terça-feira, 26 de maio de 2015

OS POLÍTICOS EM QUEM VOTAMOS

Esta iniciativa do Observador de fazer uma série de perguntas mais pessoais, ou as outras também, as mais políticas, aos cabeças de lista candidatos às próximas eleições legislativas é bastante meritória atendendo ao ensejo a que se propõe: a que os eleitores conheçam melhor os políticos em quem vão votar - é esse mesmo, aliás, o título do trabalho jornalístico. No entanto, permito-me a ter algumas dúvidas sobre a sua eficácia. Primeiro, entre a notória capacidade do artista político para dar ares daquilo que, mesmo não sendo, gostaria que fosse ou, pelo menos, parecesse que é, e a apropriadamente portuguesa incapacidade de fugir aos grilhos do politicamente correcto e daquilo que se esperaria de tão importantes vultos, entre uma e outra, eu diria que não se aprende grande coisa. Talvez instruirmo-nos com o facto da grande referência de Jerónimo de Sousa ser Álvaro Cunhal possa consistir uma enorme surpresa tal como - pasmemo-nos! - ficarmos a saber que a revolucionária Joana Amaral Dias se zanga todos os dias a cada esquina por onde passe e veja indignidades e\ou injustiças: afinal, nada mais natural para tão bem-intencionada revolucionária. No entanto, entre o arzinho meio tótó do Primeiro-Ministro (que já não engana ninguém), a suposta boa disposição do bonacheirão Dr. Costa e o elogio à poética da bloquista Catarina Martins, a coisa ficou assim a modos como que muito previsível: tudo muito bonito e tudo muito arranjado para pensarmos que os políticos são pessoas como nós, uns mais armados ao sério, outros mais sinceros, outros mais arrogantes, enfim, curiosamente, há de tudo, coisa que apenas pode surpreender aqueles mais afoitos partidários do lema a culpa é toda deles, deles que são maus e muito diferentes de nós que somos bons. Depois, uma outra dúvida que me permito a apontar, é que pensar-se que numas eleições legislativas conhecer-se, mesmo que mal, os cabeças de lista que vão a votos significa conhecer-se os políticos em quem votamos é uma ideia tão exacta quanto pensar-se que seria possível ao Titanic ter calculado a massa de gelo com a qual iria embater apenas pelo avistamento da pontinha do icebergue. Isto porque, e lanço o desafio ao Observador, conhecermos os políticos em quem votamos implicaria conhecer bem os segundos, terceiros, e por aí adiante, lugares nos diferentes círculos distritais, um desiderato que imagino que seria bem atendido, afinal o que seguramente não deve faltar por aí são projectos de políticos a precisamente ansiarem por ser, lá está, conhecidos. E entre todas essas segundas, terceiras e quartas linhas, naturalmente bem acrescentados daqueles que depois vão assessorar, adjuntar ou representar e, mais ainda, todos os outros que vão deixar-se nomear para ali e acolá, todos estes e aqueles indirectamente eleitos pelos nossos votos e, considerando também ainda, os senhores funcionários que apenas que fazendo carreira também lá vão encontrando o seu caminho pelos meandros do todo-poderoso Estado, tudo somado, aí teríamos aquilo que já ninguém tem a capacidade de conhecer. E é esse icebergue gigante com que nos enfrentamos todos no nosso dia-a-dia, um icebergue que se ocupa invariavelmente a decidir como todos devemos viver a nossa vida tal como, naturalmente, se ocupa também a decidir quanto, e como, haveremos nós de pagar por esse privilégio. Assim, parece-me, a inquirição do Observador pecará seguramente por insuficiente: os políticos nos quais, directa e indirectamente, votamos, apesar de nos levarem metade da riqueza, são verdadeiramente incognoscíveis, isto porque, ao contrário das ideias, são como os chapéus: há muitos. Fica a tentativa.

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