domingo, 1 de março de 2015

MANGAS CURTAS

Infelizmente, nem a modernidade globalizante alterou os antigos hábitos portugueses, apenas que conseguiu estupidificá-los mais ainda: afinal, onde antigamente se importavam os mais finos costumes franceses e ingleses - os grandes pensadores alemães também lá encontravam a sua contraparte lusitana, mostrando que também por terras portuguesas se elevavam os finos pensamentos às maiores alturas do engenho humano - nos dias de hoje, com igual sorvidão por importar a mais recente moda, lá se vai debitando de forma acéfala os discursos dos revolucionários em voga. Hoje é o modernaço Tsipras, amanhã Iglesias e, se o ódio motivado por pacóvios complexos de inferioridade a isso obrigar, daqui por uns anos ainda dirão, como alguns - mais radicais - já dizem, que o Maduro é que é. Entretanto, enquanto por terras europeias os idiotas úteis vão bebendo da propaganda do Syrisa e do Podemos, propaganda bem paga com os petro-bolívares venezuelanos, já por terras do paraíso socialista tão citado pelos senhores do Podemos - e visionários como Mário Soares - vai faltando o papel higiénico. Um chique! Mas, precisamente por isso, e felizmente para os venezuelanos, papel pejado de asneiras publicadas, lá como cá, lá vai continuando a encontrar a sua utilidade. Naturalmente, talvez fosse apropriado lembrar uma coisa muito simples: que, a ter que escolher, será mil vezes preferível viver como se vive em Berlim do que em Caracas, ou sequer Atenas. Mas isso são coisas mundanas das quais a iluminada inteligência nacional não se ocorre preocupar. Já dizia o Eça que a civilização em Portugal, importada como tudo, ficava aos portugueses curta nas mangas. Infelizmente, a esses importadores de serviço, cegos pelos ódios bairristas e pelas conspirações imaginárias que, além de lhes tolherem os espíritos, os animam com a crença de que se "não fossem os malandros A ou B" Portugal seria o melhor dos mundos, a esses importadores de sonhos tão pobrezinhos quanto inverosímeis, não são apenas as mangas que ficam curtinhas, curtinhas: são as vistas também. E, de forma inversamente proporcional, ficam também as línguas: compridas, tão compridas como as cordas onde imaginam enforcar os demónios que os condenam a uma vida de pequenez. Infelizmente, tal como o cão em busca da sua própria cauda, tais demónios não passam de invenções das suas produtivas cabecinhas, limitadas por um deficiente conhecimento do mundo. E, como sempre, no final, da estulta inutilidade de todos esses esforços, e de tanto palavreado, sobram os gritos ruidosos e proclamados desse génio nacional, tão nacional quanto as bancarrotas em que periodicamente lá vamos caindo, e tão genial quanto as desculpas esfarrapadas que as procuram justificar. Já eu, animado por um pessimismo existencialista a que o ocasional contacto com tamanhos desideratos indígenas me vai forçando, quase que desejo uma vitória de Iglesias em Espanha, nem que fosse para termos aqui em Portugal um António Costa a importar um excelente rabo de cavalo, mesmo que muito encaracoladinho, para cavalgar a onda de "mudança" que se precisa para a Europa. Quase que valia a pena. Quase.