Pensamento, m. - Acto ou efeito de pensar. Qualquer acto de inteligência. Fantasia. Ideia. Espírito. Uso da razão. Reflexões

quinta-feira, maio 28, 2015

MELON-CHOLIA

                                                                            Daqui.

terça-feira, maio 26, 2015

OS POLÍTICOS EM QUEM VOTAMOS

Esta iniciativa do Observador de fazer uma série de perguntas mais pessoais, ou as outras também, as mais políticas, aos cabeças de lista candidatos às próximas eleições legislativas é bastante meritória atendendo ao ensejo a que se propõe: a que os eleitores conheçam melhor os políticos em quem vão votar - é esse mesmo, aliás, o título do trabalho jornalístico. No entanto, permito-me a ter algumas dúvidas sobre a sua eficácia. Primeiro, entre a notória capacidade do artista político para dar ares daquilo que, mesmo não sendo, gostaria que fosse ou, pelo menos, parecesse que é, e a apropriadamente portuguesa incapacidade de fugir aos grilhos do politicamente correcto e daquilo que se esperaria de tão importantes vultos, entre uma e outra, eu diria que não se aprende grande coisa. Talvez instruirmo-nos com o facto da grande referência de Jerónimo de Sousa ser Álvaro Cunhal possa consistir uma enorme surpresa tal como - pasmemo-nos! - ficarmos a saber que a revolucionária Joana Amaral Dias se zanga todos os dias a cada esquina por onde passe e veja indignidades e\ou injustiças: afinal, nada mais natural para tão bem-intencionada revolucionária. No entanto, entre o arzinho meio tótó do Primeiro-Ministro (que já não engana ninguém), a suposta boa disposição do bonacheirão Dr. Costa e o elogio à poética da bloquista Catarina Martins, a coisa ficou assim a modos como que muito previsível: tudo muito bonito e tudo muito arranjado para pensarmos que os políticos são pessoas como nós, uns mais armados ao sério, outros mais sinceros, outros mais arrogantes, enfim, curiosamente, há de tudo, coisa que apenas pode surpreender aqueles mais afoitos partidários do lema a culpa é toda deles, deles que são maus e muito diferentes de nós que somos bons. Depois, uma outra dúvida que me permito a apontar, é que pensar-se que numas eleições legislativas conhecer-se, mesmo que mal, os cabeças de lista que vão a votos significa conhecer-se os políticos em quem votamos é uma ideia tão exacta quanto pensar-se que seria possível ao Titanic ter calculado a massa de gelo com a qual iria embater apenas pelo avistamento da pontinha do icebergue. Isto porque, e lanço o desafio ao Observador, conhecermos os políticos em quem votamos implicaria conhecer bem os segundos, terceiros, e por aí adiante, lugares nos diferentes círculos distritais, um desiderato que imagino que seria bem atendido, afinal o que seguramente não deve faltar por aí são projectos de políticos a precisamente ansiarem por ser, lá está, conhecidos. E entre todas essas segundas, terceiras e quartas linhas, naturalmente bem acrescentados daqueles que depois vão assessorar, adjuntar ou representar e, mais ainda, todos os outros que vão deixar-se nomear para ali e acolá, todos estes e aqueles indirectamente eleitos pelos nossos votos e, considerando também ainda, os senhores funcionários que apenas que fazendo carreira também lá vão encontrando o seu caminho pelos meandros do todo-poderoso Estado, tudo somado, aí teríamos aquilo que já ninguém tem a capacidade de conhecer. E é esse icebergue gigante com que nos enfrentamos todos no nosso dia-a-dia, um icebergue que se ocupa invariavelmente a decidir como todos devemos viver a nossa vida tal como, naturalmente, se ocupa também a decidir quanto, e como, haveremos nós de pagar por esse privilégio. Assim, parece-me, a inquirição do Observador pecará seguramente por insuficiente: os políticos nos quais, directa e indirectamente, votamos, apesar de nos levarem metade da riqueza, são verdadeiramente incognoscíveis, isto porque, ao contrário das ideias, são como os chapéus: há muitos. Fica a tentativa.

segunda-feira, maio 25, 2015

THE JERK


A DESVENTURA

"Desventuroso Alpedrinha! Só eu, em verdade, compreendi a tua grandeza! Tu eras o derradeiro lusíada, da raça dos Albuquerques, dos Castros, dos varões fortes que iam nas armadas à Índia! A mesma sede divina do desconhecido te levara, como eles, para essa terra de Oriente, donde sobem ao céu os astros que espalham a luz e os deuses que ensinam a Lei. Sòmente não tendo já, como os velhos Lusíadas, crenças heróicas concebendo empresas heróicas, tu não vais como eles, com um grande rosário e com uma grande espada, impor às gentes estranhas o teu rei e o teu Deus. Já não tens Deus por quem se combata, Alpedrinha! nem rei por quem se navegue, Alpedrinha!... Por isso, entre os povos do Oriente, te gastas nas ocupações únicas que comportam a fé, o ideal, o valor dos modernos Lusíadas - descansar encostado às esquinas, ou tristemente carregar fardos alheios..."

Eça de Queiroz, A Relíquia (1887)

SERVIÇO PÚBLICO

Esta entrevista da Joana Amaral Dias ao Observador é serviço público - e, ainda por cima, serviço público que não custou um tostão a qualquer contribuinte - para se aferir a mentalidade da esquerda indígena. O BPN? Uma vergonha a nacionalização - e aí estamos de acordo. Então e o BES? Ah, esse já deveria ter sido nacionalizado. É a coerência de uma visão profunda e adulta da vida. A cada momento e cada impressão, lá vem mais um palpite. Naturalmente, quando a coerência é para com a ansiedade do momento não se pode pedir que bata certo com a exaltação do momento anterior. E as certezas? Essas são mais do que muitas, o que apenas é natural para quem tanto afirma sem nada se questionar e, por essa razão, as suas soluções são sempre "óbvias" e "evidentes". E quando confrontada com duas ou três questões que colocam a sua "narrativa" do mundo em causa? "Desculpe mas não pode impor-me [atente-se no termo 'impor' para uma mera pergunta] a sua visão da realidade". E é isto: para estes eternos infantes a vida torna-se assim a modos como que um exercício permanente de recusa daquilo que é em nome daquilo que eles gostariam que fosse. E enquanto berram para que ninguém lhes imponha uma qualquer narrativa da realidade sonham com o dia em que terão a capacidade para impor a sua versão a todos os outros. A lição que se aprende - e daí o serviço público - é compreender que, paradoxalmente, tal como tudo na vida, é precisamente quem mais enche a boca em nome da democracia que menos percebe, ou pratica, aquilo que é a base de uma democracia funcional e competente: abertura de espírito, tolerância de discussão e capacidade de compromisso. Naturalmente, o principal problema é que uma democracia esclarecida é coisa para adultos e, como se comprova, ser adulto não é para todos.

quinta-feira, maio 14, 2015

SAVING PINOCCHIO


A FAZENDA

"- Vocês não compreendem... Vocês não conhecem a organização de Portugal. Perguntem aí ao Gouveia... Portugal é uma fazenda, uma bela fazenda, possuída por uma parceria. Como vocês sabem há parcerias comerciais e parcerias rurais. Esta de Lisboa é uma «parceria política», que governa a herdade chamada Portugal... Nós os Portugueses pertencemos todos a duas classes: uns cinco a seis milhões que trabalham na fazenda, ou vivem nela a olhar (...) e que pagam; e uns trinta sujeitos em cima, em Lisboa, que formam a «parceria», que recebem e que governam. Ora eu, por gosto, por necessidade, por hábito de família, desejo mandar na fazenda. Mas, para entrar na «parceria política», o cidadão português precisa de uma habilitação - ser deputado. Exactamente como, quando pretende entrar na Magistratura, necessita de uma habilitação - ser bacharel. Por isso procuro começar como deputado, para acabar como parceiro e governar... Não é verdade, João Gouveia?"

Eça de Queiroz, A Ilustre Casa de Ramires (1900)

50 TONS DE ESQUERDA

À medida que as ondas de choque da vitória conservadora no Reino Unido vão fazendo o seu caminho nós, os portugueses, vamos tendo o privilégio de assistir às mais hilariantes reacções da inteligência nacional, particularmente à esquerda. O épico poeta Alegre, por exemplo, proclama que o Partido Trabalhista perdeu as eleições por as tentado vencer ao centro, ou seja, a chave da vitória estaria em assumir uma verdadeira "política de esquerda socialista" capaz de enfrentar a malandra direita. Para o poeta Alegre, o erro Trabalhista foi apontar ao centro porque, diz-nos o ilustre declamador, o centro "não tem autonomia política" e, por essa razão, mobiliza-se apenas "por dinâmicas de vitória". Ou seja: a malta que ora vota esquerda ora vota direita não tem a capacidade de analisar um programa político e escolher aquele que mais lhe interessa. Não. Apenas votam com a manada, com a corrente, e a favor do vento, naquele partido que lhes parece que vai ganhar. Ora, a teoria de Alegre prova-se com facilidade: como todas as sondagens davam uma confortável maioria aos Conservadores naturalmente assim foi o centro político arrastado para essa enorme dinâmica de vitória. Qualquer surpresa com a projecção da BBC foi apenas de quem não estava atento a dinâmicas o que, obviamente, não inclui o centro político e o nosso querido revolucionário de Argel. Assim, parece-me muito acertada esta ideia de que quanto mais à esquerda se estiver mais dinâmica centrista se conseguiria obter. Além deste simpático paternalismo altamente democrático onde o centro político é visto como um conjunto de mentecaptos incapazes de analisar um programa eleitoral também me parece muito interessante o raciocínio que justifica uma maior "esquerdização" dos partidos de centro esquerda. Primeiro, porque gostaria de saber o que significa exactamente tal desiderato. E aqui me parece que entramos claramente naquilo que é o cerne do debate político português: enquanto no Reino Unido os analistas faziam contas às propostas eleitorais de cada partido, já na tugolândia discute-se maioritariamente se o discurso do candidato A ou B é mais ou menos à esquerda. Naturalmente, por "esquerda" deve entender-se ser bonzinho e bem intencionado, defender os pobres contra os malandros dos ricos, defender com insultos inflamados as virtudes da igualdade e apelar em plenos pulmões à fraterna união dos povos rumo ao progresso redentor da Humanidade. Pelo caminho enumeram-se os direitos todos que se vão oferecer, entre reduções de horários laborais, aumentos dos salários mínimos e reposições de complementos salariais, feriados e outros que tais, tudo isto enquanto se garante a intransigente defesa do estado social e das "conquistas de Abril". E se, por ventura, alguém não aceita o dogma desse grande credo político logo é repudiado por "não ser suficientemente de esquerda". Isto se perder eleições. Porque se as ganhar, como sócrates ganhou - ou Blair no Reino Unido -, aí logo se fala da "nova esquerda", ou da "terceira via", ou das virtudes de apontar ao centro, etc., etc.. No fundo, e muito estranhamente, aquilo que parece configurar o debate à esquerda é uma enorme retórica argumentativa sobre quem é mais de esquerda - porque ser de esquerda equivale a ser bom - para, uma vez no poder, ocuparem-se a gastar o dinheiro dos contribuintes até, inapelavelmente, acabarem por sair do governo deixando os cofres bem vazios - e sempre a clamar contra o mundo que não aceitou o seu progressismo. No fundo, ser de esquerda parece ser qualquer coisa deste género: tudo o que corre bem, é de esquerda; tudo o que corre mal, não é de esquerda suficiente. Nos entretantos, multiplicam-se os partidos, as convenções, os debates e "diálogos" à esquerda, todos a reclamarem o epíteto sobre quem é mais de esquerda, que é exactamente o mesmo que discutir sobre quem é que é o melhor ou, talvez, sobre quem é que é afinal o presidente da junta de Herman José. E tudo aquilo que é de esquerda, mesmo que seja uma batata com tons vermelhos, logo é postado na televisão ou no jornal a - adivinhe-se - comentar sobre quem é que é mais de esquerda, como se pode unir a esquerda, quando é que a esquerda está pronta para governar ou como é que a esquerda é capaz de convencer o centro das virtudes de ser de esquerda. Nesse discurso todo aquilo que é capaz de faltar é a humildade de reconhecer que na vida não basta achar-se que se é bom para ser-se bem sucedido: é preciso ser-se competente. E isso é uma coisa que a esquerda hoje não apresenta ao eleitorado: ao não reconhecer os seus erros passados na origem da recente bancarrota de 2011, ao insistir no mesmo discurso e, pior ainda, ao afirmar que o problema foi "não ser de esquerda o suficiente", aquilo que a esquerda diz ao eleitorado é que se votarem nela irão ter de regresso exactamente as mesmas políticas que levaram o país à falência ainda há apenas quatro anos atrás. E, curiosamente, foi precisamente aquele bando de cata-ventos acéfalos que a esquerda Alegre pretende convencer a votar nela que no Reino Unido percebeu muito bem que votar Trabalhista seria o regresso às políticas que trouxeram a necessidade dos sacrifícios imensos que teve que ultrapassar. O Primeiro-Ministro Cameron agradece, e eu também: ele pela vitória extraordinária que teve, e eu pela esperança de que os portugueses daqui a uns meses sejam tão sábios quanto os ingleses foram na semana passada.