terça-feira, 20 de janeiro de 2015

JUDGING BIRDS



LIBERDADE (II): DUAS INTERPRETAÇÕES

Primeira parte aqui.

Depois de vermos como os conceitos, incluindo um conceito como a 'liberdade', são vazios de conteúdo, podendo, por isso, significar uma coisa e o seu contrário, concluímos que o conteúdo e o significado de cada conceito é atribuído, em última instância, pelos valores que cada intérprete transporta consigo mesmo. Ou seja, e trocando por miúdos, o que dá sentido a um conceito são os valores que os indivíduos têm e que presidem à interpretação subjectiva desse mesmo conceito.

A título de exemplo:



No caso do cartoon, o conceito de dominação masculina é interpretado de formas absolutamente opostas porque os valores de cada uma das mulheres representadas são também eles opostos: a mulher ocidental presa o valor da sua liberdade individual de se vestir como quer, a mulher muçulmana presa o valor comunitário do seu papel face à sua religião. Valores diferentes, racionalizações diferentes.

Com o conceito de liberdade política passa-se exactamente a mesma coisa. Recordando Isaiah Berlin e os seus dois tipos de liberdade, tanto se pode olhar para a comunidade política e advogar que ela apenas é livre quando os indivíduos têm um espaço de acção livre de interferência externa tanto maior quanto possível, e apenas limitado pelo igualmente soberano espaço de acção dos outros indivíduos (a minha liberdade termina onde começa a liberdade do próximo), como também se pode advogar que uma sociedade livre é aquela onde o Estado garante a cada momento que as diferentes interacções entre os indivíduos são justas, adequadas (ao que o Estado entende como adequado) e elevadas a um nível igualitário que é entendido como a verdadeira medida de liberdade. De que serve a liberdade de acção se morres de fome ou se não sabes ler? Pouco, muito pouco. Por isso muitos advogam que uma sociedade livre é uma sociedade que, entre outras coisas, garante acesso a comida, educação, saúde, etc., porque na ausência desses bens de nada serve a liberdade individual.

Temos, portanto, aqui dois valores diferentes que estão na base de diferentes interpretações do conceito de liberdade política: por um lado,  o valor da liberdade de acção individual; por outro lado, o valor da capacidade para se poder agir com liberdade. Ou seja: quantidade versus qualidade. À primeira, Berlin chamou de liberdade no seu sentido negativo (por definir-se pela ausência de interferência); à segunda, Berlin chamou de liberdade no seu sentido positivo (porque se define por algo que se afirma, que se postula).

Pondo as coisas em pratos limpos: a liberdade no seu sentido negativo parte da preocupação de garantir uma área dentro da qual o indivíduo é livre de interferência de terceiros. O inimigo da liberdade negativa é, portanto, a coacção: ser coagido implica ser impedido por outros seres humanos (falamos de uma coação intencional e não de actos naturais não controláveis pela espécie humana) de fazer algo que de outra forma o agora coagido poderia fazer. Ou, vice-versa: ser forçado a fazer algo que de outra forma a pessoa em questão não quereria fazer. A liberdade negativa é, portanto, ausência de coacção; é liberdade para cada um definir, de acordo com a sua própria vontade, aquilo que quer fazer com as possibilidades que tem pela sua frente.

Partindo desta interpretação do conceito, a liberdade no seu sentido negativo ao ser implementada vai ter impactos significativos na forma como vemos a comunidade. O principal pressuposto ontológico por detrás da liberdade negativa é a noção de que as actividades humanas, no decorrer da normalidade da vida comunitária, não formam um todo harmonioso, perfeito e integrado onde não existem conflitos de qualquer espécie entre os diferentes indivíduos que congregam essa comunidade. Pelo contrário: numa comunidade, os diferentes interesses e vontades que presidem às actividades humanas chocam e geram conflitos; as próprias actividades a que os indivíduos devotam as suas energias não são, muitas vezes, compatíveis entre si. Por esta razão, a acção de uns interfere de forma constante com as acções de outros pelo que, para garantir que todos usufruem da mesma liberdade, é necessária uma moderação, uma garantia que a liberdade de uns não destrói a liberdade dos outros. É por esta razão que se entende a lei como protecção das liberdades e garantias dos cidadãos; a lei protege e limita a liberdade de todos no interesse da liberdade de todos. No entanto, deverá ser respeitado a todo o momento a existência de um espaço de liberdade individual que não poderá ser violado: é a linha entre aquilo que é a vida privada, que está fora do alcance da autoridade pública, e aquilo que esta última regula: as interacções entre os diferentes indivíduos garantindo que ninguém abusa de ninguém.

A outra interpretação do conceito de liberdade, a positiva, é bem distinta da liberdade negativa: se para esta última conta a esfera de acção essencial a cada indivíduo, para a positiva conta a qualidade da acção e a origem do controlo dessa mesma acção dentro do próprio indivíduo. A questão aqui é saber se a acção do indivíduo corresponde a algo que é efectivamente bom para ele ou se, pelo contrário, seja por ignorância ou por que motivo for, a acção do indivíduo, apesar de ser livre de coacção exterior, se revela como perniciosa para ele próprio. Vejamos um exemplo prático: um automobilísta que, chegado a um entroncamento, decide voluntariamente virar à direita. Para a liberdade negativa, não havendo nada que o forçasse a tal decisão, o condutor é um homem livre. Mas imaginemos que o condutor em questão é um alcoólico e que à direita do entroncamento se encontra o bar mais próximo. Se para a liberdade negativa, a escolha do condutor continua a ser livre (ninguém o coagiu), já para a liberdade positiva ela não o é: é a necessidade e a dependência do álcool que levam o condutor a virar à direita; o controlo da decisão está numa dependência e não na livre vontade do condutor. Para a liberdade positiva, o condutor não é livre, é escravo da sua própria dependência.

Desta forma, é possível entender-se que acções livres de coacção poderão não ser verdadeiramente livres. Outra possibilidade é imaginarmos um indivíduo que não saiba ler nem escrever. Se a sua escolha face a alguma situação depender de informação escrita então a sua decisão será prejudicada pela sua ignorância. Assim, para a liberdade positiva, mais importante do que garantir que a acção individual seja livre de coacção (liberdade negativa) é garantir que a qualidade dessa acção seja livre, ou seja: que seja uma acção no interesse do próprio indivíduo. Através deste argumento torna-se possível, por oposição à noção negativa de liberdade, restringir certos comportamentos ou coagir indivíduos a, por exemplo, irem à escola, para garantir que a conduta deles seja “positivamente” livre.

O pressuposto ontológico por detrás da liberdade positiva é que há uma solução racional para os problemas da vida comum e cabe ao Estado descortinar essa solução e aplicá-la à sociedade por forma a torná-la mais harmónica e, consequentemente, mais (positivamente) livre.Da mesma forma, caberá também ao Estado garantir que cada um desempenha o seu papel na gigantesca engrenagem que é a comunidade política.

Assim, em suma, temos o conceito de liberdade política dividido em duas interpretações que se preocupam com questões distintas: a liberdade negativa com a protecção de um espaço individual livre de coacção, e a liberdade positiva com a imposição de um conjunto de requisitos morais, económicos e sociais que considera imprescindíveis a uma sociedade verdadeiramente livre.

As duas dimensões da liberdade geram, portanto, efeitos políticos distintos: a liberdade negativa tende a gerar políticas mais conservadoras e tendencialmente situadas no espectro ideológico da direita: Estado limitado, impostos mais baixos (devido a uma defesa mais intransigente do princípio da propriedade privada) e maior ênfase na responsabilidade, liberdade e direitos dos indivíduos. Já a liberdade positiva tenderá a gerar políticas mais progressistas e tendencialmente situadas no espectro ideológico da esquerda: Estado mais forte, grande ênfase na regulamentação, impostos mais elevados e um esforço muito grande dirigido para a educação e formação de uma cidadania comunitária que, assente em deveres para com a comunidade, se identifique com os valores veiculados pelo Estado. Por oposição, a liberdade negativa assume mais os valores comunitários como naturais e, por essa razão, superiores em relação ao Estado que deve ser limitado e dirigido por estes.

Naturalmente, ambas as interpretações têm virtudes e defeitos, razão pela qual ambas têm muitos partidários: no campo da liberdade negativa, sem uma forte defesa da liberdade individual tornar-se-ia possível gerar grandes abusos do Estado face aos cidadãos. Por outro lado, uma visão exclusivamente negativa da liberdade, tal como opções meramente utilitárias, libertárias ou anarco-sindicalistas têm, não leva em linha de conta elementos fundamentais de justiça e coesão social que garantam uma igualdade de oportunidades mínima, bem como condições de vida minimamente condignas para os estratos mais desfavorecidos da sociedade. Já no campo da liberdade positiva, pelas mesmas razões, a preocupação em garantir que os cidadãos tenham um conjunto mínimo de instrumentos sociais (educação, saúde, etc.) para enfrentar as vicissitudes da vida é igualmente importante. No entanto, também visões que se preocupem apenas fundamentalmente com a dimensão colectiva da liberdade tenderão a gerar abusos inadmissíveis na esfera privada dos cidadãos podendo mesmo, tal como a história o comprova, criar sociedades totalitárias extremamente violentas e mortíferas.

A clivagem entre estas duas interpretações do conceito de liberdade política assenta - como tenho defendido - no facto de aquilo que preside à interpretação de um mesmo conceito (liberdade política) serem valores distintos: para a interpretação negativa, aquilo que importa primeiro é o valor da liberdade individual; para a interpretação positiva, o importante é o valor da igualdade social, ou comunitária. Valores diferentes, interpretações diferentes.

Encontrar o equilíbrio entre estas duas interpretações, que é como quem diz: entre estes dois conjuntos de valores, seria a tarefa do sistema político democrático. E é essa a razão pela qual a pluralidade do sistema Ocidental permitiu encontrar um equilíbrio entre o Estado e os indivíduos que funcionou suficientemente bem para criar a sociedade mais rica e com maiores níveis de bem-estar da História da Humanidade. Mas para que essa sociedade se mantenha, é importante que se reconheça a verdadeira dinâmica por detrás do conceito de liberdade política: é que ao tornarmos absoluta a nossa interpretação e, consequentemente, ao demonizarmos as posições, interpretações e valores opostos, destruímos o pluralismo da nossa sociedade e impomos a todos uma visão particular de liberdade que, sendo livre para nós, não passa de opressão para os outros. E essa é a grande desvantagem de uma interpretação positiva: não dá espaço para mais nenhuma (presente ou futura).

A verdadeira liberdade política será, portanto, para nós Ocidentais, o sistema que permite o constante dialogar entre os defensores de diferentes valores que partilhamos (e as suas interpretações) e encontrar terrenos comuns que permitam uma acção comum. A nossa interpretação de liberdade é um compromisso entre o que de melhor as duas interpretações de liberdade têm para oferecer, é certo. Mas não nos iludamos: para nós, Ocidentais, a base da liberdade política, mesmo que negociada com valores importantes como a comunidade, a justiça social e a igualdade de oportunidades, é a liberdade individual. Esse é o valor fundamental, porque é aquele que permite o espaço público onde todos os outros valores são negociados. Sem a liberdade individual, a prazo, como a História o comprova, todos os outros valores acabam por soçobrar também: uns porque sem liberdade individual, e propriedade privada, não há prosperidade económica que permita a distribuição da justiça social; outros porque, sem ninguém a advogar por eles livremente, e sem condicionalismos, acabam por ser derrotados pela imposição da lógica de pensamento único.

Pretender, portanto - mesmo a coberto dos melhores e mais altos argumentos racionais ou a reboque de grandes exaltações de outros valores -, que a liberdade individual, a liberdade de pensarmos, de exprimirmo-nos ou agirmos como queremos, quando queremos e onde queremos, a liberdade de trocarmos, fazermos, construirmos ou criarmos o que quisermos, trocar esse valor pivotal da liberdade individual por outro valor qualquer, por mais belo e apelativo que seja, implica sempre pôr em prática uma interpretação comunitária de liberdade que não é a nossa liberdade. E é essa liberdade - a nossa - que, por força da ditadura do politicamente correcto, do triunfo quase totalizante no discurso político do valor da igualdade, bem como de um debate público onde a superficialidade panfletária impera e o fundamental campo dos valores está ausente, está a ser posta em causa.

(Continua)



sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

TRUE SELF


DOS CENÁRIOS (III)

Uma boa dica é perceber que a vida feliz, porque preenchida, é então aquela que não obceca com a forma como quer viver a vida, ou seja, com os cenários que construiu a priori para si próprio mas, pelo contrário, é aquela que se liberta desses cenários para experimentar a vida tal como ela é, e não como gostaria que fosse. Mas também isso configura um cenário, apenas que não imaginado previamente por nós. E é nesse cenário não-idealizado que os homens constroem as suas vidas. Não é à toa que com menos de trinta e cinco anos não se pode ser candidato a presidente da república.

DOS CENÁRIOS (II)

Os pais, personagens dos avós, entretêm-se a encenar as vidas dos filhos, e assim sucessivamente.

DOS CENÁRIOS

É uma pena, mas não deixa de ser verdade, percebermos que os cenários que escolhemos para viver o filme da nossa vida são importantes, e justificam todos os esforços, meramente durante os momentos que antecedem a sua concretização. Após as congratulações pelos sucessos alcançados, apenas sobram os anseios por novos cenários, ou a fria realização de que estes que nos cenarizam agora não eram assim tão importantes.

PEREGRINOS

Para a criança, descobrir que aquilo que tinha como certo afinal não é assim tão certo representa uma angústia: as certezas fazem o mundo ancorar-se em terreno estável e permitem à criança a ilusão de que está protegida do caos. Já para o homem adulto, verdadeiramente adulto, o vislumbre, o simples vislumbre, de que uma anterior certeza afinal não se verifica representa um alívio: é sinal de que a vida continua e descobrir a verdade é apenas no fim do caminho, quando cai o pano.

LIBERDADE: DO CONCEITO À INTERPRETAÇÃO; DA RAZÃO AOS VALORES

Não é raro vermos pessoas a discordar profundamente acerca de um tema político sensível, mesmo quando ambos afirmam estar a lutar pela mesma coisa, por exemplo a liberdade. A razão para isto é que a forma como o conceito de liberdade é encarado pela generalidade das pessoas leva a que existam muitos equívocos: para uns liberdade é uma coisa, para outros é outra mas, normalmente, ambos concordam que a definição sobre o que é, de facto, a liberdade é possível de ser atingida; e, dessa forma, a discussão versa sobre quem tem razão sobre o que significa ser livre, e quem não tem. Ora, esta atitude não beneficia em nada a compreensão de todas as variáveis que estão em jogo quando falamos sobre o conceito de liberdade política.

A dificuldade de definir um conceito prende-se com a dificuldade em lidar com o abstracto: conceitos são termos vagos, latos, gerais e, principalmente, vazios. Estou ciente que esta afirmação é polémica por si só pois, para muitos, as ideias que nós formamos a propósito de conceitos derivam de uma metafísica ou espiritualidade que reside no absoluto e que oferece significado ao conceito. Por exemplo, para Platão, a ideia de 'cadeira' era anterior, e superior, à existência factual de uma cadeira: ou seja, tal como a pescada, qualquer coisa antes de o ser materialmente já o era. Da mesma forma, também o conceito de liberdade, puro, absoluto e perfeito, existiria antes das imperfeitas e limitadas interpretações humanas acerca do que esse conceito pudesse significar. Ou seja, o significado, o valor e a verdade de um conceito residiria na sua essência, sendo esta anterior, perfeita, imaculada, e até mesmo divina. Assim, num processo criador decadente onde se passa do divino e absoluto (que é anterior) para o material e imperfeito, os humanos, a muito custo, lá vão vislumbrando toscamente a verdade que está por detrás de cada objecto, ideia ou conceito e que, mesmo velada, não deixa de fazer parte dele, da sua génese e essência - uma essência que cumpre apreender como forma de descobrir o verdadeiro sentido e significado de um conceito. Para quem defende esta ideia, o conceito de liberdade é anterior, superior e pleno de conteúdo, isto já antes de ser sequer conhecido, ou sequer pensado, pelos homens.

Já no que diz respeito aos conceitos políticos, Kant será provavelmente o grande responsável pela abordagem racionalista e universalista que hoje temos perante eles. Para ele, do mundo em si mesmo, o verdadeiro e absoluto, nós conseguimos aceder a leis racionais, e por isso válidas para todos os agentes racionais, que nos transmitem a verdade que está por detrás de cada conceito: é pela razão que descodificamos a forma como devemos agir, ou seja, é pela razão que interpretamos os conceitos que regem as nossas vidas e, dessa forma, descobrimos a essência verdadeira que neles supostamente reside.

É esta visão racionalista que está por detrás da necessidade que temos hoje em dia de mostrar que o outro, aquele que defende um conceito de liberdade diferente do meu, está errado. Isto porque se ele está errado então pode passar a estar certo: eu posso conduzi-lo pela razão a um ponto onde ele finalmente se convença do seu erro e veja a solução racional, portanto verdadeira, para a problemática conceptual. Com a matriz Kantiana a problemática política tem uma solução racional porque, racionalmente, todos poderemos vir a concordar sobre qual a interpretação racional, e única porque verdadeira, de cada conceito.

Esta abordagem, no entanto, parece-me fraca - e a ausência de soluções e o perpétuo discutir acerca das mesmas coisas, incluindo o conceito de liberdade, parece que dão força a esta crítica. O erro parte do facto das duas premissas que acima enunciei, para mim, não se verificarem: primeiro, a noção que intuitivamente todos partilhamos que há uma essência verdadeira por detrás de um conceito não traduz a real complexidade que o mundo, a vida e, naturalmente, os conceitos de facto têm; segundo, apesar da forma como tomamos posição no debate conceptual ser formalmente racional não significa que seja a razão a causa de uma tomada de posição ou, neste caso, aquilo que preside e decide à interpretação do conceito.

Vamos por partes.

Nietzsche tem um ponto de partida para analisar o conceito que eu prezo muito. Diz-nos ele que "todo o conceito emerge da igualização do não igual. Tão certo como uma folha nunca [ser] completamente igual a uma outra, assim também o conceito de folha foi formado graças ao abandono dessas diferenças individuais por um esquecimento do elemento diferenciador e suscita então a representação, como se existisse na natureza, fora das folhas, algo que fosse «a folha», algo como uma folha originária, segundo a qual todas as folhas seriam tecidas, desenhadas, recortadas, coloridas, frisadas e pintadas mas por mão desajeitada, de tal maneira que nenhum exemplar tivesse sido executado de modo correcto e fiável como a cópia fiel da forma originária" (Nietzsche, Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral, 1873). Ou seja, ao contrário da ideia Platónica que reproduzi antes, Nietzsche advoga que o conceito não está na base dos objectos que o compõem, não sendo, por isso, anterior ao objecto, mas, pelo contrário, é dos objectos do mundo que por intermédio da abstracção nós conceptualizamos: ou seja, primeiro vêm os objectos e apenas depois, por intermédio da nossa acção, aparecem os conceitos.

Se Nietzsche tiver razão e, neste caso, parece-me que terá - esta tomada de posição, é certo, representa toda uma problemática filosófica e séculos de debate - bem poderemos passar as nossas vidas à procura da essência conceptual que poderá nortear as nossas interpretações que ficaremos inexorável e perpetuamente à espera do dia de S. Nunca. Já se aceitarmos esta perspectiva Nietzschiana, então apenas uma conclusão se pode tomar: se aquilo que forma um conceito é uma abstracção humana então não há uma verdade una por trás do conceito, pelo contrário, é da mitigação de várias verdades materiais num único ideal vazio de verdadeiro conteúdo efectivo que se faz o conceito. Sobra, naturalmente, a questão: como decidimos nesse vazio o que é a liberdade, então? Como podemos recusar uma ideia de liberdade como e aceitar outra como boa? E baseados em quê? Esta questão encerra dentro de si o cerne da filosofia moral.

Uma das consequências deste predicamento tem sido o relativismo moral e material que vai afligindo o Ocidente. Com o declínio da influência da Igreja, na ausência de uma solução superior, à espera de uma solução racional e material que não aparece, lá vai a civilização Ocidental definhando em lenta e inexorável decadência. No tempo da prova material e positiva, soçobram as soluções porque ninguém as consegue apresentar intersubjectivamente: os religiosos, porque a Fé não se demonstra matematicamente; os racionalistas, porque demonstrações igualmente racionais conseguem apresentar resultados opostos.

É aqui que convém recordar que nem tudo o que preside à conduta humana é racional. Pelo contrário: se duas pessoas igualmente racionais que discutem sobre um mesmo conceito podem tomar interpretações acerca do que esse conceito significa diferentes uma da outra então daí decorre que apenas uma de duas conclusões se pode tirar: ou um dos dois está a pensar mal e a tomar uma decisão não-racional ou, em alternativa, se ambos percorrem os caminhos formais da razão, algo mais para além da razão tem que fazer parte do processo decisor. Considerando que há doutos e venerandos racionalistas de todos os lados de todos os debates, se todos argumentam logicamente, sobra a segunda possibilidade. E, assim, parece-me, que o que diverge para causar conclusões divergentes é o ponto de partida do processo racional: agentes racionais que têm pontos de partida distintos no seu processo lógico geram conclusões racionais distintas.

Continuando a atalhar caminho, a conclusão aqui é que a razão, formal e fria, é vazia de conteúdo, pois apenas organiza de forma lógica, em causas e consequências, os pensamentos decorrentes das vontades criadas nos homens pelos seus pontos de partida. E é dessas vontades e desses pontos de partida que vem o conteúdo para o processo racional, o tal conteúdo que verdadeiramente oferece sentido, significado e valor à razão e, por consequência, aos conceitos que racionalmente tentamos interpretar.

E qual é o ponto de partida então? As coisas que são importantes para nós: os nossos valores.

Essa é a grande conclusão que as nossas sociedades, escravizadas pelo ideal racionalista, herdeiros de Platão, Aquino e Kant, deveriam aceitar: é por termos valores distintos que, mesmo utilizando mecanismos de racionalidade formal iguais, ao lhes imputarmos conteúdos valorativos distintos, atingimos conclusões racionais diferentes. Em suma: pensamos diferente porque temos valores diferentes.

E o que é um valor, então? Max Scheler explicar-nos-ia que valores são fenómenos, propriedades dos objectos, como as cores, e que são apreendidos por nós a priori, permitindo-nos interpretar e experienciar o mundo. Scheler, por oposição a Kant, explica que o que há de a priori no mundo são os valores que apreendemos, e não os pensamentos que fabricamos com base nesses mesmos valores. Mas, de forma mais simplista - e não entrando na metafísica - um valor é algo, como o próprio nome indica, que é valioso para nós. Que nos é querido. E é para o não perder, para o proteger ou para o conquistar que agimos: toda a acção, incluindo a intelectual, é motivada pela defesa, manutenção ou tentativa de aquisição de coisas que sentimos como valiosas, que queremos e desejamos como partes integrantes de quem somos.

Assim, com a noção que a conduta humana é guiada por valores (deixo a aquisição de valores de fora deste texto) e não por altíssimos julgamentos ou concepções racionais que são, afinal, meramente instrumentais,  somos forçados a olhar com novos olhos e redobradas cautelas para as consequências gravíssimas que a ilusão racionalista e progressista está a causar no Ocidente: ao não passarmos os valores que justificam a nossa acção política e social às novas gerações estamos a condenar a nossa sociedade ao vazio valorativo e, por consequência, ao desnorte e à impotência para agir. Sem valores comuns não há acção comum. E, sem valores partilhados, uma comunidade sucumbe porque não se consegue entender sobre a forma como interpretar os conceitos e as grandes questões da vida comum e, consequentemente, porque ninguém se entende, não é capaz de organizar-se de uma forma eficaz: sem uma interpretação comum da vida, não há vida comum. Pelo menos em paz.

É por isso que todo o debate acerca de qual é a melhor liberdade, no que consiste a liberdade, como podemos provar que manter esta ou aquela liberdade é fundamental, todos esses debates serão inúteis se não tivermos a capacidade de perceber que qualquer troca de argumentos pretensamente racionais não representa nada mais além do que um embate de valores. Isto desde a simples conversa de café até ao debate mais extenso sobre como acomodar a ameaça extremista islâmica nas sociedades Ocidentais. Ao contrário do que os liberais Rawlsianos pensam, o secularismo, a tolerância e a liberdade política não advêm de uma decisão racional tomada por todos numa reunião parlamentar, ou numa qualquer posição original Rawlsiana (uma versão pop do imperativo Kantiano). Não. Essas liberdades, essas tolerâncias, esses valores, são mantidos enquanto forem queridos pela população. E esse é o debate que se deveria ter: como voltar a fazer os Europeus acreditarem nos valores que estão na base da civilização tolerante, secular e livre que construímos - e a lutar por eles. Na ausência de uma resposta para esta questão sobrará inapelavelmente o declínio, a decadência civilizacional bem como a perda de todos esses valores fundamentais - e da vida tal como a conhecemos.

(Continua)