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domingo, outubro 05, 2014

DO ESQUECIMENTO


Com mais mito ou menos mito, desde há muito que se convencionou que o acontecimento que de forma inequívoca marca o nascimento de Portugal foi o Tratado de Zamora, por sinal assinado a cinco de Outubro de mil cento e quarenta e três (e a primeira bandeira a da fotografia acima). Este singelo facto atesta que hoje, cinco de Outubro de dois mil e catorze, celebram-se oitocentos e setenta e um (871!!!) anos desde o nascimento de Portugal como nação independente. No entanto, e como todos os anos lá vou alertando neste blogue, a maior parte da população portuguesa encontra-se completamente alheada de que nesta data, muito mais do que uma revolução política cometida por meia dúzia de activistas citadinos nos idos de mil novecentos e dez, comemora-se, ou deveria comemorar-se, efectivamente, o nascimento de Portugal.

Algumas coisas muito simples saem daqui: primeiro, o carácter intrinsecamente autoritário da república de mil novecentos e dez que, através da propaganda, foi incansável na sua tentativa (bem sucedida) de afirmar-se como a única solução política para Portugal. Com esse intuito, e apenas dois anos após o bárbaro assassinato político do Rei D. Carlos - que chocou o mundo civilizado -, não se fizeram os republicanos rogados em substituir a bandeira nacional (tal como Hitler faria vinte e dois anos depois na Alemanha) pelas cores do partido político vencedor (o Partido Republicano Português) e da organização maçónica Carbonária (na fotografia abaixo).


Da mesma forma, não tiveram problemas em enviar milhares de portugueses para a morte nos campos da Flandres para ganharem o direito de sentarem-se à mesma mesa que os vitoriosos exércitos da Primeira Guerra Mundial, isto apenas para se afirmarem politicamente e perderem o estatuto de sanguinários assassinos que tinham morto um Rei legítimo. Tudo isto e muito mais, desde a polícia política da "formiga branca" até às maiores atrocidades eleitorais, bem como ao caos económico que lançaram com falência após falência que a libertinagem desmedida que quarenta cinco governos e nove Presidentes da República em apenas dezasseis anos permitiram, de tudo isto se fez um dos períodos mais tristes da história portuguesa, bem como se afirmou um regime que - nunca tendo sido sufragado! - de democrático apenas tem os dentes podres de quem nele se legitima para falar de democracia, um conceito que, obviamente, não compreendem ou, pior ainda, porque não dá jeito, não querem compreender.

Naturalmente, perante tamanho oportunismo político, para afirmar a legitimidade de quem não a tinha, a começar por aquela bandeira vergonhosa à qual hoje já nos habituámos, a negação do passado foi tarefa fundamental. E essa é a grande diferença de Portugal para a maior parte dos outros países civilizados ocidentais: as conveniências políticas do momento prevalecem sempre sobre os interesses pátrios de longo prazo. Também Oliveira Salazar, a quem o regresso da Monarquia nunca interessou verdadeiramente, não se deu ao trabalho de, como gritava o pateta Alegre aqui há uns tempos, "tocar no cinco de Outubro" porque, lá está, um rei é um rei e este teria sempre mais legitimidade política do que ele podendo colocar em causa o engenhoso equilíbrio político salazarista.

Como não poderia deixar de ser, também a democracia de forma em que vivemos vai buscar a sua legitimidade (cada vez menor) à ilusão mentirosa das virtudes da I República: desde a já nojenta "ética republicana" que serve para legitimar os piores comportamentos desde que não sejam ilegais, até às patéticas paradas e discursos do cinco de Outubro, tudo lá vai servindo para os decrépitos oportunistas políticos do momento lá se irem aguentando na cadeira do poder. Na prática, o grande feito da República parece ser o facto de, hoje de forma directa, elegermos o nosso Chefe de Estado. Se, primeiro, considerarmos que há países substancialmente muito mais democráticos do que nós que não elegem Chefe de Estado algum e estão muito satisfeitos com a Monarquia, tal como, segundo, se nos lembrarmos que nessa democrática eleição, na última ocasião, nem sequer metade dos eleitores inscritos se deram ao trabalho de participar, então, não colocando em causa os méritos do republicanismo, podemos, no mínimo, questionar-nos se tamanho poço de virtudes é suficiente para dar assim tanta legitimidade ao ponto de comemorar-se o facto de podermos ter essa eleição a expensas de comemorarmos, e esquecermos, o nascimento do país. Parece-me que não.

Outra questão que este esquecimento oportunista revela é a dependência pobrezinha do cidadão português face ao Estado, e a quem o governa. Fôssemos nós um país saudável, com uma sociedade civil forte e independente, capazes de pensar pela nossa própria cabeça, e talvez não precisássemos de decretos legislativos para decidir o que comemorar, ou o que esquecer. Mas em Portugal nada se faz fora do Estado: desde o foguetório autárquico que vai garantindo eleições, até à incapacidade (e preguiçosa falta de vontade) de organização social nem que seja para comemorar alguma data importante, lá nos vamos acomodando, em tudo como no resto, ao que nos dão, sendo que na maior parte dos casos nem nos perguntamos se aquilo que nos dão será mesmo aquilo que queríamos ou se, talvez, mais não será do que aquilo que dá jeito aos caciques do momento. É pobre, muito pobre.

Finalmente, e relembrando os anos da troika, da falência e do socialismo da terceira via, afundados num pântano de dívida e agarrados a um monstro estatal que ninguém parece conseguir controlar, parece-me bastante pertinente apontar que o Estado só é forte porque a sociedade é fraca. E a fraqueza da sociedade faz-se muito desta falta de memória que nos rouba a responsabilidade de honrar os oitocentos e setenta e um anos de história que temos, que nos leva os heróis do passado, as nossas tradições e os nossos orgulhos deixando-nos este deserto de memória pátria meramente assente nos feitos (e falhanços) do futebol indígena. A sério: que outra coisa além do que a falência seria de esperar de um país que não comemora o seu nascimento (porque já nem sequer o sabe)? Quem não honra a sua história não tem futuro e, no meio do vendaval que nos assola, a nossa brilhante história que, com a indiferença dos ignorantes, lá vamos renegando por entre patéticos encolheres de ombros, quanto mais longe vai desaparecendo mais nos sobra a boçalidade dos caciques de serviço que, pressurosos, lá vão convencendo os incautos de que eles são o melhor que alguma vez tivemos.

Pior: a quem se habituou a esquecer não custa, por exemplo, eleger de novo quem muito mal nos fez. Apenas no tal país da fraca memória o número dois do primeiro-ministro que, por entre escândalos de corrupção, levou o país à falência, três anos volvidos é já visto como o salvador da pátria. Mas, enfim, a quem se deixa roubar do seu passado não custa a acreditar que escolha sucessivamente esses mesmos ladrões para tratarem do seu futuro. E, lá está, como a história nos ensina, uma nação que não se dá ao respeito talvez não mereça melhor sorte.



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