Pensamento, m. - Acto ou efeito de pensar. Qualquer acto de inteligência. Fantasia. Ideia. Espírito. Uso da razão. Reflexões

quarta-feira, novembro 12, 2014

ESPELHO MEU, ESPELHO MEU


É hoje um lugar comum afirmar-se que as redes sociais são uma forma de devassa da vida privada. Neste âmbito, uma pergunta se coloca: o que leva alguém a publicitar a sua vida privada a todos os seus amigos? Por que razão, num restaurante, perante um prato mais requintado se ocupa o marido, ou a mulher, a tirar uma fotografia ao dito para publicar no Facebook, e logo se ocupa o cônjuge de fazer um like, tudo isto ainda antes de qualquer um deles ter apreciado a iguaria?


A resposta politicamente correcta, e que eu já ouvi e li,  é que o objectivo consiste em partilhar a minha felicidade com os meus amigos. Naturalmente a resposta politicamente correcta deixa muito a desejar. Primeiro, os amigos das redes sociais são muito mais distantes, e em muito maior número, do que os amigos da vida real. Ou seja, na realidade, a tal felicidade que se partilha não é bem com os amigos, é muito mais com um conjunto aleatório de pessoas, muitas das quais nem se conhece ou já não se vê há anos. A conclusão aqui é um enorme paradoxo: acaba-se a partilhar muito mais com estranhos, ou quase-estranhos, do que se partilha com os amigos de verdade. Desde as fotos das refeições, às imagens de férias em bikini, ou às fotografias dos filhos, tudo se esparrama pelas redes sociais fora, numa devassidão de vida privada a que nunca forçaríamos um amigo que convidássemos para jantar: por isso, a noção de que o acto de partilha é com os meus amigos é uma noção que dificilmente se pode aceitar como verdadeira.

Em segundo lugar, a presunção de que a partilha de felicidade gera felicidade nos outros é igualmente disputável. A maior parte das pessoas partilha os seus bons momentos, no entanto, como todos sabemos, a vida não é sempre assim. Pelo contrário, os receptores das fotografias dos grandes jantares ou das grandes férias são normalmente pessoas, em especial os mais solitários e remediados, que por ventura aquilo que mais desejariam ter, e não têm, são as tais refeições a dois, ou as férias em paraísos distantes, caros e, por isso mesmo, inacessíveis. Ou seja, muito mais do que partilhar felicidade, o que toda essa partilha acaba por fazer é causar inveja e, porque da inveja não vem nada de bom, uma garantida boa dose de infelicidade. Sobre este assunto, aliás, já existe um sem número de estudos (como este da Universidade do Michigan, 2013) que chegam à conclusão que uma utilização excessiva do Facebook causa depressão e baixa auto-estima ou que, pelo menos, diminui os níveis globais de bem-estar e satisfação com a vida.

No entanto, há um pormenor que vale a pena salientar: as pessoas que andam a sofrer por essas redes sociais fora são as mesmas que andam voluntariamente a partilhar as suas vidas. O que as levará, então, à partilha desmesurada das suas vidas privadas e à insistência, cada vez maior, numa actividade que, aparentemente, além dos óbvios riscos que em si mesma acarreta a devassa da vida privada, ainda por cima nem sequer causa bem-estar duradouro e, a longo prazo, está mesmo relacionada com a depressão? Numa palavra? Vaidade.

A vaidade e a obsessão com a imagem que se projecta para os outros dificilmente poderá ser uma coisa nova. Aliás, de nova não tem nada: desde o guerreiro que quer inspirar medo para sobreviver até à opulência do bem sucedido que se quer demarcar face aos restantes e inspirar respeito para mandar ou, mais básico ainda, o homem que quer seduzir a mulher, ou vice-versa, de tudo isso se faz a história do Homem e, em geral, as nossas vidas. A novidade consiste é no contexto social em que a obsessão com a imagem se propaga: enquanto antes esse natural vício humano se revelava na roupa que se vestia, nas histórias que se contavam em ocasiões sociais, nos meios de transporte e habitações que se cobiçava, já hoje em dia, com o triunfo hegemónico das redes sociais, a obsessão com a imagem transpõe-se para todo um quotidiano que se pode expor no Facebook: desde fotografar o pequeno almoço até à simples declaração "X está aqui ou acolá", tudo serve para mostrar aos outros o quão fantástica é a vida que se tem.

Mas a coisa piora. Não apenas, desde o brioche do pequeno almoço até às unhas dos pés recentemente pintadas, temos muito mais pelo que ser vaidosos, como os meios por onde a vaidade se espalha estão presentes em permanência. Com os smartphones e a internet sempre ligada, dá a ideia de que as interacções sociais transmigraram para o ciberespaço: desde o grupo de amigos que numa mesa de café olha mais para os ecrãs dos seus telefones do que para os outros convivas, até à nova moda feminina de andar com a mala no cotovelo e o telemóvel irritantemente espetado e em constante exibição na mão, ou até mesmo àqueles casais que postam, comentam e likam, as suas publicações sem saírem da sala ou do quarto enquanto falam via Facebook entre si - e para toda a gente.

A nossa realidade hoje em dia é que estamos sempre ligados, ligações as quais substituem cada vez mais as anteriores formas de interacção social. Como consequência, subitamente, as coisas mais triviais, e privadas, são assunto do foro comunitário: pelo Facebook, até arrufos entre namorados são públicos para centenas de pessoas: ou porque mudaram o estatuto relacional, ou porque fazem publicações irreflectidas que mostram o quão chateados estão com o outro, ou ainda através de inflamadas declarações amorosas pela parte rejeitada, de tudo isso se faz um mundo novo onde, na solidão de um quarto ou de uma sala, com a ilusão securitária que essa solidão imprime, se espalha pelo mundo inteiro aquilo que antes, no tempo do cara-a-cara, se teria vergonha de mostrar a alguém.

Ao mesmo tempo, aquilo que se transmite pelas redes sociais, porque é de ligações cibernéticas que falamos, é forçosamente muito superficial. Nos pixeis de um ecrã, o outro é uma imagem e, por essa razão, é tratada como tal: na vida real, por exemplo, amigos discutem, não se desamigam. Já no Facebook, basta um clique e aquela pessoa desaparece da vista: sem trabalho, sem chatice e sem problemas. Da mesma forma, como são imagens dos outros que recebemos também são apenas imagens nossas que transmitimos. E aí é que a obsessão com a imagem ganha ainda mais peso porque, sendo superficial, é muito mais fácil de controlar e manipular. Desde o compulsivo que publica tudo e nada da sua vida, até ao impostor que nada tendo para publicar inventa fotografias e acontecimentos, de toda essa gente se compõe o grupo dos nossos amigos, amigos dos quais apenas conhecemos as imagens que eles quiseram que nós conhecêssemos. E esse é o principal paradoxo da vida nova das redes sociais: quanto mais elas se enchem de partilhas, menos nós conhecemos de facto as personagens que compõem a nossa vida.

Mas ainda há um outro aspecto que é importante referir. De tanto se obcecar com aquilo que se quer mostrar aos outros, tal como aquilo que se quer descobrir nos outros, de repente, passam as pessoas a vida agarradas a uma torrente sem fim de trivialidades pela qual se avaliam: alguém que publica uma fotografia e recebe quatro ou cinco likes (ou nenhum) pode muito bem entrar em depressão porque ninguém gosta dela. Já aquela antiga colega da escola que publicou uma fotografia na praia e teve cento e quarenta likes e noventa comentários que oscilavam entre o "estás muita gira :) :) :)" e  o "quando vamos tomar um café" dum garanhão cibernético mais afoito, já essa malandra vai ser o alvo da cobiça e da inveja. E, repentinamente, lá estão as pessoas em busca de likes, likes os quais - como um espelho - nos dizem se somos bonitos ou feios, inteligentes ou burros, bem sucedidos ou uns desgraçados do pior.

No fundo é profunda a ironia: sofre aquele que se mede pelas redes sociais de uma profunda menorização do 'eu', porque passa a ter a profundidade de um pixel, e tudo em nome da glorificação desse mesmo 'eu', que se quer como granjeador do respeito, admiração (e inveja) dos outros. A tragédia é que estes poderosíssimos instrumentos de partilhas acabam por paradoxalmente gerar uma profunda exclusão do indivíduo face à comunidade a que julga pertencer: isto porque a dinâmica da interacção pelas redes sociais reduz os afectos a likes que, por um lado não dão trabalho nenhum a dar (e por isso nada oferecem a não ser uma ilusória auto-estima) mas que, por outro, são a única forma pública de ligação, e valorização, do indivíduo face ao colectivo: entre o vazio que configuram e a importância completamente desproporcional que se lhes atribui, nessa diferença se faz aquilo que todos ficamos a perder com a substituição do convívio social pelo convívio cibernético: a complexidade, o valor e a empatia que apenas o contacto real permite transmitir.

Assim, no vazio de uma auto-promoção vaidosa cuja recompensa consiste em vácuas demonstrações de aceitação social, não admira que o Facebook, e outros como tal, estejam ligados a fenómenos depressivos: isolados, os humanos, perdem o gosto pela vida. E na monotonia de uma constante repetição de modas, com todos a irem para os mesmos sítios jantar, almoçar ou de férias, naturalmente, a sensação de que algo fica por cumprir será uma consequência natural para quem viva agarrado às redes sociais. E se é verdade que para muitos dos que cresceram na era pré-internet a coisa é capaz de começar a fartar ao fim de um bocado, para muitos outros o vício das redes sociais tornou-se uma realidade, e ainda por cima uma realidade que separa, deprime a longo prazo e privilegia a superficial vaidade a expensas das mais fundamentais experiências humanas. A questão que então se coloca - e a para a qual não há resposta - é como será com os nossos filhos, esses sim já desde a maternidade esparramados em fotografias por essas redes sociais fora. Que consequências esta desmesurada exposição ao mundo - e a um mundo que não está lá - poderão ter nas capacidades de sociabilização dos nossos filhos? Nos seus valores? Na forma como veem, e sentem, os outros, e as empatias que conseguem, ou não, formar com os outros seres humanos? No fundo, que filhos serão esses que vamos criar se todas as famílias vivem agarradas, cada um por si, aos seus perfis virtuais?

Na ausência de resposta para estas importantes questões, talvez esteja na hora de começarmos a perceber que, se por um lado é verdade que as redes sociais são um instrumento fabuloso de partilha de ideias e acontecimentos, quer da nossa vida quer da vida comunitária, também não podemos esquecer que, tal como os espelhos, se dermos demasiada importância às imagens que lá vemos reflectidas acabaremos obcecados com ilusões, sejam elas de grandeza ou de tristeza, e incapazes de gozar a vida tal como ela é. Até porque esta é capaz de nos dar muito mais alegrias, e fazer muito mais felizes, do que uns likes no Facebook.

2 comentários:

Luis Tavares disse...

Teus atos, tuas consequências.
Quem não deve não teme. Já para não mencionar que de facto a questão da vaidade, irmã da inveja, emanam de uma sociedade anémica e materialista.

Nuno Lebreiro disse...

Pois,o tal espelho.