quarta-feira, 15 de outubro de 2014

LAST KISS

Desde o início dos anos 90 e a crescente popularização do movimento grunge que me interessei bastante pela música que vinha de Seatle, em particular os Soundgarden, os Nirvana e, naturalmente, os Pearl Jam. O álbum Ten (1991) que marcou a estreia da banda de Eddie Vedder figurará, certamente, como um marco da história musical dos anos 90, bem como uma obra-prima musical do final do Século XX que foi capaz de catapultar o rock alternativo de Seatle para o palco mundial. Músicas como Alive, Even Flow ou Jeremy ainda hoje passam abundantemente na rádio e são recorrentemente revisitadas, quer por aqueles que como eu ultrapassaram a sua adolescência ouvindo-as, quer por uma inesgotável legião de novos fãs.

O segundo álbum Vs. (1993) não lhe ficou atrás: apresentando músicas como Daughter ou Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town, com um som mais alternativo ao mesmo tempo que batia recordes de vendas (durante cinco anos Vs. foi o álbum que até aí mais vendera no dia de estreia), os Pearl Jam assumiram-se em definitivo como uma das bandas mais marcantes do seu tempo.

Desde aí, os Pearl Jam editaram mais oito álbuns de estúdio, álbuns os quais, com maior ou menor sucesso, amiúde nos foram oferecendo algumas preciosidades como o mais recente Nothing as It Seems (Binaural, 2000) ou o popularíssimo Better Man (Vitalogy, 1994). No entanto, a música que viria a bater todos os recordes seria uma música que não foi lançada em qualquer um destes álbuns de estúdio: Last Kiss.



Durante a digressão mundial de 1998, os Pearl Jam começaram a tocar a música durante os concertos tendo obtido uma resposta por parte dos fãs muito assinalável. Assim, em Dezembro de 1998, a banda resolve editar Last Kiss como um single de Natal.




A música foi um imediato sucesso e por demanda popular acabou por ser reeditada duas vezes, ambas no contexto da ajuda internacional ao conflito no Kosovo: primeiro como um single cujas receitas revertiam para os refugiados do conflito e depois em 1999 no álbum de beneficência No Boundaries: A Benefit for the Kososvar Refugees, entre contributos de outras bandas como Rage against the Machine, Jamiroquai ou Oasis e artistas consagrados como Neil Young ou Alanis Morissete. No total, Last Kiss ajudou a contribuir com cerca de dez milhões de euros para ajuda humanitária.

Last Kiss chegou então a n.º2  no Bilboard Hot 100, a mais alta posição alguma vez atingida pelos Pearl Jam, tal como seria a música mais bem sucedida da banda no Canadá, Austrália e Reino Unido. No entanto, e aqui é a coisa fica mais interessante, aquilo que a maior parte dos fãs da música, incluindo aqueles que, como eu, até sabem trautear pelo menos o refrão, é que Last Kiss tem tanto de original dos Pearl Jam como o Pierce Brosnan a fazer de Thomas Crown, ou seja: nada.

Escrita por James Lafayette Tarver em 1960 após a morte da sua filha num acidente de auotmóvel, Last Kiss foi primeiro editada em 1961 por Wayne Chochran e foi tanto, ou tão pouco, ouvida que teve que ser reeditada em 1963 por uma outra editora.





Apesar de uma ou outra boa crítica, Wayne Cochran não conseguiu o sucesso que almejava e, provavelmente, para a posteridade ficará apenas como o autor oficial da canção. Já o seu verdadeiro autor, James Tarver, que havia perdido o controlo sobre a letra após ter andado a tentar vendê-la a diferentes editoras, também ficou igualmente a ver navios. Quem haveria de verdadeiramente capitalizar com Last Kiss seria a banda J. Frank Wilson and The Cavaliers que, após o seu manager, de seu nome Sonley Roush, considerar que a estória trágica que Last Kiss conta se inseria bem dentro de um conjunto bem sucedido de tragédias adolescentes que na altura estava em voga, insistiu para que a banda a editasse como um cover capaz de entrar no ouvido do público.

E foi assim que em 1964 J. Frank Wilson and The Cavaliers finalmente conseguiram o seu primeiro sucesso comercial chegando também, mas originalmente, ao n.º 2 no Bilboard Hot 100. Infelizmente, o sucesso comercial não veio somente pelos méritos da música: foi apenas após um acidente de automóvel que, durante uma digressão, roubou a vida a Sonley Roush, precisamente o homem responsável pela sua edição, que a música se popularizou.




De todas as cópias vendidas nos anos 60 e 70, eventualmente uma delas faria o seu caminho até que Eddie Vedder a encontrasse a ganhar pó numa pequena loja de um velho centro comercial em Seatle. E o resto é história.





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