quarta-feira, 1 de julho de 2015

PORTUGAL NÃO É A GRÉCIA?

À medida que vamos vendo a Grécia saltitar no arame sobre o abismo da miséria e falência generalizada, o velho slogan "Portugal não é a Grécia" vai parecendo cada vez mais longínquo. Nos últimos anos, ao contrário dos gregos, os portugueses conheceram estabilidade governativa, vários sinais encorajadores de recuperação económica e, mais significativamente, uma recuperação quase mágica na aceitação dos seus títulos de dívida pública nos mercados internacionais. Naturalmente, o pico da crise parece agora longe, coisa dos anos anteriores e - tal como de bom grado a maioria dos portugueses faria com o prisioneiro quarenta e quatro de Évora - uma memória que se deixaria esquecida, por vergonha, numa qualquer gaveta fechada a sete chaves que rapidamente se poderiam deitar fora. No entanto, e como qualquer espectador poderá facilmente aferir, incluindo eu aqui neste mesmo blogue, o famigerado ajustamento português não foi feito com uma efectiva, profunda e eficaz reforma do Estado. Muito pelo contrário, a maior parte da austeridade é transitória e apenas teve efeitos numa provisória diminuição da despesa do Estado, não sendo suficiente para permitir um amplo alívio fiscal, aquilo que a economia necessita para efectivamente atingir os níveis de crescimento económico que sejam capazes de sustentar a nossa imensa dívida acumulada. Assim, a bonança que vamos vivendo é causada muito mais pela expectativa dos nossos credores de que os portugueses estão dispostos a fazer o que for preciso em vez de ser por saberem que os portugueses fizeram aquilo que seria preciso. Aqui, de facto, Portugal não é a Grécia. Mas a questão que sobra, principalmente agora que a as eleições legislativas se vão aproximando, é de que forma essa expectativa se manterá perante a possibilidade de um governo PS tomar posse em Outubro próximo? Apenas isto, em particular se considerarmos o peso que o sector sócretino e syrizado têm na liderança partidária do Dr. Costa, pode ser mais do que suficiente para lançar a incerteza nos mercados internacionais e vermo-nos, mais uma vez, embrulhados num processo de intervenção externa. Mas, e admitindo que a Coligação poderá - e eu penso que o fará - ganhar as eleições, será que o cenário de derrota do PS é suficiente para manter as expectativas de que Portugal pode ser bem sucedido a gerir a sua dívida? Muito dificilmente. A verdade é que se a Coligação não foi bem sucedida a reformar o Estado quando tinha uma maioria absoluta a apoiá-la no parlamento e um PS amarrado a um memorando de entendimento assinado com a troika, por que razão será bem sucedida agora? E o que dizer do Tribunal Constitucional sempre pronto para guardar os interesses da corporações vigentes? Continua lá. A verdade é que sem maioria absoluta e sem um PS empenhado em colaborar (ou uma Coligação que tivesse conseguido garantir esse empenho) dificilmente alguma reforma digna desse nome será efectivada. E aí, infelizmente, será uma mera questão de tempo até os nossos credores internacionais se aperceberem que a nossa dívida é insustentável de ser gerida com os nossos actuais níveis de crescimento económico. Naturalmente, quanto pior correr a questão grega, tanto mais cedo os famigerados mercados internacionais acordarão para a vida. A verdade é que ficámos a meio da ponte e não será nada estúpido olhar com muita atenção para aquilo pelo qual os gregos estão a passar: não apenas Portugal poderia ter sido a Grécia, como ainda o poderá muito bem vir a ser.

Sem comentários: