Pensamento, m. - Acto ou efeito de pensar. Qualquer acto de inteligência. Fantasia. Ideia. Espírito. Uso da razão. Reflexões

quarta-feira, julho 01, 2015

A NETFLIX, O UBER E OS CHICOTES

Saiu um estudo que vem mostrar o impacto fortíssimo que o serviço de streaming online Netflix veio causar no até aqui pacato mundo dos pacotes de televisão por cabo, e não só. Ora, muito pouca gente, com a natural excepção dos milionários gestores que são pagos principescamente pelos seus patrões para os assegurar que o seu negócio está de sã e duradoura condição, poderá ficar admirado com a novidade. Aliás, eu próprio, que já há mais de cinco anos deixei de ter a minha televisão ligada a um serviço de cabo para a ter ligada a um computador, só me admiro pelo atraso. Não apenas a net apresenta soluções mais baratas, mais versáteis e abrangentes, como os serviços de cabo apenas se concentraram - um erro que se verificará fatal - em oferecer quantidade ao invés de boa qualidade. Para que quero eu pagar por centenas de canais se, na sua maioria, são todos maus? E os poucos que apresentam programação de qualidade dificilmente apresentarão conteúdos que não estejam já disponíveis na internet. Naturalmente, a (i)legalidade do estatuto das conexões peer to peer (P2P) foi responsável por afugentar muitos potenciais utilizadores, por essa razão, é aqui mesmo que surge a Netflix: uma solução barata, versátil, abrangente e legal. Disponível por cerca de 25% do preço de um pacote de cabo tradicional, com uma gama de oferta do mesmo nível e, para todos os gostos, sem constrangimento de horários, boxes ou mais ou menos competentes instaladores técnicos, com a simplicidade da inovação assim se torna obsoleta de um dia para o outro uma indústria inteira. E, não perdendo tempo, a Netflix - uma empresa que começou por enviar DVD por correio - já prepara o golpe fatal: séries canceladas por canais generalistas sujeitos ao jugo do sensacionalismo publicitário dos reality shows ganham agora vida nova ao serem produzidas pela própria Netflix. Mais: séries consagradas como House of Cards são já produzidas, desde a nascença, pela sua própria mão. Não será difícil de antecipar aquilo que já é evidente há vários anos: os serviços de televisão estão obsoletos e serão engolidos pela internet. A razão da derrota é simples: enquanto que a televisão por cabo é formatada para a multidão, o serviço de streaming é formatado por cada um, de acordo com a sua vontade e com os seus horários. É o triunfo da liberdade individual face a soluções centralizadoras, mesmo que, diziam elas, fossem soluções que se procuravam acima de tudo com a satisfação dos seus clientes. Eu não sei se o leitor terá lidado directamente com o serviço de uma operadora de cabo, mas eu que já tive digo com muito à vontade: nunca senti que fosse o meu interesse que estava a nortear a acção daqueles senhores. Mas, e aqui é que a coisa se torna interessante, o mesmo que se passa no mundo dos conteúdos audiovisuais passa-se noutros mundos também: o que é o serviço Uber senão precisamente uma espécie de Netflix para o campo do aluguer de veículos automóveis com motorista? O Uber providencia o mesmo serviço que os táxis, mas muito mais barato, de forma descentralizada (a ligação faz-se directamente entre conduzido e condutor), com maior responsabilidade na conduta de parte a parte (ambos se avaliam mutuamente numa avaliação que produz um rating público) e, cereja no topo do bolo, de uma forma muito mais cómoda onde o pagamento faz-se de forma virtual sem troca de cash. É, como será evidente, o futuro e, por essa mesma razão assistimos a dois fenómenos: por um lado, os utilizadores encantados da vida porque sentem que ganharam muito com este novo serviço; e, por outro lado, os senhores taxistas que, também eles antecipando a melhoria efectiva que a Uber oferece, se sentem ameaçados na sua posição e respondem com o desespero da violência, perseguição e ameaça. Tal como no mundo dos conteúdos audiovisuais também a Uber, ou algo do género, acabará por triunfar: é esse o caminho natural das coisas quando se oferece um serviço melhor, mais barato e prático e que, por essas razões, representa uma melhoria para os cidadãos. Mas, no entretanto, vemos tudo o que são corporações taxistas a gritarem contra a Uber porque esta não segue as regras que são impostas aos taxistas normais. E, por isso, gritam eles, a Uber é que está a errada. Curiosamente, não se ouve vivalma a gritar contra as regras que impedem os taxistas de serem competitivos contra os Uber. E a razão é simples: é que são essas mesmas regras que protegem os taxistas de outras pessoas que gostariam de ser taxistas também. Este exemplo de corporativismo centralista é o que está posto em causa pelas novas soluções que começam a aparecer fruto da revolução cibernética. E passará muito pelos cidadãos, sendo eles eleitores, ter a capacidade de puxar estes temas para a arena do debate público: afinal queremos ter o Estado a proteger os interesses das corporações, ou os interesses dos cidadãos? Termos a Uber proibida para proteger os taxistas faz tanto sentido como termos a Netflix proibida para proteger a RTP, a SIC e a TVCABO. Ou seja: não faz sentido nenhum, e não interessa a ninguém a não ser àqueles que vivem dos serviços que o tempo, e a falta de concorrência, se encarregou de tornar caducos, desactualizados e moribundos. E enquanto os taxistas vão partindo a loiça toda gritando em desespero, isto ao mesmo tempo que as polícias e os tribunais os protegem (enquanto mandam prender, proibir, etc. o Uber por essa Europa fora), eu vou-me lembrando da indústria dos chicotes: também um dia muita gente vivia da produção de chicotes, elemento fundamental ao bom controle de carroças e cavalos, mas, como tudo na vida tem um fim, também veio o dia em que apareceu o automóvel - e os chicotes foram substituídos por buzinas. Tal como a indústria do chicote não conseguiu proibir os automóveis, também esta tranquila revolução contra as vicissitudes do centralismo será bem sucedida. Haja, por isso, alguma coisa por que suspirar no futuro. E saibam os cidadãos impor estes temas na agenda política.

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