quarta-feira, 8 de abril de 2015

O BAFIO

A minha filha de um ano vê-me muitas vezes a mexer no rato do computador. Naturalmente, sempre que a oportunidade lhe surge, lá está ela a mexer no rato e a olhar para a televisão, sempre com um ar importante e de grande felicidade. Claro está, a profundidade da minha acção, o que escrevo ou faço no ecrã, as consequências, e as razões, pelas quais mexo no rato, tudo isso escapa aos seus infantes olhos: apenas vê a superfície da coisa e logo se imagina a fazer tal como eu. A verdade é que o mundo tem sempre o tamanho que os nossos olhos alcançam e, por essa singela razão, quando mimetizamos os comportamentos daqueles que consideramos grandes logo os reduzimos à nossa dimensão. É o que se passa, de uma forma geral, com os agentes públicos da nossa praça. Jornalistas luminosos que se imaginam Bob Woodward ou Carl Bernstein, mas que mais não fazem do que copy paste das notícias encomendadas por agências de comunicação e postadas na Lusa; comentadores penetrantes que se imaginam resplandecentes e acutilantes mas mais não fazem do que papaguear o que ouviram alguém dizer ou, pior, o que interessa ao patrão ou aos seus próprios bolsos; e políticos tremendos que ambicionam o poder, sonham-se como Churchill ou Che Guevara (dependendo do quadrante político) mas que mais não fazem do que ir reproduzindo os comportamentos que sempre foram vendo, todos eles muito compenetrados do seu imenso valor, e todos eles, sempre sem pinga de originalidade, tratando-se por shotor ou senhor deputado tal como viram, desde pequeninos, os grandes a fazer. Já o conteúdo das notícias, da acção política e da governação, tudo isso se reduz a um conjunto pouco numeroso de chavões, lá está, repetidos sempre de forma a caberem no instante mediático que imaginam ser suficiente para convencer o povo, ou o patrão, da bondade da sua existência. No fundo, imaginam o povo tão estúpido como eles e, naturalmente, tratam-no como tal. Só assim se explica que uma personagem como o Dr. Costa, figura cimeira do Partido Socialista, número dois do PS quando o ex-Primeiro-Ministro que agora está preso em Évora fazia as tropelias todas que precisamente o levaram à cadeia, e o país à falência, ande agora por aí convencido que vai ser, também ele, Primeiro-Ministro. Fala como tal, declara, postula e anuncia o que fará quando formar o seu Governo mas, pasme-se o pagode, uma ideia, uma proposta concreta, balizada, discutida, analisada e criticada, tudo isto com contraditório, réplicas e tréplicas, imagine-se lá, nem uma. A sumidade fala quando lhe apetece, sobre o que lhe apetece, diz hoje o contrário do que disse ontem e a ninguém, a nenhum venerável jornalista ocorre o famoso interesse público de colocar uma perguntinha que obrigue o senhor a lidar, vá lá, com a realidade. E, assim sendo, naturalmente, lá vai o Dr. Costa andando, apregoando e anunciando-se como a salvação do país, e logo ele que tão prontamente se prestou a ajudar a afundá-lo ainda há pouco mais de quatro anos atrás. Sinceramente, nunca imaginei possível um tão grande desprezo e desrespeito pelo povo como aquele que vejo por parte do Partido Socialista e da sua clique que vai controlando o panorama mediático português: ninguém assume a responsabilidade por terem levado o país à falência, parece que nunca aconteceu, e o que aconteceu não teve nada que ver com eles; ninguém se incomoda com o facto do seu anterior Primeiro-Ministro ter sido apanhado pelas piores vigarices e estar agora na cadeia ao mesmo tempo que o povo vai tomando conhecimento da leviandade com que foi enganado; e todos eles, os dirigentes socialistas, se imaginam capazes, ou pior ainda, merecedores de irem de novo para o poder. E a pantomina lá vai continuando: jornalistas, comentadores e polítiqueiros, todos muito compenetrados, todos muito competentes, todos muito honrados e a darem ares de grandes coisas, a repetirem os mesmos slogans, a afirmarem as mesmas promessas, sempre, sempre com a tremenda impunidade que um espaço público incapaz de ter memória, ou de aprofundar uma proposta, oferece. É esse o garrote que asfixia o país. Cheira a bafio, esse espaço público português. Um bafio peçonhento que é do tamanho do mundinho dos pacóvios que se acham donos disto tudo.

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