terça-feira, 11 de novembro de 2014

A DESGRAÇA

Aqui há uns anos, quando ainda acreditava, fui de propósito passar o fim de semana da Holanda a Portugal para num Domingo votar numas eleições. Saído do aeroporto, no centro de Lisboa, saudoso por uma Sagres, entrei num café e, satisfeito por ter a oportunidade de falar português, pus-me à conversa com o empregado. Fiquei a saber que o homem achava que a vida estava terrível, que o país estava de rastos, que era tudo uma desgraça. Mais: achava que o sócrates era um ladrão, que era corrupto mas que ia votar nele na mesma porque, ao menos, fazia coisas. Perguntei-lhe se ele não achava contraditório votar em quem considerava ser corrupto. Respondeu-me o esclarecido eleitor que todos roubam e que aquele era o que havia. E eu perguntei-lhe se não achava que votar em corruptos e incompetentes incentivava a continuarmos a ser geridos por corruptos e incompetentes. Olhou para mim como se eu fosse um alienígena. E a verdade é essa mesmo: eu é que sou o maluquinho por achar que é uma loucura votar-se em quem se acredita que rouba ou corrompe. E em Portugal sou: o comportamento normal é o do empregado. E agora, passados cinco anos, imagino eu que, se não tiver perdido o emprego, ainda lá estará o senhor a bradar contra a vida sem sequer imaginar que a vida que tem é a desgraça que ele, e os outros como ele, nos impingiram a todos nós - mesmo aos maluquinhos como eu.

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