Pensamento, m. - Acto ou efeito de pensar. Qualquer acto de inteligência. Fantasia. Ideia. Espírito. Uso da razão. Reflexões

quinta-feira, maio 14, 2015

50 TONS DE ESQUERDA

À medida que as ondas de choque da vitória conservadora no Reino Unido vão fazendo o seu caminho nós, os portugueses, vamos tendo o privilégio de assistir às mais hilariantes reacções da inteligência nacional, particularmente à esquerda. O épico poeta Alegre, por exemplo, proclama que o Partido Trabalhista perdeu as eleições por as tentado vencer ao centro, ou seja, a chave da vitória estaria em assumir uma verdadeira "política de esquerda socialista" capaz de enfrentar a malandra direita. Para o poeta Alegre, o erro Trabalhista foi apontar ao centro porque, diz-nos o ilustre declamador, o centro "não tem autonomia política" e, por essa razão, mobiliza-se apenas "por dinâmicas de vitória". Ou seja: a malta que ora vota esquerda ora vota direita não tem a capacidade de analisar um programa político e escolher aquele que mais lhe interessa. Não. Apenas votam com a manada, com a corrente, e a favor do vento, naquele partido que lhes parece que vai ganhar. Ora, a teoria de Alegre prova-se com facilidade: como todas as sondagens davam uma confortável maioria aos Conservadores naturalmente assim foi o centro político arrastado para essa enorme dinâmica de vitória. Qualquer surpresa com a projecção da BBC foi apenas de quem não estava atento a dinâmicas o que, obviamente, não inclui o centro político e o nosso querido revolucionário de Argel. Assim, parece-me muito acertada esta ideia de que quanto mais à esquerda se estiver mais dinâmica centrista se conseguiria obter. Além deste simpático paternalismo altamente democrático onde o centro político é visto como um conjunto de mentecaptos incapazes de analisar um programa eleitoral também me parece muito interessante o raciocínio que justifica uma maior "esquerdização" dos partidos de centro esquerda. Primeiro, porque gostaria de saber o que significa exactamente tal desiderato. E aqui me parece que entramos claramente naquilo que é o cerne do debate político português: enquanto no Reino Unido os analistas faziam contas às propostas eleitorais de cada partido, já na tugolândia discute-se maioritariamente se o discurso do candidato A ou B é mais ou menos à esquerda. Naturalmente, por "esquerda" deve entender-se ser bonzinho e bem intencionado, defender os pobres contra os malandros dos ricos, defender com insultos inflamados as virtudes da igualdade e apelar em plenos pulmões à fraterna união dos povos rumo ao progresso redentor da Humanidade. Pelo caminho enumeram-se os direitos todos que se vão oferecer, entre reduções de horários laborais, aumentos dos salários mínimos e reposições de complementos salariais, feriados e outros que tais, tudo isto enquanto se garante a intransigente defesa do estado social e das "conquistas de Abril". E se, por ventura, alguém não aceita o dogma desse grande credo político logo é repudiado por "não ser suficientemente de esquerda". Isto se perder eleições. Porque se as ganhar, como sócrates ganhou - ou Blair no Reino Unido -, aí logo se fala da "nova esquerda", ou da "terceira via", ou das virtudes de apontar ao centro, etc., etc.. No fundo, e muito estranhamente, aquilo que parece configurar o debate à esquerda é uma enorme retórica argumentativa sobre quem é mais de esquerda - porque ser de esquerda equivale a ser bom - para, uma vez no poder, ocuparem-se a gastar o dinheiro dos contribuintes até, inapelavelmente, acabarem por sair do governo deixando os cofres bem vazios - e sempre a clamar contra o mundo que não aceitou o seu progressismo. No fundo, ser de esquerda parece ser qualquer coisa deste género: tudo o que corre bem, é de esquerda; tudo o que corre mal, não é de esquerda suficiente. Nos entretantos, multiplicam-se os partidos, as convenções, os debates e "diálogos" à esquerda, todos a reclamarem o epíteto sobre quem é mais de esquerda, que é exactamente o mesmo que discutir sobre quem é que é o melhor ou, talvez, sobre quem é que é afinal o presidente da junta de Herman José. E tudo aquilo que é de esquerda, mesmo que seja uma batata com tons vermelhos, logo é postado na televisão ou no jornal a - adivinhe-se - comentar sobre quem é que é mais de esquerda, como se pode unir a esquerda, quando é que a esquerda está pronta para governar ou como é que a esquerda é capaz de convencer o centro das virtudes de ser de esquerda. Nesse discurso todo aquilo que é capaz de faltar é a humildade de reconhecer que na vida não basta achar-se que se é bom para ser-se bem sucedido: é preciso ser-se competente. E isso é uma coisa que a esquerda hoje não apresenta ao eleitorado: ao não reconhecer os seus erros passados na origem da recente bancarrota de 2011, ao insistir no mesmo discurso e, pior ainda, ao afirmar que o problema foi "não ser de esquerda o suficiente", aquilo que a esquerda diz ao eleitorado é que se votarem nela irão ter de regresso exactamente as mesmas políticas que levaram o país à falência ainda há apenas quatro anos atrás. E, curiosamente, foi precisamente aquele bando de cata-ventos acéfalos que a esquerda Alegre pretende convencer a votar nela que no Reino Unido percebeu muito bem que votar Trabalhista seria o regresso às políticas que trouxeram a necessidade dos sacrifícios imensos que teve que ultrapassar. O Primeiro-Ministro Cameron agradece, e eu também: ele pela vitória extraordinária que teve, e eu pela esperança de que os portugueses daqui a uns meses sejam tão sábios quanto os ingleses foram na semana passada.

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