Pensamento, m. - Acto ou efeito de pensar. Qualquer acto de inteligência. Fantasia. Ideia. Espírito. Uso da razão. Reflexões

terça-feira, dezembro 16, 2014

DOS HÁBITOS

Temos sempre a capacidade de nos adaptar a novas realidades, mas devagarinho. Os portugueses, por exemplo, já se habituaram a um país onde é normal que um ex-primeiro-ministro, porque suspeito de corrupção, esteja preso preventivamente. Também já se habituaram a terem poderosos membros da oligarquia estatista que os governa a serem constituídos arguidos por falcatruas diversas - refira-se, a título de exemplo, o caso dos vistos gold. Da mesma forma, também já se habituaram os portugueses a verem um banco, que tendo estado metido em todos os casos mais complicados de promiscuidade entre poder político e económico, quedar-se prostrado na derrota da falência enquanto os seus antigos líderes, os intitulados donos disto tudo, se digladiam na praça pública que nem comadres caídas em desgraça rebolando pela lama da praça pública. A tudo isto, sem lhe dar o devido valor, já se habituaram os portugueses. Mas foi tudo muito rápido. Antes, também viviam como habitualmente num mundo onde o primeiro-ministro de então organizava por todos os meios intentonas contra os meios de comunicação, bancos ou pessoas que ousassem estar contra ele. Também se habituaram os portugueses a ver esbanjar o seu dinheiro, quer o recolhido por impostos, quer o desbaratado em emissão de dívida (que serão impostos futuros), a todo esse forró se habituaram os portugueses. Aliás, os portugueses tendem a habituar-se a tudo: entre mil novecentos e vinte e oito e mil novecentos e setenta e quatro também viveram como habitualmente sem liberdade política. São lixados, os hábitos antigos. Demoram a morrer. São como vícios: quando se acha que se mudou de vida lá vem a recaída e torna-se ao mesmo. E, infelizmente, talvez seja essa a razão pela qual o actual vislumbre de liberdade que assoma Portugal abalando de frente a oligarquia corrupta que tem governado o país não seja o suficiente para derrubar essa oligarquia de vez. Não, habituados a ela lá vão os portugueses eleger em dois mil e quinze quem vai tratar de pôr tudo como antes. Para, depois, como de costume, continuarem a passar a vida a reclamar com as falências, corrupções e desgraças diversas que os assolam -  e sem culpados, prisões ou justiça. Como habitualmente. E como se não tivessem nada a ver com isso.

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