sexta-feira, 10 de abril de 2015

DE TRIVELA

Desejar-se o sol na eira e a chuva no nabal calha a todos, é apenas natural. Já achar-se que se pode ter tudo o que se quer, isso é ingénuo. E querer convencer os outros de que tal desiderato é possível é ainda pior: é simplesmente desonesto. Este singelo preceito de bom senso não encontra acolhimento, no entanto, no coração dos bondosos socialistas. Para estes beneméritos, e por essa bem intencionada razão guiaram a ditosa pátria às simpáticas mãos da troika, o cobertor estica sempre e o conceito de que não se pode ter tudo, nem dar tudo a todos, é algo que aqueles acutilantes crânios rejeitam liminarmente como exemplo máximo do fascismo. Mas, infelizmente - uma injustiça tremenda! - não se pode andar sempre a prometer uma coisa e o seu contrário e ficar-se à espera de ver uma história coerente plasmada nos arquivos dos jornais. E nisso, como bom socialista que é, o Dr. Costa é exímio. Ainda aqui há poucas semanas, dizia-nos o Dr. Costa, cavalgando o entusiasmo que o Primeiro-Ministro Tsipras e o Prof. Varoufakis inspiravam nessa Europa revolucionária, que a vitória do Syrisa na Grécia simbolizava um importante "sinal de mudança" para a Europa rumo à igualdade, solidariedade, fraternidade e demais idades tão caras ao socialismo - e bons exemplos de que por mais idade que se tenha tal sorte não garante que o bom senso apareça. Já hoje, depois do entusiasmo grego ter sido esfriado pela gélida confrontação dos mártires helénicos com a realidade, e alguma irritação que o tom mandrião do empresta-me-mais-guito-se-não-não-te-pago-o-que-já-te-devo gritado pelo Governo grego tenha causado no eleitorado, ao lado do Primeiro-Ministro francês que, a muito custo, e contra o seu próprio partido, lá vai fazendo dificílimas reformas "austeritárias", então, sempre cordato, sempre confiável e sempre conciliador, lá vem o doce Dr. Costa, a propósito da questão grega, afirmar que "não podem haver soluções nacionais em conflito com a Europa". E, assim, com a tranquilidade que apenas alvas e límpidas consciências permitem, lá se desdiz o que se tinha dito ainda há menos de três meses atrás - uma eternidade, portanto. E, no fundo, admito, é um portento a jogada: com esta genial estratégia a cada três meses amansa-se uma parte diferente do eleitorado: primeiro, canta-se vivas ao Syrisa: zás, pás,a extrema-esquerda já está. De seguida, louva-se o reformismo liberal francês: tumba, zumba, o centro esquerda e a maioria já cá cantam. Daqui por três meses, de mansinho, dá ali um toque na imigração, na agricultura e na defesa intransigente da liberdade que finanças públicas em ordem garantem e, catrapum, são mais de dois terços a votar no Dr. Costa. O impressionante é como é que ainda ninguém se tinha lembrado disto antes.

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