terça-feira, 2 de junho de 2015

É PRECISO SALVAR LISBOA!

Nos últimos três anos Lisboa tem explodido no que diz respeito ao turismo. Entre múltiplos prémios e galardões internacionais - que têm feito as delícias patrióticas da população autóctone - a capital da pátria tem estalado com tantos visitantes. Para isso muito contribuiu a abertura das operadoras low cost no terminal 2 do aeroporto de Lisboa, bem como a reforma que o actual Governo operou no mercado do arrendamento. Como consequência, com o influxo de milhares de turistas com bolsos cheios de euros, o centro de Lisboa está em forte mudança: eles são cafés, restaurantes, bares e lojas, tudo a armar ao chique e ao típico, tudo a facturar milhares de euros e a dar emprego a centenas e centenas de pessoas. Eles são, também, os donos de imóveis mais ou menos centrais a anunciar as virtudes dos seus apartamentos e a alugar a diárias que seriam impensáveis apenas há quatro ou cinco anos atrás. E, ainda, é ver a quantidade de investimento nacional e estrangeiro que procura restaurar e recuperar o tão depauperado imobiliário lisboeta: eles são hostels, eles são hotéis, eles são prédios de habitação, tudo a gerar dinheiro, emprego e excelentes perspectivas de futuro. Naturalmente, face a tal cenário, os descontentes são mais do que muitos. Primeiro, é o senhor da associação de moradores do Bairro Alto que reclama do barulho; depois, é o especialista técnico Luís Mendes do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa (CEG-UL) que diz - e parece que conseguindo manter uma cara séria - que há “um fenómeno cada vez mais intenso a afectar o parque imobiliário do centro histórico lisboeta, sobretudo nos últimos cinco anos, com a proliferação de hostels e outras formas de alojamento turístico, pondo mesmo em risco a função residencial sobretudo da população autóctone que já habita nesses bairros há várias décadas.Desde o início deste século que a política de reabilitação urbana da CML tem ganho um pendor claramente neoliberal, esvaziando a habitação do seu estatuto de direito para ganhar o de mercadoria”. Finalmente, é a senhora portuguesa que trabalha na caixa do supermercado onde eu costumo ir na Chaussée de Waterloo, aqui em Bruxelas, que me dizia que tinha ido a Lisboa mas que aquilo "tinha demasiadas filas cheias de estrangeiros" e que "o que era bom era quando era só para portugueses". Deixando de lado o nacionalismo cheio de razão desta portuguesa que vive há décadas na Bélgica, concentremo-nos no resto: o turismo, aparentemente, está a matar Lisboa. Isto tem que ser impedido. Lisboa, a nossa Lisboa, é aquela onde o Cais do Sodré não tem turistas nem bares típicos, mas sim prostitutas e indigentes. A nossa Lisboa, aquela que é preciso manter a todo o custo, é a Lisboa onde a Baixa, em vez de hordas de bárbaros que falam línguas esquisitas, está vazia e não há filas para entrar nos estabelecimentos que ali apenas sobreviviam por terem rendas de algumas dezenas de euros para pagar. A Lisboa que nós queremos salvar, aquela que nos querem roubar, é a Lisboa onde o seu centro histórico está a cair aos pedaços, podre e abandonada, porque não há quem invista num espaço onde não tenha retorno financeiro. Aliás, o que é bom mesmo - e essa é a Lisboa pela qual devemos pugnar - é uma cidade que, naturalmente, nenhum turista queira visitar. Agora, investimento, valorização, empregos e prosperidade, quem é precisa disso? Pelos vistos os lisboetas é que não. Quanto ao especialista Luís Mendes que, pelo que vejo numa rápida pesquisa no Google, investiga desde 2002 o "Declínio e Revitalização do Centro de Lisboa" e, entre 2010 e 2013, o projecto “Real Utopias in Socially Creative Spaces”, agradeço-lhe o seu alerta para os perigos do neo-liberalismo turístico: afinal que melhor utopia haverá do que aquela cidade que, afogando-se num mar de miséria, garante o saláriozinho do investigador que jura que sabe como a salvar?