitiu que se acabe de vez com aquilo que é um dos principais cancros do Estatismo português. A descentralização administrativa, a autonomia de gestão da escola pública, um financiamento ao aluno em vez da escola e outras medidas simples, por sinal já plenamente testadas noutros países com resultados muito satisfatórios, e que poderiam resolver muitos dos problemas da Educação pela base, tudo isso ficou em águas de bacalhau. Assim, enquanto se ocupa o ministro a tentar resolver problemas dentro de um sistema que é ele próprio a base do problema, fica o país em suspenso e todos atolados num pântano de interesses corporativos que, não permitindo que se saia do paradigma centralista, desgraçadamente, lá vão dando cabo do orçamento para a Educação, para gáudio dos Mários Nogueiras desta vida.

Com honrosas excepções - como a Lei das Rendas, por exemplo -, o Governo finalizará o seu mandato com um país mais ou menos na mesma forma como estava antes da crise de dois mil e oito: fortemente endividado, com um défice artificialmente reduzido e impostos que, mesmo que estejam já muito mais altos, com tendência para subir ainda mais. E isso não chega, muito pelo contrário.

Mas e o que dizer da alternativa? Seria de esperar que a esperança residisse na alternativa democrática ao falhanço reformista do Governo. No entanto, para mal dos nossos pecados, a alternativa não se pauta por afirmar que reformaria de forma diferente e melhor mas, muito pelo contrário, por afirmar que o que é preciso fazer é não reformar. Portugal tem um Partido Socialista que continua a afirmar as políticas de investimento público, elevados défices e consequente emissão de dívida, que nos trouxeram a bancarrota, apenas agora variando sobre a - imaginada - origem do dinheiro que pagará todos esses "investimentos" e prestações sociais: onde antes se sonhava com um crescimento económico alavancado por políticas públicas, agora, com a evidente falência que esse modelo socialista nos trouxe, sobra pugnar-se pela solidariedade europeia que, naturalmente, tem o dever de pagar o direito que nós temos a viver acima daquilo que somos capazes de pagar. Este é o verdadeiro europeísmo socialista: não é ser a Europa um espaço de livre troca de mercadorias e serviços que permitam aos portugueses competirem, e vencerem, junto com os melhores; pelo contrário, trata-se é de uma desculpa para receber transferências e vantagens financeiras que nos permitam viver como eles, os europeus, apesar de produzirmos metade do que eles produzem. A mim, como português, esta postura deixa-me muito envergonhado.

E aqui se revela a verdadeira ratoeira em que Portugal se vê enfiado: por um lado, temos um Partido Socialista que não acredita que se deve reformar o Estado, apenas quer arranjar formas de financiamento para o nosso défice crónico que não sejam penosas para os portugueses (e eleitoralmente desagradáveis para o PS) à espera que um dia a riqueza nos caia no colo; por outro lado, temos um Governo que percebe que não se pode viver eternamente de mão estendida para a Europa - até porque os outros países europeus não estão para isso - mas que, porque não consegue reformar o Estado, acaba a viver de mão estendida (ou em riste) para aqueles a quem pode exigir tudo e mais um par de botas: os contribuintes.

A conclusão é que precisamos urgentemente de uma terceira via: uma via que, reconhecendo os méritos do equilíbrio orçamental, recuse as más formas que os agentes políticos portugueses têm para pagar as despesas: o utópico e vergonhoso apelo à solidariedade europeia do PS e o, igualmente vergonhoso, assalto fiscal ao bolso dos portugueses por parte da coligação governamental. A via que sobra é aquela que o sensacional António Costa já identificou: a do crescimento económico. O problema é que o crescimento económico não aparece nem com a dívida que a proposta socialista implica, nem com a carga fiscal que o Governo aplica. O crescimento aparece, como acima já se explicou, precisamente pelo oposto do que ambas as opções governativas que temos advogam.  E aqui se fecha a pescadinha de rabo na boca do nosso descontentamento.

Em conclusão, Portugal conhece um impasse entre duas não-soluções. E, acreditando que os portugueses não darão uma maioria absoluta a um Governo que desilude nem a uma alternativa que nos trouxe a bancarrota há meros três anos atrás, a próxima governação terá que traduzir um entendimento ou, pelo menos, uma permanente negociação, entre o PS e a actual maioria o que apenas significa, porque dois errados não fazem um certo, que serão mais uns quantos anos a procrastinar as reformas penosas e impopulares que temos pela nossa frente. E é esse procrastinar que atesta a minha afirmação de que, qualquer que seja o Governo eleito em dois mil e quinze, com um elevadíssimo grau de probabilidade, Portugal a breve trecho não irá conseguir financiar-se de novo nos mercados internacionais e cá teremos a troika outra vez. Talvez aí acordemos e se criem as condições para o aparecimento dessa terceira via.

quarta-feira, outubro 15, 2014

LAST KISS

Desde o início dos anos 90 e a crescente popularização do movimento grunge que me interessei bastante pela música que vinha de Seatle, em particular os Soundgarden, os Nirvana e, naturalmente, os Pearl Jam. O álbum Ten (1991) que marcou a estreia da banda de Eddie Vedder figurará, certamente, como um marco da história musical dos anos 90, bem como uma obra-prima musical do final do Século XX que foi capaz de catapultar o rock alternativo de Seatle para o palco mundial. Músicas como Alive, Even Flow ou Jeremy ainda hoje passam abundantemente na rádio e são recorrentemente revisitadas, quer por aqueles que como eu ultrapassaram a sua adolescência ouvindo-as, quer por uma inesgotável legião de novos fãs.

O segundo álbum Vs. (1993) não lhe ficou atrás: apresentando músicas como Daughter ou Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town, com um som mais alternativo ao mesmo tempo que batia recordes de vendas (durante cinco anos Vs. foi o álbum que até aí mais vendera no dia de estreia), os Pearl Jam assumiram-se em definitivo como uma das bandas mais marcantes do seu tempo.

Desde aí, os Pearl Jam editaram mais oito álbuns de estúdio, álbuns os quais, com maior ou menor sucesso, amiúde nos foram oferecendo algumas preciosidades como o mais recente Nothing as It Seems (Binaural, 2000) ou o popularíssimo Better Man (Vitalogy, 1994). No entanto, a música que viria a bater todos os recordes seria uma música que não foi lançada em qualquer um destes álbuns de estúdio: Last Kiss.



Durante a digressão mundial de 1998, os Pearl Jam começaram a tocar a música durante os concertos tendo obtido uma resposta por parte dos fãs muito assinalável. Assim, em Dezembro de 1998, a banda resolve editar Last Kiss como um single de Natal.




A música foi um imediato sucesso e por demanda popular acabou por ser reeditada duas vezes, ambas no contexto da ajuda internacional ao conflito no Kosovo: primeiro como um single cujas receitas revertiam para os refugiados do conflito e depois em 1999 no álbum de beneficência No Boundaries: A Benefit for the Kososvar Refugees, entre contributos de outras bandas como Rage against the Machine, Jamiroquai ou Oasis e artistas consagrados como Neil Young ou Alanis Morissete. No total, Last Kiss ajudou a contribuir com cerca de dez milhões de euros para ajuda humanitária.

Last Kiss chegou então a n.º2  no Bilboard Hot 100, a mais alta posição alguma vez atingida pelos Pearl Jam, tal como seria a música mais bem sucedida da banda no Canadá, Austrália e Reino Unido. No entanto, e aqui é a coisa fica mais interessante, aquilo que a maior parte dos fãs da música, incluindo aqueles que, como eu, até sabem trautear pelo menos o refrão, é que Last Kiss tem tanto de original dos Pearl Jam como o Pierce Brosnan a fazer de Thomas Crown, ou seja: nada.

Escrita por James Lafayette Tarver em 1960 após a morte da sua filha num acidente de auotmóvel, Last Kiss foi primeiro editada em 1961 por Wayne Chochran e foi tanto, ou tão pouco, ouvida que teve que ser reeditada em 1963 por uma outra editora.





Apesar de uma ou outra boa crítica, Wayne Cochran não conseguiu o sucesso que almejava e, provavelmente, para a posteridade ficará apenas como o autor oficial da canção. Já o seu verdadeiro autor, James Tarver, que havia perdido o controlo sobre a letra após ter andado a tentar vendê-la a diferentes editoras, também ficou igualmente a ver navios. Quem haveria de verdadeiramente capitalizar com Last Kiss seria a banda J. Frank Wilson and The Cavaliers que, após o seu manager, de seu nome Sonley Roush, considerar que a estória trágica que Last Kiss conta se inseria bem dentro de um conjunto bem sucedido de tragédias adolescentes que na altura estava em voga, insistiu para que a banda a editasse como um cover capaz de entrar no ouvido do público.

E foi assim que em 1964 J. Frank Wilson and The Cavaliers finalmente conseguiram o seu primeiro sucesso comercial chegando também, mas originalmente, ao n.º 2 no Bilboard Hot 100. Infelizmente, o sucesso comercial não veio somente pelos méritos da música: foi apenas após um acidente de automóvel que, durante uma digressão, roubou a vida a Sonley Roush, precisamente o homem responsável pela sua edição, que a música se popularizou.




De todas as cópias vendidas nos anos 60 e 70, eventualmente uma delas faria o seu caminho até que Eddie Vedder a encontrasse a ganhar pó numa pequena loja de um velho centro comercial em Seatle. E o resto é história.





domingo, outubro 05, 2014

A PROPÓSITO DO ANIVERSÁRIO DA REPÚBLICA


DO ESQUECIMENTO


Com mais mito ou menos mito, desde há muito que se convencionou que o acontecimento que de forma inequívoca marca o nascimento de Portugal foi o Tratado de Zamora, por sinal assinado a cinco de Outubro de mil cento e quarenta e três (e a primeira bandeira a da fotografia acima). Este singelo facto atesta que hoje, cinco de Outubro de dois mil e catorze, celebram-se oitocentos e setenta e um (871!!!) anos desde o nascimento de Portugal como nação independente. No entanto, e como todos os anos lá vou alertando neste blogue, a maior parte da população portuguesa encontra-se completamente alheada de que nesta data, muito mais do que uma revolução política cometida por meia dúzia de activistas citadinos nos idos de mil novecentos e dez, comemora-se, ou deveria comemorar-se, efectivamente, o nascimento de Portugal.

Algumas coisas muito simples saem daqui: primeiro, o carácter intrinsecamente autoritário da república de mil novecentos e dez que, através da propaganda, foi incansável na sua tentativa (bem sucedida) de afirmar-se como a única solução política para Portugal. Com esse intuito, e apenas dois anos após o bárbaro assassinato político do Rei D. Carlos - que chocou o mundo civilizado -, não se fizeram os republicanos rogados em substituir a bandeira nacional (tal como Hitler faria vinte e dois anos depois na Alemanha) pelas cores do partido político vencedor (o Partido Republicano Português) e da organização maçónica Carbonária (na fotografia abaixo).


Da mesma forma, não tiveram problemas em enviar milhares de portugueses para a morte nos campos da Flandres para ganharem o direito de sentarem-se à mesma mesa que os vitoriosos exércitos da Primeira Guerra Mundial, isto apenas para se afirmarem politicamente e perderem o estatuto de sanguinários assassinos que tinham morto um Rei legítimo. Tudo isto e muito mais, desde a polícia política da "formiga branca" até às maiores atrocidades eleitorais, bem como ao caos económico que lançaram com falência após falência que a libertinagem desmedida que quarenta cinco governos e nove Presidentes da República em apenas dezasseis anos permitiram, de tudo isto se fez um dos períodos mais tristes da história portuguesa, bem como se afirmou um regime que - nunca tendo sido sufragado! - de democrático apenas tem os dentes podres de quem nele se legitima para falar de democracia, um conceito que, obviamente, não compreendem ou, pior ainda, porque não dá jeito, não querem compreender.

Naturalmente, perante tamanho oportunismo político, para afirmar a legitimidade de quem não a tinha, a começar por aquela bandeira vergonhosa à qual hoje já nos habituámos, a negação do passado foi tarefa fundamental. E essa é a grande diferença de Portugal para a maior parte dos outros países civilizados ocidentais: as conveniências políticas do momento prevalecem sempre sobre os interesses pátrios de longo prazo. Também Oliveira Salazar, a quem o regresso da Monarquia nunca interessou verdadeiramente, não se deu ao trabalho de, como gritava o pateta Alegre aqui há uns tempos, "tocar no cinco de Outubro" porque, lá está, um rei é um rei e este teria sempre mais legitimidade política do que ele podendo colocar em causa o engenhoso equilíbrio político salazarista.

Como não poderia deixar de ser, também a democracia de forma em que vivemos vai buscar a sua legitimidade (cada vez menor) à ilusão mentirosa das virtudes da I República: desde a já nojenta "ética republicana" que serve para legitimar os piores comportamentos desde que não sejam ilegais, até às patéticas paradas e discursos do cinco de Outubro, tudo lá vai servindo para os decrépitos oportunistas políticos do momento lá se irem aguentando na cadeira do poder. Na prática, o grande feito da República parece ser o facto de, hoje de forma directa, elegermos o nosso Chefe de Estado. Se, primeiro, considerarmos que há países substancialmente muito mais democráticos do que nós que não elegem Chefe de Estado algum e estão muito satisfeitos com a Monarquia, tal como, segundo, se nos lembrarmos que nessa democrática eleição, na última ocasião, nem sequer metade dos eleitores inscritos se deram ao trabalho de participar, então, não colocando em causa os méritos do republicanismo, podemos, no mínimo, questionar-nos se tamanho poço de virtudes é suficiente para dar assim tanta legitimidade ao ponto de comemorar-se o facto de podermos ter essa eleição a expensas de comemorarmos, e esquecermos, o nascimento do país. Parece-me que não.

Outra questão que este esquecimento oportunista revela é a dependência pobrezinha do cidadão português face ao Estado, e a quem o governa. Fôssemos nós um país saudável, com uma sociedade civil forte e independente, capazes de pensar pela nossa própria cabeça, e talvez não precisássemos de decretos legislativos para decidir o que comemorar, ou o que esquecer. Mas em Portugal nada se faz fora do Estado: desde o foguetório autárquico que vai garantindo eleições, até à incapacidade (e preguiçosa falta de vontade) de organização social nem que seja para comemorar alguma data importante, lá nos vamos acomodando, em tudo como no resto, ao que nos dão, sendo que na maior parte dos casos nem nos perguntamos se aquilo que nos dão será mesmo aquilo que queríamos ou se, talvez, mais não será do que aquilo que dá jeito aos caciques do momento. É pobre, muito pobre.

Finalmente, e relembrando os anos da troika, da falência e do socialismo da terceira via, afundados num pântano de dívida e agarrados a um monstro estatal que ninguém parece conseguir controlar, parece-me bastante pertinente apontar que o Estado só é forte porque a sociedade é fraca. E a fraqueza da sociedade faz-se muito desta falta de memória que nos rouba a responsabilidade de honrar os oitocentos e setenta e um anos de história que temos, que nos leva os heróis do passado, as nossas tradições e os nossos orgulhos deixando-nos este deserto de memória pátria meramente assente nos feitos (e falhanços) do futebol indígena. A sério: que outra coisa além do que a falência seria de esperar de um país que não comemora o seu nascimento (porque já nem sequer o sabe)? Quem não honra a sua história não tem futuro e, no meio do vendaval que nos assola, a nossa brilhante história que, com a indiferença dos ignorantes, lá vamos renegando por entre patéticos encolheres de ombros, quanto mais longe vai desaparecendo mais nos sobra a boçalidade dos caciques de serviço que, pressurosos, lá vão convencendo os incautos de que eles são o melhor que alguma vez tivemos.

Pior: a quem se habituou a esquecer não custa, por exemplo, eleger de novo quem muito mal nos fez. Apenas no tal país da fraca memória o número dois do primeiro-ministro que, por entre escândalos de corrupção, levou o país à falência, três anos volvidos é já visto como o salvador da pátria. Mas, enfim, a quem se deixa roubar do seu passado não custa a acreditar que escolha sucessivamente esses mesmos ladrões para tratarem do seu futuro. E, lá está, como a história nos ensina, uma nação que não se dá ao respeito talvez não mereça melhor sorte.



quinta-feira, outubro 02, 2014

SOCIALIST PRANKS


A FOGUEIRA

Todo este espectáculo tolinho das eleições primárias do PS é capaz de deprimir o mais entusiasta dos optimistas e levar qualquer guru da vida feliz à beira do suicídio. Primeiro, os candidatos: às turras, ocupados a chamarem nomes um ao outro, sempre entretidos com as mais tristes banalidades e incapazes de apresentarem uma ideia com princípio, meio e fim. Depois, as estratégias: desde o oportunismo disfarçado de messianismo do Dr. Costa à inabilidade do Dr. Seguro (que pensava que controlava o aparelho e afinal nem isso), tudo foi muito, mas mesmo muito fraquinho. A seguir, a cobertura jornalística e comentadeira: nunca uma pergunta tão simples como "como vai implementar (que é como quem diz: onde vai financiar) esses desígnios fantásticos que tem para Portugal" foi feita, apenas atestando que, enquanto os Antónios se entretinham a inventar soluções mágicas para o país, não havia um jornalista com três neurónios capaz de chamar os demagogos à realidade. Aliás, realidade é uma coisa com a qual os portugueses lidam muito mal: para muitos mais vale irem agora eleger quem os levou à bancarrota apenas porque, mais uma vez, mentindo com quantos dentes têm, lhes continuam a vender meia dúzia de frases feitas. Resta saber quantos vão na cantiga do bandido. Finalmente, a fotografia da vitória: ver o pateta poeta Alegre, o chavista Soares, o Almeida "é-melhor-construir-uma-terceira-ponte-sobre-o-Tejo-que-um-túnel-pode-ser-alvo-de-terroristas Santos, todos a acompanhar o antigo número dois de Sócrates (sim, o António Costa),  e todos de punho bem levantado já a fazerem as contas a quantos dias faltam para irem para o poleiro que consideram deles, tudo isso foi tão mau que ia vomitando o pequeno almoço. É essa gente que querem de volta? Que país, irra, falido está, falido há-de continuar. Depois reclamem.

DAS TAXAS

Andei às compras na Amazon e, admito, foi por pouco que não mandei vir um novíssimo e gigantíssimo disco rígido cheio de terabytes para guardar ficheiros de música. Porquê? Apenas para demostrar o quão fácil é evitar a estúpida taxita que os socialistas de serviço agora inventaram para sustentar uma cambada de "artistas" sofríveis que vendem tanto ou tão pouco que precisam de um decreto legislativo para "sobreviver". Às nossas custas, pois claro.